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Projecto Europeu; um engano colossal.


Durou cerca de 30 anos (estou a descontar o PREC) o crédito de que o 25 de Abril traria uma melhoria sensível na qualidade de vida de uns bons ¾ dos portugueses; aqueles que no mar e em terra se esfalfavam de sol a sol para suprir as suas necessidades básicas, vigiados por um estado déspota e pressuroso na sua ideologia torpe e mesquinha, que os trazia à rédea curta na alfabetização e conhecimento, como espartilhos de um pensamento que se queria amarrado e inerte.

Verdade se diga que ocorreram conquistas importantes e que a qualidade de vida mudou praticamente para toda a gente. Para alguns então mudou tão radicalmente que se viram ricos assim de um dia para o outro e com pouco trabalho. Bastou o exercício daquela qualidade que nos é tão peculiar e que dá pelo nome de chica-espertice.

Mais de 800 anos de opróbrio ininterrupto do poder do mando sobre os governados só podia aguçar a esperteza, o golpe e a infindável capacidade de desenrascanço aguçada ao longo de séculos por este desgraçado povo que se mantém manso, alinhado e resignado. É o Eça quem melhor nos define.

Mas mesmo que algumas dessas conquistas não tivessem ocorrido, aquilo a que se convencionou chamar de liberdade (um termo tão abrangente que se torna difícil definir as suas fronteiras) foi um ganho incomensurável que nos vem permitindo, pelo menos isso, dizer o que pensamos das políticas e dos políticos, sem ter que o sussurrar de olho nalgum bufo sempre pressuroso na sua função.

Mas não sei se não terá faltado qualquer coisa à liberdade que tiveram por bem proporcionar-nos. Algo que a tornasse verdadeira e eficaz; que lhe desse sentido e não a esvaziasse de substância e conteúdo.

Refiro-me à vergonha ou, mais propriamente, a falta dela.

Porque a mim serve-me de pouco a liberdade que me oferecem, se os que me governam e mentem o fazem sem vergonha e o impudor próprio dos políticos déspotas que usam o poder para impor ideologias, ou dele se servem em proveito próprio e da sua cáfila de amigos.

Por outro lado, conceder e propalar a liberdade a um povo pouco habituado a ela, inculto, quer na política quer no conhecimento, e anestesiado pela perpetuação dos eternos três F’s, a que se vieram juntar as telenovelas como uma espécie de catecismo da mediocridade intelectual, não é mais que facultar um complexo tratado com centenas de páginas a um aluno que acaba de concluir a segunda classe da antiga primária e esperar que o leia e interprete com o à vontade de um catedrático.

E os políticos sabem isso. Sabem que desta maneira, sempre que eleitos, se podem afirmar e legitimar como produtos da liberdade e desta forma exercitarem livremente a sua incompetência e mediocridade governativas.

Vem todo este intróito a propósito do ponto a que chegámos e dos precipícios que nos cercam, trazendo-me à memória os tempos dos primeiros navegantes que acreditavam que o imenso mar terminaria num abismo onde as naus e caravelas haveriam de cair engolidas pelas trevas do desconhecido.

Hoje é também assim que me sinto; ninguém é capaz de nos dizer o que nos espera. Mas de um modo geral todos são pródigos em afirmar que estamos à beira do precipício e que as trevas poderão ser o nosso destino.

Das trevas vamos já tendo alguns sinais.

A governação fácil do aumento de impostos, corte de regalias conquistadas à sombra da revolução – que tudo nos prometeu e haveria de proporcionar – e a quebra de contratos firmados entre o estado e o cidadão por gente supostamente séria (e tudo isto como princípio de conversa…), permite adivinhar que a queda no abismo de antanho se nos apresenta hoje com alguns recortes de garantia.

Para mais quando também os ventos sopram cruzados e ninguém se mostra capaz de governar a nau mal arquitectada em que se vem revelando esta Europa, que de tão velha mais parece tomada pelos males da idade de um Velho Continente à beira de internamento em lar de idosos onde definhará.

As regalias, atrás mascaradas com um eufemístico itálico, não colhem outra intenção senão verberar os chamados direitos adquiridos, que agora nos dizem que eram direitos, sim, mas não tínhamos afinal direito a eles. Foram uma mentira sindicalizada que ajudou muito político e governação a ascender ao galarim do poder, sem qualquer preocupação em fomentar a riqueza que haveria de sustentar o bem-estar que a revolução prometia a todos.

A criação de uma União Europeia foi um sonho e um projecto válidos que careciam de pressupostos imprescindíveis numa empresa desta dimensão: essencialmente competência e uma extraordinária visão de futuro.

Ora, tanto quanto agora se pode perceber, nem uma coisa nem outra terá ocorrido.

Quando o inevitável convite para a nossa integração nos sussurrou aos ouvidos e com ele uma torrência de cifrões cintilantes piscaram sem cessar nas pupilas dos nossos governantes, foi dado o tiro de partida para um descalabro que, mais tarde ou mais cedo, haveria de chegar.

Quando sem controlo (e esta porventura a maior falha de toda política europeia) derramaram milhões de euros sobre o país, eufemisticamente intitulados de fundos estruturais, mas na verdade percebidos pela nossa eterna ratice como um maná, uma autêntica teta de vaca aparentemente inesgotável que haveria de enriquecer uma súcia de oportunistas escorridos do obscurantismo derrubado em 74 (que com eles se aboletaram e enriqueceram), estava aberta a via para a retoma do engano, do golpe e do esquema, ainda tão frescos na memória de um tempo que levará décadas a reverter.

Quando praticamente proibiram determinados países de continuarem a produzir alguns bens de consumo atribuindo a sua produção àqueles que melhor e mais barato os podiam fornecer, o aplauso foi geral.

As coisas tinham lógica.

Quem p.e. tinha extensões de terreno plano e arável capazes de produzir trigo a baixo preço – tendo em conta que uma só máquina e um único operário poderiam cultivar e colher cereal numa extensão semelhante a quase metade do Alentejo – seria incumbido de o fazer no interesse de todos. O mesmo sucedeu com as pescas e várias indústrias a que o país se dedicava, pouco mais que artesanalmente e a um custo muito elevado.

Este princípio tinha toda a lógica e nesta perspectiva foi implementado.

Portugal (leia-se, os governantes), recém-chegado à EU, com fundos estruturais a escorrerem que nem o rio Tejo em época de cheias, nem pestanejou. As vacas gordas vinham por aí abaixo e praticamente nem era necessário governar, embora simultaneamente muito boa gente tenha entendido que era uma excelente oportunidade para se governar. A estruturação do país estava garantida e a custo zero. Fizeram-se estradas, aparentemente estradas a mais, que facilitariam as comunicações e se constituiriam no veículo do progresso. Os romanos terão sido dos primeiros a perceber que o progresso só ocorre com boas vias de comunicação.

Entretanto, os fundos que chegavam com vista à modernização da nossa incipiente indústria, foram-se esfumando em descarados parques de Ferraris sem que ninguém tivesse dado por nada. Aliás, neste tipo de casos normalmente ninguém dá por nada. Os maus hábitos e o descaramento foram tantos que os ferraristas nem se deram ao trabalho de os dissimularem.

Contudo, neste enquadramento de optimização funcional das estruturas de cada país, o que ficou estabelecido para Portugal?

Indústria turística (pequeninos, com boas praias e sol radioso, quiseram transformar-nos na estância de férias da Europa) e fornecedores quase exclusivos de pasta de papel da restante comunidade. Foi o que nos tocou no bolo da concertação estratégica da Europa.

Indústria turística:

– Floresceram campos de golfe por todo o Algarve e começou a faltar a água, logo remediada com campos providos de recuperação da água da rega. Hotéis, residenciais e empreendimentos turísticos dotados de muitas estrelas, que deram emprego a muita gente; mas bastou uma crise de atentados, um vulcão deitar uma fumaça de poeira ou conflitos económico e financeiros, para a estrutura abanar e os despedimentos ocorrerem revelando a face oculta da moeda.

– Construiu-se o Alqueva com a promessa de regadio num Alentejo sempre ressequido e ávido de água, abandonado pela revolução e pela política europeia, para logo se perceber, mal o manto de água se estendeu pelas planícies, que a opção era prioritariamente turística, com mais campos de golfe e construção de complexos turísticos.

A lógica da estância de férias da Europa continuava em marcha, iludindo as promessas de agricultura compensatória da desertificação do Alentejo.

Pasta de papel:

– Pasta de papel, logo eucaliptos uma vez que se trata de uma árvore de crescimento rápido produzindo matéria-prima em seis ou sete anos. Eucaliptos, logo sequeiro e morte de qualquer outra arborização em toda a sua cercania, tendo em conta a enorme capacidade de absorção e necessidade de água desta árvore. Eucaliptos, logo terreno para os plantar; terrenos disponíveis, logo incêndios para dizimar os pinheiros cuja madeira carbonizada mesmo assim ainda pode ser aproveitada para as celuloses. Queimados os pinheiros que negócio propor aos proprietários dos terrenos? Eucaliptos, que ao fim de seis ou sete anos rendem dinheiro, ao contrário dos pinheiros que andam pelos trinta anos para conformarem uma árvore com rendimento da madeira.

Esta breve perspectiva é capaz de parecer um tanto radical.

Mas convido todos os que têm oportunidade de viajar pelo país a observarem o que renasce nos terrenos queimados pelos incêndios obrigatórios de todos os verões. E já agora lembrarem-se dos comentários dos populares quando referiam ter observado pequenos aviões a deitarem objectos incendiários nos pinhais.

Revisitando a nossa memória, lembrar que incêndios ocorriam antes da nossa entrada na CEE? Uma excelente estatística cuja curiosidade se me aguça.

E assim se foram as nossas indústrias, porque artesanais e sem capacidade de competirem com as suas congéneres na Europa e noutras partes do mundo. Tudo em prol de uma ideia europeia que favoreceu os países mais desenvolvidos que não prescindiram dos seus meios de produção e se impuseram como fornecedores exclusivos de bens e serviços aos menos apetrechados.

Alegremente patetas, todos os nossos políticos se foram acomodando ao descalabro do país, endividando-nos, porque incapazes de criarem riqueza, até que uma só rajada de vento mais forte levou o telhado da casa e nos deixou à chuva e ao frio.

Dizem-nos agora que foi do vento; e que a culpa é do governante anterior que não cuidou de arranjar o telhado. Todos disseram o mesmo e todos irão continuar a acusar o seu predecessor como esquema, o eterno esquema, que iluda a sua incompetência.

Dizem-nos mais; que agora é preciso passar frio e fome para que se consiga um guarda-chuva que mitigue a intempérie que nos cai abrupta e inclemente em cima.

Obviamente que os responsáveis por esta ideia europeia hão-de sacudir a água do capote, afirmando que a culpa é da má implantação do projecto, mas acima de tudo culpa dos gregos, ibéricos e italianos que não querem trabalhar (mas já construíram impérios) que acreditaram nas boas intenções dos sábios e no melhor fruto prometido pela EU e puseram-se a reivindicar regalias, de que usufruem os seus pares, mas aos quais afinal não tinham direito.

Os políticos – incompetentes porque também eles escorridos de uma revolução que repentinamente lhes proporcionou o galarim da governação para o qual não estava minimamente preparados – ávidos de poder e protagonismo, conscientes de que um e outro são efémeros, pouco ou nada se preocuparam com o futuro, permitindo que o dinheiro fácil canalizado através dos bancos edificasse uma economia fantasiosa que qualquer economista basicamente experimentado podia vislumbrar sem muito esforço não garantir qualquer solidez e escorreria no pântano em que nos debatemos agora.

Voltando aos fundos estruturais vertidos a granel sobre o nosso país, verifica-se hoje que algumas empresas de pequena e média dimensão sem fundos nem apoios decidiram modernizar-se com esforço próprio e competir em qualidade com o resto do mundo. Para espanto de muitos, venceram a batalha. Ou seja; afinal somos capazes, somos competentes. Faltam-nos apenas políticas e políticos minimamente à altura da sua função.

Imagine-se agora que os milhões oferecidos de bandeja ao nosso país tinham sido criteriosamente aplicados na modernização das estruturas empresariais e controlados pelos órgãos políticos que tinham essa responsabilidade. Que país teríamos hoje?

Haverá por aí alguém disponível para se responsabilizar por esse erro colossal?

Bendita liberdade que mo permite perguntar.

Santa ingenuidade esperar que alguém tenha a hombridade de o assumir.

Pedro C.

2 comments on “Projecto Europeu; um engano colossal.

  1. Com a lógica e clareza a que já nos habituou, Pedro C. escalpeliza a política económica deste triste país e ainda alguns factores que contribuíram para a situação em que nos encontramos.

    À medida que o lemos, forma-se um nó na garganta que não sabemos bem se de tristeza, se de indignação, se de revolta – talvez de tudo isso a juntar a uma grande frustração por nada se ter aproveitado do que foi posto à nossa disposição, por não ter sido devidamente controlada a aplicação das verbas atribuídas que se transformaram em “parques de ferraris” mas também em brutas vivendas, viagens para países exóticos e algumas,se calhar, aplicadas em negócios pouco claros cujos chorudos lucros foram lavados e colocados em off-shores.
    “Fizeram-se estradas, aparentemente estradas a mais” – certo! mas faltou mencionar “Fizeram-se estádios, aparentemente estádios a mais” cujo lapso, desculpável, se deve, certamente, à ligação que Pedro C. tem com o desporto.

    A crónica termina com uma palavra de apreço à capacidade e empreendedorismo dos nossos pequenos e médios empresários.
    Quanto à pergunta, santa ingenuidade pensar que algum político deste país se poderá considerar responsável seja pelo que for, pelo motivo que acima menciona:

    “Os políticos – incompetentes porque também eles escorridos de uma revolução que repentinamente lhes proporcionou o galarim da governação para o qual não estava minimamente preparados – ávidos de poder e protagonismo, conscientes de que um e outro são efémeros……….”

    Mas sem a esperança de uma alteração não dá para aguentar tanta injustiça, tanto cinismo, tanto oportunismo, tanta corrupção, não é, Pedro C.?

    • A argúcia é toda da Maria Herculana e alguma benevolência para com o escriba, também.
      Os estádios não me escaparam. Não os referi apenas porque o problema aí foi um pouco diferente, embora incluído num dos três F’s…

      Aproveito a oportunidade para pôr a nu o ridículo da questão dos estádios e o Euro 2004.
      Portugal candidatou-se e empenhou-se em trazer o Euro para o nosso país porque alguém convenceu Gilberto Madail (então presidente da Federação Portuguesa de Futebol) de que, para vencer um Euro era necessário trazê-lo para Portugal e assim beneficiar da tradicional bonomia dos árbitros para com o país organizador, por via das receitas dos jogos em que participa a equipa organizadora. Um raciocínio bem à medida da mediocridade dirigente portuga.

      Se bem informaram o sr. Madail, melhor ele pensou as coisas.
      Convencendo a governação que aquilo era uma oportunidade única de projectar o país e dotar o futebol português com estádios megalómanos que haveriam igualmente de projectar o desgraçado futebol nacional, os elefantes brancos emergiram endividando, desta vez, as autarquias e indirectamente o estado e naturalmente todos nós.
      Culpados…?
      Não há…!
      … em última análise, talvez… D. Afonso Henriques…a quem tenho alguma dificuldade em perdoar…!

      Quanto à última interrogação a resposta é obviamente… sem qualquer esperança, mesmo que o verde seja a minha cor preferida…

      Tanto quanto enquadro a questão, o atraso cultural, cívico e político carece só por si de uma revolução própria que não se decreta nem se determina por passos de mágica.
      Trata-se de uma revolução ideológica e de princípios que apenas ocorrerá quando a educação for um objectivo sério de um governo que a queira empreender como arma de formação e crescimento e não um paliativo que finge formar e educar, como forma de manter o rebanho sereno e obediente ao pastor.
      Mas nesse sentido não vislumbro nem caminho nem vontade de o empreender.

      Mas o que mais nos deve perturbar é esta resignação em que nos vamos deixando ficar.

      Leia-se Guerra Junqueiro:

      “Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas.”
      G. Junqueiro

      P.C.

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