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Futebol – Teoria do Treino do Guarda-redes * Parte II

TEORIA DO TREINO DO GUARDA-REDES

PARTE II

Treino Táctico e Psicológico

Posicionamentos, estratégias e atitudes

–         Bola no Campo do Adversário

–         Atacante adversário isolado com a bola dominada ainda fora da área ou nos seus limites

–         A “Mancha”

–         O Pontapé-de-canto

–         Os Livres

–         A Grande Penalidade

Bola no Campo do Adversário

Tendo em conta a velocidade a que hoje é jogado o futebol – o que tem vindo a obrigar a uma constante, e cada vez maior, diversificação da atribuição de responsabilidades a cada jogador – também ao guarda-redes (G.R.) deve ser atribuído algo mais que a simples defesa da sua baliza, sempre que o adversário dela se acerca.

Embora a especificidade da sua função o impeça de empreender outras acções bem mais próximas daquelas que estão cometidas aos seus companheiros de equipa, há atitudes, por vezes de mera dissuasão ou complementaridade, que lhe podem ser atribuídas, cuja eficácia pode apresentar-se, com frequência, determinante no objectivo essencial da sua actuação, que é o de não sofrer golos.

É possível enquadrar o posicionamento do G.R. no topo desse conjunto de atitudes quando a bola se encontra ainda bem longe da sua área habitual de acção.

Habitualmente, sempre que a bola se encontra distante da sua área de acção, o G.R. adopta uma postura de mero espectador, mais ou menos distante do jogo, fazendo por passar aquele tempo em que não é solicitado de uma forma displicente e com frequência desligado dos acontecimentos que ocorrem distantes de si.

Propomos uma outra atitude de ligação permanente ao jogo com um posicionamento (cerca de 5, 10 ou 15 metros) à frente da meia-lua da grande-área, variando o seu afastamento desta consoante a distância a que a bola se encontra, enquanto no campo do adversário.

O jogador deve manter uma leitura permanente do desenrolar jogo, mas essencialmente da eventualidade de um lançamento longo por parte do adversário que implique uma actuação muito rápida e adequada da sua parte, cortando o lance fora da sua grande-área e eliminando assim, logo pela raiz, um potencial contra-ataque perigoso do adversário e até atalhar a necessidade de um esforço de recuperação dos companheiros mais recuados da defensiva.

A sua movimentação (e recuo desta posição para o interior da área, logo que o adversário empreenda uma acção ofensiva organizada) deve ser observada a partir da leitura do evoluir da estratégia do adversário e adaptar-se à probabilidade, ou não, da ocorrência da possibilidade de uma acção por parte deste que implique (e permita) a sua saída ao encontro da bola.

Trata-se de uma espécie de função de primeiro libero que, não só mantém o G.R. mais integrado no envolvimento do jogo, como, com um simples posicionamento no terreno, torna possível atalhar uma acção perigosa por parte do adversário e limitar desgastes dos companheiros mais recuados.

Como toda e qualquer tomada de decisão que envolva a saída do G.R. da baliza, este posicionamento confere alguns riscos, nomeadamente de erro de cálculo do espaço-tempo, devendo o atleta considerar em permanência a possibilidade de abortar uma qualquer decisão sempre que se pronuncie a eventualidade de risco da acção. Qualquer dúvida na resultante desta deve implicar a renúncia da saída e adopção de um posicionamento adequado de acordo com o proposto mais adiante.

Exercício específico de treino:

– Guarda-redes colocados a 40 ou 50 metros de distância uns dos outros (frente-a-frente de forem dois, em triângulo se forem três).

Trocar a bola entre si com pontapés longos. O G.R. que recebe a bola deverá dominá-la com um só toque, sem utilizar as mãos, e chutar para o outro no mais curto espaço de tempo possível. Não é importante que a bola vá na direcção exacta do outro jogador. É até aconselhável que se diferenciem as trajectórias a fim de criar situações diversificadas ao atleta que a recebe.

Criar outras situações semelhantes em que a solicitação é de chutar a bola de primeira numa determinada direcção.

Finalidade:

Treino do domínio rápido da bola em situações dentro e fora da área, com consequente envio da bola com eficiência para um companheiro, ou para fora, embora de preferência para um companheiro, uma vez que o facto de hoje haver mais que uma bola de jogo pode tornar a acção de atirar a bola fora pouco válida e desaconselhável em termos de ganho de tempo para recuperação da baliza.

Atacante adversário isolado com a bola dominada ainda fora da área, ou nos seus limites

Neste ponto há dois aspectos primordiais a observar:

1-     A escolha do tempo certo para sair da baliza, não dando oportunidade ao jogador atacante de procurar passar a bola por cima (o conhecido “chapéu”) e;

2-     Sair e aproximar do adversário na máxima velocidade possível, dificultando a opção anterior, mas, essencialmente, condicionando a estratégia do atacante, colocando-lhe pressão por lhe retirar tempo e espaço de manobra.

O momento da tomada de decisão é um tempo breve e único, cuja opção é determinante. A velocidade de execução é uma arma comum e fundamental a qualquer actividade desportiva. Na presente situação, o jogador que traz a bola, naturalmente pressionado pelo adversário que vem em sua perseguição, é obrigado a condicionar a sua estratégia à atitude do G.R.. O tempo de raciocínio é curto e as alternativas pouco diversificadas. Nesta perspectiva, uma pressão proporcionada de forma repentina, agressiva e condicionadora do espaço e do tempo, pressiona o jogador que transporta a bola reduzindo-lhe o espaço de manobra e o tempo para escolher a solução mais adequada, ou criar alternativas.

A importância do deslocamento muito rápido em direcção ao jogador que transporta a bola, além das vantagens atrás referidas, colhe ainda uma outra que é a de, qualquer adiantamento excessivo da bola por parte do atacante, poder permitir a recolha desta sem mais problemas, atalhando logo na raiz uma acção ofensiva de grande vantagem para o lado adversário.

A aproximação rápida a que nos referimos deve constituir-se num elemento surpresa, pressionante e condicionador.

Por outro lado, o refrear desta deslocação deve efectuar-se de forma brusca e já muito próxima do adversário (este elemento é de primordial importância) criando a ilusão de que se perspectivava um mergulho à bola, que com frequência se constata ocorrer e que entendemos claramente desaconselhável.

O mergulho denuncia a estratégia do G.R., confina-lhe o espaço de acção e retira-lhe respostas alternativas sugeridas pelas opções que o atacante vier a tomar no momento do encontro. Ainda porque um jogador caído no chão (qualquer que ele seja) é um jogador batido, caso o lance tenha continuidade a partir da hipotética ineficácia da sua acção. No caso do G.R. a sua ineficiência traduz-se normalmente em golo.

