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Portugueses de segunda…

Portugueses de segunda…

… mas aparentemente apenas por 365 dias.

A ver vamos.

Sim, porque a anestesia é tal que nesta altura já acreditamos que tudo pode acontecer e ninguém mexe um dedo da sua indignação, ou escoiceia uma sola de sapato gasto e roto aos portões de S. Bento ou Belém.

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas.

Guerra Junqueiro

E é por este fatalismo que nos vamos enveredando sempre à espera que Fátima cumpra finalmente uma promessa, que a selecção nos guinde a honra ao superior pedestal da Europa e que o fado nos materialize como património da humanidade, mesmo que soem longínquos os ecos dos nossos feitos por “mares nunca dantes navegados”, dando ao mundo novos mundos e proventos que outros melhor souberam aproveitar.

Deu-nos a nova governação a notícia que estávamos à beira do precipício, bastando um mau passo em frente para nele mergulharmos.

Culpas passadas aos que os antecederam (uma prática comum a todos os governos eleitos após o 25 de Abril, o que se traduz na inexistência de qualquer responsável pelo caos instalado, excepto nós, que, estúpidos, os elegemos), iniciou o executivo as manobras necessárias à nossa salvação e esconjuro dos males que outros nos deixaram.

Porque tudo era urgente e o precipício estava ali mesmo à nossa frente, as medidas a tomar não podiam ser outras senão o aumento de impostos e o corte de salários.

Simples, prático e inteligente.

Percebendo eu tanto, ou menos, de finanças e governação como o sr. Abílio da mercearia, teria feito meritoriamente o mesmo.

Assim o fizeram Mário Soares, Cavaco Silva, Durão Barroso e José Sócrates (e praticamente todos os outros que os intermediaram) pelo que nessa perspectiva eu teria feito a mesma indigente figura governativa, e sem ter que aldrabar os eleitores com promessas pró-islâmicas de céu e paraísos.

Desta vez temos, contudo, uma novidade; foram à vida os dois subsídios (14% do rendimento anual) com que os funcionários públicos e aposentados se libertavam duas vezes por ano do aperto das contas; muitos pagavam dívidas que se arrastavam ao longo de seis meses ou aproveitavam a folga para adquirir os medicamentos mais caros, outros prestavam ajuda aos filhos mais enrascados e alguns usufruíam dumas férias ou enfeitavam o presépio com um pouco mais de mirra e incenso, que não de ouro.

Tudo não obstante o candidato a 1º ministro ter afirmado claro e bom som, entre outras pérolas, duas verdades com que venceu as eleições e nos levou, mais uma vez, à certa: “retirar os subsídios à função pública e aposentados é uma parvoíce” e “… nós conhecemos bem as contas; não vamos dizer depois que não conhecíamos!”.

Era uma parvoíce. Depois deixou de o ser mal os votos caíram nas urnas e o poder foi conquistado.

E nós acreditámos, mais uma vez, que uma parvoíce poderia mesmo ser uma parvoíce.

Porque foram apenas os funcionários públicos e os aposentados não ocorreu uma explicação cabal. Suspeitou-se de um abaixamento de estatuto; passaram a portugueses de segunda. O estado não somos afinal todos nós. Perante o estado não somos afinal todos iguais.

Pela forma como o 1º ministro continuamente tratou a situação usando sempre o “estamos” e o “somos” depreendia-se que estávamos todos à rasca e éramos todos chamados a salvar o país de mais de 30 anos de má governação e indigência política. Mas não. Os culpados eram mesmo a função pública (FP) e os aposentados (AP).

No fundo percebe-se: de uma só penada o estado, que (não) somos todos nós, mete ao bolso mil e cem milhões de euros que retira a uma parte dos portugueses.

Máquina bem regulada, apareceu ao tempo do anúncio dos cortes dos subsídios – por mera coincidência, certamente – um estudo que refere usufruir a F.P., em média, perto de cem euros a mais que o sector privado. Como e quem fez o estudo, ninguém sabe, nem jamais será questionado sobre a veracidade dos números apresentados. Um hábito bem português: diz-se, logo “… tá dito, tá dito!”

A ser verdade talvez a F.P. tenha mesmo que ser a sacrificada, mesmo tendo em conta que nenhum sector do estado funciona sem essa mesma F.P.. O que vale por dizer que nenhum país funciona sem essa gente privilegiada que urge castigar e sacrificar, ao invés de credibilizar e incentivar.

Quanto aos AP muito menos mérito terão para cá andarem a usufruir daquilo que descontaram uma vida, mais desejando o estado que morram cedo e o mais depressa possível.

