Livro “Revolucionário Improvável”

REVOLUCIONÁRIO IMPROVÁVEL

Apresentado em Lisboa em 30 de Maio de 2017

    Pedro C.

 

Sinopse

História de um revolucionário anti fascista algarvio, nascido nos arredores de Tunes, que aos 19 anos saiu do país exilando-se em Paris, depois Londres e Bruxelas, a fim de integrar o grupo de revolucionários que, a partir do exterior, combatiam o regime Salazarista. Esteve fora do país cerca de 50 anos, dos quais dedicou 20 à luta armada.

Esteve longos anos ao lado de Palma Inácio e do Capitão Henrique Galvão, tendo, entre outras ações, participado no célebre desvio do avião da TAP em 1961 com Camilo Mortágua, Amândio Silva, entre outros.

Hoje com 82 anos de idade, regressou ao seu Algarve onde recordou a sua história revolucionária aqui condensada neste livro.

O “Revolucionário Improvável” contém factos inéditos e procura clarificar mitos e outras “verdades” relativas à Operação Vagô comandada por Palma Inácio.

O produto das vendas deste livro serão doadas a instituições de solidariedade social, por opção de João Cristina.

 

Prefácio

Parece consensual que a biografia não tem tradição na historiografia portuguesa. As exceções são poucas e quase sempre relacionadas com as histórias de vida de alguns escritores e políticos de maior nomeada. Contudo, os últimos anos vieram introduzir uma nova tendência, com o surgimento de inúmeras obras sobre figuras que de alguma forma se notabilizaram em diversos ramos de atividade. Este fenómeno não é uma exclusividade portuguesa e, segundo Benito Schmidt, podemos encontrar influências para o gradual, mas consistente interesse por este género, na historiografia americana, nos historiadores britânicos de inspiração marxista, na nova história francesa na micro-história italiana e nas mais recentes historiografias alemã e brasileira[1].

Neste quadro e entre nós, as personalidades políticas continuam a merecer as preferências dos historiadores e jornalistas, classe profissional que também se tem dedicado ao género. No entanto, o leque de opções abriu-se consideravelmente, tocando o grupo dos empresários de sucesso e do campo artístico, com a emergência de histórias de vida de alguns artistas de renome.

Porque os homens fazem a História, mas também a História faz os homens; porque, como argumenta Giovanni Levi, haverá sempre uma interação entre o indivíduo e a sociedade, dado ser esta formada por indivíduos e estes constituintes da sociedade, não nos parece acertado relatar um facto histórico ignorando o indivíduo, como errado será narrar uma história de vida descartando os factos em que o biografado esteve envolvido ou que o influenciaram[2]. Na mesma linha estará Pierre Bourdieu, quando considerou «indispensável reconstruir o contexto, a “superfície social” em que age o indivíduo»[3]. Assim, também através das histórias de vida, é possível chegar ao conhecimento do tempo em que viveu o biografado, bem como dos usos e costumes do meio social em que se inseriu. Desta forma interpretamos as palavras de Levi quando escreveu: «O micro-historiador (…) trabalha com indícios encontrados em narrações de casos, vida grupal ou indivíduos (…) buscando esclarecer, a partir destes, questões mais globais (…)»[4].

É neste contexto que devemos aplaudir a produção de obras com as características que possuiu esta Biografia de um Revolucionário Improvável, cujo autor, Pedro Cabrita, teve a gentileza de me convidar para a prefaciar. A historiografia fica mais pobre quando se resume aos grandes feitos e nomes, estes os eleitos pelo poder político para decorarem as placas da toponímia. Quanto agradecemos a Fernão Mendes Pinto, evocado pelo autor, ter-nos brindado com aquele tesouro a que chamou Peregrinação. Graças a ele conhecemos melhor os marinheiros de quinhentos, o seu quotidiano nas embarcações daquele período; conhecemos a pequena história, as dinâmicas dos portugueses anónimos que se deram a conhecer aos mares e gentes do Oriente, estabelecendo pontes, as primeiras, entre os povos de uma e doutra parte do mundo, matéria que dificilmente tem cabimento nas obras dedicadas aos grandes feitos ou às grandes figuras da História. Grandes com ou sem aspas.