Por outro lado, o mergulho em que o G.R. adopta habitualmente uma posição horizontal, retira-lhe amplitude vertical podendo abrir, em simultâneo, uma segunda brecha entre o corpo e o solo, situações exploradas com grande subtileza pela sagacidade do atacante. Esta atitude é também geradora de situações de grande penalidade, amiudadas vezes provocadas pelo próprio atacante que se apercebe com bastante antecedência do posicionamento ou curso da trajectória do corpo do G.R., promovendo o contacto.

O mergulho aos pés do atacante afigura-se ajustado apenas quando este adianta claramente a bola e o G.R. perspectiva a possibilidade de lhe chegar primeiro, ou em simultâneo, ficando na sua posse ou criando uma barreira eficaz com o corpo que não dê tempo ao atacante de ficar com a bola e poder rodear o G.R., ou mesmo fazê-la passar por debaixo de si. É um tempo de decisão difícil que cabe ao jogador empreender de acordo com a leitura que faz do lance e a sua própria sensibilidade. A velocidade de aproximação ao jogador que conduz a bola isolado empreendida pelo G.R. continuará sempre a constituir-se como factor determinante na perspectiva de uma solução positiva para o lance.

No momento da sua aproximação máxima, o G.R. deve pois adoptar uma postura de ligeira flexão do tronco à frente com joelhos meio flectidos, braços pendendo lateralmente, com as mãos bem abertas procurando impedir ou dificultar o remate surpresa directo, mantendo e evidenciando de forma agressiva a disponibilidade para responder às alternativas de mudança de direcção que o atacante vier a empreender, deslocando-se lateralmente acompanhando o movimento do atacante, ou mergulhando para segurar ou afastar a bola, se a opção se vier a revelar adaptada às circunstâncias, no caso, à tentativa de drible.

Não só se nos afigura esta opção como a mais adequada, como ela confere ainda uma outra vantagem, obtida pelo facto desta forma de contenção poder permitir a aproximação do colega de equipa que persegue o atacante, conseguindo assim uma outra forma de pressão sobre este jogador, condicionando a sua actuação e as opções a empreender frente ao G.R., ou mesmo dando tempo a um reposicionamento da defesa.

Digamos que se trata de um posicionamento de contenção, tal como o empreenderia o último defesa, com a vantagem de poder usar o mergulho lateral e as mãos para afastar a bola.

Exercício específico de treino:

– Vários jogadores atacantes e outros tantos defesas sensivelmente a meio campo. Um G.R. na baliza.

Um atacante com bola é colocado a cerca de 15 metros da linha de meio-campo. Um defesa é colocado atrás de si a uma distância que pode variar entre os cinco e os dez metros. Contudo, o técnico avaliará a distância adequada, considerando a velocidade dos dois jogadores utilizados, a performance de cada um deles, ou o grau de dificuldade que pretende implementar ao exercício, no sentido de creditar a finalidade do mesmo. Ambos estão voltados para a baliza onde se encontra um G.R..

A um sinal sonoro partem ambos em direcção à baliza; o atacante transportando a bola e o defesa no seu encalço procurando chegar-se àquele e tirar-lhe a bola. Tanto quanto possível recrear a situação de jogo.

O atacante procurará fazer golo utilizando a opção que entender mais ajustada à movimentação do G.R.. O defesa tem por missão pressionar o atacante, procurando aproximar-se dele dificultando-lhe a acção, buscando mesmo desapossá-lo da bola se a ocasião se proporcionar.

O G.R. procurará anular o lance, ficando ao critério do atacante a utilização do modo que melhor se coadunar à atitude do G.R. (a saber: a tentativa de passara bola por cima deste, o remate antes do encontro, o drible, etc.).

Devem ser utilizados vários corredores do campo a fim de diversificar ao máximo a situação que se pretende criar.

Como se poderá verificar, as situações de treino criadas para o G.R. são igualmente momentos propícios ao adestramento técnico dos atacantes e defesas, pelo que devem ser programados com o técnico principal de modo a conjugar as acções com critério e oportunidade.

A “Mancha”

A saída do G.R. ao encontro do atacante que, pressionado e na proximidade da baliza, denuncia o propósito de remate no imediato, é um acto de abnegação e bravura e, como é costume dizer-se, neste contexto, cada um mostra a que tem e a mais não poderá ser obrigado.

Parece, pois, descabido afirmar-se que o G.R. deve enfrentar o lance sem virar a cara para o lado, olhando a bola e oferecendo, abnegadamente, a maior superfície possível do corpo ao impacto com esta. É uma espécie de alegre solicitação ao suicídio, como se isso fosse possível impor de fora para dentro, sem considerar a personalidade, os factores de abnegação e destemor que, especificamente, a cada um de nós é conferido.

O posicionamento da bola e do jogador que vai rematar pode sugerir, relativamente à baliza, uma determinada atitude a decidir pelo G.R. de acordo com a sua intuição, uma vez que não chegará a um segundo o tempo da tomada de decisão e o empreender da correspondente acção.

Não se nos afigura razoável, neste caso, perseguir um formato padrão da estrutura da mancha proporcionada pelo corpo como o mais eficaz ou indicado para a generalidade das situações.

Embora haja quem advogue que um posicionamento com uma perna flectida paralela ao solo e a outra aberta e esticada lateralmente, com os braços flectidos ao nível dos ombros e as mãos abertas ao nível da cabeça, seja uma forma genérica a trabalhar com efeitos mais ou menos positivos que envolvem alguma coerência.

Entendemos, no entanto, que esta forma poderá ser um ponto de partida.

Mas o treino deve incidir, primordialmente, na solicitação do G.R. para uma leitura pontual de cada situação específica e tomada de decisão de acordo com a leitura efectuada. Uma perspectiva de bola junto ao solo pode sugerir uma determinada conduta de posição, presumindo um hipotético remate rasteiro; uma bola a meia altura ou alta pode implicar uma outra atitude, por presunção de uma outra trajectória que a bola possa tomar; uma situação de remate frontal pode implicar um determinado gesto diferenciado duma outra conduta sugerida por uma posição do rematador mais descaída para um dos lados da baliza.

