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Futebol – Teoria do Treino do Guarda-redes * Parte III

TEORIA DO TREINO DO GUARDA-REDES

PARTE III

O Treino Técnico

O treino técnico dos GR dilui-se bastante no treino táctico, permitindo assim potenciar o seu desenvolvimento durante aquele trabalho.

Contudo, é possível isolar alguns aspectos técnicos mais específicos e trabalhá-los com alguma profundidade, sem esquecer que qualquer esquema particular de trabalho se enquadra num contexto específico de actuação, onde o isolamento das partes apenas confere um apuramento específico de uma determinada performance, que virá a ser enquadrada na complexidade de actuação do GR.

As transformações que a bola de jogo tem vindo a sofrer ao longo destes últimos tempos, têm, de algum modo, obrigado os GR a alterarem alguns comportamentos, podendo dizer-se que é o jogador mais visado e “prejudicado” com as alterações introduzidas.

A escassez de golos tem preocupado os responsáveis máximos do futebol e uma das medidas tendentes a alterar esta circunstância, a par de algumas alterações das regras, foi a modificação das texturas e estrutura da bola, tornando-a objectivamente mais caprichosa, por via das trajectórias, muitas vezes estranhas, que passou a percorrer, deixando os GR frequentemente perplexos e indecisos quanto às atitudes a tomar perante um remate desferido a alguma distância.

O agarrar da bola “com mãos de ferro…”, como outrora foi lema e, até certo ponto, uma espécie de artefacto que fomentou lendas que perduraram no tempo até aos nossos dias, tem vindo a perder importância em detrimento do afastar da bola com os punhos, o que muitas vezes apenas resolve metade do problema, gerando, em contrapartida, outros.

Perdeu-se um pouco a sensação de alívio de lance terminado e resolvido com a bola firme e segura nas mãos do GR, gerando-se, em contrapartida, a insegurança do afastamento momentâneo do perigo da proximidade da baliza, mas continuidade da pressão do adversário, com cerca de 50% de probabilidades da bola ser de novo retomada pela equipa atacante.

Aceitando-se que a opção de agarrar a bola se tenha tornado numa escolha de risco, em determinadas circunstâncias, deixando em aberto a probabilidade desta se escapar das mãos do GR numa zona de perigo iminente, oferecendo ao adversário a probabilidade de concretização fácil, mantemos, contudo, a convicção de que o treino no adestramento desta segurança não deve ser descurado, ainda que a decisão pela opção de agarrar ou socar a bola deva ser atribuída inteiramente ao GR.

Como sempre temos vindo a defender, cabe-lhe decidir-se pela opção mais adequada de acordo com a leitura que faz do lance, o que ocorrerá tendo em conta o volume de experiências que realizou em treino e lhe permitem definir com critério a melhor opção em cada instante de intervenção.

A instabilidade das trajectórias da bola não pode ser ignorada. Contudo, deverá caber ao GR a tomada de decisão sobre a circunstância em que deve optar por segurar ou rechaçar o remate, tendo em conta a inconstância do seu trajecto.

Optar por incutir no GR em treino o privilégio da opção de utilização dos punhos, é correr o sério risco da utilização constante desta atitude em jogo, com o aumento considerável da instabilidade defensiva e acréscimo da probabilidade de êxito por parte do adversário.

Convirá ter em conta que é no treino que se adquirem os bons hábitos e se definem as melhores condutas. Neste contexto, é no treino que devem ser proporcionadas todas as oportunidades de gestão e percepção dos erros, no sentido da sua identificação, como meio mais adequado para uma escolha criteriosa e ajustada no momento próprio de agir, o que, naturalmente, tenderá para uma melhor garantia de eficácia e sucesso.

Deve, pois, ser no treino que o GR deve cometer os erros, que procurará identificar e consciencializar, de modo a que em jogo os consiga eliminar por identificação dos seus contornos.

Este princípio tem vindo a ser repetidamente aflorado, mas nunca é demais lembrá-lo.

Ora isto não deve significar que se cometam deliberadamente erros para identificação, mas sim que se proporcionem situações de dificuldade que possam proporcionar a ocorrência de erros, o que confere uma perspectiva bem diversa.

