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Prefácio do livro “O capim arde verde”

Está para breve o lançamento do 3º Volume do livro “Caçador de Brumas”, obra de grande envergadura produzida pelo meu bom amigo Coronel João Sena (Pseud. Bernardino Louro), que virá a ser editada com o título “O capim arde verde”.

Honrou-me este amigo com o convite para prefaciar este último trabalho, a que gostaria de dar desde já público conhecimento, por entender da maior importância a divulgação desta sua obra notável, espevitando assim o anseio pela sua leitura, que recomendo a todos os que passaram por África, dela são oriundos, ou por ela se sentem atraídos. 


PREFÁCIO

A África portuguesa é, porventura, o maior paradoxo da nossa História, enquanto conjunto de parcelas do nosso território e a estranha relação de distanciamento que sempre mantivemos com as Colónias (ao tempo a designação consensual de ocupação), depois Províncias Ultramarinas, num esforço de justificação para a nossa continuidade na soberania daqueles territórios.

Angola – e será apenas neste território que confluiremos a nossa atenção e as nossas referências – terá sido aportada pela 1ª vez por volta do ano de 1483 por Diogo Cão, enviado por D. João II com a missão de desbravar mares e gentes que permitissem, numa primeira fase, deixar marcas de presença através da implantação de padrões e promover possíveis negócios com reis e reinos que por ali existissem, mas, essencialmente, o estabelecimento de pontos de rota – de aguadas e reforço de víveres de naus e caravelas – desse tremendo desígnio consubstanciado no dobrar do continente africano e rumar ao Oriente, em demanda das índias de tão afamadas riquezas.

Os grandes exploradores (Brito Capelo, Roberto Ivens e Serpa Pinto) penetram no imenso desconhecido de Angola apenas em meados da segunda metade do século XVII, procurando também estabelecer a ligação com Moçambique, uma outra parcela havia muito já acrescentada ao imenso mundo lusitano.

Quase quinhentos anos de posse, domínio e ostentação de um império desbravado por valorosos conquistadores de terra e mar, onde pouco mais fizemos que impregnar a fé cristã na alma imberbe do gentio e arrebanhar em catervas os mais renitentes ao abraço à cruz de Cristo, oferecendo em troca o padecimento da coroa de espinhos do trabalho escravo nas naus e caravelas e mais tarde noutras parcelas de soberania lusa, onde a mão-de-obra gratuita haveria de enriquecer a corte de fidalgos e bajuladores, que sempre souberam sentar-se à mesa do rei.

Quase quinhentos anos de um negrume copiado por decalque da cor da pele do nativo, numa submissão bramida a chicote numa das mãos e a voz de Deus na outra. Um tempo que nos deve ferir e que quase redimimos em manifestações imperfeitas de abolicionismos (1869), mas cuja prática, no fundo, se manteve, ainda que sob alguma reserva e discrição, até praticamente aos nossos dias.

Angola apenas conheceu um fluxo migratório ido de Portugal, e digno desse nome, no século XX; 9.000 pessoas em 1900 e 600.000 em 1973. E mesmo esse constituído, numa boa parcela, por condenados ou foragidos à justiça, que ali gozavam de amplas liberdades, dando até um certo descanso às autoridades metropolitanas. Era em parte assim que Salazar expurgava o país dos seus piores cidadãos, remetendo-os para os longínquos territórios duramente conquistados, um Império de orgulho assim transformado em degredo. Angola chegou a ser considerada uma colónia penal até 1932.

Em substância, esta a razão porque tão pouco se sabia da realidade da África portuguesa – uma espécie de segredo, ou esconjuro de consciências – quando, a partir de 1961, com a eclosão da Guerra Colonial, cerca de 1.000.000 de portugueses, onde me incluo, tomou verdadeiro conhecimento da realidade africana sob domínio português, numa permanência média de dois anos em terras do Império. Um Império territorialmente gigantesco, cinzelado nos livros da escola e no inefável espírito patriótico que nos foram esculpindo séculos a fio, como um feito sem paralelo, mas que acabámos por resumir a uma fonte inesgotável de trabalho escravo e um degredo de sofrimento para os justiçados, ou dissidentes do pensamento vigente.

