Deixe um comentário

“A Junta” (Excertos)

                                              A Aldeia do Cerro, onde decorre esta

                                              pequena estória, é fruto da imaginação.

                                              Algumas das personagens povoam, con-

                                              tudo, a minha memória.

                                              Outras rebusquei-as e retoquei-as nos

                                              tempos, lugares e gentes que conheci.

                                              O enredo, um imaginário vivo, tal como

                                              algumas das suas personagens…

  

A Junta

            Como habitualmente acontecia, Fevereiro ia frio com as amendoeiras em flor a emprestarem um tom ainda mais frígido à planície e às encostas da serra, amalgamando o branco imaculado das suas copas com o tapete fino e macio da geada acolchoada pela madrugada.

            A aldeia parecia querer prolongar a sonolência do aconchego próprio da invernia, deixando que o vento percorresse solitário as ruas, agora poeirentas, mas escavadas por sulcos lavrados pelas águas das chuvas de Janeiro.

            Aos poucos um ou outro vulto vai corrompendo a pacatez da penumbra matizada pela madrugada, esboçando prenúncios de vida ao casario que, contudo, permanece recatado e sombrio como se ainda adormecido e preguiçoso.

            Lá bem ao cimo da rua principal, que desce ligeiramente, um engenho esguio de cor preta – salpicado com um ou outro pico de ferrugem, que vai profanando os cromados outrora reluzentes e o orgulho do seu proprietário – traz montado uma figura de fina silhueta que se empertiga hirta sobre as duas rodas, manobrando com pouca destreza os volteios a que obrigam os sulcos da estrada.

Uma luzinha taciturna presa ao meio do guiador, tombada para a frente como se cansada de tanta viagem, ou ainda adormecida àquela hora temporã da madrugada, parece prefigurar o arrepio do frio cortante que a deslocação do ar acentua mais ainda.

Por duas vezes um dos pés interrompe a pedalada e tacteia ao pé-coxinho um ou outro buraco de contorno mais duvidoso quanto ao equilíbrio esperado na sua travessia, para logo regressar ao pedal e retomar a sua função de transmitir à roda pedaleira a energia necessária ao balanço da viagem.

            É António Esfrega, pedreiro de profissão, que lá vem montado na sua Felismina, como carinhosamente apelidava a sua bicicleta, desafiando a frialdade matinal, com vários quilómetros ainda por percorrer até à vila, onde uma obra esperava a sua arte de alinhar tijolos colados com argamassa, irrepreensivelmente dispostos sob severo rigor de um fio-de-prumo que determinava a verticalidade das paredes e a sua segurança.

            A arte havia-lhe sido transmitida pelo pai, após anos de serventia a amassar caldeiras de areia e cal e a alombar baldes de argamassa escada acima, sem perder de vista a destreza do manuseio da colher de pedreiro quando batia no ponto certo do tijolo e o quebrava numa linha perpendicular à face e tamanho ajustado ao acabamento da parede. Ainda de tijolo na mão, era a massa certa despejada onde depois o assentava, esbeiçando apenas o suficiente e ajustado ao remate e assentamento definitivo.

Mestre Esfrega orgulhava-se de não ter visto uma única parede sua ruir ou apresentar defeito; nem mesmo no tremor de terra de 69, onde tinham desabado algumas platibandas e muitas paredes vergaram no balanço sacudido do chão, que alvoraçou a aldeia pelas 3:30 da madrugada.

António fazia questão de manter viva a imagem do pai nesse preceito. Parede sua era a imagem da família. Firme como o pai, que tinha partido aos 75, ainda a trabalhar, e o avô que se aventurou pelos noventas e, mesmo assim, fruto de uma noite escura como breu, em que a égua se espantou e tomou o freio nos dentes, numa das inúmeras vezes em que ficara na taberna até mais tarde e o vinho lhe tinha tomado, de igual modo, as rédeas.

            Serão pouco mais de dez quilómetros de asfalto – corroído nas bermas e meio esburacado ao centro – que António vencerá pela força das pernas, apeando-se numa ou outra ladeira mais íngreme, se o ânimo lhe faltar, como por vezes acontecia em dias de menor alento, ou por ausência de virtude do vento, nem sempre disposto a empurrar do lado certo.

