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— Pobre (rico) Scolari

15JUN2008

Pobre (rico) Scolari

Pago principescamente por um país pobre que almeja ombrear com os outros naquilo em que julga ser a sua única porta para o conseguir – o futebol – prepara-se para sair, muito provavelmente sem ganhar nada, salvo se na recta final conseguir fazer jus aos milhões auferidos ao longo de cinco anos e meio, pagos papalvamente por todos nós, que fizemos o possível e o necessário para escamotear a pobreza e alguma fome dos mais de 20% de todos nós, em nome de um título europeu que nos alivie a dor e o opróbrio de marcharmos na cauda de uma Europa que nos vai tolerando tendo em conta a nossa insignificância social e política.

Scolari prepara-se para meter um boletim do euromilhões premiado antes do sorteio, encimando a prateleira dos privilegiados do mundo da bola, onde os números são cada vez mais loucos e nos deixam perplexos, quer quanto à sua dimensão, quer quanto a uma espécie de big-bang que necessariamente terá que acontecer, tendo em conta a escalada insensata de tudo isto.

Após cinco anos à sombra de uma bananeira que lhe proporcionou a sombra e o fruto, sem ter que se levantar sequer (caramba, que mais se pode dizer de um actividade profissional em que o trabalho se estende, em média, por 15 dias de três em três meses), Scolari não resistiu aos cifrões nem a ter, agora sim, que provar a sua verdadeira qualidade como treinador.

Já nos perguntou uma vez se “… o burro sou eu…?”.

Não! Não é. Claro que não é.

Perder uma oportunidade de amealhar, sem os trocos, cem mil contos por mês, só porque agora secou a bananeira e é necessário subir ao coqueiro descalço para apanhar o saco, seria de trouxa. Coisa que ele não é.

Na desgraçada conferência de imprensa que foi obrigado a dar ontem, dia 14 de Junho, ficámos a saber mais alguns pormenores edificantes.

Por exemplo, que o sr. Madail andou a bater à porta de uns quantos patrocinadores a fim de tentar esmolar qualquer coisa mais entre os 36.000 contos mensais que tem vindo a amealhar o Sr. Scolari e os 100.000 que vai auferir, num derradeiro esforço nacional para manter o sr. Scolari entre nós. O Sr. Madail há-de ser perguntado sobre isto. Convirá esclarecer se isto corresponde inteiramente à verdade..

Naturalmente que o mandaram bugiar, talvez acrescentando… “assente lá os pés no chão, homem! Chega de grandezas num país onde não tarda se morra de fome…”

À pergunta de um jornalista português: “… acha que a equipa se vai empenhar da mesma maneira, depois deste anúncio, numa altura destas?”; a resposta, mais que eloquente, foi: “Sim…!”… e mais não disse… Seria burro se dissesse.

À segunda pergunta do mesmo jornalista: “… não acha o timing errado para este anúncio?”; nova resposta esclarecedora: “Não!”… e por ali se ficou… Quem não é burro cala-se quando não tem nada para dizer. Um burro tentaria explicar o inexplicável.

Calculamos o que lhe apetecia retorquir numa altura daquelas. Há jornalistas que o merecem:

– “Escuta aí seu bobo; me vão pagar 500.000€ mês e você acha que sou eu quem vai escolher a melhor altura para anunciar a minha saída…? O burro sou eu…?”. Claro que não é; já sabemos que não.

Só que talvez não ficasse mal não nos fazer, mais uma vez, de burros, deixando-nos a procurar uma única razão para acharmos correcto este timing para ser feito um tal anúncio.

No mínimo humilhante – e um leve aroma daquilo que o espera – foi o confronto com a imprensa inglesa presente na conferência.

O jornalista fez a pergunta em inglês, pois então, e Scolari apressou-se a enfiar os auscultadores nos ouvidos.

Respondeu em brasileiro (desculpem; aquilo não é português…), naquele tom gingão que o torna tão engraçado. Eu, pelo menos, acho. E essa é uma arma que manobra com muita mestria em proveito próprio.

Quem não achou muita piada foi o jornalista que à segunda foi logo perguntando se ele não podia responder em inglês.

Estes “bifes” são uns sacaninhas mesmo… Quem sabe o que vai dar a reconhecida arrogância dos british com o malandreco brasileiro.

E aí começou talvez o pior bocado de Scolari nos últimos cinco anos e meio. Quase doloroso.

Ficámos a saber que Scolari sabe dizer “yes” e “no problem”. Nada mau para um homem que conhece o mundo inteiro, aparentemente, apenas por fora…

Perante os, aparentemente inequívocos, “yes” e “no problem”, o jornalista começou a formular a questão.

Scolari tentou então, sub-repticiamente, aproximar um dos auscultadores do ouvido na vã tentativa de ludibriar todo o mundo (uma espécie de novo murro que nem tocou num só cabelinho de um sérvio…) tentando escutar alguma coisa da tradução que lhe estavam a fazer.

Em vão; rapidamente percebeu que não ouvia nada. Ainda tentou uma outra deriva mudando a posição dos auscultadores um pouco para trás, fingindo acomodá-los. Novo fiasco; nem um sonzinho sequer e a tradução que já lá ia a meio.

Por fim, percebendo o enorme fiasco que aquilo ia dar, enfiou a carapuça em forma de auscultadores e lá escutou o que lhe foi possível da tradução que lhe faziam.

Respondeu, obviamente, em português porque o sr Scolari não pesca uma de inglês e prepara-se para tentar obrigar todos os ingleses a aprenderem português, com sotaqui e graça brasileira, uma arma que o salvou de tantas desgraças, porque não agora.

Scolari sabe no que se meteu quanto à imprensa inglesa. Ou, pelo menos, terá uma ideia. Mas por aquele preço ele acha que vale a pena sofrer vexame atrás de vexame, supondo que os resultados desportivos irão falar mais alto, quem sabe, se, aí sim, com sotaqui e mão da tão invocada Sr.ª do Caravagio, pródiga em alguns milagres e outras virtudes.

Um pouco de seriedade neste tema talvez não caia mal.

Como pode o Sr. Scolari ter chegado a este ponto da sua afirmação pessoal sem ser capaz de balbuciar meia dúzia de palavras e algum sentido que lhe permitam fazer-se entender na língua universal, que qualquer miúdo com 15 anos é capaz de fazer?

Como pode ter-se descuidado a este ponto caindo num ridículo que o dinheiro talvez possa dissimular, mas que dificilmente os ingleses lhe vão perdoar?

Será que, entre outras, percebe a sua diferença de um tal “José”, como o apelidou, mais parecendo ter medo de ouvir o nome completo, que em 30 dias se preparou para um autêntico show na primeira conferência de imprensa no novo país que o acolhe nesta nova aventura? Num país que lhe vai pagar principescamente e o mínimo que lhe exige é que fale a língua de quem lhe paga?

Caramba! Até o Dr. Mário Soares aprendeu francês…

PS

Salvé RTP que poupou, no noticiário das 13 de hoje, Scolari à repetição da parte burlesca com os ingleses na conferência de imprensa. Por vezes há que ter o sentido do ridículo.

PC

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