Em Biografia de um Revolucionário Improvável, Pedro Cabrita faz-nos uma contextualização do Portugal profundo, grau de pormenor a que dificilmente se desceria se o biografado fosse candidato a placa de uma rua ou praça do nosso país. Ficamos a conhecer o modo de vida dos portugueses dos anos cinquenta do século XX, num Algarve ainda muito longe do cosmopolitismo de que foi tocado algumas décadas depois. João José Martins aí nasceu e cresceu, «por entre montes de alfarroba de cheiro intenso e adocicado.» Era oriundo de uma família que em termos materiais fugia bastante à regra imposta pelas muitas famílias vizinhas, regra marcada pela carência de bens essenciais, se não pela fome, para não falar da falta de instrução e cultura e, tão mau quanto tudo isto, de esperança, porque em «seara tombada não medra a espiga.» As gentes pareciam ter nascido condenadas à pena perpétua de definharem um pouco todos os dias à espera da morte.

«A pobreza grassava pelos campos», mas as condições diferentes em que João Martins cresceu, não o levaram a alhear-se da miséria que o rodeava, miséria em que viviam os meninos com quem brincava nas ruas. O despertar para o sofrimento dos mais humildes associa-o a «um sentimento humanista» potenciado pelos valores de civilidade que recebera em casa. As recordações mais remotas que possui sobre perguntas sem respostas relativamente a estas questões, os primeiros assomos da consciência que o espicaçava surgiram por esses 13 ou 14 anos. O contacto diário com os seus amigos maltrapilhos e esfomeados terá sido o tónico para que, ainda antes de chegar aos 20, tenha optado por abandonar o conforto e a segurança da casa paterna, e contribuir para pôr fim ao regime ditatorial, que responsabilizava por toda aquela penúria. O país estava curvado perante o poder político, que tal estado de coisas potenciava por força da filosofia engendrada, a essência do regime: em «seara tombada não medra a espiga.» Quanto mais curvados andassem os homens, mais reduzidos eram os seus horizontes e mais resguardado ficava o regime.

João Martins partiu para a França desconhecida, para a dureza do trabalho na construção civil e por ali se manteve, quando os rendimentos familiares lhe permitiriam viver desafogadamente no seu Algarve. Mais tarde radicou-se em Londres e depois em Bruxelas. Participou em algumas operações armadas, visando a denúncia e o desgaste do regime criado e liderado pelo todo-poderoso Oliveira Salazar, mas também para financiamento da resistência antifascista organizada. Fê-lo sempre ligado a Palma Inácio, Henrique Galvão, Emídio Guerreiro, entre outros. «Nunca quis ser comunista, socialista ou outra coisa que me obrigasse a seguir uma linha que não era a que ditava a minha cabeça (…). Na altura o fio da luta era o mesmo: derrubar o salazarismo», que surgia como a única espiga a manter-se de pé perante a seara tombada.

Participou no desvio de uma aeronave da TAP em Novembro de 1961, o primeiro de que há registo em toda a história da aviação comercial, com a finalidade de serem lançados panfletos de ataque ao regime português sobre várias cidades, o que foi conseguido com sucesso. As peripécias ligadas às sequelas desta operação são, por si só, uma epopeia digna de leitura atenta. Mas de todas as aventuras, desventuras e posturas, há dois aspetos que não podem deixar de se destacar.

O primeiro prende-se com a ética humanista pela qual João Martins pautou a sua ação em prol dos emigrantes portugueses que fugiam da miséria. O apoio que lhes deu na procura de emprego e na resolução de problemas burocráticos com as autoridades locais, contrastava com a postura desumana, oportunista e gananciosa de outros (e aqui apontam-se nomes), que não hesitaram em montar esquemas para explorar os depauperados emigrantes, à troca do mesmo tipo de serviços. Até determinada altura, valiam-se mesmo dos préstimos beneméritos de João Martins para enriquecerem, o que terão conseguido. Claro que quando este disso tomou conhecimento, o relacionamento terminou de imediato. De salientar e paradoxalmente, os abutres cometiam os crimes não obstante estarem inseridos na luta contra o regime, sendo essa uma das razões para terem saído de Portugal. Nem todos os antifascistas eram pessoas solidárias ou recomendáveis.