            Ao fundo da rua, percorridos todos os atalhos que contornavam os buracos, que fermentavam as maldições à Câmara por não lhes dar conserto, Esfrega tem uma paragem obrigatória; a taberna de Luís da Mana.

            Será com um movimento lendo e cauteloso que desmontará da bicicleta, alinhando o pedal à altura do lancil a fim de a encostar. Numa espécie de grelha metálica com duas hastes com mola, por cima da roda traseira, vem acomodada a colher de pedreiro. Pegando-a pelo cabo dá-lhe uma ou duas abanadelas para conferir da sua segurança, porque já não seria a primeira que se lhe ficava pelo caminho, sem que ele desse rumor sequer.

Sem pressa dobra-se à frente procurando chegar aos tornozelos – impando sob o ranger das articulações maceradas por uma ou outra artrose sorteada entre os frios da idade e da invernia – retirando as duas molas de roupa que ajustam cada calça à perna, impedindo assim que estas rocem pelas correntes, misturando uma ou outra pincelada de óleo sujo aos inúmeros salpiques de argamassa que ilustram um quadro abstracto já com várias semanas de composição.

            Por fim, ainda um aconchego ao pequeno farolim dianteiro, alimentado pelo dínamo preso no garfo da roda da frente, que se mantém descaído à frente como se acabrunhado ou preguiçoso. Um toque de vaidade que parecia querer empertigar a Felismina, reajustando-lhe um ar elegante e altivo.

Antes de entrar, inclinando a cabeça para a esquerda, ainda deixou uma última mirada ao farolim confirmando a justeza da correcção efectuada, como o fazia sempre no remate da prumada de cada alinhamento de tijolo.

            A porta está apenas entreaberta, resguardando uma ou outra rabanada de vento mais forte, juncando o chão de poeira, bem como os copos, prontos para mais um dia de serventia, alinhados ao lado de uma pequena pia em pedra escurecida pelo uso e o negrume velho dos salpicos de vinho vertido pelo ralo abaixo.

            O mobiliário é simples e estritamente funcional.

Dois bancos corridos em madeira tosca e seis individuais com furo ao meio – por onde se enfia o dedo para lhe pegar – ajustam-se às duas mesas quadradas, ainda dispostas sem ordem desde o dia anterior.

O cenário confere uma espécie de despojos de mais uma terrível batalha de cartas do último fim de tarde, onde os campeões do Truque se bateram com os desafiadores do costume, registando glórias cujo eco ressoava pelas redondezas e despertavam o desejo de meças de forças a novos candidatos à reputação de aniquiladores dos Golias da terra.

…/…

Francisco é o cidadão mais suspeito da aldeia.

Suspeita-se que é comunista e que algumas das viagens que faz a Lisboa é para ir buscar papelada, que depois aparece espalhada na aldeia. Ultimamente as coisas têm estado mais serenas. Diz-se que o apertaram e ele acalmou.

Quem, ao que consta, não o perde de vista é o Júlio Sousa, o Soizinha, que não se livra da suspeita de ser bufo da pide, coisa que ele nega a pés juntos, quando é confrontado com essa possibilidade, pela única pessoa que o pode fazer na aldeia, sem arreceios; Fernando Fernandes – o Nandinho – uma espécie de bêbado oficial da aldeia.

O Nandinho, quando está azedo – o que são mais as vezes – funciona numa via de catarse social da aldeia. Diz o que lhe vem à cabeça e ninguém o leva a mal, ou lhe liga. O pior são as suspeitas de que lhe põem coisas na boca, por falta de coragem de as dizerem de viva voz. Outras vezes irrompem tiradas filosóficas que não conferem muito com a tradicional filosofia do álcool.

…/…

Bem ali à sua frente, uma bota cardada com resquícios de sebo velho aplicado no princípio do Outono, parece rir-se embaraçada, deitando de fora os poucos dentes ainda incisos à frente e o desgrenhado do que resta dos atacadores desfiados, que apenas preenchem as quatro primeiras ilhós de uma fiada de dez. A peúga, de cor original imprecisa e riscas gastas, enruga-se meia desfeita junto a um tornozelo. No outro pé, talvez envergonhada, a outra enrodilhou-se para dentro da bota deixando nua a perna escanzelada e suja de um ruivo de dois dias, ganho nos chutos à bola de trapos no pátio da escola, também ela rota e desmazelada em longa espera de uma reforma sempre adiada.