O erro deve ser consequência de uma situação de dificuldade ostensivamente incrementada, procurando, se possível, ir um pouco além do limite máximo de uma ocorrência em jogo.

Exemplo:

Treino de segurar a bola com ambas as mãos, sem a encaixar.

Remates de curta distância desferidos sem deixar cair a bola no chão.

Incremento:

1-     Aumentar a intensidade do remate;

2-     Alterar a trajectória da bola, desviando-a ligeiramente do GR;

3-     Diminuir a distância do ponto do remate ao GR;

4-     Molhar a bola;

5-     O GR utiliza luvas molhadas;

6-     Utilização de uma outra substância líquida misturada com a água que torne a bola e as luvas ainda mais escorregadias (ou utilização de luvas de má qualidade que dificultem o segurar da bola).

Este um exemplo de incremento de dificuldades colocadas à acção do GR, que irá aos poucos proporcionando a ocorrência de problemas e erros que este procurará superar, propiciando-lhe um aquisição superior de adestramento, que tenderá a tornar mais fácil a resolução das dificuldades de nível inferior que ocorrerão no jogo.

No máximo, em jogo, o GR poderá vir a encontrar um dia de chuva em que a bola estará molhada, bem assim como o seu equipamento auxiliar (no caso as luvas), o que se constituirá numa dificuldade de nível inferior, se o atleta estiver habituado a um treino onde a bola se apresenta mais escorregadia, logo a um nível bem mais elevado de adestramento de controlo.

Nota:

Aos jovens técnicos convém alertar que a adopção desta, ou qualquer outra, perspectiva de trabalho não impede que num belo dia de sol o seu GR não deixe escapar uma bola aparentemente fácil, proporcionando ao adversário uma concretização inoportuna, que ditará a derrota da sua equipa. O futebol comporta um sem número de imponderáveis impossíveis de controlar. Convirá ter presente que toda e qualquer perspectiva de treino visa a redução ao mínimo possível da eventualidade de erro por parte do atleta. Jamais a pretensão de contornar por completo a ocorrência de falhas. Dir-se-ia mesmo que isso é “desumano”…

As inconsequências e os perigos das rotinas de treino.

Assistindo um dia a um treino de um dos chamados grandes do futebol nacional, ocorria o trabalho com os GR que se alternavam na baliza para defenderem remates proporcionados pelo técnico. Os remates eram dirigidos a meia altura, ora à direita, ora à esquerda, todos eles desferidos com idêntica intensidade e ao mesmo nível do chão.

Com frequência ocorriam belas defesas sob o aplauso e incentivo do técnico. Porém, sem que alguém tivesse, aparentemente, notado, por vezes o técnico “falhava” o remate e este saía um pouco acima do que vinha sendo rotina. Como resultado, os GR mergulhavam e a bola passava-lhes por cima. Por mais que procurassem esticar o braço durante o mergulho, a bola entrava bem acima do punho. Não se observou qualquer correcção, ficando claro e tácito que a inoperância dos GR se ficava a dever à qualidade do remate.

A repetição sistemática desta situação veio a demonstrar que ocorria um erro de rotina, cujas repercussões hão-de fazer-se sentir negativamente num belo dia e num momento de jogo menos desejável.

Ao serem proporcionadas séries de remates cuja variável era apenas a opção direita ou esquerda, e mesmo essa denunciada propositadamente pelo técnico, os GR partiam para um mergulho previsível, logo, adiantados à necessária tomada de decisão de acordo com os contornos do remate, o que impedia qualquer reformulação, sempre que a trajectória da bola percorria um trajecto diferente da rotina que vinha ocorrendo.

Se o técnico, num desses remates, tivesse apenas feito o gesto de rematar, mas ficando com a bola em seu poder, era por demais evidente que o GR voaria belo e formoso, embora a bola se mantivesse queda e inerte nas mãos do técnico.

Esta terá sido uma excelente oportunidade perdida de fazer o GR aprender, mobilizando as suas estruturas neurológicas no âmbito do equilíbrio e apuro na produção de um estímulo/resposta.

Neste caso, uma situação que ocorre com alguma frequência em treino e que confere uma rotina de gesto técnico sem qualquer proveito para a melhoria de performance do GR, antes induzindo um alheamento da avaliação antecipada e permanente que este deve fazer da trajectória da bola, a partir da qual tomará a decisão adequada que conferirá uma resposta ajustada a cada situação.