A sugestão de posicionamentos rígidos, nesta ou em qualquer outra situação similar, pode retirar ao atleta a capacidade de adaptação personalizada e adequada às diferentes situações que se lhe vão oferecendo ao longo do jogo, condicionando-o a estereótipos impostos do exterior, normalmente condicionadores da evolução do atleta, por imobilismo da capacidade criativa e adaptativa a novas situações. O atleta, qualquer atleta, funciona permanentemente na dependência de uma base de dados que lhe regula os procedimentos a tomar nas múltiplas acções para as quais é solicitado. Nessa perspectiva, o treino deve ter sempre como referência o incremento de soluções próprias, as quais deverão ser seleccionadas e adaptadas à multiplicidade das situações criadas em cada sessão de treino.

Esta atitude afigura-se-nos de fundamental importância a ter em conta, praticamente em todas as situações de treino, devendo o atleta ser permanentemente solicitado para treino de resolução de problemas – onde deve escolher e adequar opções e soluções – e nunca o exercício de esquemas rígidos que, quando integrados (se integrados de forma eficaz) lhe retirarão a capacidade de alterar procedimentos impostos pela conduta imprevista do adversário e do próprio jogo.

Muitas vezes o técnico exagera o conceito “daquele que sabe…!”. No caso, não poderá esquecer que, na chamada hora H, é o G.R. que vai estar na baliza e vai ter que decidir em décimos de segundo qual a acção mais adequada.

Há, contudo, uma figura que se mantém inalterada, tornando-se aqui ainda bem mais adequada:

a importância da saída rápida, quanto possível, e, essencialmente, a aproximação máxima do jogador rematador. O factor surpresa e condicionamento de espaço são essenciais a uma boa performance.

Do estudo que temos vindo a efectuar ao longo de dezenas de observações, o que se verifica com frequência é que o G.R. tem muitas vezes tempo para se chegar bem mais próximo do atacante, mas resguarda-se, ficando a meio caminho, num evidente instinto de autodefesa, perante o mais que previsível impacto doloroso da bola no seu corpo, com as correspondentes consequências de sofrimento, conduta e repercussões que, naturalmente, só a si dizem respeito.

Há, no entanto, que clarificar um pouco esta situação. O impacto a mais um, menos um, metro da bola não sofre praticamente alterações quanto à intensidade e consequências dolorosas. Dir-se-á mesmo que a aproximação máxima da bola pode até condicionar e perturbar de tal forma o atacante que leve este a alterar a opção de remate, ao verificar que a probabilidade de sucesso é diminuta.

Agora, convencer o G.R. desta realidade é uma tarefa de âmbito psicológico que cabe ao técnico, depois de avaliar a personalidade e o carácter do seu atleta, escolhendo o melhor caminho que o conduza ao sucesso.

O treino com bolas mais macias pode ajudar a resolver este problema.

Ressalvando as devidas proporções, se eu adquirir um cão medroso, jamais dormirei descansado na expectativa de que me guarde a casa com segurança…

Sempre que abordo esta questão vem-me sempre à memória uma pequena estória contada há muitos anos por um jogador de andebol. Dizia ele que sempre que o G.R. da sua equipa apanhava uma bolada na cara numa qualquer intervenção de jogo, era certo e sabido que dali por diante tinham G.R. até ao fim do jogo. Era como que um leão enfurecido na baliza, muito difícil de bater. A estória era verdadeira e sempre rematada com uma boa dose de humor.

Rematava assim o contador:

– Ainda sugeri ao treinador que lhe déssemos um bom par de bofetadas logo no início do jogo, mas a ideia nunca foi adoptada…

Tomemos como mera referência teórica o seguinte estudo:

Situação 1

(Imagem) não disponível por indisponibilidade de meios do site de alojamento)

Fig. 1

Consideremos um jogador atacante em situação de potencial rematador sensivelmente colocado na marca da grande penalidade (fig. 1).

Se o G.R. se quedar na linha de golo o rematador tem à sua disposição uma baliza com 7,32 m.

Se conseguir sair ao encontro do rematador até metade dos 11 metros que distam da marca de grande penalidade até à linha de golo, o tamanho da baliza reduz-se para cerca de 3,70 m.

Se conseguir percorrer mais metade da distância que resta (ficando a cerca de 2,75 m da bola) o espaço disponível da baliza para remate directo reduz-se a 1,80 m. Ou seja, uma amplitude já inferior à média da envergadura de um G.R. (cerca de 2 m).

Se as circunstâncias permitirem que o G.R. se aproxime da bola até cerca de 1 m desta, a baliza reduzir-se-á a cerca de 70 cm para o rematador.

Mas atenção; mesmo assim, espaço mais que suficiente para a bola passar…

Mas, por outro lado, circunstância bastante para fazer o atacante mudar de ideias ou, no mínimo, pensar em alternativas, o que poderá resultar fatal para as suas pretensões.

Situação 2

(Imagem não disponível por indisponibilidade de meios do site de alojamento)

Fig. 2

Consideremos agora uma situação em que a bola continua a distar os mesmos 11 m do ponto médio da linha de golo, mas descaída para a direita ou para a esquerda, num ponto em que uma linha perpendicular à linha final caia a cerca de 5,60 m do poste mais próximo (fig. 2).

Um G.R. posicionado no ponto A, dista da bola cerca de 8 m. O espaço de baliza disponível para o atacante neste ponto é de 3 m de largura.

Se o G.R. conseguir encurtar esta distância para metade (4 m), o espaço de baliza disponível fica-se pelo 1,40 m.

À semelhança da situação anterior, se o G.R. conseguir aproximar-se a 1 m da bola o espaço por onde a bola pode entrar é de cerca de 40 cm de largura.

Esta uma realidade que todos conhecem e compreendem.

Embora esquematizações teóricas – que não podem ser consideradas como valores absolutos de referência quanto à sua eficácia – as duas situações apresentadas ajudam-nos a compreender a importância da aproximação máxima possível do jogador com bola como elemento, por vezes até dissuasor do remate, mas essencialmente condicionador da eficácia deste.

Fazemos questão de repetidamente insistir que, para lá deste factor, a velocidade de aproximação continua, porventura, a ser o aspecto de maior relevo e aquele que pode redundar na produção de um maior somatório de acções positivas. A saída da baliza deve ser um aspecto de treino a ter em conta, à semelhança do trabalho de um atleta de 100 metros no seu treino específico da saída dos blocos de partida.

Por fim, há que considerar que a perspectiva de impacto doloroso da bola no seu corpo faz com que o G.R., na grande maioria dos casos, se faça ao lance já meio derrotado. Ou seja, com o corpo inclinado para trás, num claro intuito de proteger o rosto, diminuindo assim a sua amplitude vertical e comprometendo irremediavelmente o seu equilíbrio, cuja consequência é a prostração no chão e consequente incapacidade de reformulação da acção, para não falar já na débil agressividade proporcionada por esta atitude.