 

Não é bem inveja que o puto sente. Não se pode invejar o que nos é inconsciente. Apenas curiosidade ignorante com leve travo a resignação. Uma insensata escuridão que lhe tolhe o ser e lhe desertifica o prazer da consciência plena das coisas. Uma irreprimível ausência de desejo amarfanhado no obscurantismo. Um vazio de vida e de futuro apenas deturpado pelo amanhecer da idade, que se acomoda a qualquer coisa que lhe calhe, ou desabe em cima. Um vazio de samarra cobrindo o frio dos ossos macerando a pele e uma alma de asas cortadas prisioneira do corpo. Um futuro vigiado de perto pelo bufo atento, que há-de zelar pelo silêncio das vozes e o agrilhoado do pensamento em motim, num conluio com Deus que, por momentos, parece alheio à memória dos sofrimentos da cruz e permite um novo calvário daqueles que o veneram e seguem sem demanda.

Será de olhar fixo na bota cardada – que parece martelar os pregos na cruz em cada passada pesada de encontro ao chão duro do mosaico – que permanecerá após ser apeado da tábua, e das moscas…, logo que a miragem do espelho se desvanece e é o obsceno do real que fica.

Será de cabeça pendida, desbastando com o olhar o caminho até à porta, que por acanhamento não se atreverá a olhar de frente os putos do Castro, que o seguem com curiosidade infantil, até que a silhueta se desvaneça naquela manhã fria de Fevereiro.

 

– São cinco escudos e cinquenta centavos – debita o Virgílio.

 

Com cinco escudos e cinquenta centavos se enfeita a jorna do aprendiz de barbeiro.

Com cinco escudos e cinquenta centavos se faz a fome, que, fria, desafia o vento e o tempo que passa.

…/…

O padre sorria e, com paciência de Cristo, lá lhe explicava que se tratava de um livrinho de leituras das coisas de Deus, que muito o ajudavam no conhecimento da humanidade e na preparação da missa dominical, onde “… tu raramente apareces, Nandinho …”, costumava o padre rematar, na esperança de que a crítica velada desse por terminada a ladainha de brejeirices eclesiásticas, com que frequentemente costumava mimosear o padre.

Nandinho enchia o peito e saía de argumento de ocasião em punho, disposto a enfrentar aquela força viva da aldeia, com quanto ânimo tivesse e o vinho permitisse esclarecer os seus pontos de vista.

– E quando é que o senhor Prior se lembra de passar as missas para a parte da tarde? São sempre às nove horas da manhã! Ora a essa hora ainda não estou em condições de rezar porque, se me ajoelho, já não consigo alevantar-me outra vez… – observava o Nandinho em busca de uma alternativa que lhe servisse os interesses.

– Além disso consta-me que Deus disse: “… ao sétimo dia descansarás!”. Atão porque é que eu não posso descansar ao sétimo dia…? – acrescentava ainda antes do padre ter tempo para replicar à primeira questão.

– Ir à missa não é trabalho, Nandinho. É um encontro com Deus, é ouvir a sua palavra – tentava o padre, procurando trazê-lo à razão.

Em busca de algum equilíbrio e de mão na testa num claro intuito de concentração no problema, Nandinho replicava:

– Espere lá senhor Prior, espere lá! Atão a missa é o seu ofício? Aquela bandejazinha qu’anda a tilintar de mão em mão é o pagamento pelo seu trabalho? Então quer dizer que o senhor Prior trabalha ao Domingo e respeita a palavra de Deus…! – terminava de dedo em riste voltado aos céus, enquanto a outra mão se mantinha ainda agarrada à testa, como se a espremesse em busca da parte restante do raciocínio que lhe acabava de sair.

…/…

– Anda tropa nas ruas de Lisboa…! – era o almoxarife dos Correios, Amadeu Nobre, quem o afirmava à chegada, com as mãos metidas nos bolsos de trás das calças, casaco às costas pendurado nos ombros, claro sinal de preocupação, a que juntava o semblante carregado de que as coisas não pareciam ir bem.