Essa circunstância é muitas vezes induzida pelo próprio GR quando, por exemplo, num trabalho de treino físico é solicitado a mergulhar à direita e à esquerda, movendo-se (levantando e mergulhando) o mais rápido que lhe for possível.

Mesmo nessas situações este deve ser “enganado” com alguma regularidade a fim de que, não só não interiorize a rotina, mas, essencialmente, se mantenha desperto e atento quanto ao estímulo bola, caracterizando as suas trajectórias a fim de reagir de acordo.

Tal como o próprio jogo, as situações de treino devem ocorrer como se de um jogo se tratasse, sem avisos prévios nem preparação para o que vai ocorrer.

Isso transmitirá ao GR a necessidade de se encontrar permanentemente atento e desperto para as variantes do treino, aproximando-se da atitude em jogo, o que não ocorrerá se o atleta for “informado” com antecedência daquilo que vai acontecer.

Em treino o estado de espírito do atleta tende para um certo relaxamento em contraste com a pressão do jogo. Torna-se pois aconselhável criar alguma instabilidade em treino que de certo modo elimine excessos de descompressão, cujo espírito entra em contradição com a situação de jogo. Sugere-se, assim, a produção de alternâncias que contrariem eventuais momentos de desconcentração, que a situação de treino habitualmente propicia.

Teste:

Sem qualquer explicação preliminar foi proporcionado a um GR o seguinte trabalho:

Técnico com a bola na mão, lançava-a rasteira, ora à direita, ora à esquerda, obrigando o GR a mergulhar rápido para captá-la. A alternância era sempre a mesma: direita/esquerda, direita/esquerda.

Após algumas sequências, com excelente resposta do GR, o técnico simulou a sequência normal para um dos lados, mas reteve a bola e lançou-a para o lado contrário, enquanto o GR mergulhava, em vão e alguma confusão, para o lado habitual, mas agora contrário à bola.

O técnico não teceu qualquer comentário ante alguma apreensão do GR e o treino recomeçou com a rotina habitual.

Ocorreu de imediato que o GR passou a chegar ligeiramente atrasado à bola, relativamente ao trabalho anterior, mas evidenciou uma maior velocidade de execução para conseguir captá-la a fim de compensar o atraso.

Em determinada altura o técnico voltou a simular um lançamento sequencial para um determinado lado, retendo a bola em seu poder, enviando-a para o lado contrário.

O GR apenas se desequilibrou para o lado da sequência habitual, mas de imediato corrigiu e, ainda que atrasado, mergulhou atrás da bola, conseguindo ainda desviá-la com a ponta dos dedos e em enorme esforço.

Uma terceira sequência semelhante garantiu uma resposta ainda mais adequada do GR. Mas essencialmente, aquilo que mais se evidenciou foi que o GR passou a dispensar uma muito maior atenção ao gesto do técnico, reagindo em conformidade.

Análise:

1- A resposta sequencial da primeira parte do treino não proporcionou qualquer ganho, uma vez que o estímulo, sendo uma mera repetição de acções todas iguais, praticamente não funciona como estímulo. Trata-se de uma rotina rapidamente apreendida. A resposta era, pois, “copiada” a partir de um gesto conhecido e dominado, sem necessidade de análise e elaboração de resposta adequada. Jamais tal circunstância ocorre numa situação de jogo, nem este trabalho tem qualquer transposição para a realidade.

2- Bastou uma breve quebra na rotina para ocorrer uma alteração de comportamento, determinando de imediato uma espécie de “acordar” para o verdadeiro estímulo/resposta, onde esta (a resposta) é verdadeiramente elaborada e construída a partir de um estímulo “novo” e imprevisível, que obriga a uma adequação específica de comportamento.

3- A partir do momento em que a rotina se esfumou, o atleta alterou a sua conduta, passando a reagir por adequação de comportamento, o que permitiu uma melhoria sensível do treino da velocidade de reacção e a cimentação de um estado permanente de vigília em relação à bola e aos caprichos das suas trajectórias.