Num tempo de aperto quem não produz é descartável, sendo que o aumento substancial da esperança de vida acabe por se transformar numa tragédia para os governos. Diz-se, veladamente ainda, que não há dinheiro para sustentar a saúde dos pobres, que o SNS é uma utopia dos socialistas. Porque diacho me vem de repente à memória a célebre estória da picadinha atrás da orelha…

Este o provável zunzum que terá levado P. Coelho a pensar:

– “Não é tarde nem é cedo; abate-se parte do défice com um milhão e cem mil euros sacados (termo adocicado para não ferir susceptibilidades) à FP e aos AP, aproveitando para meter estes privilegiados na ordem.”

Se bem o pensou pior o fez…

Vem agora (e só agora) o Tribunal Constitucional garantir, por larga maioria dos seus membros, que a medida não cabe na magna carta devendo ser corrigida em 2013. Contudo, tendo em conta o aperto da nação, a irregularidade fica perdoada não obstante “… a violação do princípio da igualdade…” e “ traduzir-se numa imposição de um sacrifício  adicional que não tem equivalente para a generalidade dos outros cidadãos  que auferem rendimentos provenientes de outras fontes”.

Tá feito, tá feito! Agora amanhem-se. A Constituição segue dentro de momentos em 2013. E a ver vamos.

Para mim é quase uma honra esta imposição duma violação do princípio da igualdade traduzida num sacrifício adicional com que me distinguem dos demais portugueses, se bem que ninguém me tenha perguntado se estava disposto a dela usufruir.

Mas ontem, mal conhecida a decisão do T.C., o 1º ministro foi questionado na rua.

Não sendo credível que tenha sido apanhado de surpresa, em resumo deixou no ar o seguinte:

– Bem, se o sacrifício tem que ser melhor repartido afigura-se evidente que outros sectores terão também que participar.

– Os privados? quis saber a jornalista.

– Claro!

Pois claro.

Mas porque razão tal medida não se tornou clara na altura?

Porque razão apenas uma parte dos portugueses foram especialmente chamados ao sacrifício do endireitar das contas públicas?

Será o funcionalismo público o responsável pelo destrambelhamento das contas e péssima governação de quem nos tem governado ao longo destes 37 anos; circunstância que é aceite por todos os opinadores da nossa praça em detrimento da esquizofrenia daqueles que tendem a encontrar a causa dos problemas apenas nas governações anteriores, escamoteando a catadupa de erros que a democracia veio vertendo?

Como o sr. Abílio da mercearia não me proponho a um exercício crítico sobre a forma como o governo procura resolver o enorme buraco onde nos achamos.

Ouvem-se palpites para todos os gostos. Especialmente daqueles burocratas académicos bem instalados na vida, os quais jamais serão chamados a provar na prática as verdades que proclamam.

Não sei se a colossal subida de impostos, promoção de desemprego e consequente diminuição de receitas é a via correcta para a resolução do problema.

Não tenho propostas. Não sei nada.

Sei que há um problema nacional que tem que ser resolvido. Mas também me parece que, sendo nacional, cabe dividir os sacrifícios por todos protegendo os mais fracos e pedindo os maiores sacrifícios aos que mais têm.

Parece-me colossalmente evidente e humano que assim seja.

Mas mesmo nada sabendo fica-me a ideia de que não é bem isso que tem vindo a acontecer.

Cabe ao governo, em nome do bom-senso, dividir equitativamente os sacrifícios e não cavar mais o fosso entre os privilégios e o sofrimento.

Não há mais espaço para a cegueira ideológica ou compadrio de conveniência, venham donde vierem.

Importa reter que o sofrimento não dá votos a quem o impõe; mesmo que o eleitor permaneça pouco ilustrado quanto aos meandros da política, da fome e do sofrimento ele sabe.

Em África um nativo afirmava-me um dia com desusada veemência o seguinte:

– Muita comida é muito melhor que a fome…!

E eu fiquei a olhar para ele tentando perceber a evidência do conceito versus a impetuosidade com que ele o afirmava.

Perante a minha momentânea perplexidade, acrescentou:

– As duas fazem doer a barriga; mas a primeira é uma dor boa, a outra não…

P. C.

PS

Não sei o que virá por aí que responda a esta decisão do T.C.

Mas cheira-me a uma repartição de sacrifícios bem amarga para todos…

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One comment on “Portugueses de segunda…

  1. Não podia ser mais verdadeiro. As minhas solas estão gastas, mas vou continuar a lutar pela justiça social até ficar descalço.

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