Não é fácil convencer o G.R. a alterar este comportamento como vimos procurando dar a entender. Cabe ao técnico engendrar esquemas que melhorem esta disponibilidade para a dor, sofrimento e risco.

Será um bom princípio começar por chamar à atenção do atleta para esta situação e esperar que seja capaz de se autodeterminar na busca de soluções mais adequadas.

No ponto seguinte sugere-se uma situação de treino que de algum modo pode contribuir para encontrar soluções, ou no mínimo atenuar dificuldades.

Exercício específico de treino:

Utilização de uma bola muito leve (tipo voleibol, de iniciação ou de jogo) que não magoe o atleta e permita uma boa disponibilidade deste para o impacto. Este trabalho pode permitir também uma melhoria sensível dos aspectos técnicos.

– Técnico com a bola na mão, variando as distâncias à baliza a partir da marca de grande penalidade. Lança a bola ao ar sobre si mesmo a uma altura suficiente que permita a saída do G.R. ao seu encontro. Remata sem deixar cair a bola no chão, alternando com pontapé de ressalto, doseando a intensidade do remate à segurança do atleta e de acordo com a sua disponibilidade ou indisponibilidade para suportar o impacto controlado da bola no corpo.

Preservando sempre a segurança, ir aumentando a intensidade dos impactos no sentido de melhorar a disponibilidade do atleta para o espírito de sacrifício e tolerância à dor, no caso mínima, atendendo à leveza da bola.

Alternar com desvios subtis da bola fazendo-a passar por debaixo do corpo a fim de o mobilizar para uma melhor leitura das opções possíveis do rematador e adaptar a sua atitude à multiplicidade de alternativas possíveis.

Ou seja:

não permitir que o atleta se confine à “mancha “ sem qualquer outra disponibilidade para se adaptar a outras situações, cuja leitura tem que empreender no acto de oferecer o corpo à bola.

O Pontapé-de-canto

Nota:

Está cada vez mais diluída a ideia do jogo ao sabor de um certo improviso e acaso, a que alguns ainda teimam em considerar o condimento que dá sabor ao futebol.

O futebol é hoje cada vez mais um jogo de organização de posturas e responsabilidades, cuja exigência e consequente cumprimento, determinará quem se encontra em condições de ser distinguido com a subida ao relvado e aí cumprir com rigor as determinações da equipa técnica.

O talento individual, que outrora poderia ser determinante para promover desequilíbrios pela simples execução fortuita de habilidades motoras que levassem o adversário de vencida, continua hoje a ter uma inquestionável importância, mas ao serviço de responsabilidades conferidas num contexto de previsibilidade condicionada por esquemas tácticos devidamente delineados e consequentemente formulados, num encadeamento de acções de que todos têm conhecimento e onde todos participam e têm um papel determinante a desempenhar.

O rasgo individual continuará a ser a expressão plástica que maior aplauso arrancará da bancada. Porque belo e esplendoroso no contexto do espectáculo; mesmo que inconsequente na sua finalização, mesmo que um jogador drible metade da equipa adversária, rematando depois ao lado, contribuindo assim, inexoravelmente, para a eventual derrota da sua equipa.

Parece, pois, cada vez mais consequente considerar, que, em termos funcionais, é a organização táctica, em toda a multiplicidade dos seus aspectos, que melhores resultados obtém, determinando, pelo cumprimento individual das responsabilidades conferidas a cada atleta, quem está apto a participar no jogo e ser parte importante do êxito perseguido pelo grupo de trabalho.

A grande área receberá uma denominação mais apropriada se a intitularmos de área do G.R..

Efectivamente aquele espaço do campo deve ter um proprietário como se de um feudo se tratasse, ficando todos os que ali ousem entrar em risco de, no mínimo, serem questionados ao que vêm.

Ele deve ser o dono e senhor daquele espaço, determinando o quê, o quando e o como.

Tem, por outro lado, uma outra responsabilidade específica e determinante de comando na retaguarda da defensiva, nomeadamente no descortinar e reajustamento de falhas de marcação, atendendo à sua posição privilegiada de controlo visual da movimentação do adversário, praticamente em toda a área, que provém da sua disponibilidade, por ausência de responsabilidades de marcação directa. Cabe ao G.R. procurar descortinar esses erros de marcação procurando chamar à atenção para a sua superação. Essa, uma missão importante que deve ser conferida e exigida ao G.R..

Tenhamos por ajustado que as bolas que sobrevoam a proximidade da baliza (provenientes de pontapés-de-canto, livres ou jogo jogado) constituem-se numa tentativa de golo por parte da equipa que ataca que poderá corresponder a mais de 50% do total das acções empreendidas no jogo. Razão pela qual a atenção a dispensar a esta área do treino deva merecer o tempo e a importância que a circunstância aconselha. O treino deverá ser aturado e importará que contenha os variados elementos e facetas que constituem os lances possíveis.

Abordaremos aqui apenas as atitudes referentes aos pontapés-de-canto, sendo que os livres que ocorram na zona do chamado canto-curto, ou similar, devem merecer, por parte do G.R., a atitude e a adaptação que este lhes entender dever dedicar, a partir da leitura que fizer do posicionamento da bola, das características conhecidas do jogador que o marca, do vento e sua direcção, do potencial de concretização de jogo aéreo do adversário, etc.

Embora sem que se constitua numa referência de importância decisiva, num estudo realizado com escalões diferenciados, verificou-se que, num percurso de 6 metros, a diferença entre a corrida de máxima velocidade de frente e de costas é que esta é cerca de 25% mais lenta.

Considerando que na marcação de um pontapé-de-canto a bola chega mais depressa ao primeiro poste, sendo que a trajectória para o poste mais distante é mais pronunciada e, logo, menos rápida, temos por acertado que o posicionamento mais adequado do G.R. nos pontapés-de-canto relativamente aos postes é ao centro da baliza.

Por intuição verifica-se com frequência um posicionamento ligeiramente mais próximo do segundo poste, o que não deve ser considerada uma atitude errada, se bem que implique algumas garantias de que procuraremos dar conta. Entre elas a garantia de que o 1º poste está minimamente seguro e protegido quanto às bolas que caiam por ali.

É ao G.R. que cabe a organização defensiva da sua baliza em todas as circunstâncias de bola parada. No caso do pontapé-de-canto, ou um livre com características semelhantes – ou mesmo em situações de jogo corrido, em que o adversário ataca pelas faixas, prenunciando um cruzamento para a área – deve exigir (sempre) que um jogador alto e bom cabeceador se coloque num posicionamento eficaz (centro do quadrado formado por parte da pequena-área, linha final e linha imaginária entre o poste e a linha da pequena-área), como garantia de limpar todo o jogo que for colocado tenso, ou meio-tenso, na zona do 1º poste, onde o G.R. tem necessariamente dificuldade em chegar atempada e eficazmente.

No caso de lances de bola parada, poderá ser um central que não faz marcação, um ponta-de-lança alto, que possa ser momentaneamente dispensado da sua zona de acção habitual, ou qualquer outro jogador que dê garantias da eficácia pretendida. Este posicionamento dá uma garantia mínima de corte de uma enorme percentagem de bolas a cair na zona nevrálgica constituída pela primeira metade de toda a pequena-área, resolvendo, na raiz, uma enorme quantidade de dificuldades para o G.R. e, consequentemente, para a equipa.

Este um ponto que deverá ser enquadrado no esquema geral da equipa e, naturalmente, sempre avalizado, ou determinado, pelo técnico principal.

Na sequência do lance de bola parada, caso a trajectória da bola coloque de parte a acção deste jogador, deverá o mesmo recuar para a linha de golo perto do 1º poste onde procurará substituir o G.R., caso este venha a abandonar os postes. Este esquema permite rentabilizar a funcionalidade dos jogadores, por dispensar um segundo atleta que habitualmente se posiciona junto ao 1º poste logo à partida, permitindo que este possa ocupar outro lugar de marcação na área, potenciando assim a eficácia defensiva.

Na linha de golo ao 2º poste posiciona-se um segundo jogador que terá idêntica missão de substituir o G.R. e obviar a tentativa de um pontapé em arco directo que ludibrie o G.R.. Daí resulta que este deva igualmente ser, na medida do possível, um jogador com estatura capaz de solucionar este problema.

Há, no entanto, um aspecto que reputamos de essencial relativamente ao posicionamento do G.R. na marcação dos pontapés-de-canto, cuja adopção poderá fazer toda a diferença.

Salvo num pontapé especificamente táctico, o G.R. tem por obrigação procurar intervir numa mancha central que vai da sua linha de golo até à marca de grande penalidade. Chamemos-lhe zona teórica de intervenção. A dificuldade reside no tempo gasto a fazer o percurso até ao ponto de queda da bola e o lapso temporal para a formação do salto, enquadrados na duração da trajectória da bola.

Há, pois, que encurtar aquela distância.

Tomemos como referência o pontapé-de-canto marcado à direita do G.R. e o seu marcador utilizando o pé direito.

Neste caso, há que tomar todas as precauções porque a trajectória da bola pode apontar directamente para a baliza. No entanto, mesmo assim, não nos parece que o posicionamento correcto tenha que ser sobre a linha de golo, como normalmente, e por intuição do G.R., observamos.

Dois ou três passos à frente da linha de golo em direcção à marca de grande penalidade é um espaço facilmente recuperável, caso haja necessidade de voltar à linha de golo para defender uma bola que caia sobre a baliza, e um avanço razoável, que poderá fazer a diferença, para procurar chegar mais longe, na perspectiva de sair da baliza para captar ou rechaçar a bola no seu ponto de queda.

Mas se, naquele mesmo lado, o marcador do canto o fizer com o pé esquerdo, a bola tem poucas probabilidades de cair sequer dentro da pequena-área. O seu arco deve apontar, em princípio, para um afastamento contínuo da zona próxima dos postes.

Então, será aceitável que, no momento em que a bola parte, o posicionamento do G.R. deva, neste caso, quedar-se por muito perto da linha limite da pequena-área, tornando bem mais curto o espaço que o poderá levar a um ponto de queda da bola, praticamente impossível de atingir se o ponto de partida for a linha de golo.

Este posicionamento perto da linha limite da pequena-área (se deve ser antes, em cima ou mesmo depois dessa linha limite) fica um pouco ao critério do próprio G.R. e será fruto da sua sensibilidade e mesmo produto de leituras que terá já feito de situações anteriores, quer de treino, quer de jogo.

A faculdade conferida ao G.R. de poder utilizar as mãos dentro da sua área não pode ser descurada, devendo, bem pelo contrário, ser devidamente explorada em benefício da equipa e consequente detrimento do adversário.

Em ambos os casos (com especial relevo para esta segunda situação) não se afigura aconselhável que o G.R. se coloque, nas posições adiantadas sugeridas, com demasiada antecedência, permitindo que o marcador do canto controle a sua posição e tente uma manobra de oportunidade, usando algum virtuosismo (sempre de considerar) para colocar uma bola tensa muito perto da baliza, mesmo que utilizando o pé esquerdo e uma trajectória de corrida para a bola pouco adequadas.

O momento em que o marcador do canto se concentra na bola e inicia a corrida na sua direcção afigura-se-nos ser o momento adequado para uma deslocação rápida para essa zona de adiantamento, subvertendo assim a probabilidade de controlo da sua posição por parte daquele.

Caso o ponto de queda da bola se revele bastante afastado e venha a implicar que o G.R. opte por não intervir, o seu posicionamento adiantado não trará, em princípio, qualquer inconveniente. Pode recuar, ou até quedar-se por essa posição adiantada, diminuindo assim o ângulo de um possível remate, porque mesmo que este venha a constituir-se num cabeceamento em arco que surpreenda o G.R. há sobre a linha de golo dois jogadores que o podem substituir.

Em toda e qualquer circunstância, a deslocação do G.R. continua a implicar movimentos de deslocação muito rápidos, cujo treino é essencial e frequentemente ignorado.

O G.R. raramente colhe algum proveito de uma disponibilidade de velocidade de deslocação de longa ou média distância. Mas colherá vantagem permanente de uma potência (força+velocidade) que o leve dos postes ao adversário isolado, que se revele próximo da sua baliza, com fortes probabilidades de concretização. O tempo que medeia a tomada de decisão e chegada junto do adversário poderá ser determinante para a solução eficaz do lance.

Neste aspecto, apenas mais um pormenor.

Como se compreenderá, em termos de desempenho desportivo, não há receitas milagrosas, ou de efeito garantido. Todos os conceitos ficam dependentes da inevitabilidade de múltiplos imponderáveis, ressaltando de entre eles a fatal acção de oposição e eficácia do adversário, que fará tudo por esconder o seu jogo e disso colher os dividendos desportivos que ambos os lados perseguem.

Ainda no campo da acção do G.R. deixamos mais uma ideia que, no caso, entendemos dever ser um critério reservado ao atleta, devendo determinar a forma que melhor se adequa à sua acção.

Referimo-nos à frequente aglomeração de jogadores adversários muito próximo do G.R. (1 jogador, por vezes 2 e até 3), no intuito de o perturbarem, e à consequente marcação efectuada pelos seus colegas de equipa no sentido de, de alguma forma, anularem essa perturbação. (Estamos a referir-nos a uma zona próxima do G.R., num círculo a roçar a linha de golo, com 2 a 3 metros de diâmetro, e não outros espaços fora desta zona, onde a marcação deve sempre ocorrer).

É lícito ponderar se esta marcação não se transformará com frequência num acréscimo de dificuldades para o G.R.. Dois jogadores adversários na proximidade já é perturbador; quatro elementos duplicam a dificuldade da sua mobilidade por diminuição do seu campo de manobra.

O G.R. precisa mais de espaço do que gente à sua volta que lhe dificulte os movimentos e lhe perturbem a faculdade que lhe permitem as regras de jogar com as mãos (logo, mais alto e de uma forma bem mais prática e eficaz que um simples cabeceamento).

E, acima de tudo, é preciso não esquecer que a pequena-área é um espaço de protecção que lhe permite actuar com toda a liberdade e segurança, sendo apenas necessário e imprescindível que chegue primeiro à bola que os adversários que se encontram na sua proximidade. Inclusivamente, qualquer tentativa do G.R. em chegar à bola, dificultada por esses jogadores, será necessariamente sancionada por contacto e, ou, obstrução.

Surgirão opiniões contra esta perspectiva afirmando:

Pois, o problema é se não chega primeiro…

Ao que se poderá contrapor:

Muito bem! Mas um outro problema que pode colocar-se é se o atacante ganha o lance de cabeça ao seu marcador directo (tem, em teoria, 50% de probabilidades de o fazer), por um lado, ou, por outro, se esse aglomerado acabou por impedir ou dificultar o G.R. de chegar à bola.

Depois, é também importante que se considere que, se for possível dispensar um ou dois jogadores desta zona – onde a sua acção é, à priori, dispensável – porque menos produtiva, podendo ser aproveitados em espaços onde o G.R. terá mais dificuldade em fazer chegar a sua presença, pode haver um outro ganho e uma outra rentabilidade, cujo produto se poderá transformar numa vantagem acrescida.

Será bom não esquecer que o futebol, e o consequente resultado do jogo, será sempre a resultante, ou o produto, de um somatório de acções positivas que confira alguma superioridade sobre o adversário, cuja soma dos seus elementos pode, contudo, nem sempre conferir a garantia de vitória.

Mas afigura-se pacífico admitir, que essa vantagem aponta indubitavelmente para uma forte probabilidade de sucesso.

Esta incerteza parece, sim, constituir-se no tal sal que condimenta o futebol e o torna aliciante.

Como vimos deixando transparecer, esta questão teórica não deve ser imposta ao atleta como uma verdade de eficácia inquestionável, mas abordada apenas como uma ideia e deixada experimentar para que aquele aquilate da sua eficiência, verificando se, de facto, se concilia com a sua forma de actuação. Por vezes, basta que o atleta se sinta incomodado com a nova situação proposta, para que esta, ainda que aparentemente correcta ou eficaz, deva ser posta de lado.

Aliás, nada pior que um técnico tentar incutir formas de actuação, nas quais o seu atleta não acredita, ou com as quais não se harmoniza, por se sentir bem mais familiarizado, ou acostumado, com outras que vem perfilhando e nas quais confia. Por vezes essa imposição só traz desacertos cuja hostilidade fomenta incertezas e desentendimentos, que em nada contribuem para os melhores resultados perseguidos por todos.

Mais importante que julgarmos ter descoberto um caminho novo, no qual depositamos todas as esperanças, é sermos capazes de levar os nossos atletas a acreditarem nele de forma consciente e integrada.

Se possível, de uma forma mais consistente ainda que a nossa, porque resultará de uma avaliação num contexto prático a ser apreendido e utilizado no âmbito do jogo.

Exercício específico de treino:

– Cruzamentos da zona próxima da marca de pontapé-de-canto, variando a utilização do pé direito e pé esquerdo a fim de alternar as curvas da trajectória da bola. Variar igualmente a distância da bola à linha final.

Este ligeiro encurtamento da distância à baliza é mais um factor de dificuldade colocado à acção do G.R., uma vez que no pontapé-de-canto a bola percorre uma distância maior e, logo, mais demorada e facilitadora.

Solicitar ao G.R. que saia a todas as bolas (prioridade ao agarrar, utilizando apenas o soco como alternativa), mesmo àquelas que, à priori, numa primeira leitura, perspective que não conseguirá lá chegar.

Nestas bolas o atleta deve fazer um esforço máximo no sentido de chegar à bola como se à partida admitisse poder lá chegar. O atleta concluirá a breve prazo que chegará a algumas delas, quando numa primeira análise isso era dado como inacessível.

A solicitação ao G.R. para sair a todas as bolas – incluindo aquelas que, aparente, ou mesmo claramente, estão fora do seu alcance – tem um outro fundamento.

O treino é um momento de extraordinária importância e fundamental quanto aos registos a integrar pelos jogadores, os quais funcionarão no futuro como base de dados a utilizar, espontaneamente, nas múltiplas oportunidades e situações que ocorrem no jogo.

São consultas com a duração de milésimos de segundo que condicionam a actuação do atleta e com pouca margem de reformulação, normalmente tardia, ineficaz e de consequências frequentemente desastrosas.

Afigura-se-nos de extraordinária importância que esses registos não se fiquem apenas pela integração de elementos positivos proporcionados pelas acções do treino, consubstanciados em concretizações conseguidas.

O treino da funcionalidade é imprescindível.

Mas só é possível discernir e escolher a conduta mais ajustada se na base de dados houver registos que funcionem como termo de comparação, que permitam comparar para poder escolher com critério.

Julgamos de singular importância que o atleta consciencialize também o erro de forma a identificá-lo com muito maior precisão e acuidade. Dificilmente nos consciencializamos do erro, se corporalmente o não mentalizarmos.

Se um atleta treinar apenas a sua leitura de cálculo de saída da baliza a um cruzamento, jamais terá prova de que o seu registo estava correcto ou não. Torna-se pois imprescindível que valide a conduta mais acertada, a partir de uma consciencialização que abarque todas as vertentes do acto que se propõe executar, incluindo as opções erradas. O aprofundamento das situações de erro consciencializa, de forma mais concisa e elaborada, o trajecto correcto para o êxito.

É preciso errar para consciencializar e discernir a atitude mais acertada.

Convirá aqui alertar que não se trata de exercitar o erro.

Trata-se de consciencializá-lo para que, de forma mais eficaz, se torne possível identificá-lo (pelo conhecimento da sua forma e contornos) e assim tornar mais fácil, quer a sua identificação, quer a sua consequente exclusão.

– Neste aspecto específico proporíamos também um segundo esquema de treino que consiste no seguinte:

Cruzamentos até a zona da marca de grande-penalidade com dois G.R. ao mesmo tempo em disputa do lance um ao outro.

Competição:

– agarrar a bola com as duas mãos, 3pts;

– socar a bola para longe – sempre laterais da grande área – 2pts;

– tocar apenas primeiro na bola, afastando-a, embora mal, ou para a frente da área, 1pt..

Estabelecer uma meta pontual finda a qual se devem trocar os G.R., ou qualquer outro esquema que melhor se adeqúe ao que o técnico pretende.

Este é mais um trabalho de superação, em que aquilo que se propõe é uma disputa da bola a um nível superior àquele em que habitualmente os atletas encontram em situação de jogo.

Ou seja: disputar a bola com um adversário em que ambos a disputam ao mesmo nível (nível das mãos), quando durante o jogo os adversários apenas lhe podem tocar com a cabeça. O atleta integrará a superação de um nível de dificuldade mais elevado, tornando mais fecundo o desempenho posterior num contexto de menor obstáculo.

O presente conceito aparece abordado de forma mais elaborada nos Exercícios Específicos de Treino sugeridos no espaço de abordagem das grandes-penalidades.

Os Livres

Tomemos como alvo os livres que têm lugar na zona frontal em toda a extensão da linha da grande-área.

A primeira questão que se coloca é a da formação da barreira. Os jogadores que a integram não podem constituir-se em arranjos de ocasião ou disposições tomadas na hora. A barreira é uma estrutura criada em treino, formada, na medida do possível, sempre pelos mesmos jogadores. O jogador do poste será sempre o primeiro a tomar o seu lugar, logo que se determine a posição da bola e, naturalmente, sempre sob o comando do G.R.

Os atletas que compõem a barreira serão, em princípio, os mais altos da equipa. Por ordem de prioridade, jogadores do ataque, depois os médios e por fim os laterais. Os centrais, por maioria de razão, deverão ficar sempre de fora da responsabilidade de integrarem a barreira. São normalmente os coordenadores das acções/marcações defensivas imediatas, devendo por isso ficar libertos dessa tarefa.

A colocação dos jogadores mais altos da barreira numa ou na outra ponta da mesma, ou ao centro, constitui-se numa opção difícil de tomar porque todas as trajectórias da bola são possíveis, embora por vezes um pouco condicionadas pela exacta posição da bola. De qualquer forma deverá ser sempre o G.R. a determinar onde colocar um determinado jogador mais alto ou mais baixo. Esta opção tem frequentemente a ver com o conhecimento que pode ou não haver do jogador que bate a bola e o posicionamento exacto desta.

A colocação de um jogador sobre a linha de golo no poste mais próximo da barreira com a missão de impedir que a bola entre por esse lado é uma opção que pode condicionar o jogador que marca o livre, libertando o G.R. dessa parte da baliza mais distante, e a coberto da barreira, permitindo-lhe uma outra disponibilidade para a restante, cuja responsabilidade lhe é mais directamente atribuída.

Esta opção acarreta, no entanto, alguns inconvenientes, eliminando o fora-de-jogo e permitindo ao adversário como que semear a zona frontal da baliza de jogadores cuja presença pode dificultar a visão e a acção do G.R., embora a questão se possa, de algum modo, atenuar utilizando uma marcação adequada.

A opção é difícil, podendo dar lugar a uma espécie de jogo do gato e do rato em que o jogador do poste pode criar instabilidade saindo momentos antes do remate, criando situações de fora-de-jogo posicional, mas perdendo a eficácia da sua função. Numa outra ocasião poderá ficar, criando instabilidade quer no jogador que remata quer nos adversários que correm o risco de cair em posição de fora-de-jogo. No fundo, a essência do jogo é essa; a utilização de rotinas facilitará a manobra do adversário, a gestão de factores de imprevisto criar-lhe-á dificuldades que correm a nosso favor.

Como noutras circunstâncias, continua a não haver lugar a receitas de efeito garantido. Há leituras que se podem fazer e acções que se determinam de acordo com as situações que vierem a ocorrer, na maior parte delas fruto das movimentações do adversário, às quais se exige uma resposta adequada quanto possível.

Exercício específico de treino:

Não se afigura aceitável criar exercícios que melhorem o desempenho do G.R. neste caso específico.

Nada como colocar uma barreira metálica em diversas posições, em termos de distâncias e ângulos, e aproveitar o treino dos especialistas para exercitar o G.R. nessa situação.

Como aspectos a treinar, sugere-se apenas o de colocar um jogador na linha de golo no poste mais próximo da barreira para treino do cabeceamento das bolas que aí forem colocadas e o da sua saída antes da bola partir, em sintonia com o G.R. para que este possa ajustar o seu posicionamento a essa brecha que assim se abre.

Quase que um pequeno aparte para aconselhar que a barreira metálica, que é utilizada para treino de livres, se configure em elementos que simulam a silhueta de jogadores, mas de preferência com o tronco pintado de cor diferente (simulando a camisola) e não numa cor única, por vezes até uma cor viva, que altera a perspectiva do atleta que marca os livres, sobredimensionando a altura e extensão da mesma.

A Grande Penalidade

A atitude do G.R. na marcação das grandes penalidades tem sido sempre motivo de controvérsia.

Optar por mergulhar para um dos lados, sem leitura prévia da trajectória da bola, ou esperar e tentar ir atrás dela, depois de definida a sua trajectória, são as duas grandes alternativas.

Até há um bom par de anos, as opções dos atacantes encarregados de marcar as grandes penalidades eram praticamente apenas duas: ou à direita ou à esquerda. A partir do momento em que passou a haver uma terceira alternativa (o centro da baliza), as probabilidades do G.R. ficaram mais reduzidas, embora a faculdade do G.R. se poder movimentar sobre a linha de golo antes da bola partir, e uma certa condescendência das equipas de arbitragem em permitirem a movimentação antecipada para a frente dessa linha, tenha vindo, de certo modo, a repor algum reequilíbrio.

É bastante difícil tomar uma opção como a mais correcta ou eficaz, acrescendo uma segunda dificuldade que é a de convencer o G.R. de que aquela que ele perfilha poderá não ser a melhor, ou que a nossa, sim, é que é a mais eficaz.

Há um determinado tipo de opções que não devem ser forçadas contra a perspectiva do atleta. De um modo geral, ele terá sempre tendência para respeitar a opinião do técnico. Contudo, subliminarmente, e sem uma verdadeira convicção do caminho certo, perderá uma boa parte da sua própria confiança, essencial para se colocar na senda do sucesso que se persegue.

Há um certo instinto que deve ser preservado. O atleta deve ter a liberdade para o seguir livremente, reformulando-lhe os princípios ou fundamentos como bem entender.

Temos, no entanto, como mais adequado que o técnico deve proceder a uma espécie de estudo conjunto com o atleta sobre as diferentes perspectivas da questão, sensibilizando-o para o procedimento mais adequado, ponderadas que forem as diferentes vertentes do problema. No entanto, a opção deve ser sempre do atleta.

A abordagem pode ter a seguinte configuração:

Opção de mergulho à direita ou à esquerda, antes do conhecimento da trajectória da bola.

Considerando as três possibilidades de opção do rematador (direita, esquerda e centro), há, por parte do G.R., em média, 33% de probabilidades de acertar. Mas esses 33% não são lineares: a bola pode ir rasteira, a meia-altura ou alta, não havendo tempo para reformular ou adaptar o voo depois de iniciado. Quer dizer que, acertado o lado, há outros 33% de probabilidades de acertar no plano da trajectória da bola, o que em números redondos reduz tudo para cerca de 10% de hipóteses de verdadeiro êxito.

Opção de mergulhar apenas depois de conhecida a trajectória da bola.

Partamos do princípio de que uma grande penalidade bem marcada não tem defesa possível, definindo aqui uma g.p. bem marcada, como toda aquela em que o remate de meia intensidade a forte coloca a bola numa faixa de 50 cm junto a qualquer um dos postes. A opção de esperar e tentar reagir apenas depois da bola partir tem, à partida, menos probabilidades de êxito, bastando para o efeito que o remate seja forte e a trajectória da bola se afaste no mínimo dois metros da posição do G.R..

Mas esta atitude tem outras virtudes, nomeadamente de pressão sobre o jogador marcador que, na perspectiva dessa premissa, elimina logo à partida a opção de bater a bola ao centro da baliza, obrigando, por outro lado, à colocação da bola o mais afastada possível do G.R., o que aumenta a probabilidade de erro.

Convenhamos neste ponto que hoje as atitudes dos jogadores são do conhecimento público, pelo que um jogador que vai marcar uma grande penalidade, sabe, de antemão, qual a postura habitual do G.R., ou no mínimo, qual a que utiliza com mais frequência.

Esta obrigatoriedade de colocar a bola numa determinada trajectória de segurança pode acarretar consequências, originando falhas com remates para fora ou aos postes. Esta forma de pressão parece, à partida, aquela que maiores condicionalismos e tensão pode produzir no marcador da grande penalidade. E isso transforma-se num factor que corre a favor do G.R.

Percentualmente esta opção acabará por não colher grandes vantagens relativamente à outra. Embora elimine a opção do remate ao centro, reduz a distância que o G.R. pode percorrer atempadamente no seu voo, bem como o tempo de chegada à bola, que igualmente se encurta.

Se me for solicitada a opinião sobre qual das duas opções poderá ser a mais eficaz, acabaria por me deixar seduzir por esta segunda, por a entender como a mais condicionadora para o rematador, obrigando-o a colocar a bola numa trajectória suficientemente afastada, o que pode potenciar o erro do jogador que marca a grande penalidade.

Mas, de acordo com os princípios atrás enunciados, não o transmitiria ou aconselharia ao meu G.R.. Antes enunciaria os princípios e as vantagens de ambas as opções, outorgando-lhe o direito de optar por aquela que melhor se coadunar com o seu estilo.

Por fim deixaria uma ideia final.

A melhor opção será porventura a utilização aleatória das duas enunciadas. Se o princípio fundamental é criar instabilidade no jogador marcador da grande penalidade, nada melhor que este desconhecer quais as opções sistemáticas do G.R., sabendo apenas que poderá utilizar um critério incerto, ou apenas pontualmente repetido para cada situação.

A vantagem está, de facto, do lado do marcador. Mas a pressão também. E quanto maior ela for mais se vai reduzindo essa vantagem inicial.

Exercício específico de treino:

– O trabalho tendente a melhorar a oposição à marcação da grande-penalidade também deve ser exercitado, aproveitando o treino dos marcadores específicos deste castigo.

Este exercício traz algum benefício em termos de treino para o G.R. uma vez que o rematador tem todas as condições para uma execução com algum rigor e eficácia, já que está aliviado da pressão que sobre si se exerce na execução daquela penalidade num quadro de situação real de jogo.

Nota:

Um pequeno concurso entre os G.R. e os marcadores das grandes penalidades com valores pecuniários a serem jogados pelos intervenientes, pode, de alguma forma, repor alguma verdade na tensão do rematador. A proposta poderá não ser a mais “desportiva” ou “académica”, mas não encontro outra capaz de oferecer alguma semelhança quanto à pressão a simular no treino da marcação das grandes-penalidades.

Após o treino dos rematadores sugeríamos algum trabalho específico exclusivamente destinado aos G.R. que consiste na continuação da marcação de pontapés de grande-penalidade, mas agora encurtando a distância dos 11 para os 10 m e mesmo alguns a 9 m.

A solicitação continua a ser a mesma de requerer que o G.R. responda como se o pontapé estivesse a ser marcado na sua marca habitual.

Mas, porque não é aconselhável que os marcadores específicos exercitem acções que de algum modo comportem argumentos facilitadores das suas funções habituais, é recomendável que esta tarefa especificamente de treino seja executada por atletas que não tenham essa missão no seio da equipa.

Nota:

Nesta mesma perspectiva, sugere-se igualmente que o treino dos marcadores de grandes penalidades se processe com a bola a 12 metros da baliza e não nos 11 metros legais.

Este aumento de dificuldade para o G.R. (ou para o marcador das g.p.) incorpora o conhecido princípio de que o treino deve utilizar elementos de dificuldade superior que obriguem o atleta a experimentar níveis de superação elevada, que posteriormente se irão reflectir de forma positiva no seu desempenho específico.

Pedro Cabrita

(Lic. Ed. Física)

petruscabritas@gmail.com

Trabalho alojado no site:

http://treinofutebol.net/Artigosfutebol1.html

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