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Vagabundo em liberdade… na avenida…

8 NOV 2011

Vagabundo em liberdade… na avenida.

O tempo vinha contradizendo o que debitava a folha do calendário, afrontando as gentes que, naquela página, já traziam por hábito o desamarrotar dos vincos ganhos pela desordem da despedida apressada das águas mil de um Abril vencido, prenunciando a liberdade sazonal do corpo de conceder à pele a tarefa de, sem artefactos, equilibrá-lo com o soalheiro que impunha a natureza.

Vestiam-se ainda as sobras já desbotadas de um verão que teimava em não morrer, como se exultasse a provecta idade com que se ia rejubilando.

O corpo arejado pelo pouco tecido que a sujeição da moda cobrou ao preço de fato inteiro, desnudava-se ainda em contornos esbeltos de tonalidade quase africana, mas também em formatos McDonald e Coca-Cola, esbeiçando sobras que conferiam com o volume de excessivo preenchimento que se palpitava sob o pouco pano aperreado nas duas faixas que se conciliam com o decoro e a moral públicas.

A avenida formigava assim de gente fresca e lesta, sempre apressada mas sem denúncia de um vai ou vem. A hora do pino do sol também não permitia descortinar o desígnio dos que se apressavam, ou dos outros que pareciam querer apenas matar o tempo em cada passada, pisando uma a uma as pedras da calçada como se riscando os minutos em falta para o termo do eterno presságio.

Dei por ele um pouco antes do S. Jorge.

Separei-o da multidão porque se iam formando uma espécie de alas à medida que ia descendo em passo largo mas sem pressa. Mas também porque, ao contrário do formigar arejado e meio despido da generalidade, ele cumpria o rigor do cronónimo bem lá do cimo até aos artelhos desnudados por inadequação métrica da vestimenta com a dimensão dos membros.

Cobrindo a cabeça ufana-se-lhe um chapéu alto na prosápia, mas de baixo rigor na estética há muito vertida nos tombos da vida, ou no esquecimento lúgubre do mofo. O tampo solta-se e levanta-se à frente em cada passada como boca de sapo tomando ar em dia escaldante. A barba é pobre de mal semeada; porque fina e meia encaracolada disfarça o tempo de ausência de um tratamento adequado. A cara angulada angustia alguma ausência de conforto no estômago, ou presenteia um perfil escultural digno de pose para efeitos estéticos.

A casaca longa é escura e macerada por um evidente sovar da inclemência dos tempos. No ombro direito a manga parece querer desistir de pertencer àquele conjunto, escancarando uma espécie de boca de marujo quinhentista, onde o escorbuto tomou conta dos dentes e revela agora o putrefacto de um chumaço cinzento-escuro que parece querer libertar-se de décadas de presídio. Os cotovelos ainda não se mostram mas adivinham-se coçados de mistura com um brilho seboso que perverte a memória de um primórdio de fino recorte e alta plateia.

A camisa desvanece um imaginário branco imaculado, já revertido para um tom impreciso onde máculas de auréola acastanhada se empertigam como símbolos de glórias vencidas em noites de êxtase e palcos de excelência, revividos agora em memórias sem data, mas que ficam para uma posteridade incerta embora de previsão a termo certo.

Ao pescoço um laçarote retorcido como hélice de avião destroçado num embate desgovernado no solo.

Nos pés, duas alpercatas sem atacadores – ostensivamente a recusar qualquer ligação com a moda –, abrem duas vigias à frente onde os dedos dos pés parecem debruçar-se acabrunhados pela frágil comodidade do transporte.

Passando ao lado do Parque Mayer, volta-se ligeiramente à direita e, majestático, prenuncia uma ligeira vénia às portadas semi-encerradas, enquanto, em breve gesto, tira o chapéu cujo tampo escancara uma gargalhada surda mas troante no tom e gesto de fina homenagem a uma época farta e gloriosa de arte sem paralelo, agora de portões carcomidos pela ferrugem moderna vertida pelos novos tempos que intitulam de evolução.

Nas calças deslizam, verticais, linhas cinzentas, umas escuras, outras mais claras, que iludem um vinco há muito ausente, mas empertigam ainda uma fantasia de charme outrora vivo e coerente com o fino porte da casaca.

Passa por entre as alas que se vão formando como navio cortando os mares calmos do empedrado da avenida. Atrás vai ficando uma espécie de cachão humano que se queda confuso e inerte como espuma que marca uma rota linear no mais profundo dos oceanos do desconcerto com o real.

Nos Restauradores, bem entre o Éden e o Condes, abre os dois braços em cruz e aponta os dois indicadores; de seguida recolhe os braços e com as palmas das mãos voltadas para si à altura dos ombros agita-as num breve gesto de político em saudação à multidão adulante que lhe acena.

Um casal, ele em estilo de atleta dos anos 40, peitudo, cabelo reluzente de gel – outrora por certo empapado em brilhantina – e calças bem acima do umbigo, trás a reboque a esposa, baixinha, cabelo branco arranjadinho, que se engata no braço direito do marido agarrando-o com as duas mãos, como carruagem na cauda de um longo comboio receando desprender-se.

Pararam à sua passagem recusando engrossar as ondas que se iam formando.

As rotas quase se tocavam. Ninguém ousou desviar-se duas pedras de calçada.

Inquieta a senhora refugiou-se atrás do marido sem desprender nenhuma das mãos com evidente receio de poder ser arrastada. O atleta ficou imponente e desafiador na expectativa de um motivo para uma interpelação que melhor esclarecesse aquela espécie de Adamastor que se lhe interpunha na sua rota.

Quase se tocaram.

Estático passou o indicador por uma narina, depois outra, num breve vaivém que a seguir passou pelas calças no intuito de limpar a hipotética humidade surtida no improviso do gesto.

– Mas que figura… – disse, em tom de imponência máscula dos anos 40 – este tipo não se lava há mais de um ano. A pobreza de espírito a que isto chegou. Olha-me para o ridículo daquelas roupas. E não há autoridade que ponha cobro a isto…? Depois querem ter turismo. Havia de ser no meu tempo – continuava enquanto já encaixava as duas mãos no quadril, dependurando um pouco a esposa que cautelosa não se despregava, relanceando um olhar em redor buscando uma qualquer autoridade.

A esposa, baixinha e acoitada atrás do marido, olhava ora para aquela figura que desenvolta e soberana continuava a sua caminhada, ora para o marido, esforçando-se num esgar de boca por conseguir chegar-lhe lá acima com os olhos, por óbvio ranger da coluna vertebral na zona cervical.

– Quem é…? – perguntava ainda confusa.

– Um desgraçado qualquer que resolveu vir ao Rossio dar espectáculo. Isto só neste país. Havia de ser no meu tempo.

E aquela figura repentinamente abeirou-se da estrada e parou. Descalçou uma alpercata, depois a outra, juntou-as e meteu-as debaixo do braço, desnudando os pés tisnados que se insinuam em pose insolente à beira do passeio. Levantou o braço direito e esticou dois dedos no sentido do trânsito descendente.

– Queres ver que quer um táxi… – aventa enquanto as mãos permanecem nos quadris e um sorriso sarcástico se lhe aflora – só me faltava ver isto.

O gesto da figura é breve; dando por finda a tarefa, o olhar fixa-se agora em frente como se quisesse ler ainda o cartaz ausente de um Condes sepultado vivo na memória da cidade. A pose permanece altiva. Num breve meneio com três dedos duma mão sacode ao de leve um hipotético grão de pó que lhe tenha surgido no ombro esquerdo, enquanto de soslaio mira o atleta que permanece a escassos metros impávido e desafiador.

Uma espampanante limusina preta de cromados reluzentes pára suavemente junto da figura. Num gesto suave abre a porta de trás e acomoda-se no banco de camurça clara, fechando-a de seguida com a mesma suavidade. A limusina arranca lentamente em direcção ao Rossio.

O atleta já deixou cair os braços que se alongam inertes ao logo do corpo. O queixo caiu entreabrindo a boca. Cerrou um pouco os olhos e confirmou ainda a limusina a afastar-se. De seguida olhou para a esquerda donde tinha surgido a limusina ainda sem alento para subir o maxilar que permanecia suspenso. Voltou-se de novo para o Rossio por onde se havia esfumado a limusina.

– Afinal o senhor sempre conseguiu um táxi – balbuciou com um leve ar de satisfação e meneios afirmativos da cabeça, enquanto se mantinha ainda bem agarrada ao braço suspenso do marido que, meio atónito, procurava agora algo ou alguém que lhe aquietasse um ânimo em perfeita convulsão com uma realidade que se recusava a apreender. Não surtiam palavras. O incrédulo fazia agora tenção de por ali se instalar até que algo de transcendente repusesse as coisas no seu devido lugar.

– Ainda bem para ele, coitado – atrevia-se a senhora na boa intenção de pôr termo àquele impasse em que sentia o marido consumir-se.

A agitação, que tendia para um qualquer términos, foi de novo incendiada quando a limusina surgiu de volta do Rossio e se dirigia para o Marquês. Lá dentro era agora possível descortinar melhor o condutor, um chaufeur de cabelo abrilhantado, e atrás, junto à janela, a figura que, à passagem, tirou o chapéu cujo tampo voltou a gargalhar bem escancarado, enquanto que, com uma breve vénia de cabeça, saudava o atleta ainda petrificado a deixar desprender o queixo, quase numa mímica sugerida pela maxila do chapéu da figura.

– Belo táxi…! – sugeria a senhora no intuito de obter algum desenlace para o seu próprio conflito e revogar a inclemência daquele sol que continuava destemperado e em desafio com o que ditava solene o almanaque.

– …

– …

Passaram minutos. Por fim um retorno inquieto ao pisar leve dos minutos da calçada e aos novos consensos dos tempos:

– Vocês querem ver que aquela história daqueles gajos que ficam nos semáforos a pedir moedas e, diz-se, sacam à média de dois euros de trinta em trinta segundos, é mesmo verdade…?! Onde chegámos… Havia de ser no meu tempo…!

Pedro C.

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One comment on “Vagabundo em liberdade… na avenida…

  1. Uma boa estória. Muito bem escrito. Gostei.

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