4- O que, essencialmente, aconteceu foi que o atleta passou a treinar obedecendo a um critério de análise/resposta adequada, obrigando-o a roçar os limites de esforço para resolução de um problema, e não apenas resposta a uma sequência de grau de dificuldade praticamente nulo, por conhecimento antecipado da resposta apropriada.

Um atleta habituado, ou rotinado, em esquemas de rotina, tenderá a responder em jogo de forma semelhante por abrandamento da concentração.

Ou seja; as chamadas bolas fáceis induzirão o GR a uma dispensa de atenção menor, originando com alguma frequência a sua perda, com as consequências desportivas e psicológicas que se conhecem.

O conhecido “frango” não é mais que o produto de uma desconcentração momentânea; de uma dispersão da atenção por aparente ausência de dificuldades. Esta atitude conduz a um abrandamento na utilização dos recursos disponíveis, impedindo uma leitura completa e adequada dos contornos da trajectória da bola e consequente erro por omissão.

Genericamente o ser humano tende a responder de acordo com as circunstâncias que habitualmente o rodeiam e lhe condicionam a existência. Sendo o homem um animal de hábitos, as nossas estruturas de vigilância adequam-se às situações que vão sendo despoletadas, reagindo em conformidade. O nível de estado de vigilância baixa à medida que se for instalando a rotina.

Se quisermos encontrar um exemplo, um tanto folclórico, é certo, para ilustrar esta realidade poderíamos considerar que um camponês tem muito mais probabilidades de ser atropelado numa rua de Lisboa do que um citadino. Por sua vez este poderá ter graves problemas com o cão do lavrador se porventura entrar nos seus domínios, quer vá com boas ou más intenções…

O treino técnico específico do GR

Relativamente aos restantes jogadores da equipa, o GR será aquele que menor amplitude de áreas de intervenção da dimensão técnica específica necessita. A sua aplicabilidade é diminuta e resume-se a duas ou três qualidades que conformam o seu desempenho.

Contudo, e em contrapartida, o seu apuro é bem mais importante se considerarmos as consequências de uma falha técnica na acção do GR.

No desempenho de qualquer jogador de campo, uma menor disponibilidade técnica pode ser, quase sempre, colmatada por um companheiro, ou não fosse o futebol um jogo de equipa.

Contudo, quando essa falha ocorre com o GR sucede quase invariavelmente ao contrário: muito dificilmente um companheiro pode acorrer em seu auxílio.

No fundo, o resultado do jogo resulta, em boa medida, duma determinada garantia de segurança proporcionada pelo GR, razão pela qual advogamos a importância de um tratamento mais aturado e cuidado, como, o que, mais recentemente, se vem observando, quanto ao apuro técnico, táctico e de condição física dos GR.

Conforme já referido, o trabalho técnico dos GR não comporta uma grande variedade de aspectos e confunde-se muito com o trabalho táctico, já aflorado noutro capítulo.

Na sua essência ele conforma-se, e quase que se resume, à capacidade e firmeza na captação da bola, ou no seu afastamento eficaz, quando a primeira prioridade se mostrar inviável ou desajustada, e na adopção de um determinado comportamento de configuração de um obstáculo eficaz ao preenchimento do espaço da baliza, utilizando o corpo.

Em termos médios, a percentagem de bolas que são efectivamente captadas pelos GR, relativamente às que são rechaçadas com os punhos, ou com as mãos, ou ainda objecto de utilização do corpo como obstáculo de última instância, é substancialmente maior e constitui-se no elemento mais importante da acção dos GR.

Não obstante, isto não deve conferir que haja aspectos que devam merecer menos cuidado, uma vez que a acção do GR se mede pela sua eficácia geral e não pela melhor ou pior performance deste ou daquele aspecto.

O GR é praticamente o único a quem “não é permitido falhar”.

Trabalho de segurança na captação da bola.

Quer no início no treino, quer no início da preparação para o jogo, sugere-se que o GR seja solicitado a captar algumas bolas relativamente fáceis sem a utilização das luvas, (mãos nuas, portanto) promovendo um contacto directo das mãos com a estrutura e conformação da bola, no sentido duma integração mais consistente das suas características.

