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Eu… e Scolari…

Capítulo I

Por fim, Scolari…

A contratação milionária de Luís Filipe Scolari para seleccionador das nossas selecções de futebol, teve como preocupação imediata a resolução do nosso eterno fado de peleja de capelinhas, manobrado pelos interesses e poder dos clubes maiores da nossa praça, exercido sobre os nossos técnicos, quando responsáveis pela Selecção Nacional.Mas também disciplinar as nossas selecções, que vinham salpicando algumas das suas participações em competições internacionais com o pior que temos no que toca a rufiagem e, por vezes até, mau porte.

Nenhum dos nossos potenciais seleccionadores podia apresentar-se sem uma sombra de mácula de rendição a um ou outro interesse clubista, mínimo que fosse, nem capaz de se distanciar de qualquer suspeita, por maior que possa ser o seu desejo e vontade de imparcialidade.Para mais, num país onde a intriga se cozinha todos os dias e se vende em qualquer esquina como produto de baixa qualidade de uma imprensa desportiva, nem sempre escrupulosa, mais parecendo ter adoptado uma das piores máximas de Scolari, o “mata-mata”, como instrumento de sobrevivência diária.Sempre este nosso jeito para integrar e interpretar o que de pior nos vêm ensinar.

Depois, havia o Euro-2004 – um investimento megalómano imaginado e perpetrado pelo Sr. Gilberto Madaíl, no qual todos nós embarcámos – “…como única forma de podermos algum dia ser campeões europeus de futebol…”, uma aspiração doentia dos nossos dirigentes desportivos. Este, um puro raciocínio portuga, a que juntámos o sotaque brasileiro, querendo significar que, só com a tradicional benevolência dos árbitros, concedido às equipas organizadoras (leia-se proteccionismo, de facto, por vezes descarado e muito pouco sério ou desportivo, com fins exclusivamente financeiros), dizia, só dessa forma seria possível atingir um tal desiderato.

Melhor explicado, para que pudéssemos vir a beneficiar de alguma complacência da UEFA e “sus muchachos”, toca de convencer meio mundo que um Euro em Portugal iria ser um benefício para o país (a longo, muito longo prazo), mesmo que para isso nos tivéssemos que empenhar até à raiz dos cabelos. O retorno seria garantido, especialmente para o nosso futebol.Acreditámos quase todos e a coisa foi, impunemente, o que sabemos, sem a assunção de responsabilidades, ficando tudo solteiro, como de costume.

Scolari chegou (não sem se fazer acompanhar de um adjunto intrigante e aberrante, apenas porque ninguém entende qual é a sua função, salvo a de um amigo a quem se dá a mão, ainda que pago por outros) e começou a encantar com aquele seu modo peculiar de falar meio atravessado, meio engraçado, e uma propensão para o confronto contra tudo e contra todos, afrontando os poderes tradicionais da tribo do futebol, algo que se constituía numa postura inédita no nosso meio.Aplaudiu-se e reconheceu-se a necessidade e algum mérito. Especialmente aqueles que não viram os seus clubes ou atletas na ponta da lança do Sr. Scolari.

Ainda relativamente ao adjunto que Scolari entendeu dever trazer consigo (com um vencimento de 7.000 contos mês: alguém confirma ou desmente isto?), pergunta-se com toda a veemência: com que fim ou necessidade? Porquê?

– problemas com a língua?

– desconfiança total das capacidades dos nossos técnicos?

– excesso de trabalho? (média de 4 intervenções por ano com duração de uma a duas semanas cada)

– ou mordomia a um amigo do peito, paga pelo portuga…?

A juntar a esta maneira de ser e de estar, afirmou-se o Sr. Scolari escudado num palmarés desportivo inquestionável, aglutinando instrumentos mais que suficientes para ir conquistando adeptos, entre um sem número daqueles que se habituaram à tradicional tibieza dos nossos costumes, mais conformados à rendição ao poder, ora de mouros, ora de cruzados, alternadamente exercidos.

Não fiquei nada sossegado quando no dia seguinte à chegada de Scolari “ouvia” em vários sites brasileiros algumas gargalhadas dos nossos irmãos de além-mar, onde se exprimiam com uma inequívoca premonição: “… lévaram gato por lébri…!”

Scolari viria ainda a revelar uma outra faceta do seu carácter, traduzida numa inquestionável teimosia, a que muitos chamam de perseverança, convicções e ainda coerência.Ocorreram casos em que mais pareceu que teimava apenas para não dar o braço a torcer, perante um sem número de críticas que lhe eram feitas, quer às opções, quer aos procedimentos.Outros, em que se vergou às censuras, ante a ameaça de desastre e derrocada nacional – talvez mais a sua hecatombe pessoal que um problema nacional – tendo-se esquecido, por momentos, da coerência, como foi o caso da derrota perante a Grécia no primeiro jogo do Euro-2004, com a “sua” equipa, para depois ceder ao coro de protestos e melhores opções que choviam de todos os lados, alterando radicalmente a formação, com a qual viria a chegar à final.

Scolari detém inequívocas qualidades de comando, persuasão e exercício de autoridade.Mal desembarcado nas terras de Pedro Alvares Cabral, lesto descobriu como seria fácil conquistar as almas de gente amargurada e descrente com os seus, sempre em busca angustiada de um guerreiro que lhes restaurasse a fé e a esperança no futuro; qualquer futuro.Este, um masoquismo sebastianista que tarda em deixar-nos.

A mobilização bandeirante para o Euro-2004 foi algo inédito entre nós, a par do próprio ineditismo da competição a realizar-se no nosso país, embora um povo meio destroçado e sem crenças se torne presa fácil de conduzir, quando lhe acenam com a possibilidade de levar de vencida toda uma horda de exércitos que lhe são superiores e o alardeiam todos os dias nos mais variados campos sociais, como sejam o nível de vida, a protecção social e tantos outros que nos amarfanham todos os dias.

O país mobilizou-se e acreditou no Sr. Scolari. Afinal não somos confrontados todos os dias com a quimera de podermos ser grandes ou melhores que todos os outros, seja a que preço for.

As primeiras desilusões chegaram como sininho que de tão suave que tocava quase ninguém o quis ouvir.O ruído que Scolari instituíra insonorizava quase tudo e quase todos. Com mérito, diga-se.Inebriados e cegos do desejo de vencer (sempre assim foi ao longo dos tempos que se conduziram os soldados para a morte no campo de batalha, em nome da Pátria…), a decepção não chegou a levantar voo, quando não fomos capazes de levar de vencida uma Grécia sem palmarés no ranking do futebol europeu, que nos humilhou em pleno Estádio da Luz, tendo chovido críticas ao trabalho e postura do Sr. Scolari, logo diluídas por alguns êxitos obtidos, como o foram, de facto, a mobilização nacional e uma mão dura e disciplinadora nas coisas da selecção das quinas, dando razão à propensão ancestral da populaça, quanto ao desejo, algo patológico, de sentir sobre si uma mão forte de mando.

De seguida uma nova esperança e a promessa de que dois azares seguidos são capazes de não acontecerem.Aos outros, claro, porque a nós isso acontece com desmesurada frequência.

Seguia-se o Mundial da Alemanha que, com o apoio ferveroso dos nossos emigrantes arvorados em novos bandeirantes além fronteiras, tinha todas as condições para atingir aquilo que tinha falhado em Portugal, à custa de um investimento megalómano para um país socialmente pobre, que continua a arrastar-se na cauda da Europa e levará largos anos a pagar a dívida da construção de meia dúzia de elefantes brancos, transformados posteriormente na mais crua e vil montra da insensatez de dirigentes desportivos e governantes. No fundo, senhores bem falantes e bem na vida, pouco preocupados com o bem-estar social e resolução de problemas básicos de gente desirmanada com a esperança e a fé nos homens, mas sempre disposta a acreditar que D. Sebastião há-de voltar um dia, possivelmente equipado com a camisola das quinas.

O 4º lugar obtido permitiu ainda um benefício mínimo da dúvida quanto à competência do Sr. Scolari (imagine-se o que seria se o técnico fosse português…), havendo quem procurasse encontrar noutros planos uma explicação para mais este semi-desaire, entre eles o próprio Sr. Scolari, que não se cansou de referenciar inimigos caseiros da nossa Selecção e dele próprio.Uma habilidade que conforma algum mérito.Num país clubisticamente dividido em três cores, fácil se torna atiçar a zaragata e sair piano sem beliscadura que se veja.~

Escudado pelo Sr. Madaíl, Scolari conseguiu encontrar ainda algum fôlego para continuar aos comandos da Selecção Nacional – desconhecendo-se com que proveitos próprios o Presidente da Federação se movimentou para dar suporte a mais este mandato – quando nenhum dos objectivos que lhe tinham sido propostos até àquele momento fora atingido.

Lembrar e repetir com alguma veemência: nenhum objectivo proposto foi atingido! Algumas conquistas no âmbito da impermeabilidade do grupo, entretanto alcançadas, parecem ter sido suficientes para a continuidade do técnico, mas não andará muito longe da verdade a circunstância de continuar a não se perspectivar no nosso âmbito técnico, um treinador com credenciais e carisma suficientes para tomar o lugar de Scolari.Diga-se em abono da verdade. Até aqui o Sr. Scolari tem ido buscar alguma lenha para alimentar o seu fogo.

E eis que somos chegados ao apuramento para o Euro-2008.Avaliados os adversários, foi praticamente unânime a opinião de que nos inseríamos num grupo perfeitamente acessível, para mais com apuramento de dois candidatos.Foi retomada mais uma nova esperança. A terceira oportunidade concedida ao Sr. Scolari, um outro facto inédito, tanto quanto abarca a minha memória recente.E não deverá ser, certamente, pelo baixo custo do salário auferido pelo seleccionador nacional que lhe é proporcionada mais esta oportunidade de demonstrar os seus méritos, enquanto líder de uma selecção de futebol e não apenas um mentor psicológico de adeptos fervorosos de bandeirinha na mão, constituídos no 12º jogador, que nunca faltou com o seu apoio a esta Selecção e seleccionador.

Lançados todos os nossos heróis e semideuses à conquista da Europa, eis que chegámos a um momento em que, “inesperadamente…”, nos encontramos, mais uma vez, como é nosso hábito, àrrasquinha para chegarmos ao tal apuramento, deveras acessível, e, tanto quanto se diz, dos mais fáceis dos últimos tempos.Nós, que nos vangloriamos de ter a falar português os melhores jogadores do mundo, se não estamos com vergonha, estamos com quê?O que teremos agora para justificar esta tremenda desilusão?

– Pinto da Costa, às voltas com o apito, apaziguou-se consigo mesmo;

– Baía arrumou as luvas, deixando de ser pedra no sapato;

– O povo continua a bramir cordeiro e confiante;

Contudo, a selecção falha nos momentos cruciais, não obstante prenhe de valores, tantos que nem cabem no banco de suplentes, ficando de fora (convocados, mas na bancada) jogadores de topo da Liga Italiana.

O que falta então agora?

Aparentemente faltava fechar o ciclo, com um retorno ao passado. Aparentemente, apenas isso.Voltar ao nosso estilo antigo de ausência de fairplay e retomar a imagem de rufias metidos a marialva, com que vínhamos sendo conhecidos na Europa e no Mundo.

Antes perdíamos e tínhamos fama de rufiões a roçar o Terceiro Mundo.Agora continuamos a perder e, em vez de serem os jogadores a pesarem no prato negro da indisciplina mais escabrosa, é o Seleccionador que lhes toma o lugar.

O que se passou no último jogo Portugal-Sérvia não tem qualquer justificação ou atenuante. Nem talvez mereça a perda de tempo com análises que procurem atenuar ou adensar a pior imagem de todos nós.O que ali ocorreu foi apenas algo que nos faltava para compor o nosso vasto quadro de comportamentos execráveis e anti-desportivos.

Faltava-nos, na verdade, apenas isto:

– Uma tentativa de agressão por parte do Seleccionador Nacional, de cabeça perdida por duas “derrotas” sofridas por ele próprio em casa, que não tocou num só “… cábélinho” sequer do jogador Sérvio, apenas porque este se desviou a tempo.Somos cegos ou não queremos ver para aceitar este argumento?

– O que nos faltava era ver um Seleccionador Nacional mentir nas declarações imediatas ao jogo e na conferência de imprensa, para depois, vistas em casa as imagens, que não mentiam, dar o dito por não dito e vir pedir desculpa ao povo português pela mão duma entrevista encomendada e perpetrada pela televisão pública, a pedido de senhores de fato cinzento, que julgávamos arredios da nossa sociedade.