Este ir bem queria significar um claro desvio a rotinas caucionadas por dezenas de anos a fio em que nada de novo acontecia, nem era permitido, ou previsível, que acontecesse.

– Consegui ligar para um parente meu do Barreiro e ele é que me disse. Mais não sabe, mas parece que aquilo anda por lá num reboliço.

– Reboliço…? Ó Amadeu, mas então, reboliço como? – perguntava o senhor Lisboa.

– É só o que sei. A ligação estava má e o meu parente dispunha-se a ir para a rua saber de mais novidades, já que pela rádio pouco se vai sabendo nesta altura.

A notícia correu como vento levando a poeira das ruas a todos os recantos. O ajuntamento foi crescendo e eram agora mais as mulheres que os homens, até porque, entretanto, era já hora da venda do peixe cuja freguesia era constituída, na sua maioria, pelas domésticas, em boa parte dispensadas das duras tarefas do campo, ou com alguma disponibilidade para dividir alguns afazeres caseiros e pequenos amanhos da terra.

– Ó diacho! Isso é capaz de não ser boa coisa. Quer dizer; não sabemos se é boa ou má. É assim como os melões. Mas o que é certo é que não tenho ideia de tropa na rua desde a implantação da República – voltava o senhor José Lisboa, dando voltas à memória e a um estatuto de conhecimento muito considerado na aldeia.

– Cá para mim o Marcelo Caetano fez uma limpeza aos comunistas. Tropa na rua só pode ser isso. Levantaram a grimpa e ele cortou o mal pela raiz. Por acaso hoje até estou a achar uma coisa estranha – acrescentava o Luís da Mana.

…/…

O alarido irrompeu tão abrupto e intenso que o próprio cão, dando por fundados os seus receios, encolheu ainda mais o rabo e saiu disparado ganindo um medo que afinal veio a colher fundamento e razão para as suspeitas pressagiadas momentos antes.

Descomedidos, os homens saltavam agarrando-se uns aos outros numa dança sem tom nem ritmo definidos, enquanto as mulheres, mais atinadas, se limitavam a abraçarem-se umas, enquanto as outras batiam palmas e gritavam vivas, sem contudo participarem na algazarra que por ali eclodia, qual vulcão em explosão de lava após anos e anos de adormecimento.

António Gameiro, de prevenção, sacou do fole e não esteve com mais aquelas. Saiu-lhe um corridinho, pois então, que mais pareceu fogo ateado em pasto seco de Agosto. Aí então é que não houve vivalma que não se sentisse em labareda de alegria e se não deixasse atear por aquele incêndio contagiante de calor benigno que a todos enfeitiçava.

De todos os lados ia chegando mais gente tornando o pequeno largo dos correios acanhado para conter tanta alegria. O sino da igreja não demorou muito que não repenicasse um ressoado de batidas metálicas dadas com tanto afinco, que mais parecia um toque a rebate de uma tragédia qualquer, ecoando pelas cercanias.

…/…

A grande Assembleia-Geral (que na verdade se tratava de um Plenário de Eleitores, tendo em conta o número de recenseados), marcada para as três horas em ponto, deu em juntar gente à porta da Sociedade pouco passava das duas.

Mal se juntaram os mais ansiosos, chegaram também os cães.

Aglomerado inusitado, para os cães era sinal de festa.

Festa… comezaina; torresmos, bifanas, chouriços e costeletas grelhadas no fogo de boa madeira e… ossos que davam para filar e roer pela noite fora.

Bem que os bichos levantavam o focinho em busca do aroma da carne a fumegar no calor sadio e acolhedor das brasas. Mas nada; apenas uma mistura de excesso de brilhantina para o cabelo e um perfume intenso a rosas (muito em voga na altura) que induzia os caninos a alçarem a pata numa palmeira muito antiga plantada ali mesmo ao lado, num prenúncio que Nandinho acautelava: “… cá p’ra mim parece-me que nim mesme os cães estão muito intusiasmades com a Assembleia…”

…/…

O burburinho veio do interior da sala, ainda decorria o intervalo determinado pelo presidente.