Esta última frase remete-nos para o segundo aspeto, que se prende com um assunto ainda hoje polémico: a gestão dos dinheiros obtidos através de ações armadas para financiar a luta contra Salazar e depois Caetano. O assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz, em 1967, e ao carro de transporte de valores do Banque Franco-Portugaise, em Paris, em 1970, são bons exemplos. João Martins agiu sempre com o rigoroso princípio de servir a causa da luta contra a ditadura e não servir-se da causa. Para isso pagava em parte as deslocações e as estadias quando era chamado a participar numa qualquer ação. Teve que se socorrer do pai, a quem pediu dinheiro para as despesas, porque quem o devia abonar desaparecera subitamente. Levantou a dúvida se todos os seus camaradas tiveram postura idêntica, para rapidamente concluir que não. «Havia gente que vivia dos dinheiros obtidos com sacrifício e risco, usufruindo de uma forma que considerei luxuosa e isso caiu-me mal». Salvaguardou sempre Palma Inácio do grupo de suspeitos. Nutria por ele uma enorme admiração, não só pela capacidade de liderança que lhe reconhecia, mas acima de tudo pela sua integridade enquanto resistente e cidadão. Aliás «…outra malta manhosa haveria de se arrimar ao grande Palma e petiscar em seu proveito pessoal.» Quem assim fala, deixa antever a ausência de elos frágeis na sua cadeia de conduta.

Biografia de um Revolucionário Improvável fala-nos de um Portugal que morreu, um país «seara tombada onde não medrava a espiga». Não obstante os erros cometidos ao longo do percurso democrático e das críticas que possamos fazer a uma classe política, que em muitos casos não teve a postura e objetividade relativamente ao essencial que marcou a ação de João José Martins, a liberdade e a melhoria da qualidade de vida dos portugueses, esse país não existe. Muitos deram o seu contributo, maior ou menor, com melhores ou piores intenções, para que tal fosse possível. Alguns destes são referências na sociedade democrática e viram reconhecidos, através de comendas ou de outras atenções, esses desempenhos. Muitos porém, como é o caso do biografado, fizeram o que entenderam ser dever de consciência, pagaram até para poderem contribuir, nunca elevaram os calcanhares para espreitar qualquer honraria ou um simples agradecimento. Sem este livro, dificilmente saberíamos quem foi e é João José Martins, o que fez em prol dos mais humildes e as razões genuínas que o levaram a agir, abandonando a segurança e o conforto, arriscando tudo, a sua pele e a sua vida. Obrigado.

Agradeço igualmente a Pedro Cabrita este livro, que se apresenta com uma escrita plena de dinamismo, muito fotográfica do geral, mas também dos pormenores, sem nunca descorar aquele algo que não se lê, mas que se vê e sente, como é característica da boa literatura. É por isso uma história de vida que se lê de um sopro, como se de um romance se tratasse, tal a força das imagens e estrutura engendrada pelo autor para nos cativar e contar o percurso de vida deste português, conduzindo o leitor pelos meandros das frases e das palavras, fazendo-o penetrar nos factos e personagens, forçando-o a ir mais além por vontade manifesta de conhecer os segredos que se escondem na página seguinte.

Alenquer, Março de 2017

Carlos Ademar

(Escritor)

[1] Benito Bisso Schmidt, «Construindo biografias… Historiadores e jornalistas: aproximações e afastamentos», in Revista de Estudos Históricos da Fundação Getúlio Vargas, 1997.

[2] Giovanni Levi, «Usos da Biografia», in Janaína Amado; Marieta de Moraes Ferreira, Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, p. 187.

[3] Pierre Bourdieu, «A ilusão biográfica» in Janaína Amado; Marieta de Moraes Ferreira, Usos e abusos da história oral…, p. 204.

[4] Giovanni Levi, «Sobre micro-história» in Peter Burke, (org.), A escrita da história: Novas Perspetivas. São Paulo: UNESP, 1992, p. 133-161.

 

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