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SPORTING – O dealbar de mais um deserto.


Provavelmente o mais extenso, dorido e seco de todos.

 

Esgrimiam-se os candidatos nas últimas eleições do Sporting quando nos apercebemos que algo ia correndo mal nos princípios, nas eternas promessas eleitorais e nos propósitos dos candidatos (23Março2011 https://pedrocabrita.wordpress.com/artigos-publicados/sociedade-e-politica/um-sporting-rasca-e-a-rasca/  ).

Foram necessárias apenas três jornadas da Liga Portuguesa de Futebol para que a má perspectiva anunciada desse sinais de vida, no caso, mais sinais da sua ausência, porque o nascituro anunciado afinal não fecundou, gorando todas as esperanças de uma enorme festa, desde logo efusivamente anunciada com pompa e circunstância.

Três jornadas e dois pontos em nove possíveis, para não falar já na tiritante participação na jornada europeia, onde se viu de novo rasca e à rasca para levar de vencida um adversário, cujo nome nem me consigo lembrar, ao qual pouco faltou para conseguir melhor espelhar a verdadeira imagem do actual Sporting, eis a magra imagem que surtiu de tanta promessa de festim.

E quando as coisas correm mal, onde deitar as culpas?

Normalmente em cima do treinador, porque culpabilizar todo um plantel, por mais débil e incipiente que seja o seu desempenho, é, na prática, impossível e desaconselhável, porque os jogadores, além de contratos milionários, são os ídolos da massa associativa e como equipa que são, não têm rosto nem identidade que permita levá-los ao altar de sacrifício.

A seguir vêm os árbitros. Porque o árbitro tem rosto, nome e já prejudicou a nossa equipa, de certeza absoluta.

E esta alternativa em Portugal nunca falha por dois motivos essenciais:

– A arbitragem nacional é genericamente incompetente, logo os erros são muito frequentes;

– Há um escrutínio da actuação dos árbitros como em nenhum outro país e esse escrutínio é feito por uma boa dúzia de incompetentes em matéria de arbitragem, contratados pelas TV’s apenas porque são fervorosos facciosos dos seus clubes, medindo-se os erros dos árbitros num calcanhar ou barriga que estaria ou não fora de jogo, numa intensidade de um empurrão quase medido em gramas e numa memória de erros acumulados pelos árbitros contra “os nossos” que podem ir até 1934.

Godinho Lopes não resistiu a este caminho, claramente porque não tinha outro, tendo em conta a outra tradicional incompetência do futebol português conferida, no caso, aos dirigentes desportivos.

Não podia fazer mea culpa porque no futebol português o dirigente muito raramente é escrutinado na formação da equipa de futebol (e jamais protagonista de uma auto-crítica) e, no caso, o treinador muito menos poderia ser culpabilizado, considerando que Domingos Paciência foi o trunfo maior do Presidente do Clube na campanha eleitoral.

– O Sporting tem sido prejudicado pelas arbitragens? Tem.

– O Porto tem sido mais ou menos prejudicado que o Sporting? Tem.

– O Benfica também tem maiores ou menores queixas das arbitragens que os seus adversários directos? Tem.

– Todos os restantes clubes têm queixas das arbitragens. Têm… e estes são sem dúvida os que maior razão de queixa têm.

Pesa-se então o quê? Quem tem mais razão de queixa?

Pobre opção esta quando ninguém duvida que os árbitros erram todas as semanas, primeiro por incompetência e depois porque o seu inimigo público número um (os paineleiros e a televisão) não lhes dão um centímetro de tolerância, quando refastelados na sua choruda remuneração semanal para defender as suas cores, exigem a repetição dos lances as vezes que forem necessárias para jamais chegarem a qualquer consenso, incendiando as massas associativas, para logo na semana seguinte lamentarem veementemente quaisquer actos de vandalismo nos estádios ou fora deles.

Domingos Paciência (DP).

Há um tributo a prestar-lhe: jamais se refugiou nas arbitragens para justificar os desaires da equipa, indo mesmo ao ponto de retirar um ou outro breve resvalo em que caiu na breve entrevista após o jogo em Alvalade, corrigindo posteriormente algumas dúvidas deixadas ao trabalho do árbitro C. Xistra.

DP tem optado sempre por encontrar na equipa as razões para os sucessivos desaires, embora estejamos em desacordo com o cerne em que tem colocado a tónica: pouco empenhamento dos jogadores.

Parece-nos óbvio que não há nesta altura no plantel do Sporting quem não dê tudo o que tem por dois motivos essenciais:

– Ganhar um lugar na equipa;

– Jamais correr o risco de levar com a massa associativa em cima, quanto todo o mundo sportinguista acorre ao estádio em busca do tesouro da arca perdida vai para um ror de anos.

Pode ser que tenha outro objectivo; pode ser que esteja dar a entender por portas travessas que há atletas no Clube que não têm gabarito suficiente para vestirem aquela camisola. E essa é a pura realidade. Mas nesse caso terá que reconhecer que cometeu um tremendo erro de avaliação ao aceitar o cargo sabendo do plantel que estava disponível, embora tivesse corrido a promessa de aquisição de outros valores com maiores garantias de qualidade.

Neste ponto ocorre uma segunda questão: qualidade e estado em que chegaram alguns nomes sonantes adquiridos pelo Clube. É uma questão complexa sobre a qual não emitiremos opinião, sabendo que este assunto, mais tarde ou mais cedo, terá que ser clarificado e, supõe-se, devidamente tratado, porque é tempo de encontrar, por uma vez que seja, algum responsável no Sporting pelo sem número de erros que têm vindo a ser cometidos ao longo de décadas na aquisição de Pongóis, quase aos contentores por época.

DP parece ter compreendido tarde demais que os valores de que o Sporting dispunha para esta época (após a purga de alguns restos de diamantes forjados em Alcochete) eram bem mais débeis do que ele próprio terá avaliado e são afinal a razão de tanto desaire, mascarado aqui e ali por dois ou três jogadores de qualidade que acabam por se vulgarizar no meio do nevoeiro da incompetência técnica que graça no plantel do Clube.

Mas, DP cometeu um erro maior.

Conquanto os poucos anos de experiência que leva como treinador, tinha obrigação de não o ter cometido, considerando os anos que percorreu como jogador. Um erro de palmatória que teoricamente qualquer treinador sabe que não pode incorrer, salvo o enorme desejo de cavalgar a glória num cavalo grande que, inusitadamente, lhe passe pela porta; referimo-nos ao aceitar como possível construir numa só época uma equipa de futebol ganhadora a partir do quase nada, que era no que se constituía o Sporting que DP foi encontrar.

O discurso começou bem quando DP alvitrou essa impossibilidade. Depois deixou-se arrastar pela onda de euforia com que quiseram galvanizar os adeptos, essencialmente quando o Presidente alterou o discurso de que o projecto era “ser campeão durante o mandato…” para uma outra ideia destituída de um bom senso garantido pela inexperiência e a pressa de sonhar, esclarecendo que “… o objectivo era ser campeão esta época.”.

E a massa associativa acreditou enchendo o estádio no dia da apresentação. Até os jogadores quase acreditaram, quando vinham de jogos de preparação jogados a feijões, jogos em que a equipa, se bem preparada, não podia estar em boa forma naquela altura; contudo fez resultados positivos, o que terá sido um mau prenúncio.

E bastou esse jogo para que a verdade viesse nua e crua ao de cima e obrigasse quase toda a gente a colocar os pés na terra.

Só falta o Presidente. O Presidente continua ainda agarrado a uma espécie de bóia de salvação que impeça que os tubarões que o avassalaram na campanha eleitoral lhe mordam o projecto e as promessas.

Godinho Lopes já foi de encontro à primeira sanha corporativa que trará tudo menos boa saúde ao futuro do Sporting; a arbitragem.

Podia, ou pode, até ter alguma razão. Mas devia saber que uma corporação incompetente tende a destruir quem a ameaça e geralmente vence.

Os dias que por aí vêm nada de bom trarão para o Clube e as suas tradições.

Cada árbitro será o 12º jogador do adversário, mal pise o relvado.

Os adeptos, ordeiros e crentes, continuarão a exigir o “título já este ano…” prometido pelo Presidente.

Os jogadores sentirão como ninguém essa exigência e a bola tornar-se-á quente e insustentável.

O técnico não pode continuar a acusar os jogadores de falta de empenhamento, quando meio mundo (e ele próprio, certamente) já entendeu que o que falta é obviamente competência e não vontade.

Os sócios estão cansados. Como venho dizendo há muito, a massa associativa, provavelmente das melhores e mais sensatas do mundo, quer, e merece, apenas verdade. Quer tudo menos projectos insustentados por uma realidade que salta à vista. Quer apenas que se lhe diga que a criação de uma equipa de futebol ganhadora custa muito dinheiro, em primeiro lugar, e depois leva tempo, por vezes muito tempo, a criar.

DP terá sido traído pela ambição se subir depressa no exigente e bem pago mundo do futebol mundial, numa altura em que a cotação dos técnicos portugueses está em alta e são cobiçados por meio mundo. Talvez não lhe falte capacidade para ir longe. Mas está-lhe a faltar uma ponta de paciência.

A Godinho Lopes faltar-lhe-á quase tudo em termos de experiência dirigente. E o Sporting poderá não ter tempo para esperar, como não teve com os anteriores presidentes.

O Sporting poderá cansar-se de ser cobaia de jovens treinadores (Paulo Bento e Domingos Paciência) e de presidentes (praticamente todos os dos últimos anos).

Aos associados poderá começar a faltar uma outra paciência que pode vir a traduzir-se num compreensível cansaço  de ouvir todos os inícios de época “desta vez é que é…!”, para depois desacreditar em tudo bem antes do Natal.

Ao Sporting faltará apenas bom senso, organização, competência e uma enorme dose de verdade. E tudo isso, quase sempre, leva tempo a encontrar.

P.C.

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