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Futebol – Prospecção de Novos Talentos

Que sinais procurar.

 

A luta desenha-se renhida e desenfreada, tendo galgado já fronteiras com a mesma velocidade desmedida com que vamos percorrendo os nossos dias.

A busca de novos talentos que possam vir no futuro a engrandecer as fileiras dos clubes com maior potencial, é nesta altura uma linha de rumo que nenhum dos grandes descura, não cabendo, de momento, aqui uma ou outra análise crítica da forma, âmbito e dimensão dessa procura. No fundo, não mais que o extravasar do combate que ocorre dentro das quatro linhas, levado muito para lá dos limites que um bom senso ou ética aconselhariam.

 

Os tempos vão, contudo, ditando novas regras a que todos se têm que adaptar, consciencializando-se que, perdido um comboio, quem apanhar o próximo chegará, inevitavelmente, atrasado.

Neste passo apressado em que nos vamos movimentando perpassa um ou dois desígnios: chegar primeiro e arrecadar o valor que desponta, ou, no mínimo, retirá-lo às “garras” do adversário.

 

Neste afogueado afã – uma espécie de loucura que bem pode definir o timbre da sociedade que fomos construindo – o receio de perda, e necessidade imperiosa de marcação, tem vindo a fazer recuar a idade dos “objectos de suspeita” para escalões perfeitamente destituídos de qualquer senso. Já vimos, com direito a exposição mediática na TV, “pré-talentos” com 6, 7, 8 anos de idade. Não tarda que se baixe este nível etário para os primeiros passos do futuro astro da bola, mesmo que titubeantes, mas certamente reveladores de um sinal quase imperceptível, embora suficiente, para alimentar uma qualquer teoria que vingue até à consistência indesmentível da realidade.

 

Todos temos consciência que há esquinas de maturação que se estendem até aos 20 anos e que podem desmoronar tudo aquilo que parecia ser um valor insofismável para o futuro. Quantas esperanças se foram aniquilando bem antes do princípio do sonho. Quantos desvios se foram produzindo deixando incrédulos os obreiros da descoberta, quando tudo se conjugava para um êxito por demais evidente.

Contudo há uma evidência que importa não perder de vista: não há fórmulas que permitam alienar o erro de avaliação, havendo, indubitavelmente, riscos a correr.

 

A busca e descoberta de talentos transporta, no entanto, uma dificuldade a que ninguém consegue pôr cobro:

 

– Quais as características ou sinais a descortinar no jovem atleta que permitam obter uma garantia mínima de estarmos perante um potencial valor, onde valha a pena apostar.

 

As perspectivas de avaliação e indícios são variadas e são tantas quantas as que conseguimos listar nos jogadores que ao longo dos tempos se vieram firmando como os melhores do mundo.

Entre elas:

 

A força;

A estatura;

A velocidade;

A técnica;

A dimensão estratégica;

 

Atentando bem, nenhum dos ícones do futebol – cuja imagem nos percorre ainda indelével a memória – detinha todo este conjunto de qualidades/capacidades, ainda que alguns tivessem conseguido agregar três ou quatro destes atributos num mesmo estilo. Outros congregavam um ou dois destes atributos, aos quais acrescentavam um cunho muito pessoal, com o qual coloriam uma dimensão própria de relação com o jogo, construindo uma diferença que os distinguia da mediania.

Ora esta realidade vem dificultar o trabalho do prospector que, perante uma ou outra saliência, admite poder encontrar-se perante uma pequena pepita de ouro que lhe pode conferir a descoberta do filão da mina.

 

Considerando o estrato etário 12/16 anos como um compartimento onde é possível perscrutar valores com algum sentido e razoabilidade, a velocidade será por certo um dos primeiros elementos de ressalto, quando não um factor fundamental para uma anotação com pernas para andar.

Contudo, se a velocidade for designada como factor fundamental – senão mesmo condição essencial, ou ponto de partida para qualquer decisão – é bem possível que ocorram falhas, que, mais tarde ou mais cedo, poderão ser catalogadas como desastrosas. A velocidade por si só não chega. Carece de outros resguardos, sem os quais de nada serve.

Nessa perspectiva, Figo e Rui Costa poderiam passar desastrosamente despercebidos, tendo em conta a conhecida etiquete de “falsos lentos” com que habitualmente se qualificam este tipo de jogadores.

A velocidade em si deve pois ser considerada como um factor com alguma importância, desde que enquadrada no elemento fundamental que mais adiante se considerará.

 

A dimensão estratégica não é habitualmente legível neste estrato etário por razões óbvias, tendo em conta a reduzida dimensão do controlo de espaço que os jogadores jovens ainda conferem.

 

A força, por vezes observável, não se faz acompanhar normalmente de outras qualidades que lhe dão aproveitamento desportivo. Só por si fica esvaziada de conteúdo

 

A estatura comporta dois níveis de dificuldade.

O primeiro tem a ver com a propensão habitual da prospecção em descortinar centro-campistas ou atacantes e menos jogadores do sector defensivo. Tratando-se de um erro que ocorre com frequência, a realidade confirma que o maior apetite converge mais para o construtor e finalizador de jogo do que para jogadores do sector defensivo. Razão provável pela qual os títulos de melhores do mundo recaiam em mais de 90% dos casos em jogadores de cariz ofensivo, bem assim como os valores das transferências mais sonantes serem raramente atribuídos a atletas dos sectores defensivos.

 Por outro lado, um atacante de elevada estatura revela normalmente dificuldades de coordenação e menor disponibilidade motora pelo que não passará no restante crivo de exigência.

Se o atleta se apresenta como defesa colherá menor atenção à partida, carecendo de um maior número de observações, porque terá uma participação de menor protagonismo, tendo em conta a sua acção mais destrutiva que construtora no jogo. O atacante que marca o golo da vitória será sempre o herói do jogo e a luz que brilha; mesmo que um central tenha conseguido dois ou três cortes fundamentais para garantir essa mesma vitória.

Contudo, também aqui se podem cometer alguns erros, ainda que em certos casos colmatáveis pela saliência de outras qualidades bem distintas do atleta, só ao alcance de um olho bem treinado. Ricardo Carvalho, por exemplo, tendo em conta a sua estatura, poderia passar despercebido a um observador menos atento que considerasse a estatura como factor essencial para o lugar

.

Resta a chamada técnica; designação que confere um conjunto variado de domínios de extraordinária importância, embora muitos deles se confundam com alguma frequência com habilidades de alguma exuberância, mas pouco ou nada transponíveis para o complexo mundo do futebol.

Recentemente tem corrido pelo palco infindo da internet uma exibição de um “artista da bola” que em pleno relvado vai mantendo a bola em sustentação utilizando várias partes do corpo, ora sentado ora de pé, para gáudio e admiração dos espectadores.

Ora, com 16 ou 17 anos, Maradona fez o mesmo durante todo o intervalo de um jogo da selecção da Argentina, sustentando a bola em toques sucessivos, quando ainda não passava de um jogador a começar a dar nas vistas, embora sem qualquer perspectiva sólida de concretização daquele que viria a ser um dos melhores do mundo de sempre. Até porque, retomando a condição estatura, Maradona era baixo e atarracado, levantando algumas dúvidas quanto ao galarim que poderia vir a atingir.

Para mais tratando-se de um esquerdino quase puro, o que em alta competição se designa por vezes por um “quase coxo”… Só que o outro lado do pé esquerdo de Maradona veio a revelar-se bem mais profícuo que qualquer pé direito bem adestrado.

Não sei o nome do “artista” de ar oriental que temos vindo a apreciar ultimamente, nem se me afigura, pela presumida idade, que tenha sido, ou possa vir a ser, jogador de futebol com credenciais suficientes para não mais nos esquecermos do seu nome.

Por outro lado, sabemos que Maradona dispensa apresentações, não se justificando sequer rebobinar dois ou três trechos do seu trajecto verdadeiramente notável.

