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Livro “Capitães do Vento” (Excertos)

Publicação  Roma Editores

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Arrancando as últimas raízes da terra que nos viu nascer.

Diziam-me que era a Pátria que me chamava…

Naquela última viagem desfilaram memórias sem fim das coisas que por ali aconteceram nos milhares de dias percorridos, dos amigos e outros que delas participaram.Dos mantos brancos das amendoeiras de Fevereiros em flor, que ano após ano cobriam os montes e as planícies, pronunciando o fim do Inverno e o renascer sempre luminoso de uma Primavera colorida pelos tons verde-escuro das alfarrobeiras, entrecortado por outros mais claros das oliveiras e das figueiras.De muitas outras cores de arbustos e tufos de erva emergindo de um chão revolto de castanho ruivo que o arado rasgou, puxado por uma mula empertigada de pelo acastanhado, ou a enxada revolveu a golpes cadenciados de meia manga arregaçada pelo antebraço e suor deslizando pelo cabo abaixo, fundindo-se por fim na terra, numa união repisada vezes sem conta por gerações longínquas de gestos repetidos.Das pedras duras de um cinzento agreste que salpicavam os montes ainda refúgio de animais bravios, que mais tarde, na década de sessenta, os cámónes haveriam de desbravar e conquistar ao preço de um pataco inglês, cambiado para um escudo furado pela miséria da míngua da fome, que por fim nos venceu, numa conquista que mouros e castelhanos nunca conseguiram em definitivo, noutros tempos das mesmas gentes mas de outras vontades.

Cortar, num até breve desejado, os últimos laços duma união construída nas noites de relento em tectos de estrelas e a macieza de colchões de esteiras de figo ou de areia da praia.

Guardar breves memórias dos cheiros de maresias de maré baixa, repetidos e vincados nos meus sentidos vezes sem conta, que me hão-de voltar quando a aridez da savana me queimar a pele, ou o silêncio das noites longas de guerra me trouxerem os sons da manhã na praia em fim de faina no mar.E eu tão longe sem poder dar uma mão à corda de arriba acima pela ladeira de areia fina da praia na esteira de cepos ensebados, levando à popa um emaranhado confuso e simples de rede e peixe, que na lota ainda saltará vivinho freguês, vivinho do mar…, quando o arrieiro o arrematar por meia-dúzia de tostões, que não vão pagar sequer a vontade do pescador de voltar de novo aos remos, logo pela tardinha quando o sol beijar o mar e se esconder nos seus braços, sossegando por fim a sanha de mais um dia de calmaria.

Eu nasci no Algarve e ali me criei até à idade dos vinte e dois anos, altura em que duvidosos deveres para com uma parte da Pátria desconhecida me arrancavam às raízes duma terra que vi cultivar de sol a sol o pão negro da subsistência, onde por vezes pingava uma sardinha assada, temperada de areia e suor, trazida por redes mal amanhadas nos longos tempos de mais fé no céu do que na terra.

Terra de sol quente de memórias ainda presentes de lembranças de África, dourando figos e amêndoas, ou tingindo de negro a alfarroba que o cigano rabiscava ao pôr-do-sol para vender logo pela manhãzinha – renegando tudo a pés juntos, pelo amor dos filhinhos, ao GNR mal-encarado que lhe encravava o negócio.Das carroças de cor garrida puxadas por mulas de pé ligeiro e guizos ao pescoço levadas pelos sons do corridinho, que atiçavam o sangue nas veias aos moços e moças, quando aos domingos se agarravam no baile-mandado por um mandador atrevido de chapéu preto, colete e manga arregaçada, com volteios de graçolas que faziam corar, e ao mesmo tempo sorrir, as velhas de pele enrugada e boca sumida, mas de olhar vivo e irrequieto, sinal de que ainda lhe bailam e rodopiam nos sentidos, memórias de outros tempos e de outros bailes.

Terra de mares calmos e velas enfunadas de vento norte, que davam folga a marinheiros de mãos calejadas por remos ressequidos ao sol e no sal, herdados na dura faina do mar, que de Sagres partindo um dia em busca do Oriente prometido, ali haveriam de regressar tão pobres quanto o eram na ida.

A viagem.Um madeiro velho e carcomido prenhe de juventude voluntariosa que não fazia perguntas…

O Vera Cruz apronta a sua última viagem no transporte de tropas para o Ultramar. No cais as cenas habituais com a coreografia do costume.

Lenços, choros, abraços e criancinhas ao colo com ar assustado sem entenderem bem o significado de todo aquele fervilhar de gente emocionada de mãos no peito e olhos nos céus.

O calor já é insuportável. A humidade não refresca. Incomoda. Encharca-nos. Mistura-se numa amálgama pesada que nos enche os pulmões e nos sai pelos poros, escorrendo e ensopando tudo.

Dizem-me que na parte mais funda do navio onde se acomodam os soldados se vai sobrevivendo num mar de miséria. Desço ao profundo dos porões da galé onde se amontoam uma espécie de condenados, deportados para a guerra pelo crime de terem nascido portugueses sem o pedirem.

O bafio da humidade entranhada na madeira envelhecida tresanda numa mistura com vómito azedo, que metade dos ocupantes não teve tempo de verter noutro lugar senão ali mesmo ao lado.

Mais cinco passos e uma bolsa de cheiro a suor concentrado e irrespirável faz-me retroceder para a porta por onde entrei, em busca de um pouco de ar que me restabelecesse.

O espaço é enorme e bastante escuro. O ar circula com dificuldade e é injectado através de uns tubos que colocam da parte de fora do navio, forçando a entrada do ar pela deslocação do navio. Do que consigo vislumbrar naquela escuridão fico com a sensação de que aquilo a que se chama gente vai ali armazenado em prateleiras, como o fariam se de carga se tratasse. No fundo, o que é aquilo senão carga, senão um instrumento de uso que servirá enquanto fizer falta ao fim específico da guerra a que se destina?!

Rasgado o oceano é agora o planalto que é riscado 15 dias depois de Alcântara…

Ao anoitecer estamos em Silva Porto, cerca de meio da viagem.

A deslocação do comboio à noite é perigosa, pelo que ficamos largas horas parados, habitando as carruagens da composição que nos transporta e que simultaneamente guardamos …

A miudagem invade as redondezas do comboio como formigas sobre um cadáver de centopeia procurando matar uma fome de 500 anos de ver passar comboios de riquezas delapidadas que se esvaem para lá da fronteira. Comboios agora prenhes de soldados deitados no chão das carruagens, que lhes atiram latas de sardinha e chouriço em forma de caca de cão, que os putos escondem no bolso fingindo continuar de mãos vazias, coleccionando sonhos de miséria que apenas enganam as próximas horas.

Qual segundo porto da Madeira, florescem meretrizes de prazer fugidio e em série, que garantem a saciedade animal de metade do comboio ainda antes do alvorecer. Carne de fome fácil, de fome negra como negra é a noite e a pele que brilha à luz de fogueiras de improviso de uma noite de tropas de passagem, que minguam também a sua fome na fome dos que morrem lentamente, até que a próxima centopeia se quede inerte e esfomeada pela noite fora, esperando pela partida da madrugada.

De nada servem os avisos de perigos de doenças que castram. Uma espécie de castigos de Deus por pecados da carne. De uma carne destinada à guerra que, sem pecado, será devorada pelo ferro e o fogo que purificam a alma depois da morte.Saciada a centopeia da carne fresca da noite e as formigas, com olhos que brilham no escuro como pérolas, das migalhas enlatadas cujas letras estampadas na tampa lembrarão que são migalhas portuguesas evacuadas pelo recto do colonizador como prémio por quase 500 anos de confiança em Deus a quem entregam as preces e nos senhores do reino a quem entregam a alma, voltamos à linha e ao destino do Luso, cidade traçada a régua e esquadro onde todas as ruas se cruzam a 90º e o calor se fica muitas vezes pela metade, por vezes mesmo à sombra.

A guerra! Um quotidiano de insensatez…

A água barrenta dá-me pelo peito, mas o camuflado já está completamente encharcado até ao colarinho.

Levo a G3 e o saco à cabeça procurando não ser arrastado pela corrente que não é forte, enquanto que com os pés vou tacteando o fundo do rio pedregoso em busca de chão direito que me mantenha o equilíbrio. Um engraçadinho sugere-me que tenha cuidado com os jacarés, pisando noutro sítio se por acaso o chão se mexer. Um outro dá continuidade a uma boa disposição, para a qual não descortino motivo, e alvitra que é muito provável que àquela hora os jacarés ainda estejam a dormir, pelo que o perigo ficava atenuado.Saio que nem rede de pescador recolhida do mar, escorrendo água por todos os lados.

Olho-me com dó e um desejo imenso de rebobinar aquele filme e voltar a ficar seco e cheiroso do sabão azul do banho da madrugada. Saem-me irreprimíveis golfadas de maldição que não consigo abafar, mas que guardo para mim num silêncio de louco que recusa partilhar o seu mundo com os outros de tão distantes que se encontram.

Com as mãos aperto as calças pelas pernas abaixo escorrendo a água e o lodo pescado no fundo do rio que me enchem de novo as botas de lona, qual sapato de cinderela transformado num ápice em sapo nojento saído da lama.

Descalço-as e despejo aquela papa de água, terra e lodo que se escorre em pequenos fios de agulha formando picos que se vão desmoronando e me perfuram memórias das meninices de praias de castelos de areia, à sombra das ondas do mar, que na próxima volta da maré-cheia me desfazem os sonhos e os depositam no fundo do rio por onde navego agora perdido de raiva e ainda menino. Agacho-me e contraio-me à frente para me espremer todo como se fosse um pano único encharcado e deixo-me ficar até que a última gota se me mija pelo fundo das calças.

Volto a calçar uma sopa de pão de açorda em cada pé e ergo-me com uma vontade enorme de testar o humor do Chagas, espetando-lhe uma ou duas farpas que me deixem um pouco mais aliviado daquela carga de água que me ensopava até aos ossos.

– O melhor agora é descermos o rio, voltarmos a passar a ponte lá em baixo e retornar para a outra margem. Depois voltamos a atravessar o rio. Se formos depressa até pode ser que os jacarés ainda estejam a dormir e nos facilitem a travessia. Assim é que o inimigo ficava mesmo baralhado… ó Chagas.

Não obtive resposta, salvo aquele doloroso e repetidíssimo “… Tá no a andar!”, que nos punha a caminho de um outro abismo desconhecido e do próximo “… Alto! Paramos aqui. Montar segurança…”

Um tiro rogado em silêncio. Um tiro que mata o sofrimento e descansa a alma…

Já fugi do palco da minha derrota.

Há um tiro isolado que ecoa longamente no vale.Um tiro a que, de olhos no chão, ninguém responde nem dá sinais de medo ou cuidado, porque transporta uma mensagem de dor ou o fim dela. Um tiro rogado em silêncio pelo próprio derradeiro sopro de vida a que se destina. Que me estremece e trespassa a consciência, qual trovão que ensurdece os meus sentidos e me queima qualquer razão. Que me sinto atingir em cheio no peito e derrubar o que me sobra de ânimo já de si desfeito. Que me angustia e me deixa por momentos à deriva e sem norte…

Nas Terras do Fim do Mundo…

E era assim o Rivungo.

Um local lindo, com vestígios de antigas missões que outrora ali se instalaram mas agora estavam vazias e em ruínas.

Um kimbo de gente cansada da guerra e da vida que celebrava a miséria e a doença, como tantos em África, vigiado por polícias que se embriagavam por turnos, de boné e farda cinzenta, iguais aos que, àquela mesma hora, se passeavam no Rossio, barrigudos e mãos atrás das costas, catando os desvios aos costumes, que soletravam com dificuldade da cartilha de bem cumprir os preceitos da autoridade.

Administrados por um Administrador colonial que lhes administrava a pobreza salpicando-lhes o chão com esporádicos grãos de milho, que catavam como galinhas esfaimadas, e exigia de retorno a obediência e o silêncio impostos pela chibata – oculta por conveniência dos tempos – mas viva na memória dos que com ela conviveram nos tempos de outras guerras e outros silêncios.

Velados por um PIDE que lhes mandava escutar as conversas nos silêncios da noite escura, arquitectando esquemas de subversão alucinantes – quase todos patéticos e com frequência fruto de denúncias de má vizinhança, que mais não visavam que a apropriação dos bens do vizinho – solucionados no dia seguinte com estranhos desaparecimentos atribuídos à deserção para as fileiras do inimigo.