Aparentemente teremos batido no fundo, por maior ou menor contra-ruído que alguns, felizmente poucos, procurem fazer acerca deste episódio que nos envergonha, quer queiramos quer não. Não se envergonhará apenas quem não tiver já vergonha. Não sei se valerá a pena perguntar:

– Porque razão empatámos com a Polónia e com a Sérvia em jogos semelhantes quanto à postura dos jogadores, defendendo e empatando metade do tempo do jogo em joguinho mole, quando o resultado se cifrava numa vantagem mínima, não restando dúvidas que se tratou de uma opção do Seleccionador, com as consequências que se puderam observar?

– Que justificação se pode dar a uma ordem do Seleccionador para não devolver a bola ao adversário, depois deste a ter lançado para fora, a fim de que fosse assistido um jogador caído no terreno de jogo (estivesse realmente lesionado ou não, prática em que somos exímios); invulgar, senão mesmo uma atitude praticamente banida do pior que havia no futebol sul-americano;

– Como se pode conceber que a opção de escolha dos jogadores possa recair em atletas que possam encontrar-se em determinada altura na pior forma, apenas porque a escolha foi delineada de bem longe, por opções de confiança e congregação de espírito de grupo, quando o que importa é ter, num certo momento, os melhores em campo e não outros, cuja teimosia nos vem arrastando de frustração em frustração?

– Que benevolência é esta concedida a um seleccionador estrangeiro, pago principescamente, que não conquistou nada, absolutamente nada, em termos de resultados desportivos – para os quais foi contratado a peso de ouro– arvorando, como única conquista de vulto, o ter sido capaz de convencer um povo quase inteiro de que éramos capazes de ser tão bons como os outros, para, ao fim de cerca de seis anos, se tornar claro que não foi capaz de atingir um único desses objectivos, defraudando por completo todas as expectativas desportivas de todos aqueles que nele acreditaram?

– Que povo é este que continua a dar a tudo o que é estrangeiro e engraçado todos os benefícios da dúvida, tornando-se inflexível e contundente para com os seus, chegando ao ponto de procurar branquear uma atitude anti-desportiva inédita ao nível de selecções nacionais em provas oficiais, aviltando mais ainda a imagem, já de si pouco própria, que vínhamos alardeando por esse mundo fora?

– Como é possível defender uma causa confinada num acto a todos os títulos condenável – e que receberá a devida pena por parte das entidades competentes – invocando-se como contraposição ou atenuante aquilo que o Sr. Scolari fez “… por este país…” ou “… por todos nós…”, ou seja, ter sido capaz de levar um país inteiro a acreditar em si, retribuindo, como recompensa, dois – à beira de três – momentos da maior frustração nacional, sem que para isso se encontre uma explicação aceitável ou plausível, à luz das promessas e esperança inculcadas em todos nós?

Por fim.

Por via deste acto a todos os títulos inadmissível, ninguém clama pela imolação do Sr. Luís Filipe Scolari.

Os erros cometem-se, pagam-se e a vida continua.

Juntem-se as atenuantes, se as houver, e releve-se o que houver para relevar na conduta e desempenho do Seleccionador Nacional e de todos nós.

Contudo, pede-se bom-senso na avaliação e ponderação dos actos.

Sobretudo, não nos deixemos cair na tentação de nos cegarmos a nós próprios com a emotividade com que habitualmente tratamos aqueles que, por nossa mão, vamos transformando nos heróis de que necessitamos todos os dias para sobrelevar as nossas próprias frustrações do dia-a-dia e os anseios que nos prometeram ver atingidos.

Acima de tudo deixemos que seja o silêncio a transcrever a nossa desolação, sem esquecer uma ou outra dívida, se a houver.

Pedro Cabrita

Capítulo II

O Irritado Scolari…

A notícia: Luiz Felipe Scolari ficou visivelmente irritado com algumas perguntas colocadas durante a conferência de imprensa após o jogo com a Finlândia (0-0) e disparou em várias direcções.“Portugal consegue a qualificação e o burro sou eu? O ruim sou eu?”, questionou o seleccionador, continuando, visivelmente incomodado: Porque não fizemos nenhum golo? Se não estivesse lá o guarda-redes, se calhar teríamos feito. Não percebo como é que vocês dizem que a Finlândia é ruim, a Sérvia é ruim, a Polónia é ruim ou a Bélgica é ruim. Mas pronto, acho que fomos maus. Se querem, fomos maus. Peço desculpa, mas não preciso de estar aqui”.