O século XX torna-se assim, porventura, no espaço temporal de maior riqueza na inter-penetração racial do branco português com os nativos de Angola.

Mas muito pouco, ou quase nada, se conhece sobre esta realidade, sendo escassa a literatura que aborde esta temática, mesmo incluindo alguma de índole ideológica ou política. Embora tendo como pano de fundo a guerra, os seus traumas e vicissitudes, escreveu-se praticamente quase tudo sobre Angola nos treze anos de Guerra Colonial e todo o tempo que se lhe seguiu.

É por tudo isto que “O Capim Arde Verde” – uma espécie de chave mestra que encerra uma notável trilogia que o autor intitulou “O Caçador de Brumas”, título a todos os níveis oportuno e sintomático – se transcende de um mero romance de sabor africano, alcandorando-se mesmo a um imenso tratado da História social e política de Portugal, que estava por revelar e dar a conhecer a todos os que nunca conheceram África, mas também a àqueles que por lá passaram e trouxeram o aroma intenso de uma terra quente e húmida, mas de extrema e rara beleza.

Pela mão de Miguel Casteleiro (M.C.), personagem central e narrador desta estória, o autor acomoda-nos ali pelos anos vinte e trinta do século passado, convidando-nos a percorrer uma autêntica picada plana e limpa, entrecruzando trilhos de intensa braveza da terra africana, metáforas perfeitas da vida de um colono bom, chegado a uma terra de pretos onde o próprio tom de pele dos nativos lhe era difuso e impreciso ao conhecimento.

Terra de degredados e foragidos, também caldeada por uma boa soma de gente de boa índole e princípios, embora historicamente imbuídos de convicções de supremacia racial, que genericamente norteavam os colonos.

Os CFB (Caminhos de Ferro de Benguela), autêntico rio de pedra e ferro que rasgou Angola de lés-a-lés – entrando pelo Congo Belga adentro – formando pequenos oásis à sua passagem, foi o destino inicial de M.C. e uma oportunidade, dir-se-ia, quase divina, bem dentro das suas convicções de fé, de se embrenhar bem lá na Angola profunda, impregnando corpo e alma dessa secular e imutável matriz social africana, longe do remanso de uma Luanda ou Lobito, já em franco desenvolvimento à altura.

O comboio, franco factor de desenvolvimento das sociedades ditas desenvolvidas, constituir-se-ia, contudo, para os nativos como um invasor e carregador de impostores que não desdenhavam em poluir os sentimentos mais puros da ancestralidade luena, macerando-lhes o corpo depois de convertida a alma.

É fulcral a sua ligação aos Luenas, e especialmente à rainha Tchizanda (“… filha de Nacarada e de Nhacabola, neta de Muatiânvua, o grande e heróico rei dos Luenas em todas as terras de Angola e do Congo Belga…”) – uma lenda viva que nos desconcerta o preconceito tradicional africano da submissão quase instrumental da mulher ao homem e supremacia deste – mas nos aviva com veemência os sentidos para a importância da sucessão do sangue monárquico, ainda vivo pela tradição e respeito pela ancestralidade, de que fomos sempre recebendo lições ao longo de toda a nossa história africana, enquanto ocupantes e colonizadores, mas sem nunca sermos capazes de quebrar esta enorme força do poder das suas tradições e crenças.

Este livro, cujo aparecimento não pode separar-se dos dois volumes que o antecedem, encerra, praticamente num período de pouco mais de meio século, toda a história recente da ocupação de Angola pelo regime colonial.

Quase todos os erros cometidos pela colonização se avivam e registam em episódios descritos sem constrangimentos de colono ocupante, mantendo sempre elevada a consciência de os corrigir. A consciência humanista de M. Casteleiro – um narrador perfeito, que o autor refunde para um brilhante estilo queirosiano – acabará por presenteá-lo com um descendente branco, louro e de olhos azuis; mas “… Ele era muito mais preto do que branco!…”. Uma espécie de presente envenenado que remete a história e estudo da colonização para um plano sociológico complexo, que acabará por desconcertar de forma contundente o próprio colono.

A escrita é espontânea e minuciosa. O manancial terminológico uma etnografia viva que aqui e ali parece ressoar dos inúmeros instrumentos musicais nativos; uma quase monocórdia de recreação de sons seculares que nos transcendem.

A linguagem fluente assemelha-se ao espreguiçar indolente do rio pela anhara plana, impregnando a escrita de um intenso sabor africano e um indelével cunho Banto. As descrições são meticulosas e por vezes ardentes; há momentos em que quase nos afogueiam no calor húmido das cidades à beira-mar, ou nos cacimbos das florestas do norte.

À voragem intrépida dos diamantes no planalto, espécie de grãos de fortuna que quase penetram descuidados pela bainha das calças, sucede-se uma torrência de vivências quase imaculadas vividas nas fazendas do café a norte, à sombra fresca das florestas luxuriantes, num paralelismo amazónico de beleza ímpar.

O colorido dos grãos do café maduro matizam a prosperidade, sublimando a sua mutação em pequenos diamantes negros, mais uma vez, e sempre, brotados da terra.

O autor não permite ainda que folheemos esta África desconhecida para a grande maioria de nós, sem nos banquetear com uma autêntica joalharia de saborosas receitas angolanas; trepidantes na intensidade dos sabores, no chispar do jindungo ou na tropicalidade dos aromas das ervas e dos frutos. Uma mesa farta e suculenta que acaba por compor a imagem metafórica perfeita da grandiosidade de uma terra cuja fertilidade do solo não encontrará paralelo em África.

A intensidade narrativa oscila em sintonia com a energia dos tempos que se vão vivendo. A vertigem dos acontecimentos mundiais e africanos, vertidos pelas ondas curtas e alguns jornais, é adensada e transmitida ao leitor num avolumar de rio grosso pelas enxurradas das tempestades da História, que já se pressagiam sobre Angola e prenunciam a guerra.

A instalação da pide em Angola (1954) e o início da perseguição dos oposicionistas, um sinal vincado pelo autor com minúcia, transcendendo no receio de que o fim da Angola portuguesa pode estar próximo.

O timbre da escrita transmite com fieldade ao leitor o aproximar do abismo. Como se o precipício se adivinhasse no voltar da próxima página.

O capim arde verde pressagia uma queimada antes do tempo. Um fogo incauto que devorou tudo à sua passagem. Uma hecatombe inesperada para muitos, previsível e anunciada para outros.

Na História dos povos fica apenas aquilo que se passou; nunca o que alguns gostariam que se tivesse passado.

Este livro é brilhante.

Porque realista, franco e justo, a que se junta uma escrita aprimorada de denso vocabulário étnico e rigor histórico.

Por fim, sem adução de quaisquer comentários, não resisto à transcrição de um período inscrito neste livro, que, na leitura que faço da problemática colonial, ilustra com alguma propriedade aquilo a que chamo “Utopia Colonial”:

“… Aquelas certezas que nos faziam pensar sermos diferentes estão hoje muito em baixo. Há sempre aqueles que dizem sermos diferentes: fomos os primeiros a chegar, tivemos e merecemos sempre a protecção dos reis e sobas negros, cruzámo-nos com eles e formámos esta raça crioula que por toda a parte vai desenvolvendo esta terra sem cuidar de saber se somos brancos, negros, castanhos ou às riscas, se adoramos este ou aquele Deus, pois Deus, por diferente que possa parecer, é sempre Deus, o Senhor dos Céus e da Terra….”

