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Voltei a África.

Trinta anos depois voltei a África. África que me marcou para todo o sempre com as suas gentes, a sua pujança e beleza natural. Que me vincou uma inexplicável nostalgia que comigo coabita desde que, em meados de Janeiro de 1974, deixei Luanda e a guerra a caminho de Lisboa, capital do Puto, lambendo as feridas das batalhas do tempo, que se obstinou parado largos meses a fio, e da devassa de uma juventude perdida em Angola nas matas dos Dembos e nas savanas do Leste. Chagas que o tempo não sarou por inteiro e que deveriam ser o motivo suficiente para o esconjuro do desejo de voltar a África.

Mas o feitiço de África não se explica; agita-se, corrói-nos e sente-se em sussurros que nos chegam nos ventos quentes que nos flamejam as praias do Sul.Só quem por lá não passou é que não entende este inexorável apelo de retorno ao calor sufocante (mitigado no alívio inebriante da sombra fresca); ao desejo de mergulhar nas tempestades medonhas e fascinantes; ao pôr-do-sol vermelho extasiante; ao convívio com gentes simples ainda enraizadas ao chão profundo da terra agreste que as viu nascer e aos animais bravios em comunhão com a natureza indómita e única, um último palco da beleza da terra que paulatinamente vamos destruindo em nome desse absurdo a que chamamos civilização.

Precisava voltar a sentir aquele murro no peito de uma enxurrada de ar quente misturando aromas de mato e terra húmida, entrando de rompante, derrubando a frescura do ar ainda frio trazido de Lisboa, mal se abrissem as portas do avião.De escutar um português gingado com mais de quinhentos anos de sonoridade única envolvida num batucar de sílabas tónicas cheias de vida e musicalidade meneada por todo o corpo. De ouvir por fim a alegria do fim da guerra, os projectos, a esperança de vida, o desejo de crescer e ser finalmente gente.

Dei por mim mergulhado em memórias ainda com cheiro a pólvora distante, recordações de indelével sabor de quase trinta anos de nostalgia.Passeei-me pela bela baía, uma similitude inquietante de um triângulo lusitano cingindo Copacabana do outro lado do Atlântico.Vagueei-me por entre as gentes da rua que traziam um brilhozinho nos olhos e um leve sorriso de quem acredita que ainda é tempo de ser feliz.Não vi pedintes de mão estendida.Não vi, nem ouvi, expressões de revolta ou maldições de pouca sorte.Vi olhares de esperança e crença.Vi putos vendendo negócios de pobreza sem implorar nada, sem me puxarem pela manga do casaco, sem sequer repetirem o pregão por mim negado à primeira com um gesto carinhoso e um sorriso de comunhão. Vi gente que continua a lutar uma nova luta. Gente tingida ainda de gestos e sentimentos de um portuguesismo que os há-de marcar para todo o sempre. Vi angolanos orgulhosos da sua independência envoltos numa amálgama de esperança temperada por mais de quarenta anos de guerra que não esquecerão mais. Mas o que mais me incomodou foi – à semelhança do que me acontece quando me vou por terras de Pedro Álvares Cabral – não ter conseguido ver angolanos, mas apenas portugueses que não via há trinta anos, enraizando-me o sentimento no qual, por muito que me obriguem ao esforço, jamais conseguirei despejá-los do meu coração fraterno, onde sempre se acolheram e me abraçaram como irmãos.

Voltei de novo derrotado. De mais uma batalha perdida.

Mas firmemente convicto que nenhum outro tempo ou rancor, empacotado pela súcia dos senhores da guerra, conseguirá cortar o laço que me une a Angola e às suas gentes.Um elo esculpido em três anos de vida em comum, onde todos fizemos por esquecer a guerra, tendo sido a vida e as suas pequenas alegrias, aquilo que mais nos uniu e me marcará para todo o sempre. Nem sempre a guerra vence o que de mais forte e intenso a humanidade foi capaz de edificar:

a fraternidade e este desejo imenso e caminharmos juntos, por mais que a peçonha da política e mesquinhez dos homens (uma outra faceta gerada por esta mesma humanidade) nos queira obrigar a odiar aquilo que o sentimento mais profundo do nosso ser se recusa a fazer.

Pedro Cabrita

One comment on “Voltei a África.

  1. Caro Amigo
    Acabei de ler este seu texto e tem tanto de verdade como aquilo que eu senti quando voltei a Moçambique. Não há explicação para o que desejamos encontrar e com aquilo que encontramos. Gente boa por todo o lado e um tratamento sempre VIP.
    Fez bem ter voltado.
    Tomei a liberdade de colocar a sua página nos link’s do Site do Núcleo que pode consultar e comentar – http://www.ligacovilha.com
    Abraço.
    J. Azevedo

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