Deve ser o técnico a avaliar a fraca e média intensidade dos remates (sempre à figura do GR) e desferidos de distâncias variáveis que vão dos 3 aos 10 metros. Em causa está, obviamente, a integridade do atleta, pelo que a moderação deve ser observada com critério

Trata-se de uma fase introdutória do treino, ou da preparação do jogo, prosseguindo posteriormente com a normalidade do trabalho e equipamento.

Ainda que este tipo de abordagem não configure a perspectiva de uma resultante de vulto, admite-se que o contacto mais directo e sensível com a estrutura, configuração e comportamento da bola, permita um melhor registo na estrutura neurológica do atleta, proporcionando-lhe uma base de dados bem mais concisa e prestativa para elaborações posteriores.

Conforme já referido, a segurança na captação da bola deve merecer um trabalho aturado de treino, embora salvaguardando sempre, em sintonia com os atletas, que a perspectiva de opção de a agarrar obedece a um critério, cuja avaliação pertence por inteiro ao atleta.

Contudo, não deverá ser no treino que essa opção deve ser tomada. No treino a opção primeira e essencial será sempre a de tentar agarrar a bola, único e melhor meio de a retirar à acção do adversário. O GR só apreenderá as bolas que não deve tentar segurar quando, em treino, as procurar agarrar sem o conseguir.

O princípio é sempre o mesmo.

Como diria o meu velho professor… “Não aprendo a andar de bicicleta, andando de autocarro…”

Ou seja; não aprendo a agarrar, ou a optar por agarrar ou não, optando em treino por socar ou rechaçar a bola.

Exercícios:

Exercício 1 – Utilização de vários tipos de bolas quanto ao seu peso, textura e comportamento, mantendo inalterável, quanto possível, as suas dimensões. Não se configura a obtenção de qualquer ganho proporcionar alterações no tamanho da bola.

Exemplo: bola de futebol normal, bola de basquetebol utilizada nas camadas jovens (com superfície lisa e gasta), bola de voleibol de jogo, bola de voleibol de iniciação (esponjosa ou densidade leve).

Trabalho:

Remates directos à figura do GR sem deixar cair a bola no chão, alternando as bolas numa sequência, a mais aleatória possível, solicitando ao GR que procure segurar com firmeza cada remate.

Variantes:

– Distância;

– Intensidade;

– Direcção; (o afastamento máximo da direcção da bola do GR deve permitir que este consiga captar a bola com ambas as mãos sem necessidade de se deslocar)

Objectivo:

Criar uma instabilidade induzida nos comportamentos da bola, de modo a promover o estabelecimento de um estado de permanente de vigilância e adequação do gesto técnico.

Comentário:

Este trabalho, a que atribuímos uma importância fundamental no capítulo da segurança, procura subverter a tendência para a instalação de rotinas na avaliação dos comportamentos da bola, circunstância que se revelará de transcendente importância na instauração de um estado de espírito de permanente prevenção no momento da definição da atitude e do contacto com a bola.

A coordenação motora confere uma sequência de actos cujos contornos não compreendem uma elaboração consciente, encontrando-se dependente duma relação de função cérebro/estruturas motoras, de cuja afinação dependerá a justeza da resposta requerida.

É também essa consonância e eficácia que se pretende obter, ao proporcionar uma variedade alternada de estímulos, que permita um enriquecimento desses mecanismos cujas respostas se processam em milésimos de segundo.

Exercício 2 – Trabalho semelhante, utilizando uma bola de jogo frequentemente molhada, de modo a conferir um grau de dificuldade acrescido na sua captação. A utilização de um pouco de vaselina líquida diluída na água constituirá um acréscimo de dificuldade com alguma importância.

Trabalho:

Situação idêntica ao exercício anterior em termos de distância, intensidade e direcção. A alternância consiste na utilização de bolas secas, molhadas em água e molhadas na solução referida.

Os objectivos a perseguir são os mesmos.

Exercício 3 – Escolha de uma baliza com terreno em más condições, ou colocação de uma baliza móvel numa zona de terreno revolto.

Trabalho:

Remates rasteiros de modo a que a bola obtenha alterações de trajectória nos acidentes do terreno. Neste caso os remates serão desferidos de modo a o GR mergulhe à direita e à esquerda. Devem igualmente ser desferidos remates à figura fazendo a bola bater à frente do GR. Na ausência das condições de terreno preconizadas (situação mais rica) podem utilizar-se objectos espalhados à frente do GR (cones de baixo relevo e um sem fim de obstáculos criativos) de modo a criar instabilidade à trajectória da bola.