Se no mesmo dia Maradona e o nosso malabarista da bola se apresentassem no estádio executando as mesmas habilidades, nenhum olho clínico se inclinaria para uma aposta segura, ficando apenas a dúvida se aquele pequenote de farta cabeleira e perninha curta poderia algum dia ter uma chance de jeito no futebol de alta competição.

A técnica não passa pelo domínio exclusivo do objecto de jogo. Ainda que de fundamental importância, esse domínio comporta uma relação fundamental com o espaço, o tempo, o adversário e o companheiro; mas essencialmente com a apropriação segura da bola, quer num espaço de um ou dois metros, quer em deslocação mais ou menos rápida.

 

Esta a característica que se nos afigura essencial descortinar no potencial talento.

 

Segurança na posse de bola se pressionado; controlo da mesma nas deslocações, mesmo que “agarrado” à bola, uma característica de apropriação clássica no jovem jogador e fácil de desmontar mais à frente.

Esta uma característica que perpassou por todos aqueles ícones que percorreram a memória do futebol.

Todos eles e revelaram exímios no domínio e conservação da bola, quer no controlo de protecção, quer nas deslocações mais ou menos rápidas, onde se revelou insuperável Maradona.

Relativamente ao jovem jogador, esta qualidade confere ainda uma segunda leitura e esta concernente à sua personalidade.

O jogador que é capaz de segurar a bola de forma controlada em todas as circunstâncias do jogo, revela confiança em si próprio, afirmação perante o jogo e os adversários e uma disponibilidade motora que lhe confere segurança nos actos e atitudes.

A frequente atitude de exagero na apropriação da bola, não deve, nesta altura, constituir motivo de exclusão por se tratar de uma característica usual no jovem atleta, facilmente contornável na maturação do jogador e na sua evolução natural.

Importante, sim, é o jovem ser capaz de o fazer com segurança e alguma sobranceria até, constituindo-se essa circunstância numa forma de afirmação de personalidade colocada à disposição do técnico no futuro, que a usará nos desígnios que se conformem nas disposições tácticas que vier a atribuir ao jogador.

A qualidade de passe, visão estratégica e posicionamento adequado estão normalmente adstritos a este tipo de jogador, por via da sua velocidade de reacção (estímulo/resposta), uma característica que os distingue dos demais, por permitir a detecção de sinais periféricos em simultâneo com um desempenho proprioceptivo ajustado e profícuo.

 Pedro Cabrita

13 comments on “Futebol – Prospecção de Novos Talentos

  1. Desde já obrigado Pedro Cabrita , para quem esta a começar o que o senhor escreveu é de grande ajuda. Eu estou num curso de desporto a acabar o 12º ano, gostava de me especializar no acto de observar, pois é o que mais me faxina no desporto ( alem da parte tecnica). se me pode-se ajudar dando umas dicas sobre o que devo começar a fazer, para onde devo ir na universidade quando acabar o 12º ano, agradecia quero mesmo fazer isto. obrigado mais uma vez e espero pela sua resposta

  2. Parabens Pedro Cabrita pelo excelente contributo ao futebol.

  3. Boa tarde. Será que me poderia dizer o que fazer quando se tem um filho, com 13 anos, que deveria ser visto por algum clube do continente porque acho que é um talento e que é uma pena passar despercebido!! (vivemos na Madeira).

  4. Olá, Eu sou o Miguel António Mateus de Carvalho.
    tenho 18 anos de idade, vivo em Luanda-talatona, meu sonho é ser um jogador de futebol, gostaria de conseguir realizar este sonho, mas pra isto preciso de ajuda…
    eu sou um bom avançado, marco muitos golos
    e ja participei em varios campeonatos da escola e de gira-bairro. fui varias vezes o melhor marcador e melhor jogador.
    se alguem estiver disposto a me ajudar… por favor contacte-me. 927616776
    Muito Obrigado

  5. O meu nome e Marcelo Tavares tenho 17 anos sou da zona de Setubal,gosto de jogar a avançado,extremo esquerdo ou medio centro,ascho que tenho potencial para vir a ser um bom jogador,estou disposto a fazer periodos de experiencia para mostrar o meu valor e potencial, alguem quiser me ajudar fica o meu numero 966658612.

    • É o que vamos averiguar.
      Muito obrigado pelo aviso Futebolis.
      Esta minha publicação, obviamente de minha autoria, foi aqui publicada em 23 de Junho de 2009, como se poderá confirmar na estrutura do meu blogue.

      Estado: Publicado Editar
      Visibilidade: Público Editar
      Publicado em: 23 de Junho de 2009

      Pedro Cabrita

  6. Boa noite !
    da uma olhada nesse DVD por favor!

    Estou em Portugal a 5 meses e fiz 10 gols e 4 assistencias em 14 jogos.. estou disputando o campeonato distrital na zona do porto .
    O motivo desse email é conseguir contatos que possa me ajudar a dar um salto maior na minha carreira !
    caso se interesse ou conheça alguem que pode me ajudar , entre em contato por email: luanportugal.l10@hotmail.com whatssap +55 22 997-055950 .

  7. Ola boa tarde vanho por este meio pedir ajuda pera lançar o meu sobrinho ele e um grande gardaredes tem 19anos mede 1.80 já trainou no 1 dezembro tem bem já foi o melhor gardaredes 2014 2015 no torneio nacional espero que ele tenha sorte por que esta se a perder muito obrigado

  8. Aos leitores que aqui me pedem ajuda na colocação de jogadores em clubes que possam estar interessados nos seus serviços, venho esclarecer que não é essa a minha função ou vocação, nem mantenho ligação com agremiações que possam solver as solicitações que aqui vos trazem.
    Lembrar ainda que nos dias de hoje a prospecção de talentos se encontra a um nível tal que dificilmente deixam escapar atletas com qualidades para virem a singrar no mundo difícil do futebol.
    Compreendo os vossos anseios mas será bom que mantenham os pés bem assentes no chão e não se deixem iludir por fantasias que geralmente acabam mal.

    Com os desejos sinceros de que possam vir a encontrar o caminho que corresponda aos vossos anseios.

    Pedro Cabrita

  9. Boa noite, existe um jogador na equipa de iniciados b do Fabril com elevado talento , alguém que o va observar .

  10. Bom dia amigo como eu faço para prospectar jogadores? Necessito de um software para poder trabalhar poderia me passar dicas para poder iniciar trabalhar com esse projeto Muito obrigado

  11. Caro amigo.
    Nenhum software substitui a avaliação humana das capacidades/qualidades de um jogador de futebol.
    Mas isso também é parte substancial do problema.
    Ser capaz de descortinar o pequeno pormenor que distingue o grande jogador de um outro de mediana capacidade não é fácil. Trata-se de uma qualidade que poucos detêm e não faltam por aí exemplos de grandes esperanças que acabam afinal por iludir as expetativas. No trabalho que acabou de ler tem alguns pontos de ajuda que não pretendem ser uma espécie de software/cartilha que vai separar o grande jogador de outros de mediana craveira. É apenas um auxiliar, uma ideia, que pode ajudar, podendo potenciar outras qualidades do observador. Procure descortinar as qualidades, muitas delas pouco visíveis à primeira vista, que aqui se desenham e repita a observação várias vezes em circunstâncias diversas. E não esqueça: um jogador que fez um golo enorme ou um grande jogo pode não ser um formidável jogador. É preciso que o repita várias vezes. Mas não esqueça. A melhor observação/prospeção está nos pormenores e não nos grandes lances. E aí é que vai entrar a sua perspicácia de bom avaliador.
    Por fim ter ainda em boa conta que um atleta que faz maravilhas enquanto nas camadas jovens pode não conferir uma evolução esperada quando sénior. Esse fenómeno ocorre muitas vezes e tem a ver com o desenvolvimento morfo-fisiológico que vem alterar o desempenho do atleta no futuro. E aí só há que esperar para ver. Mas mesmo assim ele detém os tais pormenores quase invisíveis à vista desarmada que fazem dele não apenas uma esperança mas uma segura realidade. Tente descobrir… E boa sorte.

    Pedro Cabrita

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