Ouviam-se vozes alteradas altercando-se entre si, ao mesmo tempo que as cadeiras acusavam um ou outro maltrato, ao serem arrastadas pelo chão de soalho da sala.

Uivam os cães e reentra apressada toda aquela gente na sala.

A vozearia era desconforme e pouco perceptível quando ao que cada um dizia.

Na sala quase toda a gente estava em pé e falava gesticulando.

Francisco Cuco parecia o mais acossado, acolitado por dois ou três correligionários, gesticulava com veemência o braço direito com o indicador bem apontado ao grupo mais próximo que o intimidava.

A Isaurinha Cortes tinha-lhe dado um chlique e esparramava-se numa cadeira com os olhos meio revirados – uma “coisa” que lhe costumava dar em determinadas alturas, havendo quem afiançasse que era dos nerves… – enquanto algumas amigas a abanavam com a folha A-4 da Ordem de Trabalhos. As cadeiras haviam entrado em desalinho e a desordem parecia instalada.

– Tragam um copo de água – dizia alguém próximo da Isaurinha Cortes.

– Tragam um bagacinho e esfreguem-lhe nas fontes – alvitrava o Nandinho, enquanto calmamente despejava a onçinha de tabaco na mortalha de papel, esboçando mais um cigarro que ficaria ao canto da boca, ou atrás da orelha, até que, cumprida a Ordem de Trabalhos, lhe fosse dada a permissão de lhe chegar fogo.

…/…

– Pode falar Ti Celestina.

Atão, tome lá nota. É cá nasci aqui na aldeia vai fazer setenta e dois anos pr’ó mês que vem. Passei aqui as ditas passinhas do Algarve. Munta fominha e munta madrugada a espezinhar nas geadas do Janêro e Fevrêro, roende-se-me os pés com friêras, que já nim as sintia de os ter gelados. Nos calmêros do Verão cozia-se-me o corpo com os calores na apanha da alfarroba, da amêndoa e do figue. Roguei muntas pragas ó Salazar, mesme sim o conhecer. Mas tamém na era precise. Só um pêrre daqueles governava um pove assim e deixava as pessoas num sofrimente tã grande. Caíram-se-me os dentes com a idade, quando eu pinsava que os dentes caíam mais depressa ós ricos, mas era deles comerem tante. Afinal os meus forem-se embora e pouco uso lhes dei. Vi nascer filhes e netes e vi todes eles a passarem as mesmas dores que eu. Vi o Soizinha sempre barrigudo e a engordar sem trabalhar e isso enferneziou-me os nerves, quando foi soando que ele estava metide com os da secreta, ou da pide, ou o rai que era aquile. Vi o senhor Castro sempre luzidio e nunca o vi a trabalhar; ouvi as quêxas do pessoal que ele trazia à jorna, dezendo que passavem fome com aquile que lá ganhavem; mas as propriedades dele apanhavem duas freguesias; agora com a nossa, já são três. Fui à praia três vezes na nha vida e o mar da praia aqui perto; aquile foi um regalo de se ver e uma festa. Tomámos banho de sabão e tude. Só fui à escola dois anos. O pai dezia que a escola era para os dotores. Dezia que a escola do campo – escola da terra e das árvores – é que ensinava a ler; que nunca tinha viste ninguém a encher a barriga com as letras dos livros, ou os númaros das contas. Mas ele tava inganade. É cá gostava de saber ler melhor do qu’é cá sei, que mal junte as letras. Mas na havia tempe; o campo tinha munte trabalhe e a escola ficava longe. Agora parece que querim pôr aí uma escola p’ra adultes; é vou-me inscrever Amadeu. Diz que burre velhe na aprende, mas é quêre saber se isse é verdade. E foi assim a nha vida e assim hei-de ir pr’a baixo dos torrões. Agora, mai de setenta anos depois, entra-me a revolução pelas portas adentre. Diz que é a liberdade e a democracia. A liberdade é percebi e gostei; levei três dias a chamar nomes ao Salazar in voz alta, inté ficar rôca; precurei o Soizinha pr’a lhe esfregar as mãos nas ventas, mas ele já tinha dade semiço; e ainda bem pr’a ele.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: