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Futebol – Teoria do Treino do Guarda-redes * Parte I

TEORIA DO TREINO DO GUARDA-REDES

PARTE I

Introdução

O guarda-redes (G.R.) é o jogador que maior especificidade de treino exige, razão pela qual requer um técnico e orientação próprias, bem como um trabalho diferenciado, na forma e no tempo, dos restantes elementos da equipa.

A importância da sua função tem vindo a colher um interesse particular nos últimos tempos por parte dos agentes envolvidos no apuro técnico da equipa de futebol, por se concluir que valerá a pena investir mais num sector que poderá, por si só, interferir de forma decisiva no resultado final do jogo e, consequentemente, no fruto de todo um trabalho desenvolvido por uma equipa.

Um ponta-de-lança poderá desferir seis remates num jogo, dos quais cinco não foram concretizados – ou porque foram defendidos ou saíram ao lado – tendo apenas um resultado em golo.

Esse golo pode ser suficiente para determinar a vitória.

O G.R. pode executar seis belas defesas, mas uma delas foi incompleta, resultando em golo. Esse golo pode ser decisivo para a derrota.

O apuro técnico, eficaz e consequente, do G.R. deve pois, nesse sentido, ser equacionado com a importância determinante que pode ser capaz de diferenciar a vitória da derrota num breve e único momento do jogo.

O presente trabalho visa esquematizar os espaços de intervenção do guarda-redes e fundamentar algumas atitudes, cujo somatório elevará por certo a resultante da sua interferência no jogo, bem como o conjunto dos benefícios a repartir por todos.

Poderá ainda arrojar-se a questionar algumas rotinas de treino, que por vezes se observam a vários níveis, embora cada vez menos, onde parece querer instalar-se uma prática de acomodação a praxis tradicionais menos questionadoras da real virtude dos processos utilizados, por vezes inadequados, ou frequentemente desligados da evolução natural dos mecanismos do jogo.

Nada é imutável! Salvo o desejo de chegar à vitória.

Daí que os processos de treino devam ser questionados a toda a hora, mesmo quando os seus resultados são geradores de sucesso, logo, aparentemente, adequados e inquestionáveis, com vista à valorização da nossa intervenção.

Todos os processos de treino fizeram escola e campeões!

Mesmo aqueles que, mais tarde, vieram a ser catalogados como profundamente errados e contrários a determinados princípios, hoje tidos como claramente desajustados, à luz dos avanços da investigação científica e o novo conhecimento daí resultante.

Contudo, todos eles acabaram por ser abandonados e substituídos por outros, cujos méritos se sobrepuseram, deitando, por vezes, por terra autênticos ícones que fizeram história.

Cabe ao técnico manter um alerta permanente – uma espécie de vigília – sobre as transformações que o rodeiam, sem esperar que soe o sinal de mudança, ditado por outros mais atentos e perspicazes, correndo o risco de chegar atrasado ao conhecimento de realidades com as quais lida, afinal, todos os dias.

Cabe-lhe avaliar, em permanência, se as consequências do seu trabalho se harmonizam com os resultados perspectivados, ainda que positivos, e se não ocorre haver outros caminhos mais eficazes e geradores de melhores performances e outros sucessos.

Pior que perder a batalha é esperar sentado que aconteça o sucesso.

Em todos os sentidos, o técnico deve constituir-se num auto-avaliador permanente dos seus métodos de trabalho, numa busca permanente de novos caminhos e outros valores que permitam rentabilizar, quanto possível, o esforço dos seus atletas, rumo à melhor prestação que redunde na probabilidade de redução do erro e consequente elevação da viabilidade do êxito.

Por outro lado ainda, há poucas probabilidades de se encontrarem dois atletas exactamente iguais, quanto aos seus méritos, defeitos e inerentes necessidades de treino. Logo, nenhum esquema de trabalho uniformizado é rentabilizável a 100% para todos eles.

A diferenciação que nos faz todos nós, seres humanos, diferentes em termos de características físicas, fisionómicas e psicológicas, implica, igualmente, um ajustamento dos processos de treino de acordo com a especificidade do atleta, em termos das suas características e necessidades.

O trabalho aqui proposto é uma base genérica onde cabem quase todos os atletas com que nos possamos cruzar ao longo da actividade de técnico.

Cabe a cada um saber aplicar a generalidade dos meios e formas aqui propostas, de acordo com as características e necessidades dos atletas, ou criar outras que mais se ajustem à especificidade das suas características.

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O Treino Físico

O Treino Táctico e Psicológico

O Treino Técnico

De um bom G.R. espera-se genericamente que detenha as seguintes qualidades:

– Ágil

– Rápido

– Forte

– Seguro e

– Arrojado

Mas, acima de tudo, espera-se que seja desportivamente inteligente.

Algumas das qualidades que se desejam num G.R. são passíveis de serem melhoradas ou mesmo adquiridas em treino. Outras fazem, necessariamente, parte da essência do atleta, porque são básicas e conformam a sua própria estrutura e dimensão psico-físicas.

No treino do G.R. há três aspectos essenciais a considerar:

– o treino físico;

– o treino táctico e psicológico e;

– o treino técnico.

Deixamos de parte a área do treino táctico, ligado ao envolvimento global da equipa, não porque o consideremos menos importante, mas porque entendemos que deve ser abordado no todo do grupo e não separado da sua organização conjunta.

Embora com uma função específica, o G.R. faz parte de uma estrutura da qual não pode, nem deve, ficar alheio, sendo de todo conveniente que se integre na manobra geral da equipa, ainda que, aparentemente, isso possa parecer descabido ou desnecessário.

Ainda que o G.R. quase não participe de forma integrada na manobra táctica da equipa, é naturalmente aconselhável, e estruturalmente obrigatório, que dela tenha conhecimento e entenda o seu envolvimento, como se nela participasse com o mesmo protagonismo activo dos restantes jogadores.

O Treino Físico

Há perspectivas que advogam dever o elemento do jogo (a bola) fazer sempre parte do treino físico, porque se constitui num acréscimo de ganho em dois sentidos:

–         Além da resultante do treino físico, como elemento fulcral do trabalho, ocorre, em paralelo, uma melhoria da componente técnica (ganho suplementar) que resulta da relação com a bola, podendo a utilização desta funcionar ainda como factor de indução, subvertendo o cansaço por dispersão periférica da atenção.

–         Esse princípio colhe ainda uma outra vantagem adicional, que consiste na importância do adestramento técnico ocorrer num contexto de esforço físico próximo daquele que ocorre no jogo, tornando as aquisições bastante mais efectivas e adequadas.

A asserção é correcta se, de facto, todas estas componentes, ou mesmo apenas qualquer uma delas, ocorrerem. Isto porque no treino é sempre relevante que se rentabilizem procedimentos no mais curto espaço de tempo possível.

Duplicar as aquisições, e conformá-las entre si, são princípios a não perder de vista e a perseguir sempre que possível, porque não só rentabilizam o trabalho em termos temporais, como engrandecem a qualidade dos resultados.

Para os restantes elementos da equipa essa ocorrência é praticamente diária.

Por exemplo, um jogador de campo pode, e deve, exercitar a sua resistência aeróbia ou anaeróbia, por via da implementação de exercícios com bola, rentabilizando o apuro técnico individual e integrando determinados esquemas tácticos que se adeqúem ao esquema implementado. Basta que para isso a organização do trabalho seja cuidadosamente delineada, procurando que o essencial se sobreponha ao acessório.

Contudo, no caso do G.R., dificilmente isso poderá ocorrer.

No desempenho da sua função, o G.R. jamais fará uso de quaisquer elementos de resistência aeróbia ou anaeróbia que possam ser-lhe proporcionados no treino. Embora, de forma empírica (empurrada pela necessidade imperiosa de proporcionar cansaço como meio natural de obter resultados, quaisquer que eles sejam) isso seja possível observar com alguma frequência.

O G.R. usufrui de um estatuto inverso ao dos restantes jogadores no campo do esforço físico. O treino é muito mais exigente que o próprio jogo, sem que isso signifique que tenha que atingir níveis de exaustão perfeitamente descabidos e de relação mais que duvidosa com as aquisições técnicas que se perseguem.

Assim sendo, e usando apenas um exemplo típico, porque devo massacrar o G.R. com exercícios com bola, mergulhando à direita e à esquerda, ou outros similares, sendo solicitado e incitado que o faça da forma mais expedita que for capaz e por longo tempo, donde sai exausto arrastando-se por vezes penosamente da baliza para dar lugar a um outro companheiro que aguarda a sua vez de ser “maltratado”?

Quando vai o G.R. ser submetido em situação de jogo a tamanho sacrifício, ou algo que se assemelhe, para que esse tipo de treino, que o leva à exaustão, possa colher rendimento em jogo?

Se, relativamente aos restantes jogadores de campo, o treino técnico colhe algumas vantagens se realizado em situação de esforço físico, por ser nessa condição que os atletas o vão colocar em prática no jogo, logo num contexto mais de acordo com a realidade prática, no que toca ao G.R., tal jamais acontecerá, pelo que se torna absurdo proporcioná-lo em treino, correndo até o risco de dificultar que as aquisições técnicas específicas ocorram com mais apuro, por estas acontecerem num quadro de esforço, que de algum modo retira parte da disponibilidade física e psíquica ao atleta para a sua integração.

Em suma, afigura-se-nos que, no quadro específico do treino do G.R., o elemento físico deve ser, na sua quase totalidade, separado da especificidade do adestramento técnico, proporcionando assim que ambas as componentes ocorram sem interferências entre si, logo mais intensas e de produtividade acrescida.

Há quem advogue, conforme já referenciado noutro local, que a presença da bola como que dilui um pouco o efeito de fadiga provocada pelo exercício e distrai a concentração do atleta no esforço, permitindo um melhor desempenho.

Isso é correcto se a utilização da bola implicar uma componente lúdica suficiente para o conseguir, o que não acontecerá se o exercício contiver apenas uma repetição exaustiva dum determinado movimento (abdominais com a captação de uma bola, por exemplo) em que a presença da bola é apenas um elemento decorativo, ou um acessório de valor zero, que não transporta qualquer acréscimo de ganho técnico ou outro, além da melhoria da condição física, para a qual o exercício se destina. Afigura-se-nos até que, uma rotina técnica do género, desvirtua o seu aperfeiçoamento, por deficiente concentração do atleta em relação à bola e ao gesto técnico de a segurar.

A utilização da bola como elemento dissuasor dos efeitos do esforço deve conter uma componente de ganho técnico que o justifique, o que no treino do G.R. não se nos afigura poder substancialmente ocorrer, nem se justificar que ocorra em situação de esforço, por não se coadunar com a situação real de jogo.

Por tudo isto, não parece, pois, haver qualquer vantagem em proporcionar elementos de treino físico que não têm qualquer aproveitamento num quadro de situação de jogo, nem se vislumbra, neste contexto, qualquer interesse em desenvolver a componente técnica sob a pressão de qualquer condicionamento de esforço físico.

No exercício da sua função, o G.R. actua sempre em total disponibilidade da sua condição física, pelo que é nesse estado que lhe deve ser proporcionada a melhoria do seu apuro técnico, claramente separado do seu adestramento psico-físico. Não havendo uma relação de proximidade, é aceitável que se considere que ambas as componentes colhem vantagem em ser exercitadas em separado, aprofundando ao máximo a sua essência.

Considerando que o trabalho de recuperação do esforço após os jogos não se apresenta com a mesma importância e especificidade para o G.R., do que aquela que se coloca para os restantes jogadores, é possível dosear e articular os planos de treino pelos dias de trabalho da semana, sem ter que considerar condicionalismos de recuperação de desgaste físico, ou outros que não tenham a ver senão com a próxima intervenção em jogo.

Por outro lado, tendo em conta a especificidade do esforço físico que o G.R. desenvolve em jogo, o seu nível de forma pode ser mantido numa linha sempre elevada e uniforme, com tendência para gradações sempre no sentido da elevação permanente das suas prestações.

Em termos de intensidade do treino físico ao longo da época (tempo+nível de esforço), esta pode ser esquematizada no gráfico seguinte:

(Gráfico não disponível por falta de recursos do site de alojamento)

Gráfico da intensidade da componente de treino físico ao longo da época.

Dividindo a época em quatro faixas, verifica-se uma clara subida da linha na primeira fase, com ligeiros desalinhamentos horizontais correspondendo a fases de acomodação e consolidação das aquisições, onde o aumento gradual da intensidade tem em conta a presunção do baixo nível de capacidades do atleta no início da época e a inerente necessidade de precaver cargas desajustadas que possam produzir lesões ou, pela sua carga excessiva, não permitam a obtenção dos resultados que se desejam. Segue-se uma estabilização que vai praticamente até meio da terceira faixa e uma descida uniforme até final.

Para a carga semanal desta mesma componente, considerando uma média de quatro dias de treino específico semanal, o gráfico poderá apresentar a seguinte configuração:

(Gráfico não disponível por falta de recursos do site de alojamento)

Gráfico da intensidade da componente de treino físico ao longo da semana.

A intensidade do treino da condição física deve observar uma diminuição ao longo da semana a fim de que não só a eventual intensidade do esforço não produza efeitos perniciosos na mobilidade e desempenho do atleta no jogo, mas também para que, de algum modo, os efeitos positivos da intensidade do trabalho no início da semana possam, em parte, fazer-se sentir na prestação do atleta quando em situação de jogo.

(Gráfico não disponível por falta de recursos do site de alojamento)

Sobreposição dos gráficos da intensidade do treino físico anual (—) e semanal (—).

Exercícios específicos da condição física e caracterização dos seus fundamentos

Embora a apetência habitual dos potenciais leitores deste tipo de trabalho seja o de procurar encontrar um vasto e elaborado cardápio de exercícios que possam ser postos em prática na sua actividade de técnicos, esse não é o objectivo desta apresentação.

A perspectiva é a de abordar algumas regras e fundamentos, deixando em aberto a cada um dos leitores o convite à criação dos exercícios mais adequados à especificidade do seu atleta.

Alguns exercícios que aqui se referem não são mais que exemplos atinentes à ilustração da abordagem que se procura fazer do tema.

No G.R. todos os grupos musculares são importantes de uma forma homogénea, não havendo sobreposição de relevo de uns sobre os outros.

O que efectivamente é importante é que, praticamente à semelhança da generalidade de qualquer actividade desportiva com grau de exigência semelhante, todos eles sejam trabalhados em qualidade, quase sempre em detrimento da quantidade.

A quantidade de massa muscular, para lá de um encargo de exigência nutritiva a suportar pelo organismo, transforma-se, normalmente, numa sobrecarga a transportar, que colide com a necessidade de mobilidade máxima que é exigida ao atleta, em geral, e ao G.R. em particular.

Um determinado nível de reforço de massa dos grupos musculares do tronco e braços é quanto basta, e se aceita, com o fim de ombrear com o atacante nos embates pela disputa da bola no espaço aéreo da grande-área.

Em termos de exercícios específicos, pouco haverá a acrescentar àquilo que se conhece no domínio da musculação e da força.

Como saliência, será importante realçar a necessidade da generalidade do trabalho de musculação dever ser realizado em velocidade de execução, a fim de que o grupo muscular visado fique afectado dessa qualidade, de tão grande importância para toda e qualquer modalidade desportiva, com especial relevo para as que têm a bola como elemento determinante do jogo.

Nos exercícios com utilização de cargas tendentes a melhorar determinadas qualidades em que o próprio peso do corpo se revele insuficiente (sendo que, por via desse acréscimo de carga, o movimento não possa ser executado de forma rápida), é imprescindível, logo no imediato, que o mesmo movimento seja executado em velocidade máxima sem a referida carga, de modo a qualificar, a componente muscular executada, de movimento rápido, e não lenta, conforme executado no desenvolvimento do exercício com carga.

Qualquer grupo muscular, exercitado com uma determinada carga num ritmo dinâmico específico, ficará afectado dessa qualidade, e será assim que responderá na acção, sempre que para tal for solicitado.

Considerando, como exemplo, a importância do grupo muscular abdominal nas múltiplas acções em que participa (desportivas ou não), se o treino a que for submetido se revelar sempre alheio à componente velocidade de execução, o seu desempenho na acção denunciará essa qualidade e o seu proprietário jamais conseguirá boas performances desportivas, ou outras, sempre que ocorrer a participação daquele grupo muscular. E será bom lembrar que ele está presente, praticamente, em quase todos os movimentos de deslocação, ou de mobilidade específica, que se quiserem perspectivar.

Como exemplo prático, um atleta de fundo, dos 10.000 metros ou maratona, jamais terá uma prestação razoável numa prova de 100 ou 200 metros, porque o seu ritmo de treino jamais privilegiou a velocidade, pelo que os seus músculos denunciarão essa carência quando solicitados.

A ocasião afigura-se oportuna para lembrar que o treino do grupo muscular abdominal deve sempre ser acompanhado de trabalho de compensação do grupo lombar e músculos laterais do tronco, sob pena de uma descompensação do equilíbrio da bacia, de repercussões sempre negativas a vários níveis, onde por vezes se inserem até crises de pubalgia.

Trata-se de um erro que ocorre com frequência, ditado pelo facto de, tendencial e empiricamente, nos preocuparmos de forma desmedida com o elemento fundamental da acção (movimento avante e lateral), descurando o facto desse adestramento intenso poder desequilibrar a estrutura óssea em que este se insere, bem como o próprio equilíbrio de todo o grupo muscular da cintura, diminuindo a sua funcionalidade e performance.

No desenvolvimento do importante trabalho do treino da impulsão vertical no G.R., após a utilização de cargas suplementares (nunca excessivas e de forma a permitirem uma boa mobilidade no desenvolvimento do exercício) é imprescindível que este trabalho seja seguido de movimentos de corrida de máxima velocidade no mesmo sítio.

A fim de que a velocidade de execução possa atingir níveis elevados, de acordo com as disponibilidades de material colocado à disposição, devem promover-se, também, no imediato do trabalho com cargas, movimentos de elevação de velocidade máxima, retirando parte do peso do corpo, cuja forma deve ser procurada na disponibilidade do material existente, a saber, ou utilizando outras estratégias que o engenho e arte permita e visem o mesmo princípio atrás referido:

– Apoio dos braços numa barra horizontal colocada à altura mais apropriada (nível da cintura) como meio de facilitar a impulsão, diminuindo assim o peso do atleta;

– Utilização de dois colegas colocados um de cada lado para apoio nos ombros;

– Ou, de forma mais sofisticada, utilização de elásticos em suspensão com intensidade regulável para saltos curtos e rápidos ou saltos longos e muito rápidos com diminuição acentuada do peso do corpo, logo privilegiando de forma acentuada a velocidade de execução.

A mobilidade e a agilidade do G.R. são qualidades de enorme importância a trabalhar. Toda e qualquer acção desenvolvida em jogo, terá como suporte a disponibilidade do atleta nessa área.

Daí entender-se que, durante o treino, toda a disponibilidade do atleta deva ficar centrada nesse propósito, sem elementos concorrentes que desvirtuem o fim específico perseguido; habitualmente, traduzidos na presença da bola e toda uma panóplia de exercícios que se criam e recriam de forma empírica e com um determinado fim, que nada colhe e só prejudica o efeito exclusivo que se persegue.

É normalmente nesta área que se cometem os maiores erros, tanto quanto nos é dado a observar e o nosso entendimento sobre esta questão o sugere.

Se o que se pretende é que o atleta desenvolva uma boa velocidade de reacção, ele deve permanecer sempre em boas condições e disponibilidade para exercitar esse desempenho, o que não acontecerá se for levado à exaustão, onde perderá eficácia à medida que o cansaço se for apoderando dos seus músculos e o ácido láctico for ditando a sua justiça.

O técnico poderá insistir neste tipo de trabalho. Mas convirá que explique quando vai o atleta necessitar do trabalho de resistência ao qual é sujeito no treino.

Temos, pois, por princípio, que todo o conjunto de esquemas que vierem a ser organizados para este trabalho (será tudo uma questão de imaginação) devem ter em conta não produzir cansaço suficiente, que leve o atleta a diminuir a sua velocidade de execução, logo a treinar abaixo do limite da exigência de mobilidade onde ocorrem as transformações que este tipo de trabalho persegue.

A forma do exercício é talvez o menos importante.

O G.R. tem um espaço de mobilidade disponível que praticamente abarca os 360º. A imaginação, quanto ao tipo e feição do movimento a exercitar, não tem limites, devendo apenas aproximar-se quanto possível das situações que ocorrem no jogo, ou, pelo menos, muito próximo delas.

Não faz sentido exercitar determinado ciclo ou ângulo de mobilidade se ele não tiver transposição para o contexto da função. Toda a panóplia de exercícios adoptados, quer por via de rotinas copiadas, quer por exercício de criatividade, deve ter sempre em conta a transposição para um quadro real de jogo, evitando assim perder tempo e energia com formas de trabalho que apontem para o inconsequente.

Mais concretamente, qualquer exercício proposto, quer aponte para um aperfeiçoamento técnico, quer de condicionamento físico, procurará obter sempre do atleta uma resposta transponível para uma qualquer situação de jogo, ainda que a forma do exercício em si se não coadune nos seus contornos lineares com um gesto técnico específico do jogo.

De todo o modo, o que se nos afigura fundamental continuar a evidenciar é que o número de repetições respeite os limites de resistência funcional do atleta, sob pena do próprio virtuosismo do exercício se perder por inadequação da aplicação do mesmo e não da sua essência.

Os exercícios que se apresentam são um mero exemplo. Será sempre aconselhável que a imaginação do técnico não tenha limites. A rotina nos esquemas de trabalho podem conduzir a mecanicismos que em nada contribuem para a melhor performance do G.R., ou de qualquer outro atleta.

Não se torna obrigatório criar novidades no treino, apenas para que seja diferente. Apenas para que o técnico mostre (ou exiba) o seu vasto cardápio de exercícios, por vezes belos, acrobáticos, lúdicos, espectaculares, embora aparentemente eficazes só por força do show visual e não da sua real eficácia.

É aconselhável, nesta ou noutra actividade similar, manter um determinado grau apurado de atenção que concentre o atleta no exercício, mantendo sempre disponíveis e elevados os seus mecanismos de acção e a inerente capacidade de os reformular de forma adaptada às novas situações despoletadas.

O mecanicismo distrai o atleta porque a rotina permite-lhe dispersar a atenção para outros pólos que a despertem ou atraiam. Por vezes basta mudar apenas uma das componentes do exercício, ainda que isso possa eventualmente oferecer menor rentabilidade pontual. Passado algum tempo o elemento modificado pode ser reintegrado, constituindo-se de novo numa nova necessidade de readaptação, que só trará vantagens em termo de rentabilidade de treino. Numa mesma sequência de exercícios podem igualmente ser introduzidas pequenas alternâncias que mantenham o atleta em permanente atitude de vigilância e readaptação.

Quando por vezes em situação de jogo um G.R. deixa escapar das mãos uma bola aparentemente fácil, rematada com fraca potência, podemos estar em presença de uma rotina de treino pouco cuidada neste aspecto.

Trataremos deste tema mais adiante.

Quadro de exercícios.

Como referimos, o conjunto de exercícios que se segue é um mero quadro de exemplos e um desafio à imaginação do técnico. Tratam-se de exemplos de exercícios de mobilidade transponíveis para a situação de jogo. Estão, naturalmente, ausentes aqueles que configuram o trabalho de condição física genérica do atleta (abdominais, dorsais, trabalho específico de impulsão vertical e horizontal, etc.) que, pela sua generalidade, não deverão ser incluídos aqui, por limitação de disponibilidade de espaço deste trabalho.

Convirá, mais uma vez, salientar que quando se propõe um novo exercício os seus efeitos e formas de execução devem ser sempre ponderados em termos da resultante prática do mesmo. Um exercício demasiado elaborado e complexo pode não trazer qualquer benefício prático à simplicidade da actuação do G.R..

Por vezes este embrenha-se (e distrai-se) em procurar solucionar a complexidade do próprio exercício, desvirtuando os propósitos essenciais de obtenção de funcionalidade que nele estivessem contidos.

Como vimos referindo, o número de repetições (para todos os exercícios que aqui se apresentam) deve depender da resistência do atleta (bem como da carga de treino que já traz na sessão de trabalho) devendo ser interrompido mal o técnico vislumbre que este baixou claramente a sua velocidade de execução e disponibilidade para um desempenho de resposta máxima.

Insistimos que o G.R. não está a treinar nenhuma componente de trabalho de resistência anaeróbia ou outro.

Calcula-se que cada série poderá ser composta, em média, por 3 a 6 repetições, embora, como se referiu, variando de atleta para atleta e do próprio momento do treino, bem como a especificidade do exercício.

Repetir a série após pausa tida como suficiente e adequada à recuperação funcional do atleta, tendo em conta que o número de repetições irá sendo, naturalmente, cada vez menor. Em todos os exercícios a velocidade de execução é sempre explosiva.

Os intervalos de repouso devem ser aproveitados da forma mais conveniente para uma efectiva recuperação dos níveis de disponibilidade do atleta, podendo, e devendo, ser aproveitados para o imprescindível trabalho de alongamento, sempre que possível e aconselhável com a ajuda de um companheiro.

Será importante reter que, no trabalho de alongamento, cada extensão não deverá ter mais que 30 a 40 segundos de duração. A intensidade/necessidade do trabalho de alongamento que o atleta vier a revelar necessitar deve contabilizar-se em número de repetições e não no alargamento em tempo de cada estiramento. O alargamento temporal de cada alongamento para lá de valores tidos como adequados, pode conduzir à fragilização das estruturas musculares e tendinosas, com o consequente aparecimento de lesões de ruptura.

1-     G.R. deitado em decúbito ventral. Sinal sonoro, levanta e sai em sprint curto de quatro cinco passos e deita. Novo sinal sonoro e repete o exercício. Solicitar o máximo de velocidade possível quer no levantar quer no sprint. Variar os intervalos entre cada sinal sonoro. O atleta não está a treinar uma sequência. Está a exercitar a velocidade de execução/reacção em cada um deles. Uma sequência cadenciada e sempre igual de sinais sonoros levará o atleta a responder por rotina adquirida e não por estímulo vindo do exterior, que implica uma resposta adequada ao estímulo. Este pormenor deve ser observado em múltiplas situações de produção de um estímulo/resposta. O técnico avaliará a resposta do atleta para determinar a interrupção do exercício, supondo-se que deverão situar-se dentro do limite médio referido. No entanto, não há dois atletas iguais.

2-     Repetir este exercício apenas com a alteração da posição de partida que passa a decúbito dorsal. O sentido da corrida é sempre o sentido da cabeça do atleta.

3-     Executar os dois exercícios anteriores alterando apenas o sentido da corrida que é feita agora de costas mantendo as mesmas regras.

Observação: O G.R. deve trabalhar com bastante incidência o sprint curto de costas. O

recuo é, frequentemente, uma arma de extrema importância na actuação do G.R..

4-     A mesma sequência de trabalho alternando o sprint à frente com sprint atrás. Todas as miscelâneas são possíveis e desejáveis. Ao fim e ao cabo, procura-se com isso criar “instabilidade” na função do atleta, incutindo-lhe um alerta permanente à diversidade de estímulos que o fustigam constantemente durante o jogo.

5-     G.R. sentado sobre a linha de golo. Sinal sonoro, levanta, salta, toca na barra e senta. Repete o exercício 3 a 6 vezes, ou até que o atleta denote quebra de rendimento, sendo então interrompido pelo técnico.

6-     G.R. de pé. Duas bolas no chão, seguras por colegas; uma à sua direita outra à esquerda, distando do G.R. (dependendo da altura e envergadura do atleta) mais ou menos dois a três metros. Solicitar mergulho junto ao solo à direita e à esquerda, tocando na bola com uma só mão (sapatada efectiva). É o técnico, postado à frente do atleta, que determina, apontando, a qual das bolas este mergulha. O atleta só mergulha após sinal. Não deverá haver apenas alternância direita/esquerda, mas também direita/direita e esquerda/esquerda, variando quanto possível a sequência. Importante determinar toda a instabilidade destas sequências, obrigando o atleta a ler primeiro a informação, reagindo a ela por consequência e jamais por rotina. A sequência será interrompida pelo técnico, logo que o entenda aconselhável, de acordo com as regras que se vêm explicitando.

7-     Encadear vários destes exercícios. Por exemplo: partir da situação do exercício anterior com o G.R. colocado entre as duas bolas mas deitado em decúbito ventral. Sinal sonoro. Levanta, sprint à frente, deita, levanta, sprint atrás, deita, levanta, mergulho à direita, mergulho à esquerda, etc, etc, .

8-     Criar uma peça em estrutura muito leve (borracha ou plástico) que configure meia bola de andebol com uma pega sólida colocada no interior da parte côncava da bola que permita agarrar com segurança no engenho. Na falta de melhor também poderá ser utilizado um par de luvas de treino de boxe (de maior dimensão e mais macias). Técnico apetrechado com este equipamento ou, de preferência, um dos guarda-redes, presumindo que este possa executar os movimentos de forma mais rápida. Utilizando um dos aparelhos em cada mão (ou uma luva) frente ao guarda-redes executar movimentos muito rápidos simulando remates à queima-roupa variando quanto possível as direcções, desde que a trajectória fique ao alcance do guarda-redes. Este deve procurar desviar o objecto com uma única palmada de forma explosiva. A sequência das duas mãos deve ser rápida quanto possível de preferência alternando-as de forma a obrigar o guarda-redes em treino a executar movimentos amplos e bem separados entre si. O objectivo não é atingir o guarda-redes, como o poderia fazer supor o uso alternativo das luvas de boxe. A ideia consiste em exercitar o estímulo/resposta (o reflexo), bastando que o utensílio criado para este objectivo específico fique próximo do atleta permitindo-lhe uma resposta explosiva quanto possível. Em causa está apenas a velocidade de execução do elemento treinador de forma a suscitar uma resposta adequada quanto possível do atleta em treino. Sugerem-se, em simultâneo, movimentos curtos de deslocação dos pés de forma a criar alguma amplitude e complexidade na deslocação dos braços. A utilização de uma ou a outra mão deverá ser a mais aleatória possível a fim de aumentar ainda mais a instabilidade das sequências de movimentos.

Este esquema constitui-se numa alternativa a equipamentos mais sofisticados que utilizam o computador e são constituídos por um quadro com vários globos com lâmpadas que acendem num determinado esquema aleatório devendo o guarda-redes tocar-lhes no mais curto espaço de tempo possível. As lâmpadas apagam-se se o atleta conseguir tocar-lhes no espaço de tempo pré-determinado e ficam acesas se tal não acontecer, permitindo de algum modo medir a performance do atleta e uma determinada evolução passível de ser lida pelo número de lâmpadas que ficam acesas numa relação com o intervalo pré-estabelecido.

Não obstante a intervenção cada vez maior de meios sofisticados no campo do treino desportivo, neste caso entende-se bastante adequada a menor sofisticação apresentada, por se aproximar mais da realidade que o atleta irá enfrentar. Por outro lado, os custos por certo justificarão uma opção bem mais terrena e arcaica.

Por fim e em resumo.

O treino deve constituir-se sempre num momento de superação situado acima dos limites tradicionais das rotinas do jogo. Este o único caminho que conduz o atleta a altos níveis de execução, proporcionando-lhe os meios adequados que visem a excelência da sua atitude desportiva.

Este espírito é pois aplicável, em toda a sua plenitude, a todos os sectores e intervenientes do jogo, sempre que os meios se mostrem disponíveis e aplicáveis a cada situação e não deturpem a performance esperada.

Inventar instrumentos e formas de trabalho cujos meios de acção e resultante não são compatíveis com as exigências do jogo, é uma pura perda de tempo e um desperdício de oportunidades, ainda que o aspecto dos métodos possa, à partida, configurar a expectativa de resultados aparentemente conciliáveis com o que deles se esperava.

Ocorre com frequência a tendência para armar determinados exercícios de treino complexos e vistosos, tornando-os aparentemente frutuosos quando observados a partir da complexidade de que se enfeitam.

Visto da bancada, o técnico pode colher alguma glória pelo ineditismo e algum fogo-de-artifício que conseguiu queimar no acto.

Poderá, no entanto, ver esse fogo morrer e extinguir-se quando os resultados práticos não se conformarem com o brilho e aparente proficuidade desse seu trabalho. Por vezes a infelicidade do G.R. (o famigerado azar, que tem sempre as costas largas…) lá vai encapotando uma ou outra situação. Mas a verdade acabará por vir sempre ao de cima.

O futebol, no puro conceito de jogo, é simples. Para quê elaborar grandes ensaios para que os atletas possam representar essa simplicidade?

Afigura-se imprescindível que o técnico inove e reformule as suas propostas de treino afim de que não caia em rotinas de entusiasmo duvidoso.

Mas é bem mais aconselhável que avalie todas as suas propostas de exercícios específicos, numa perspectiva de eficácia e adequação, que coloque de parte a pura perda de tempo e o desgaste inconsequente dos seus atletas.

Acima de tudo deve avaliar as consequências práticas de cada exercício proposto, de modo a aquilatar do real valor das transferências que daí resultam para a melhoria efectiva da performance do atleta, não ficando refém duma aparente glória extraída de algum impacto, que o exercício aparentemente possa revelar.

O treino mede-se pelos resultados dos jogos, não pelo resultado do treino!

Pedro Cabrita

(Lic. Ed. Física)

petruscabritas@gmail.com

Trabalho alojado no site:

http://treinofutebol.net/Artigosfutebol1.html

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