Pedro Cabrita

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5 comments on “Prefácio do livro “O capim arde verde”

  1. Cabrita

    Uma das palavras chave que utilizas para classificar este livro, utilizo eu para classificar o teu prefácio: “BRILHANTE”,com letras grandes. E mais não digo
    Abraço

  2. Na minha modesta opinião , devias era aproveitar a embalagem e escrever tu o livro.Como sempre acho que está óptimo.
    Um abraço

  3. Agradeço informação para aquisição do livro via CTT à cobrança.

    Tudo bem sobre o que li, com um senão:

    No capitulo que termina em que até 1932, Angola era uma colónia penal, logo, foi com Salazar que terminou essa situação.

    Logo, isto não condiz com as purgas de Salazar mencionadas umas linhas antes.

    O homem exigia o registo criminal limpinho para quem quizesse beber uma Cuca em Luanda.

    De facto, para quem só queria dobrar o cabo das tormentas, metemo-nos numa grande alhada.

    Cumprimentos,

    Antº Rosinha

  4. Meu Caro Amigo Ant.º Rosinha

    Sem querer polemizar este assunto – porque a história é a história – deixe-me apenas aflorar a questão de uma forma superficial, porque nem o local é o mais apropriado, nem o assunto merecerá que nos detenhamos muito nele.
    O ano de 1932 confere apenas uma data de abolição institucional de estatuto de Colónia Penal em Angola. Nada prova que aquele território não tenha continuado a ser o destino de muita gente indesejada no continente.
    Este tipo de formalismo bacoco em que as nossas governações sempre foram pródigas não é virgem.
    A prová-lo, nada de mais sintomático que a abolição convencional da escravatura em 1869, quando meio mundo sempre soube que a escravatura continuou,… pelo menos até 1971, ano em que a presenciei pessoalmente nas roças do café nos Dembos.

    Quanto às referidas purgas de que, aparentemente, Salazar estaria isento ou inocente, parece-me ocorrer por aí um ou outro lapso de memória, ou talvez menor acuidade quanto ao percurso governativo do referido governante.
    É que, institucionalmente, Angola não terminou com a designação de Colónia Penal em 1932; a designação apenas mudou de local, se bem nos lembramos Caro Amigo Rosinha.É que o Tarrafal era bem mais próximo do continente (tornando mais económico e célere o transporte) e a “qualidade” do local bem mais adequada a alguma especificidade de alguns presos. E todos sabemos quanto tempo durou o Tarrafal e quem o instituiu.
    Deixo-lhe apenas excertos de um texto que esclarece alguns dos contornos desta questão.
    Sempre com um enorme prazer em encontrá-lo por aqui, deixo-lhe um abraço fraterno e o desejo de o ver sempre tão activo como deixa transparecer.

    Pedro Cabrita

    O campo de concentração do Tarrafal

    Em 5 de Setembro de 1935, foi apresentado ao ministro do Interior, pelo engenheiro militar Luís. V. França e Sousa, um anteprojecto de um campo de instalação urgente de 500 a 600 «colonos», em regime de internato, situado na zona de Achada Grande e Ponta de Achada de Chão Bom, a norte da Ilha de Santiago.
    …/…
    Era para o Tarrafal que seriam enviados presos comunistas, anarquistas e republicanos que se encontravam espalhados pelas prisões do Continente (Peniche, Aljube, Penitenciária e esquadras da PSP), das colónias (Guiné, Angola) e das ilhas (S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, S. Nicolau, em Cabo Verde.
    …/…
    Nesse ano de 1936, foi criada, em 23 de Abril, pelo Decreto-lei nº 26 539, «uma colónia penal para presos políticos e sociais no Tarrafal, Arquipélago de Cabo Verde». Segundo dizia o diploma, a necessidade de uma instalação urgente dos presos «perigosos e indesejáveis» fora do Continente e a desconcentração recomendável dos prisioneiros acumulados em S. João Baptista (Angra do Heroísmo) exigia o recurso a instalações de carácter provisório «utilizando-se os meios adequados, e entre eles os destinados ao campo de concentração da Ilha de S. Nicolau».

  5. Meu Caro Leonel
    Para quem não sabia fica a saber mais um pouco de história, é o meu caso. História à mistura com uma opinião abalizada é um prefácio genial.
    Um abraço
    Emidio

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