Comentário:

A Virgem ofendeu-se. A Virgem vive ofendida neste país. Um país que lhe paga um vencimento principesco e tem 2 milhões de pobres. Ou seja; 20% dos portugueses.

Vi em directo a conferência de imprensa. Vi em directo o estalar de verniz, a pouca diplomacia e alguns laivos de falta de ética a roçar a arrogância de um senhor, ao qual tivemos, ainda há bem pouco, que suportar a vergonha de termos, aos olhos do mundo, um Seleccionador Nacional a agredir um jogador adversário. (Nenhum de nós era o burro aí). Já esqueceu. Acabou cedo a humildade com que quase se “despiu” na TV e se apresentou na UEFA pedindo desculpa. Voltou o Scolari de sempre. Voltou a arrogância e a má educação.Nas questões colocadas pelos jornalistas nenhuma delas se referia a este jogo com a Finlândia. Jogo onde, praticamente, não há nada a apontar. Talvez um dos melhores jogos da selecção, mesmo não marcando. Talvez o único jogo onde segurar o resultado magro era fundamental e não vimos a equipa a recuar e a fechar-se lá atrás à espera que o tempo passasse, para no fim levar o golo da derrota nos últimos minutos. (Duas vezes a papel químico e o burro não fui eu, nem nenhum de nós).

O jogo terminou com a equipa junto à baliza adversária sempre à procura do golo. Que bom teria sido se tal tivesse acontecido contra a Sérvia e a Polónia (onde o burro não fui eu, nem os jogadores).Mas também não sei se esta foi agora uma determinação do Seleccionador, que tinha a obrigação de ter aprendido com as burrices recentes. Não sei se essa não foi uma determinação dos jogadores, depois do que aconteceu nos jogos com a Sérvia e com a Polónia.

Mas sagaz e escorreito na táctica das palavras, Scolari, percebendo que os jornalistas se estavam a referir ao todo da actuação da selecção neste apuramento, e não a este jogo em particular, refugiou-se, denotando alguma cobardia, no jogo com a Finlândia, porque sentiu que foi um jogo que até correu bem, e onde não havia nada a apontar, quer na postura da equipa, quer no jogo produzido, passando mesmo pelo resultado que acaba por ser positivo.

Sem nada de burro, fugiu às respostas que o haveriam de imolar não só pelos resultados mas, essencialmente, pelas péssimas exibições da selecção ao longo de praticamente toda a fase de apuramento.

O que afligiu, isso sim, foram as exibições; nem tanto os resultados. Retirando um ou dois jogos, todos os outros foram de uma pobreza táctica aflitiva, continuando Scolari na sua conhecida teimosia a fazer opções estranhas e erradas (como claramente ficaram demonstradas em campo).

Perguntou, já escumando raiva pelos olhos e espuma pelos cantos da boca, se a Bélgica é ruim, se o Cazaquistão é ruim, se a Arménia é ruim, se o Azerbaijão é ruim…?

Como não houve oportunidade de mais perguntas porque o senhor, enfadado e mal-educado, se foi embora (não estará já a UEFA arrependida de ter diminuído a pena ao sr. Scolari…?), dou algumas respostas:

A Polónia e Portugal perderam muitos pontos neste apuramento. Fizeram 28 e 27 pontos respectivamente.

A Bélgica ficou-se nos 18, Cazaquistão 10, Arménia 9 e Azerbaijão 5.

Ora sr. Scolari; num grupo fraco, como era este, ruins, não são. Foram fraquitos, muito fraquitos e nós fomos apenas um pouco melhores que alguns deles. Só isso.

Perguntou com veemência se, sendo nós apurados… “ o burro fui eu…

Sendo o termo seu, usá-lo-ei, com o devido respeito aos burros (animais de carga): na verdade fomos apurados, mas em muitos momentos o “burro” foi, de facto, o senhor.Mas não apenas agora. – Foi-o quando no Euro-2004 insistiu “na sua equipa” contra todas as vozes e perdeu em pleno estádio do Dragão com a Grécia (para logo a seguir engolir o sapo e transformar a equipa que iria até à final, com todo o sofrimento que conhecemos);– Foi-o quando perdeu a final em pleno Estádio da Luz com a mesma Grécia; – Foi-o quando nos deixou em 4º lugar no último Mundial, com uma equipa de luxo;

– E, não tenha dúvidas, foi-o de novo agora quando nos deixou à beira de um ataque de nervos para nos apurarmos num grupo destes. Repito: num grupo destes.

O senhor tem mau perder. O jogador Draganovich que o diga.

Até quando refere as dificuldades que foram ocorrendo relativamente a lesões de alguns atletas fundamentais.

Disse que teve que utilizar 40 jogadores nesta fase de apuramento.

Meu caro! Felizes dos seleccionadores que têm 40 atletas de valor e disponíveis para construir uma selecção. Gostava de saber se os azares de lesões só nos ocorreram a nós e se os outros tinham à disposição 40 jogadores de nível suficiente.

Gostaria ainda de saber se o senhor só é bom treinador rodeado de todas as estrelas do firmamento e se passa a técnico de duvidosa valia quando só tem à disposição apenas alguns astros de menor brilho, sendo que nenhum deles é um cometa.

E já agora não nos venha dizer que a qualidade é fraca, depois de o senhor ter colocado todos estes atletas na lua. Salvo se mentiu. Tudo isto sem esquecer que temos a falar português alguns dos melhores jogadores do mundo.

Por fim colocar à sua reflexão algo que foi dito por um seleccionador de uma equipa que connosco se defrontou nesta fase. Já não me lembro qual, mas para o caso pouco importa.Questionado sobre a valia da selecção portuguesa, disse:

– É um conjunto de muitas estrelas… Mas não é uma equipa!

Veja se percebe, com a argúcia que lhe é peculiar, para quem era a “boca”… ou quem será o responsável pela não existência de uma equipa, de uma selecção.

E já agora.

Deixe de se chamar de burro. Mais tarde ou mais cedo, nós é que havemos de chegar à conclusão que, afinal, os burros somos nós.

Pedro C.

Capítulo III

Scolari. Do dito ao feito…

Scolari divide.Veio para unir, mas acaba por dividir.

Segundo um último inquérito publicado num jornal diário, os portugueses estão divididos quanto à continuidade de Scolari à frente da Selecção Nacional. Façamos, contudo, um balanço.Scolari foi contratado para levar a Selecção ao 1º lugar do  Euro-2004 a realizar em Portugal. Um desígnio do sr. Gilberto Madail, porque lhe meteram na cabeça que, Portugal – um país pequenino e sem peso no areópago do futebol e por isso eternamente prejudicado – só conseguiria atingir um tal desiderato se organizasse a prova, beneficiando da tradicional complacência dos árbitros para com as equipas organizadoras, por via das conhecidas questões económicas.Scolari paga-se caro. Muito caro. Mas o sonho não tem preço. O Sr Madail achou que o objectivo merecia os 35.000 contos mensais pedidos por Scolari. O objectivo era meio louco pelo que nada melhor que uma segunda loucura para o atingir. Ou será que este país se pode permitir a aventuras e desmandos deste jaez?

É voz corrente, especialmente por parte daqueles que defendem o seu trabalho, que Scolari uniu a Selecção e congregou as pessoas em torno da mesma. Algo que ninguém mais conseguiu fazer.

Analisemos então o percurso e o contexto de trabalho de Scolari e pesemos os lucros e prejuízos.

Resultados:

– Apuramento para o Euro-2004: isento. Nenhum risco.

– Euro-2004; contratado para vencer a prova: falhou. Não esquecendo que se tratou de uma prova pela primeira vez disputada no nosso país, montada, pormenorizadamente, à nossa medida e falhou.

– Apuramento para o Mundial de 2006: apurado com dificuldade.

– Mundial de 2006: pediu-se o 1º lugar, considerando ter à sua disposição uma equipa de luxo e ter falhado o objectivo Euro-2004, eventualmente por azar… o nosso eterno azar: obteve um 4º lugar

– Apuramento para o Euro-2008: apurado com extrema dificuldade no último jogo com um empate a 0-0 com a Finlândia em casa…

É este o palmarés de Scolari em quatro anos que leva à frente da Selecção, um tempo jamais concedido a qualquer outro treinador português. Será bom não esquecer.

Perante este quadro, os seus defensores continuam a proclamar que o seu maior, e aparentemente único, grande êxito, foi ter conseguido unir a selecção e os portugueses em torno dela.

É inegável. Mas Scolari tem o hábito de se comparar com todos os que o antecederam quando quer evidenciar os seus êxitos.

