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Crítica (e comentários) ao livro “Capitães do Vento” – Bernardino Louro – 2005

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À SOMBRA DA AMIZADE

A propósito do livro “CAPITÃES DO VENTO” de Pedro C.

Bernardino Louro

Julgo ter lido grande parte do que se tem escrito sobre a nossa Guerra em África. Devo também confessar que, a maior parte, são versões enviesadas, tendenciosas e eivadas de uma visão sectária.

O paradigma da ficção, perfeitamente inverosímil no tempo narrado, aliada ao preconceito burguês, de quem nunca quis entender ou conviver com os colonos e as suas atávicas características, e o mais radical esquerdismo intelectual, de um bem nascido, que sofre os incómodos que lhe foram pedidos, encontrei-o num livro, muito vendido e propalado em muitas edições: – “Os cus de Judas“, de António Lobo Antunes.

Li, também, há anos, o livro “Fábrica de Oficiais”, de Hans Hellmut Kirst, escrito sobre a vivência nas Academias Militares nazis. Penso ter sido esta notável obra, o livro mais anti-militarista que li na minha vida.

Quando agora terminei a leitura de CAPITÃES DO VENTO, de Pedro C., vieram-me à memória estes dois livros. Em minha opinião, poderão servir para balizarem este meu comentário.

O livro de Pedro C. é magnífico.

Direi mesmo que será um testemunho isento de quem só disse a verdade. Para quem estiver interessado em saber como foi a nossa guerra em África, aqui fica um testemunho vivo, por ter sido sentido na carne viva, de quem tem vinte anos e é independente, como só o pode ser quem nada tem e nada quer ganhar. Até as considerações de ordem opinativa, os muitos comentários tecidos à volta da narrativa, são desculpáveis porque são isso mesmo: opiniões.Cada um têm o direito de as ter e as poder expressar. Não concordo com algumas, mas, tenho de o confessar, que mesmo discordando, entendo que ele, Pedro C. tem razão.

Os comentários feitos, sobre a mentalidade e praxis formativa das fornadas de milicianos na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, – muita tropa, muito frio e muito vento, muita merda e um convento –, só quem por lá passou, naquele tempo, sabe como são ajustadas.Aquelas paredes tolhiam-me e deprimiam-me” 1

Os comentários à classe dos oficiais superiores do Exército de então, mais interessados na forma que na substância da guerra, só pecam por defeito. Quem mais anos por ali gastou a sua juventude e viu esvair os sonhos da mocidade, sabe muito mais sobre o assunto e quanto tudo isso era verdade. Pena é que, aqueles que tiveram oportunidade de o escrever sobre a Guerra, com a experiência de quem os sentiu na pele, – como Carlos do Vale Ferraz –, se tenham explorado as excepções aberrantes, deixado levar pelo sectarismo e diletância da hora presente, e não tenham deixado testemunho da regra geral do que foi o comportamento dos muitos milhares de oficiais, sargentos e soldados que combateram nos três campos de batalha, em África.

Mas nem todos eram iguais. Entre os oficiais do quadro permanente do Exército houve quem se impusesse pelo seu saber, valentia e capacidade de comando, independentemente daqueles que definiam a estratégia e a política. Os soldados, justos testemunhas e aferidores de quem os comandou, sabem distinguir o trigo do joio.“… Aprendi bastante com o Capitão do Mucondo. Aquele estágio revelou-se importante para a forma como viria a gerir os acontecimentos, sendo relevante que deixe aqui o meu agradecimento ao, naquela altura, Capitão de Cavalaria Taxa Araújo.” 2

Até entre os que comandavam há que fazer diferenças. O Autor dá disso mesmo memória. “… O senhor General, Betten­court Rodrigues, de seu nome, viria a ser um dos poucos militares de alta patente a surpreender-me pela positiva.” 3

Também por muito que desagrade àqueles que destes tempos têm a pior das opiniões e entendem ter sido o esforço de guerra, feito por regime autoritário, decrépito e decadente, o número de desertores – por imposição de consciência, entenda-se, ­foi, durante mais de treze anos, sempre desprezível.

O governo de então pactuava, sem cuidar de averiguar o que quer que fosse, com os relatórios apresentados, muitos, ultrapassando a imaginação de Júlio Verne –, sobre o que acontecia nas frentes de combate.Outro tanto faziam os comandos superiores das unidades e quartéis-generais; a estes interessava mais fazer parte do clube dos incondicionais, afim de poderem obter as ditas medalhas de “serviços distintos, com palma”, desde que, para tanto, as mesmas minimizassem perigos e desconfortos.“… A guerra de África constituiu-se numa clamorosa derrota militar, quer se queira, quer não. Melhor; quer os militares queiram, quer não … Uma derrota de generais. Não uma derrota de soldados. …” 4

Por fim o paradoxo – face a muitos e bastantes comentários sobre a justeza e oportunidade da guerra, explanados pelo Autor – construído pelas suas próprias palavras, na dedicatória da obra: “… Às gentes de N”riquinha, (um kimbo perdido na imensidão de África) que ousaram desafiar-me a ficar com eles e comungar das suas vidas, dos seus prazeres infinitamente pequeninos mas de grandeza desmedida, que desejavam repartir com quem lhes deu breves momentos de atenção e os guardou como gente desprovida de vida, de futuro, de tudo. Gente que acreditou e quis ficar connosco fazendo de sua a nossa pátria, gente que nem sempre fizemos por merecer…”

As páginas, desde a 215 à 220 e a partir da 259 até à 261, são bem o testemunho do que pode ser a ajuda às condições socio­económicas das populações e, se calhar, nunca mais voltou a ser feita. Essas acções, a que as referidas páginas se referem, espelham bem as nossas insuficiências históricas, a efeméride e descontinuidade dos nossos esforços e o demérito deixado durante séculos, ante aquelas gentes que em nós confiavam. São também elas, o relato sincero de um soldado de Portugal, que, arrancado à sua juventude, soube ser um grande capitão na Guerra. Bem lá, nas terras do fim do mundo”, como soldados, escreveram em África, como Mouzinho: ­“… essas poucas páginas consoladoras e heróicas da História de Portugal contemporâneo, escrevemo-las nós, os soldados”.

Conheci Pedro C. muito recentemente. Sei que, se tivesse a dita de o ter encontrado mais cedo nos caminhos da vida, poderia rever nele as qualidades gratificantes de um irmão mais novo, que passou as mesmas “passas do Algarve”, um dia, para defender o que então se entendia por Portugal.Se a História foi adversa, não compete aos militares escolherem o tempo das suas vitórias. O seu testemunho aqui fica.Que os “anões” da História possam aprender e entender, – se por ventura estiverem interessados em saber, de facto, – com as vicissitudes de então e como as coisas se passaram.Aqui, basta ler.Depois das populações, “… os capitães eram, na verdade, aqueles que mais sofriam com a guerra.”.

Bernardino Louro

Pseudónimo de João Sena – Oficial de Cavalaria

In O Lanceiro

NOV2005

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3 comments on “Crítica (e comentários) ao livro “Capitães do Vento” – Bernardino Louro – 2005

  1. Transcrição:

    Camarada Cabrita:

    Li alguns excertos do teu livro. Como já te disse, não consigo concentrar-me muito tempo em “tais” temas. Quero, contudo, dizer-te que és um “mestre” da palavra escrita e que, na verdade, é “literatura” séria, intensa, vigorosa, poética, de uma beleza que diria trascendente, aquela que tu fazes. Não foi necessário ler muito de ti para chegar a esta conclusão e orgulho-me por ter no meu “lote” de amigos alguém como tu.
    Um forte abraço.

    Alex Marta Pinheiro

  2. Companheiro Pedro Cabrita:
    Ainda não li as suas obras sobre a guerra colonial…..mas vou ler.
    Estive em Mavinga na CCAÇ 305 em 1972/73,era Alferes Miliciano de Infantaria e comandei o DIMA precisamente na altura em que morreram os 15 G. ES no TOSSI/KIRONGOSA.
    Sobre a polémica do comandante do MPLA era o Cuenhe e quem comandava o grupo de Mavinga eram os Alferes Carpinteiro e Leal Costa(cujo pai era comerciante em Mavinga).
    Perdas irreparáveis nessa dita operação foram o Prata Mole(major dos G´ES),o XAMEIA o bom giganter das chanas,o irmão d Cofuna,o 49 (sapateiro)e tantos outros que não escaparam a uma emboscada traiçoeira,e,cuja resposta os responsáveis do grupo não soberam dar.
    Episódio relevante é o do GE XAMEIA,que ao ser atingido na anca chamou o companheiro mais próximo(já em debandada e entregando-lhe a arma ,por sinal uma FN-cano reforçado,disse: -toma entrega-a ao nosso capitão…aqueles gajos não pdem “gozar”a minha arma.E dito isto,descavilhou uma granada e esperou serenamente pelo inimigo.
    O deflagar do engenho deu-se minutos depois,quando os guerrilheiros deram por conta do Xameia persona não grata do MPLA,não tivesse recebido anos anos juntamente com os seus irmãos Prata Mole,Luzendo Massole e Cofuna,no Terreiro do Paço das mãos do presidente da républica uma medalha que mostrava com orgulho de ser português.
    Entretanto,passados quase 40 anos,questiono-me e procuro equacionar a minha mentalidade na altura,um “puto” de vinte e poucos anos com uma grande responsabilidade às costas,e,que no fundo ainda hoje vive quase diáriamente com esses conflitos interiores…..valeu a pena?????

  3. Bem-vindo, companheiro José Gonçalves

    Não! Não valeu a pena!!!

    Fomos todos enganados, espoliados e jamais ressarcidos do nosso esforço e empenhamento.
    Infelizmente alguns companheiros mantêm viva ainda uma outra dívida por saldar, bem mais gravosa que a nossa. Uma dívida que lhes macera ainda o corpo e a alma.

    Mas a História é assim. Feita de bons e maus feitos.
    Aquele que nos coube, foi mau. E foi pena. A nossa gigantesca odisseia das Descobertas merecia outro epílogo.

    Nada apagará a memória desses autênticos gigantes do mar e da História, nem a glória que nos trouxeram.
    Mas belisca os que deles descenderam a não fizeram por merecê-los.

    Um a braço e até breve.

    P. Cabrita

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