Vedados por um rio de fronteira virtual, guardado por marinheiros de pé descalço de outrora, e um Sargento que se afogava em afluentes de cerveja, que mijava de meia em meia hora fedendo as águas já de si turvas do Cuando, que numa volta de raiva os haveria de atraiçoar naquela noite de fogo cruzado que quase os dizimou.

Guardados por fim por uma tropa de maltrapilhos que se amontoava em pilhas de fardas com gente dentro, riscando os dias com o mijo de sangue de doenças conquistadas nas águas do rio, que alternavam com blenorragias compradas no kimbo por duas cervejas Nocal, e um calor húmido e sufocante que estrangulava o grito das noites escuras da guerra de um “… Tirem-me daqui! Estou farto deles… da chicalhada…”, por vezes abafado em festins de álcool que ajudavam a devassar o tempo e acalentavam a hora do regresso que, de tão distante, lhes desatinava a razão e a esperança de um fim glorioso festejado longe dali.

A rendição. Mudar todos os vizinhos de uma só vez.

A chegada de tropa nova era a única página que se virava no calendário adormecido da vida das gentes da N’riquinha.

Uma miscelânea de incertezas, uma mão cheia de dúvidas e sempre uma dolorosa ausência de fé.Era como se de uma só vez metade dos vizinhos da aldeia se mudassem e fossem trocados por outros tantos novos.

Uma renovação continuada de sempre o mesmo, com figurino e personagens novas que retomam a mesma representação, o mesmo acto, a mesma cena.

Novas caras, novos hábitos, novas vontades, novos contratos de roupa lavada, de corpo vendido e ofendido, novas promessas de fim de guerra, de fome ausente, de dor presente, do fim de tudo, do princípio de nada.De uma solidão renovada, adivinhada e prometida, negra como negra era a cor da pele, escura como escura era a noite das suas vidas.De um sofrimento dorido e longo, cinzelado num percurso de existência breve de uma dúzia de dias de vida contados a bagos de milho dourado debicados no bolso de um administrador sovina e inclemente, uma riqueza sem fim de grãos de ouro que brotam da terra molhada, uma felicidade única de mastigar de manhã, à noite e no dia seguinte um pirão amassado por diabos de várias cores, ou de provar o sabor azedo da fome que, com guerra ou sem ela, será má companhia todos os dias, e teimará em ficar, seja qual for a cor da tropa que chegar, seja qual for o tamanho do coração do captão que vier.

O infinito mundo de bugigangas militares…

Por fim a trouxa militar está entregue.

As mais de mil e quinhentas assinaturas estão rabiscadas noutros tantos formulários e modelos militares garantindo a passagem de testemunho, consubstanciado em milhares de peças com os mais variados tamanhos e funções.Garfos, quase conferidos dente a dente para verificar da sua operacionalidade, colheres, casas, pré-fabricados com telhas de zinco que voam nas tempestades mas param submissas a cinquenta metros de distância e aguardam que as tragam de volta vezes sem conta como crianças que se obstinam em fugir ao controlo dos progenitores, máquinas de escrever, que por vezes escreviam, mapas, que falavam mas nada diziam e por vezes mentiam, cadeiras, secretárias (de madeira), chaves de fenda, de cruzeta, de boca, sem boca, com dentes, sem dentes, motores que trabalham, outros que se reformaram, e ainda os que morreram há muito e já não respiram mas continuam pertença e tesouro da República, retretes que fediam, camas que gemiam, colchões sem edredões, passeios de tabuinhas cruzados por milhões de viagens nos dois sentidos, arame farpado com bicos que ameaçavam rasgar a carne aos que queriam entrar mas também dos que queriam sair, holofotes com luz, sem luz, antenas, bombas de água que nos bombeavam a paciência, geradores que muitas vezes trabalhavam, câmaras frigoríficas a funcionar, avariadas, inutilizadas, obsoletas, mas ainda zelosamente à carga não fosse perderem-se em favor do inimigo, camiões, unimogs, jipes, uns a andar, outros parados, vandalizados, canibalizados, uma prisão com telhado de capim, paredes de barro (espesso!) e grades de vento, areia, muita areia, pedrinhas pintadas de branco que faziam de ruas que não levavam a lado nenhum e davam uma ilusão de ordem que apontava um caminho que não existia, uma taberna travestida com o eufemismo de cantina, bidões de gasóleo, cunhetes de munições contadas caixinha a caixinha, cunhetes de cerveja contadas na garganta duas a duas, janelas com rede mosquiteira, quartos com mosquitos, panelas de 50 litros e tachos de 30 que tresandam a um aroma de gordura típico de cozinha militar que se esvai três dias depois da fome nos ter dizimado as resistências do olfacto e o último furo do cinto, um Chiado (vazio) onde em época alta se pode encontrar o último grito de sabão azul cortado em fatia fina de queijo, um clima variado (de 45º a – 3º), noites escuras, de solidão, de desespero, de medo, blenorragias, pagas em moeda corrente ou géneros de primeira necessidade; (“… furrié é bom p’ra mim; furrié dá sapato, dá pano, dá dinhêro p’ra comprá cérvêja lá nos cantina…”), paludismos distribuídos gratuitamente a febres de 41º repartidas por 15 dias de férias em cama fresca de abundante suor, vacinas contra a mosca do sono (1cm3 por cada 10 kg inoculados por agulhas de 8cm enterradas na alva nádega sem dó nem piedade), medicamentos, para as doenças e para afugentar o medo das balas, um milhar de bugigangas agrupadas em pacotes de função, outro milhar dividido em função de pacotes, ainda um outro sem pacote nem função, e, por fim,… um kimbo com gente dentro, uma bandeira num mastro altaneiro que se esfalfa todos os dias para afirmar a nossa autoridade naquele lugar e uma guerra; uma guerra que começa à porta de armas e termina nas margens de um rio Cuando majestoso e indiferente que nos separa da soberania do povo do lado de lá, mas que os do kimbo não entendem porque os apartam dos familiares do outro lado de um rio sem paredes nem muralhas, feito apenas de água que corre límpida e sem raivas em ambas as margens.

A despedida. Perder 160 amigos todos os anos e de uma só vez …

A grande viagem vai começar. N’riquinha-Luanda.Dois mil quilómetros em linha recta. Bastantes mais pelas picadas e asfaltos que nos esperavam.

As despedidas estão feitas. Cerca de 160 militares distribuem-se por não sei quantos camiões civis, sentando-se sobre as caixas, malas e múltiplas embalagens, que albergam uma mistura de espólios de guerra com esbulhos de uma civilidade havia muito perdida e encaixotada, e que agora cortejavam a esperança de poderem voltar a florescer, depois de vencido o bafio e a poeira do tempo.

A primeira viatura faz-se preguiçosa e indolente à porta de saída. Soam os primeiros gritos de alegria de despedida de um inferno que por fim se extinguia.

Em pé os soldados, enfardados num camuflado desbotado dos tombos da guerra, erguem a G3 como se acabados de conseguir a maior vitória das suas vidas.

Os putos, menos doridos e molestados pelos sentimentos de proximidade e pieguice dos adultos, saltitavam em bandos ao lado das primeiras viaturas, alegremente contagiados pela alegria que explodia em cada uma delas.

Ao fundo, comedidamente à distância, na beira do kimbo defronte da picada por onde iríamos passar, aglomera-se um magote de gente silenciosa e mortalmente imóvel.

Mulheres com crianças às costas, velhos que se vergam à frente apoiados em paus longos, raparigas adolescentes de braços cruzados que mordem uma ponta do pano que lhes envolve o corpo esguio, mulheres idosas, que se ficam mais atrás apoiando-se na última cubata, com a mão sobranceira aos olhos protegendo-se do sol.Um kimbo inteiro.

Um kimbo inteiro veio despedir-se da tropa matchiririca que chegou um dia para fazer a guerra com armas que matam e acabou por se consumir noutras batalhas tão indesejáveis e perversas quanto aquela. Uma luta pela dignidade da vida dos que nada tinham e uma autêntica guerra contra o isolamento e as agruras duma fome ignóbil de comunidade perdida nos confins de África, uma autêntica tribo de índios ainda perdida nos confins duma Amazónia deserta, também esta em vias de extinção por via do progresso e de causas justas.

A coluna já se forma lá fora do aquartelamento iniciando preguiçosa uma caminhada de serpente, marcada por nuvens de poeira que se vão elevar nos céus assinalando a sua passagem. A picada segue inicialmente a linha da pista de aviação em direcção a Mavinga, correndo paralela ao quartel e ao kimbo.

Agitam-se lenços, braços e gritos. Uns quantos não resistem e correm até junto da picada. Crianças, adolescentes e mulheres, algumas com crianças às costas. O movimento das viaturas induz-lhes o acompanhamento destas.Correm.

Num impulso contagiante, mais gente vem descendo por entre tufos de capim seco que saltam com destreza. Já há uma pequena multidão que corre paralela à coluna acenando e gritando palavras que continuo sem entender o significado mas que desta vez dispenso tradução. Alguns correm apenas e nada dizem, nada fazem. Apenas querem correr e ficar mais um pouco junto de nós. Uma derradeira companhia, um último momento de uma despedida que já levava dias. Apenas o prolongar um pouco mais da agonia do fim de uma amizade fraterna que a proximidade confortava e induzia um pouco mais de segurança, bem-estar e protecção.Centenas de metros percorridos e quase ninguém desiste. Corações ao alto, corações ofegantes, corações que persistem numa corrida sem fim nem proveito. Uma corrida quase suicida de ir até ao fim, de ir até cair.Estou sentado ao lado do condutor que sorri meio estupefacto e me diz.

– Nunca vi nada disto.Mando abrandar.Que raio de ideia. Retemperam-se do esforço e dispõem-se a ir muito mais longe.

Mando acelerar e deixo de olhar. Fecho os olhos naufragados numa comoção que transcende aquilo que se espera de um comandante de guerra. Esqueceram-se que um militar nasce militar, não se fabrica por conveniência. Sinto que aceleramos e deixo passar mais uns metros seguros de não ver mais aquela espécie de loucura, de suicídio colectivo, um mar de baleias que dão à costa e se matam com um sorriso de prazer inexplicável recusando voltar atrás, que nos sobreleva o entendimento ou nos desvirtua a propalada razão e superioridade humana.

Por entre um marejar turvo de imagens desfocadas consigo perceber que há ainda um resistente que ao nosso lado se mantém firme de olhos em frente e um sufoco estampado no rosto.

Traz vestida uma pequena tanga que esvoaça e denuncia os restos de um camuflado há muito esquartejado, que disfarça agora a sua nudez e sufoca o que resta de uma dignidade que recusa perder.Fecho os olhos em definitivo e recosto-me no banco. Passo as costas da mão pela testa em busca de um suor que não existe e prolongo o gesto pelos cantos dos olhos, onde estrangulo uma dor que se me escorre de dentro sem que se entenda bem onde nasce.

Preciso urgentemente de me explicar quando percebo que o condutor me olha de soslaio e desvia a atenção da picada.

– … Esta poeirada…!

– …?!

Mantenho-me assim por dez minutos e percorro em sentido inverso aqueles dois, três quilómetros já percorridos.

Tento entender e não consigo. Ficamos sempre com uma imagem de um determinado bem que se faz, de umas migalhas que se oferecem e nos deixam alguma paz de espírito que nos conforta o sentimento de bem-estar connosco próprios.

De acordo com as circunstâncias em que ali fomos vivendo todo aquele tempo, atribuímos um determinado significado às coisas, sempre parco quando o comparamos com os nossos padrões de vida, os nossos hábitos e anseios. Esquecemo-nos que o pouco que por vezes se oferece tem um significado tão intenso e duradouro quanto miserável é o significado das suas vidas e quão vulneráveis ficam os seus corações a gestos de pouca monta, mas tesouros de riqueza desmedida que retribuem com as únicas moedas que possuem: a solidariedade e o reconhecimento.

O condutor não pára de olhar pelo retrovisor.

– Parece que já ficaram para trás, diz espreitando dos dois lados como que receando que se tivessem passado para o outro lado.

Não arrisco a abrir os olhos para confirmar. No fundo, talvez eu quisesse guardar aquela imagem lá bem no meu íntimo. Uma prenda simbólica que nos cinzela a memória corroída por inutilidades. Uma fenda esculpida a marteladas de vida que nos deixa marcas que perduram pela vida fora e nos humedece ainda os olhos, trazendo à mente uma catadupa de sons e imagens de significado imenso e de tão grata recordação.

– Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga… – diz-me ainda o condutor, mais preocupado com aquela perseguição tenaz, que com o trilho baço de poeira da viatura da frente.

Não!

Virão atrás de nós muito para lá de Mavinga. Virão atrás de nós todo o tempo que eu viver e for capaz de me lembrar deles, da sua simplicidade, dos seus corações abertos, dos seus hábitos e tradições, da sua inocência de fazer casa grande para captão e mulher do Puto, de acreditarem numa pátria que nunca viram nem sentiram como sua, de serem capazes de acreditar todos os dias em qualquer coisa sem terem nada em que acreditar.

Abro por fim os olhos. Agora sim mergulhados num verdadeiro tormento de poeira, uma extensão daquele escuro de nuvem confusa que me faz perder o norte e me baralha a mente com pensamentos descoordenados que me desalinham a recentíssima alegria de partir.

Não me sinto.Não sei se venho. Não sei que partes de mim vêm. Não sei o que trago. Não sei o que deixo. Não sei o que perco.Mas sei o que ganho.E que me dói já a certeza de jamais poder com eles usufruir do que bebi dessas lições de vida sentida e dorida, trituradas a golpes magoados de pilão e sublimadas a bálsamos de batucadas ardentes vencidas pela noite dentro, até que a dor morresse e um novo dia de fé ausente nascesse.Já não ouço vozes. Só corações soçobrando num adeus derradeiro que se extingue num último suspiro sem sinais de revolta.Agitam-me os tombos da picada. Agitam-me os meus pensamentos desarrumados. Agitam-se-me revoltas de sentimentos de impotência e remorsos de me vir embora quase feliz. De deixar para trás um fosso com gente dentro que chegou a acreditar que tinha chegado a hora de fugir daquele gueto de guerra e poder morar livre como o vento no mato longínquo e seguro das terras do Cuando-Cubango.

– Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga… (120 Km)

De soslaio vou dando miradas pelo espelho retrovisor, não sei se na esperança de ainda ver alguém, se de não ver.

Mas se vir, garanto a mim próprio que mando parar a coluna e o abraço longamente até sentir que o seu coração se acalma e se me ensurdecem os gritos de despedida que ainda ouço.

Convenço-me por fim que já não vêm. Convenço o condutor a olhar apenas em frente porque é por ali que passa o futuro. Tenho pela frente quatro dias de comer quilómetros de poeira que embaciam um céu limpo sem nuvens. Um circo em movimento que se move em busca de outros públicos e os mesmos aplausos dos que querem continuar donos e senhores da terra que, para muitos, os viu nascer.

Pedro C.

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3 comments on “Livro “Capitães do Vento” (Excertos)

  1. . Revivi com nostalgia passagens de uma fase da minha vida naquelas longinquas paragens. Fico grato por ter de uma forma objectiva, descrever estes dois longos e dificeis anos, mas que permitiram dar a conhecer-nos não só uma forma de vida diversa da que conhecíamos. mas também permitiu conhecer locais de rara beleza, de cheiros terreos intensos e que permanecerão nas nossas mentes até ao dia do adeus final. Obrigado camarada Cabrita por me ter proporcionado esta sensação nostalgica.

  2. Os meus parabéns pelo livro Capitães do Vento. Bem escrito. Emocional que baste e uma memória comum que não deve ser esquecida. Muito bem.

  3. Fiquei maravilhado com tão bela «redação». Uns anos antes (em 1967) também passei por uma experiência dessa natureza no Lumeje, a meio caminho entre o Luso e Teixeira de Sousa. Viajei no comboio que aparece na foto de uma ponta à outra da linha. Era conhecido pelo «comboio mala» e os de mercadorias por «camacouve». Ouvi ao vivo, cantada pelos habitantes de um quimbo, que no norte se chama sanzala, uma cantiga com exactamente o nome de «comboio mala» que mais tarde veio a ser conhecida na então metrópole pelas vozes do «Duo Ouro Negro». Enquanto eu tiver memória, aqueles tempos não serão remetidos para o arquivo morto.

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