Comparemos então.

A que se deve este êxito de Scolari?

A várias circunstâncias que Scolari aproveitou com mestria e oportunismo brasileiro. Essa mestria confere uma enorme capacidade de cativar e congregar pessoas em torno de si e dos seus objectivos. Sem isso nada seria possível. Honra lhe seja feita. Contudo, faltar-lhe-ão outras qualidades essenciais aos êxitos que perseguiu e não conseguiu obter.

Mas porque não conseguiram atingir esta união do grupo e congregação dos portugueses em torno da Selecção, todos os treinadores nacionais que passaram pela equipa das quinas?

Por um ou dois motivos muito simples:

– Nenhum deles conseguiu afirmar-se isento e distante da clubite doentia de que enferma o nosso futebol.

Por maior que fosse (e era) a sua idoneidade e desejo de trabalhar com honestidade, isenção e denodo pela selecção de todos nós:

… Juca era do Sporting; José Torres era do Benfica; José Augusto era do Benfica; António Oliveira era do Porto; Humberto Coelho era do Benfica; Carlos Queiroz tinha estado ligado ao Sporting, etc, etc, etc…

Mesmo que tivesse sido possível descobrir um técnico que não tivesse estado ligado a um dos grandes, alguém se encarregaria de encontrar um parente distante que lhe conspurcasse a imagem.

Esta a principal razão pela qual nenhum outro técnico conseguiu unir todos os portugueses em torno da Selecção. A suspeita pairou sempre sobre a sua cabeça, mas também porque eram portugueses. E nós sempre entendemos que o que é estrageiro é que é bom, contrariando a publicidade de que o que é nacional é bom. Se isto é um mérito de Scolari…

Se a desilusão e descrédito dos portugueses em relação ao país é grande, no que diz respeito ao futebol ela é bem maior e tende a continuar. Hoje em dia já ninguém confia em ninguém. E mesmo Scolari começa a ter algumas dificuldades. Leiria deu já um sinal de algum cansaço das pessoas.

Nenhum daqueles treinadores conseguiu convencer a maioria dos portugueses de que aquela não era a selecção do Porto, Sporting ou Benfica.

Curiosamente, ou talvez não,  a nossa melhor presença de sempre em provas internacionais de selecção aconteceu em 66, com um 3º lugar, com um seleccionador estrangeiro, Otto Glória, logo, distante de qualquer dos clubes nacionais.

– Segundo motivo, e este não menos importante:

– Nenhum seleccionador nacional teve ensejo de disputar um europeu em Portugal, onde foi possível congregar o país em torno da Selecção, recusando-me a acreditar que tenha sido Scolari, por si só, que o conseguiu, com a badalada história das bandeirinhas à janela (algo inédito, que mais ninguém copiou nem dá mostras de seguir por esse mundo fora…) quando acabámos por vir a saber que a ideia nem sequer foi sua.

A perspectiva que se tem da continuidade de Scolari enferma de um handicap difícil de superar nos nossos dias.

O que ocorre é que não se vislumbra quem o substitua. Não só pelos mesmos motivos de que enfermaram os que o antecederam, mas também porque nesta altura não se vislumbra um valor capaz de congregar a confiança de uma boa parte dos portugueses.

Nesse sentido o repto é o seguinte:

Mourinho já descartou a Selecção para os próximos anos.

Imaginemos que acordava amanhã e dizia: estou preparado para pegar na Selecção desde já!

Apostava euro conta cêntimo em como o Sr Scolari tinha os minutos contados…

E aqui reside, na perspectiva de muitos, a grande arma e o maior “valor” de Scolari.

Não há substituto. O que não deve escamotear os erros e as falhas de Scolari.

Quando meio país se permite desculpar uma agressão pública a um jogador adversário, está tudo dito.

Nota

Este apontamento dispensa qualquer avaliação aos comportamentos inqualificáveis do Sr. Scolari no final do jogo com a Sérvia e com a Finlândia. Comportamentos que terão o peso que o Sr. Scolari quiser dar à sua imagem, mas que maculam mais ainda a imagem do país, já de si pouco edificante em termos desportivos, e que era suposto melhorar substancialmente com a vinda de um treinador campeão do mundo, pago a peso de ouro.

Esta sim, uma aparente “vitória” de Scolari.

Pedro C.

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