2 comentários

Crítica (e comentários) ao livro “O Último Inferno”


O Último Inferno

Livro de Pedro C. (Prefácio 2006)

Trinta e dois anos após ter terminado a Guerra Colonial, algum alento deve ter sobrado a Pedro C. para decidir deitar cá para fora mais um folhetim sobre o assunto que, aparentemente, já estaria morto e enterrado pelos autores de escritos desse desditoso episódio da nossa História.

Na realidade não foi suficiente a catarsis expandida pelo autor em 2004 com Capitães do Vento (Editora Roma), narrativa sequencial tangendo a realidade de um diário, nem possivelmente será este novo título, para o autor, uma radical e definitiva panaceia para curar os males deixados pela guerra e que, pelos vistos, essas gerações entre 1961 e 1974, por muito que leiam ou escrevam sobre o tema, não conseguem libertar-se dos fantasmas que só a morte libertará ao encontrarem, quiçá, no outro mundo os que, por obra do destino, para lá precocemente seguiram ainda no teatro das operações.

Uma vez mais Pedro C. não se conforma com a pátria madrasta que aos vinte anos o expolia do pleno gozo dos deleites do ensolarado sul do nosso país, terra que o vira nascer, mas principalmente sente uma profunda revolta, pelo facto de ter de seguir um rumo completamente diferente do que decidira traçar, e, para cúmulo, arvorado capitão à pressa, por falta de vocações verdadeiramente profissionais, posto esse que, por via normal, esses profissionais só atingiriam com uma idade a rondar os quarenta. È assim enganado para fazer uma substituição de um actor principal no palco do hediondo teatro da guerra das colónias.

O autor de O Último Inferno tem neste livro uma enorme explosão de raiva misturada no assombroso realismo que lhe é peculiar conseguir demonstrar, entretanto desdobrando-se numa dupla personalidade cénica, que penso não ser intencional mas que deixou escapar, transparecendo por um lado o narrador participante – capitão Pedrosa – sensato, ponderado a medir as palavras que profere em pleno mato, evitando ordens déspotas, mas entretanto vestindo-se de uma certa capacidade de decisão militar. Por outro lado, é o homem cheio de dúvidas sobre o seu verdadeiro papel ali, e filosofa constantemente no valor de tudo o que o rodeia, principalmente sobre a consistência dos conceitos que sustentam toda a atitude, boa ou má, da humanidade, que são deus e pátria. Aqui também eu hesito se merecem ser escritas com maiúsculas.

Pedro C., além do seu papel participante, cria na narrativa uma outra personagem, não mais que um alter ego de si próprio. Também do sul, parece um homem rude e possante, que se viu forçado a trocar os remos pela espingarda, aparentemente frio, mas que depressa quebra o gelo e se revela, um grande e acolhedor amigo e companheiro. No fundo a ambivalência que encerra o próprio mar, a que o escritor se encontra indelevelmente ligado, numa permanente nostalgia que a narrativa não escapa a deixar de transparecer.

O autor cria um ambiente narrativo fatídico, não sejamos nós os fadistas da Europa, não faltando o nevoeiro, aquela névoa africana que envolve quase permanentemente aqueles militares, que além de os não deixar ver o que já não viam sem ele, tem um valor semiótico de prenúncio de morte, ademais da carga simbólica ligada a D. Sebastião, abismo de contornos não definidos onde acabámos por cair, finalizando o áureo Expansionismo. É a morte da própria pátria ali representada.

Por todo o livro, o escritor evita falar da selva como um cartaz turístico ou uma National Geographic. Evita falar dos mosquitos, que palmadas são mais importantes as que são de ânimo e que se têm de constantemente trocar. Não fala de elefantes, crocodilos ou jibóias, apesar de eles lá deverem estar, fala do piar soturno e agoirento das aves pela noite que é longa e dolorosa pela espera da morte de alguns feridos. E vai mais longe no arranjo dramático; na floresta é a natureza que os envolve inexoravelmente, tanto que os agarra e rasga a pele através das espinhosas trepadeiras. Um castigo pela intrusão? Um destino difícil de despegar? A impenetrabilidade noutro caminho que não o destino?

Prenunciado que está um clímax na narrativa, com uma escalada de tensão psicológica projectada num brutal desfecho, de súbito o autor interrompe a narrativa e faz um flash forward para vinte anos depois. Utiliza um reencontro comemorativo num almoço da Companhia. Confraternização de sobreviventes. Mais um efeito catárctico numa revivência saudável do episódio traumático? É possível. Vinte anos antes não se falava de Perturbação pós-stress traumático. Foi a persistência crónica de certos sintomas nos veteranos do Vietname, que levou os psiquiatras americanos a aplicar esse conceito aos militares, já que se sabia existirem manifestações semelhantes em indivíduos que duma ou doutra forma tinham vivenciado a iminência da sua própria morte. Pedro C. é exímio a abordar este tema sob as suas várias formas de apresentação: Nesse almoço fala-se de deprimidos, há até um que já se tinha suicidado. Há emotivos, como é o caso do que tinha rixas constantes com a esposa. Há respostas de alarme exageradas à situação estímulo, como é o caso daquele que, quando via negros, não resistia a espancá-los. Etc…

Estes avanços narrativos para os almoços comemorativos, transportam-nos para homens sombra que tentam através de comemorações anuais, restaurar o brilho perdido de quando foram obrigados a ser guerreiros. É como se gritassem: Atenção, eu não sou como lá me viram, sou o que estou agora a ser. Como podem ver, tenho mulher, filhos, netos, sou comum e normal. E é saudável que assim pensem e procedam. Significa crescimento interior, maturidade e evolução psicológica sobre os acontecimentos traumáticos, resposta positiva sobre aqueles que, por ironia da personalidade, não conseguiram libertar-se dos actos menos dignos a que a guerra e os verdes anos teriam levado a cometer, mantendo-se na lamentação das feridas ainda sangrantes, evitando o salutar convívio terapêutico para esses e outros males, entre companheiros de semelhantes infortúnios.

O que são aqueles homens trinta e dois anos volvidos, e não o que foram durante aqueles dois no tão horrível cenário, é bebido através do cintilante espumante que acompanha o bolo, que alguém se lembrou de mandar fazer com uma cobertura de decoração bélica, e que, paradoxalmente, ninguém ousa fatiar, mantendo-se intacta. Nenhum quer mexer mais nesses símbolos de guerra. São tão doces como peçonhentos. Ficam para deitar fora.

Mas antes que o livro acabe, o autor habilmente vaticina o golpe de estado de Abril de 1974. O comandante do Batalhão a que aquela Companhia pertence, ao tentar imolar o capitão Pedrosa, imola-se e imola o regime ditatorial que o sustenta. Tenta todas as formas de berrar uma ordem, mas as armas têm-nas os militares, tal como o poder e o golpe de estado. E tudo isto sob os olhares silenciosos de dois militares que o acompanham na incursão intempestiva ao aquartelamento de Pedrosa. É o dealbar do fim. A Companhia está doente, o exército doente, o poder em crise e a guerra não tem mais sentido.

Este livro não é mais um livro sobre a Guerra Colonial, não é mais uma romaria de saudade ao “nosso ultramar” feita por gente vetustamente nostálgica ou nem mesmo um grito panfletário contra a prepotência que fazia dos pretinhos nossos criados. Também não é literatura para militares cacimbados se remirarem nos ambientes vividos na guerra, ou, quando por bonomia, aquele livro que se dá aos familiares e amigos para eles se admirarem do quanto o autor sofreu ou que bem ele escreve. É um grito de revolta pelo que fomos, por essas naus suicidas em que embarcámos durante tantos anos, por esse logro que é andar a matar o semelhante em nome de um bolorento baluarte, igual a tantos outros ostentados por outros povos com igual direito de o defender e que simboliza a pátria. A pátria! Este livro é um alerta aos cidadãos, sejam eles de que nação forem, para o logro que é obedecer numa guerra, qualquer guerra, em nome do que quer que seja, sem pensar que ambos os contendores têm razões e direitos tão rigorosamente iguais. E deuses e pátrias rigorosamente iguais. E a única coisa que é diferente é a prepotência de quem a manda começar.

Finalmente não posso deixar de dizer que este livro tem o tamanho e a estrutura ideal para dar um bom guião.

Ainda devo deixar transparecer uma alusão muito positiva à capa, que me parece ilustrar muito bem o conteúdo, entendendo-se melhor depois de lido o livro.

6/11/2006

Eduardo Aranha

(Médico)

Anúncios

2 comments on “Crítica (e comentários) ao livro “O Último Inferno”

  1. A esta excelente crítica de Eduardo Aranha acrescentarei apenas que é necessária muita maturidade literária para condensar, na descrição de uma só operação militar, toda a Guerra de África de 1961-74 . Do estilo autobiográfico em que foi escrito «Capitães do Vento», já de si notável pela intensidade humana que uma visão «por dentro» da guerra não faria suspeitar, o salto de escritor para «O Último Inferno» só costuma acontecer muitas obras depois do primeiro livro publicado. Acontecer ao segundo, é obra!

  2. Embora tarde, muito tarde, o meu agradecimento ao Daniel Gouveia. Na verdade só agora dei por ele. Abraço.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: