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Futebol – O Jogo da Mentira

26MAR2009

O momento é de discussão nacional. Teremos batido, finalmente, no fundo?

Fala-se de verdade desportiva no futebol; fazem-se acusações e petições, discursos e insinuações, vendem-se notícias e opiniões, promovem-se ideias e ideais, mas tudo tenderá a continuará na mesma, tendo em conta a complexidade do pobre Futebol que temos, devendo ler-se este “pobre Futebol” em todas as acepções possíveis de o fazer.

Deve ressaltar-se, antes do mais, que a verdade desportiva pela qual se pugna hoje no Futebol tem a ver essencialmente com “o nosso Futebol”. Um pormenor mal ressaltado nos discursos e múltiplas intervenções que se vêm promovendo sobre este tema. Falando da necessidade de verdade desportiva, fica a sensação de que a questão é global e não apenas local.

Os fenómenos de corrupção desportiva não são apanágio de Portugal. A diferença está na circunstância do fenómeno em Portugal ser permanente (desde há longos e bons anos; provavelmente desde sempre) e, na generalidade de outros países, quando revelado, os casos são investigados e julgados com a aplicação de penas pesadas, naturalmente suficientes para restaurar a confiança nas instituições e nos agentes, bem como dissuasoras quanto à perspectiva de reincidência.

Em Portugal parece que todos sabem que há corrupção. Mas, das duas uma: ou a corrupção é eficiente (uma virtude nossa…) e praticamente impossível de ser revelada e julgada, ou não se denunciam os casos de corrupção porque todos se sentem mais ou menos confortáveis a beneficiar dela.

No centro de quase todos os fenómenos de suspeita de corrupção estão os árbitros. Pessoas que têm as suas actividades profissionais e dedicam grande parte dos seus fins-de-semana a fazer uma “perninha” na arbitragem, hoje em dia, uma actividade já bastante bem remunerada, pelo menos nas primeiras categorias.

Os árbitros – e o contexto social em que se movimentam – carecem pois de uma avaliação e caracterização pormenorizada, se quisermos entender este fenómeno.

A expressão “os nossos árbitros são tão bons como os melhores”, coisa que se ouve com muita frequência, mesmo retirando o cunho chauvinista que normalmente nos atrai no momento de nos compararmos com os outros, contém um erro de avaliação.

Mais correcto seria: “os nossos árbitros também erram como os melhores”. Mas erram bastante mais e por mais que uma razão:

1- Erram, porque errar é humano;

2- Erram por formação inadequada;

3- Erram por incompetência;

4- Erram por pressão dos múltiplos agentes de informação;

5- E, por fim, erram pelo ambiente de suspeição que os rodeia, deixando-se, uns corromper, e outros, acabando por errar por receio da própria suspeita de corrupção.

1- Erram, porque errar é humano.

Se possível, a simples experiência de arbitrar um jogo de futebol por parte do vulgar adepto, ou comentador desportivo, seria suficiente para, pelo menos esses dois agentes, alterarem radicalmente os comentários ou críticas à grande maioria das acções e decisões do árbitro.

Não só se trata de uma actividade difícil e complexa, como sujeita a uma circunstância que pode tornar o branco em cinzento (quando não branco que vira preto retinto) sem que nenhum dos observadores se mostre capaz de o ver de maneira diferente.

Referimo-nos à paixão.

A paixão permite que dois observadores com interesses opostos consiga ver “conscientemente” o mesmo lance com perspectivas completamente opostas. E escusado será afirmar que um dos dois estará obvia e compulsivamente a “mentir”, tendo em conta aquilo que observa, porque o lance é único e não pode dividir-se em dois.

Mas ambos estão, de facto, a “ver” coisas diferentes.

Pede-se a um árbitro que não erre na avaliação de gestos e actos de 22 “artistas” que estão, na maioria das vezes, mais disponíveis para enganar o árbitro que jogar futebol, num espaço que ronda os 7.000 m2, assistido por dois auxiliares quase proibidos de entrarem em campo, assinalando pouco mais que as bolas fora e os fora-de-jogo.

Pede-se a um árbitro que não erre quando, sentados numa poltrona e assistidos por 18 câmaras, os comentadores – e alguns detractores oficiais dos árbitros – se batem fervorosamente na discussão de determinados lances, não chegando, frequentemente a nenhuma conclusão unânime, mas exigindo que o árbitro tivesse chegado à conclusão de cada um deles, num tempo de análise que não excede um segundo. Árbitro que exceda um segundo no assinalar de uma falta, terá em cima de si um coro de assobios e a suspeita de que estará a magicar algo contra “nós”.

Pede-se frequentemente a um árbitro que se movimente tão ou mais rápido que a bola, o que vale por dizer, que corra por vezes a mais de 100 Km/h.

Já agora, e neste sentido, não se entende porque razão não há dois árbitros em campo.

A teoria de que poderiam passar a ocorrer duas avaliações e critérios diferenciados no mesmo jogo não pode colher porque isso já acontece com os árbitros auxiliares. Além disso, esse conceito só dá razão aos árbitros quando se discutem as suas decisões; pode haver sempre controvérsia numa decisão.

Contudo, a existência de um árbitro principal que toma a decisão final, em caso de dúvida ou conflito de opinião, aproxima a questão da realidade de hoje. Por outro lado, os árbitros mantinham as suas posições quando as equipas mudassem de terreno, equilibrando assim a aplicação dos critérios diferentes, se eventualmente os houvesse. Mais problemático é que ocorram critérios diferentes em jogos diferentes.

Múltiplas vantagens.

Dois árbitros em campo permitiria:

1- Poderem ambos colocar-se em permanência praticamente junto, ou mesmo dentro, das áreas, onde afinal tudo se decide, tomando decisões bem mais consistentes e menos duvidosas; os penaltis, as bolas que entram ou não, alguns foras-de-jogo, etc. Muitas das dúvidas dos árbitros seriam eliminadas;

2- Poderem confrontar e concertar decisões difíceis, tendo em conta que duas cabeças tomarão deliberações bem mais acertadas que uma só, mesmo que um seja o árbitro principal, que decidirá em caso de opiniões diferenciadas;

3- Mas, essencialmente, e tão ou mais importante, esta medida permitiria que os árbitros pudessem manter-se no activo até bastante mais tarde, por menor exigência de condição física, impedindo que um árbitro, no auge da sua experiência e conhecimento da função, se tivesse que retirar por via de uma barreira de idade, quantas vezes descabida em termos de capacidade ainda disponível, que não teria qualquer importância no caso de haver dois árbitros em campo.

Em qualquer actividade, a experiência (a madre de todas as coisas, no dizer distante de Descartes) é factor fundamental na tomada de decisões e um saber que faz normalmente a diferença. Um árbitro experiente e rotinado é naturalmente um árbitro eficiente e uma mais-valia de que o Futebol não pode, nem deve, eximir-se de ter ao seu serviço.

2- Erram por formação inadequada.

Num país onde a formação nunca foi uma prioridade, é natural que, numa actividade não-profissional, essa formação possa jamais ter tido uma atenção consequente capaz formar árbitros competentes.

Se errar é humano, numa actividade como a arbitragem com todas as dificuldades que se vêm enumerando, qualquer factor de formação ineficiente avoluma a ineficácia e, neste nosso futebol, não passa uma única jornada onde as críticas à arbitragem não sejam o pão nosso de cada dia, se bem que muitas vezes sem razão de ser, mas também claro sintoma de que se misturam por aqui falhas de avaliação de lances claramente provenientes duma incapacidade para melhor fazer.

A formação teórica é escassa e não se conhecem formadores com competência reconhecida capazes de promover alterações sensíveis e consequentes na competência do árbitro. Costuma dizer-se que no Futebol português tudo vai mal. Seria no mínimo estranho que fosse o sector da arbitragem o único que se salvava no meio de todo este marasmo. Tal como o atleta que se treina praticamente todos os dias, o árbitro, se calhar por maioria de razão, tinha igualmente que o fazer.

Um pouco à semelhança de um recente encartado na arte de conduzir viaturas, promove-se a formação básica e depois espera-se que o aperfeiçoamento aconteça na rotina da condução diária. Com os árbitros ocorre algo semelhante. Depois de preparado é lançado na “estrada”, na fé de que os “acidentes” não ocorram. A formação que lime as arestas e concorra para uma melhor qualidade da função é escassa e provavelmente de qualidade duvidosa.

3- Erram por incompetência

Se a formação é deficitária e o sector não se revela suficientemente apelativo em termos de atrair agentes em número suficiente com vocação, aptidão e formação social para o cargo, afigura-se evidente concluir que o sector da arbitragem se mostra pobre em valores, tendo em conta aquilo que se mostra mais visível – a primeira categoria – sendo do conhecimento público que nos escalões mais baixos o panorama é bastante mais deficitário, tornando-se difícil o recrutamento de valores para o topo da arbitragem, aquele que tem maior visibilidade e acaba por determinar todo este movimento a que vamos assistindo.

A incompetência tem naturalmente a ver com formação deficiente. O árbitro, normalmente, treina-se a si próprio após o cumprimento dos seus deveres profissionais. Não tem um tempo próprio e adequado para melhorar os aspectos cruciais do seu desempenho, nem tempo para frequência regular de acções de formação técnica – quando as há – que conduzam o árbitro a uma melhoria sensível das suas capacidades de análise e decisão.

A competência provém de uma formação coerente e sistemática, de um estudo permanente das acções e erros praticados e, muito, da possibilidade de exercício da actividade, o que faz admitir que provavelmente haverá árbitros a mais em cada uma das categorias.

Os efectivamente melhores devem ocupar a primeira categoria e conferidos em número suficiente que permita actuações praticamente semanais nesse nível, o mesmo ocorrendo nos níveis subsequentes. Como as coisas estão, um elevado número de árbitros na primeira categoria não oferece uma boa base de escolha; antes pelo contrário oferece todas as condições para demasiadas escolhas múltiplas que os vão desacreditando um por um. Em Portugal não haverá um único árbitro com imagem limpa. É provável que este fenómeno seja único no mundo. Mas, único ou não, ele apenas augura que a arbitragem no nosso país tem pela frente um caminho negro do qual não sairá nos próximos anos.

Perante esta realidade, fala-se muito hoje em profissionalismo na arbitragem. Não poderão restar dúvidas de que muitos aspectos obteriam melhores resultados, por maior disponibilidade de tempo para treino e estudo da matéria que conforma aquela actividade.

A questão que se coloca é a de saber quem se dispõe arriscar uma actividade profissional tão oscilante como o é a da arbitragem, onde, se as coisas correrem mal, nem as subidas de categoria ocorrem como desejado, nem nada garante que as descidas não sucedam por via de múltiplos factores pródigos no Futebol e na arbitragem. Por outro lado, será bom não esquecer que os escalões iniciais da arbitragem não auferem remunerações que permitam encarar os primeiros tempos de uma tal carreira com optimismo em termos de conforto salarial.

Julgo que aqueles que se inclinam para a profissionalização dos árbitros têm no seu horizonte apenas a realidade do árbitro formado e em exercício, esquecendo que uma profissionalização é uma opção pessoal tomada com antecedência e num tempo próprio de opções de vida. Pode escolher ser árbitro quem o deseja e aspira. Mas, quem garante uma carreira minimamente segura? Quem está disposto a enveredar por algo que se assemelha a um abismo profissional, onde múltiplos factores concorrem para um sucesso, mas o insucesso pode espreitar a qualquer momento? Quem está disposto a enveredar por uma vertente profissional que em determinado momento pode indiciar um caminho errado e sugerir a mudança de ramo profissional?

A questão também se poderá colocar na opção pelo profissionalismo em determinada altura de uma carreira paralela. Ou seja: um árbitro chegado a um determinado nível, e avaliadas as suas potencialidades, poderia optar pelo profissionalismo na arbitragem, abandonando a sua carreira profissional.

Mas a questão volta a colocar-se. Quem se dispõe a abandonar uma carreira profissional firmada, segura e bem posicionada para abraçar em exclusividade a arbitragem, tendo em conta as vicissitudes atrás enumeradas? Terão os árbitros actuais sido consultados se estariam dispostos a abandonar as suas carreiras profissionais para abraçar a causa da arbitragem?

Quem sabe um semi-profissionalismo!? Uma vertente em que o árbitro poderia exercer a sua actividade principal em meio-tempo e usufruir da restante parte do dia para se dedicar ao estudo e formação desta sua função secundária. Uma conciliação que teria que fazer parte da opção pela arbitragem.

Contudo, na análise desta questão, admito ainda uma outra vertente interessante, que poderia colher alguns frutos.

Refiro-me à possibilidade de recrutamento de agentes para profissionalização na arbitragem no seio de um bom número de jogadores de futebol, cujas carreiras terminaram cedo demais, por desencanto ou impossibilidade de a prosseguirem por via de múltiplos factores.

Andam por aí muitos jogadores que se viram desencantados aos vinte e poucos anos de idade. Tendo em conta a experiência que têm no terreno, a tomada de lugar na carreira poderia até ser facilitada com uma entrada num posicionamento mais adiantado, subvertendo assim a circunstância de início algo tardio da função. Digamos que uma forma de aliciamento que permitisse encetar uma carreira na arbitragem um tanto serôdia. Estou em crer que haveria por certo um bom punhado de candidatos, cuja actividade profissional no futebol se frustrou e, por ausência de outro tipo de formação, não ocorreu oportunidade de enveredar por outra distinta. O jogador de futebol detém um conhecimento do jogo privilegiado, podendo resultar daí um domínio da função muito útil e a ter em consideração.

Neste contexto, e por contraste, parece claro que na grande maioria das deficiências reveladas pela nossa arbitragem se poderá vislumbrar uma real ausência de experiência da prática da modalidade, circunstância imprescindível para o melhor conhecimento e desempenho da função. Só quem por lá andou integrou elementos fundamentais que permitem uma avaliação bem mais concisa dos lances a ajuizar.

4- Erram por pressão dos múltiplos agentes de informação

Fala-se muito hoje na pressão que os árbitros sofrem por via do aperfeiçoamento dos meios tecnológicos (essencialmente televisivos) que colocam a descoberto os seus erros. Nesse sentido correm várias vertentes de opinião, algumas contraditórias, que procuram encontrar uma solução, esquecendo, por vezes, que nenhuma delas irá anular o erro humano; apenas corrigi-lo.

Há quem defenda, por exemplo, que a televisão não deveria repetir exaustivamente os lances polémicos de forma a não exacerbar o erro do árbitro. Trata-se de uma perspectiva um tanto bizarra porque não advoga senão que se esconda o erro. E a subsistir o erro, subsiste a polémica e a suspeição.

Por outro lado, outros sugerem o aproveitamento desses meios audiovisuais como instrumento de auxílio dos árbitros. O assunto é actual e estou em crer que o sector que mais pugnará contra esta ideia será a imprensa escrita.

Sem polémicas na arbitragem como vão os jornais desportivos cativar o acerbo de alma dos apaniguados de cada um dos lados prejudicados, ou mesmo beneficiados, uns em busca de justiça, outros em busca de um qualquer lenitivo que alivie o sabor amargo de uma vitória obtida pelas múltiplas “mãos de Deus”…?

A FIFA – uma velha senhora rica e bem instalada na vida que não precisa sequer de se levantar do lugar para que a riqueza lhe venha beijar a mão – mantém, temerosa, a galinha dos ovos de oiro tal como está, acomodada e em paninhos quentes, com receio de que qualquer mudança no galinheiro possa afectar psicologicamente a galinha e alterar-lhe os hábitos poedeiros.

Recentemente, perante várias propostas de alteração às regras do jogo – algumas revolucionárias, que poderiam efectivamente melhorar o Futebol – lá se decidiu por aceitar (experimentalmente) a inclusão de mais dois árbitros atrás das balizas, com o fim de procurar tirar dúvidas quanto à entrada efectiva da bola na baliza.

Dir-se-ia que, felizmente, é experimental.

A medida é, na verdade, anacrónica e descabida. Sem considerar o acréscimo de despesa inútil, morrerá no dia seguinte, quando uma câmara mostrar que uma bola entrou de facto e o árbitro de baliza, pela sua posição, ainda que privilegiada, não o pôde observar, já que só um plano tirado no alinhamento dos dois postes o permitiria e, mesmo esse, a ser possível, poderia ficar prejudicado pela presença de um jogador na linha de baliza que pudesse dificultar a visão do árbitro. E lá se ia todo o aparato.

Ocorre uma outra vertente de engenharia electrónica que consiste da introdução de um chip na bola que informe no imediato se esta entrou de facto na baliza. Também, felizmente, nenhuma das empresas que o estudam denodadamente garante a sua eficácia a 100%. O negócio seria fabuloso, como é tudo o que está ligado ao futebol. Livrámo-nos dessa, por enquanto…

Convindo que a electrónica faz hoje maravilhas, todos sabemos quão falível se torna por vezes. A ser implementado um tal sistema, como convencer o adepto que o chipinho não falhou na hora em que toda a gente viu que a bola não entrou – porque a câmara, sempre indiscreta e marota, mais uma vez o demonstrou – mas o placard acrescenta mais um para o adversário?

Pobre chip atirado assim às mãos dos nossos comentadores de bancada…

É por demais evidente que a câmara estrategicamente colocada tem revelado ser o melhor instrumento de análise de lances difíceis de observar, tornando-se perfeitamente descabido e irrelevante argumentar que se perderia muito tempo em paragens de jogo para conferir a verdade. Nem o tempo seria em excesso (talvez não mais que 30 segundos por lance) nem o mesmo se poderia contabilizar como tempo perdido. O apuramento da verdade desportiva não se mede em tempo; mede-se em verdade.

O Futebol sairia mais limpo, mais credível e o próprio árbitro bem mais descansado quanto à certeza das suas decisões e de consciência mais tranquila. Por outro lado ainda, a expectativa que rodearia o conhecimento do veredicto das imagens redundaria em mais um elemento a contribuir para o espectáculo.

Neste ponto fica-nos a dúvida da verdadeira feição das forças que se opõem à utilização destas medida, que não têm outra intenção senão a de tornar mais verdadeira a indústria do Futebol:

– se uma determinada imprensa que vive dos casos, dos escândalos e das paixões exacerbadas;

– se um determinado movimento de forças obscuras que utilizam a arbitragem para fins tudo menos desportivos;

– se é apenas a velha senhora da galinha dos ovos de oiro que receia uma ou outra gripe das aves que lhe moleste o negócio.

A escolha é sua.

5- Erram pelo ambiente de suspeição que os rodeia, deixando-se, uns corromper, e outros, acabando por errar por receio da própria suspeita de corrupção.

No meio de toda esta teia complexa de dificuldades de avaliação, suspeitas e interesses, uns mais obscuros que outros, emerge um sentimento generalizado de suspeição de que tudo é corrupção, colocando de lado qualquer benefício de dúvida que ao árbitro, e à sua condição humana, possa ser atribuído.

A partir de certa altura, qualquer erro ou falha no julgamento dos lances passou a ser um acto premeditado de benefício deste ou daquele interesse, muitas vezes uma espécie de paliativo para as derrotas e uma desculpa que melhor deturpe a supremacia dos adversários.

Partamos do princípio que os casos de suspeita de corrupção denunciados e em julgamento não são pura ficção. Aliás, o sentimento que fica é que eles se traduzem em realidades de que praticamente todos têm conhecimento ou consciência, sobejando apenas o sentimento de que a justiça que temos se mostra completamente ineficaz para os resolver.

O Futebol, como instituição de envolvimento social, não pode ficar alheio ao ambiente que o rodeia. Temos tudo aquilo que merecemos: povo, políticos e, naturalmente, imprensa.

A proliferação de jornais e canais televisivos num país pequeno e pobre como o nosso, transporta em si uma necessidade de luta permanente pela sobrevivência, a qual pode tomar as formas mais diversas, nenhuma delas deontologicamente digna, roçando por vezes o limiar de alguma indignidade, que só um certo desespero de causa pode justificar.

Deixando por agora de lado a imprensa escrita, onde se faz capa do sensacionalismo mais vazio e pobre que se possa imaginar e se pratica um jornalismo de superficialidade muitas vezes a roçar o ridículo, detenhamo-nos por momentos na televisão e no seu poder de controlar e condicionar a opinião pública.

À semelhança da proliferação de jornais desportivos, também os canais de televisão se acotovelam, dizendo quase todos a mesma coisa, mas lutando denodadamente pelas audiências que lhes garantam a sobrevivência.

Os programas de debate sobre o futebol, essencialmente sobre a jornada do fim-de-semana, preenchem umas boas duas horas por canal e alimentam as paixões dos três grandes.

À primeira vista, esta poderia ser uma excelente oportunidade para alguma pedagogia e esclarecimento útil dos meandros do Futebol. A fórmula encontrada é, no entanto, a do fomento da controvérsia, do debate das maiores superficialidades e iniquidades, trazendo para esse efeito a debate figuras públicas com estatuto social, mas verdadeiras nulidades quanto ao conhecimento, quer das regras, quer da própria filosofia do futebol. Acrescentar, porque justo, com esporádicas excepções que sempre conferem a regra.

Naqueles programas ouve-se de tudo. Desde o remontar a casos que ocorreram em 1909 para contrabalançar circunstâncias da actualidade, tudo vale para defender a cor do clube a qualquer preço e exacerbar um fanatismo desesperante que, sendo sempre indesejável, o é perfeitamente descabido exercer num programa televisivo, onde se deveria requerer o bom senso e alguma responsabilidade pedagógica, se é que isso faz algum sentido hoje em dia.

Na posse de múltiplos ângulos sobre os casos mais controversos da jornada, os programas, regra geral, consomem-se, na maior parte do tempo, na análise crítica às decisões dos árbitros, procurando cada um dos intervenientes ajuizar o lance de acordo com a sua cor clubista.

Os debates e as opiniões chegam a roçar o ridículo, revelando aqui e ali um desconhecimento gritante, quer das dificuldades dos árbitros, quer das próprias regras do jogo.

Desde as intensidades dos puxões ou empurrões (bastando que a mão pouse sobre o ombro adversário e o jogador se deixe cair redondo e espalhafatoso no chão; os verdadeiros artistas são-no a tempo inteiro…), à perna, ou barriga, que estava fora de jogo, se bem que o resto do corpo estivesse em linha e legal, tudo é argumento para crucificar o árbitro e lançar a suspeita semanal de que quase todos os erros dos árbitros são premeditados e visam uma qualquer cabala contra os seus.