Neste caso, importante alternar remates desferidos próximo do GR, com outros executados de fora da área, mantendo a perspectiva de trajectória rasteira com ressalto nos acidentes de terreno, naturais ou artificiais.

Prioridade no agarrar da bola.

O treino visa a segurança no agarrar da bola pelo que não deve conter (treinar) a utilização de situações de recurso (rechaçar da bola).

O recurso deve ser sempre isso mesmo; um recurso.

Ou seja, a impossibilidade duma execução concreta, segura e definitiva.

Os objectivos continuam semelhantes, ou seja; proporcionar instabilidade no comportamento da bola de modo a manter sempre activa a vigilância do GR em relação ao seu comportamento, procurando que se instale essa forma de estar, na perspectiva de um hábito que se prolonga no jogo e não uma circunstância pontual de treino que termina mal este acabe.

Ora, tal só poderá ocorrer, caso todas, ou praticamente todas, as circunstâncias de treino técnico contenham um qualquer factor de instabilidade que inviabilize qualquer processo de desconcentração ou abaixamento dos níveis de vigilância.

Exercício 4 – Dois jogadores com bola, situados, um muito próximo da marca de canto, outro com a bola nas imediações do encontro da linha da grande-área com a linha final. GR na baliza preparado para intervir num cruzamento.

A um sinal do técnico (desconhecido para o GR e que determinará qual dos jogadores deve executar a acção) um dos dois jogadores cruza a bola para a zona que vai do limite da pequena-área até à marca de grande penalidade.

O GR procurará adaptar a sua atitude à circunstância que ocorrer, adequando o seu posicionamento para a intervenção necessária, tendo em conta a perspectiva táctica já enunciada num outro capítulo deste trabalho.

Objectivo:

Proporcionar situações diferenciadas que impliquem reformulação rápida e adequada à circunstância, em termos de reposicionamento e perspectiva de intervenção.

Apontamento final

A partir destes princípios, e conforme temos vindo a afirmar, a imaginação do técnico não deverá ter limites.

Este trabalho não pretende ser uma colecção de exercícios a transpor “gratuitamente” para o terreno. Constitui-se mais numa defesa de princípios que permitam elaborar esquemas de trabalho adequados, quer às condições de trabalho, quer às características e necessidades dos atletas, quer ainda ao respeito pela perspectiva pessoal que cada técnico entender implementar ao seu trabalho, reformulando ou reinventando as ideias, ou propostas de trabalho aqui apresentadas.

Conforme já referido noutro local, o próprio trabalho táctico abarca inúmeros aspectos de ordem técnica que deverão ser valorizados em simultâneo.

Por fim, reafirmar, com bastante convicção, a importância que deve ser dada à constituição de uma equipa destinada ao apuro técnico-táctico dos GR, uma atitude que vem sofrendo um incremento considerável nos últimos tempos, nomeadamente nas equipas de topo, logo, melhor apetrechadas e de responsabilidades acrescidas.

Nenhum outro jogador de campo carece de um apuro técnico, táctico e de condição física tão esmerado como GR.

Nenhum outro jogador tem à sua inteira e única responsabilidade um espaço de terreno tão vital com o GR.

Todos se vão lembrar e vangloriar do jogador que marcou o golo da vitória.

De igual modo, mas por motivos bem diversos, poucos se vão esquecer do GR que permitiu um golo fácil ao adversário, o qual determinou a derrota.

Muito poucos se lembrarão das duas ou três defesas excepcionais do GR que garantiram a vitória e o sucesso da equipa. “Ele está lá para isso…”

Toda a equipa falha quando se sofre um golo.

Mas, o que, invariavelmente, fica na retina é o último… O quem, na verdade, sofreu o golo…

O GR merece, pois, um apoio especial e aturado, que lhe permita ser mais recordado pelo “pouco” que faz de positivo e menos pelo “muito” que faz de errado.

Pedro Cabrita

(Lic. Ed. Física)

petruscabritas@gmail.com

Trabalho alojado no site:

http://treinofutebol.net/Artigosfutebol1.html

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