As imediações da área medem-se ao milímetro quando se avalia se a falta é dentro ou fora desta. Nem que para isso a imagem tenha que ser repetida vezes sem conta. O árbitro tinha que ver aqueles milímetros que os senhores comentadores requerem visionar vezes sem conta para terem uma opinião doutoral.

Sem pejo, e por vezes sem vergonha, exigem que o árbitro o tivesse visto à primeira, esteja ele onde estiver, aquilo que alguns doutores do futebol não conseguem descortinar sem régua e esquadro, pomposamente sentados no conforto do estúdio e de uma generosa remuneração mensal.

Há uns anos ocorreu em Espanha um estudo onde se pretendeu provar a dimensão da possibilidade de erro do olho humano. O estudo concluiu que era possível ocorrer um fora-de-jogo de mais de cinco metros sem que o árbitro tivesse possibilidades de o observar, tendo em conta a velocidade da movimentação dos jogadores.

Todos os comentadores sabem deste estudo. Nenhum deles se lembra de o argumentar quando discute foras-de-jogo mal ou não assinalados, em favor da sua cor clubista.

Bola na mão, ou mão na bola. É a moda e a arma de arremesso do momento. A lei é clara. Mas a confusão e o clamor são de tal forma que, na área, tudo o que é bola a roçar as imediações do ombro, remates à queima-roupa a menos de um metro, jogadores de costas ou de cara virada com a bola a roçar o braço e este não está colado ao corpo (diria mesmo, amarrado ao corpo), tudo isto é penalti e ai do árbitro que não o assinale.

E assim se faz muito do Futebol que temos.

Os programas de debate televisivo sobre Futebol protagonizado por algumas figuras públicas que há décadas debitam alarvidades sobre este nosso já pobre futebol, são – a par de alguma incompetência dos árbitros – os factores de maior fomento de confusão e suspeição do panorama do nosso Futebol, merecendo ser moralmente responsáveis por grande parte da agitação e desconfiança que se vive, sem que isso signifique que alguns casos de corrupção sejam uma mera ficção, sendo prova da sua existência os casos denunciados e já julgados, bem como outros em fase de instrução.

Por outro lado, a imprescindível competência que se exige na arbitragem não se deve confinar apenas aos árbitros mas, provavelmente com maior importância, aos órgãos dirigentes que superintendem o sector.

A independência do Conselho de Arbitragem é uma medida urgente, que mais não seja como uma primeira medida de credibilização e um primeiro passo que permita admitir uma reformulação radical do panorama da arbitragem, revertendo em definitivo a total descredibilização em que caiu.

Por fim e em resumo breve:

1º Uma formação mais adequada e consequente dos árbitros é essencial no sentido de melhorar de forma sensível a competência destes.

2º A emancipação do Conselho de Arbitragem afigura-se fundamental como veículo de credibilização do sector. A imagem da sua independência, não sendo condição sine qua non, é um bom ponto de partida para a sua credibilização.

3º A possibilidade de utilização dos meios televisivos por parte das equipas de arbitragem no sentido de promoção de um apoio efectivo ao esclarecimento das decisões mais controversas dos árbitros, não só contribuirá para a correcção em tempo útil de erros decisivos dos árbitros, reduzindo consideravelmente a polémica e a suspeição, como transmitem ao próprio árbitro outra segurança na tomada das suas próprias decisões.

4º O tempo de tomar decisões de ruptura urge. O ponto a que se chegou pode transformar-se num abismo de difícil retorno.

Pedro C.

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One comment on “Futebol – O Jogo da Mentira

  1. É a primeira análise serena, competente e isenta que tenho lido neste tempo de exacerbadas paixões. Vivemos tempos onde a criação de factos míticos pretendem esconder as realidades bem trágicas a que nos têm conduzido estes anos de esbanjamento e confusão da moral,ideias e conceitos.
    Muito bem, professor!
    O abraço fraterno de quem lhe quer bem.
    JS

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