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Plurarismo singular de algum “jornalismo” que temos

… ou o verdadeiro Olimpo da “liberdade” de imprensa.

Depois da generalizada censura que lhe tolheu o rabbit-smile por uns tempos, a propósito da famigerada crónica não publicada, e que Mário Crespo (M.C.) quis transformar numa censura ad homine, transformando-se assim numa primeira vítima da perseguição aos jornalistas movida pelo poder, eis que, sorrateiramente, qual formiguinha diligente e persistente, lá vai continuando a sua obra demolidora de vergastar o poder e o governo em particular.

Não que, nem um nem o outro, o não mereçam.

Bem pelo contrário. A promessa de democracia e liberdade, que haveria de desembocar em prosperidade para todos, é nesta altura uma longa expectativa em perfeito estado de desmoronamento.

Fica a ideia de que a democracia que nos serviram não terá sido bem decalcada de um bom original e a liberdade que esta nos trouxe já não nos serve para nada, porque ninguém nos ouve.

Ou então, alguém se apoderou da democracia que nos venderam.

Por outro lado, tendo em conta a urdidura que vem sendo operada na distinção entre a verdade e a mentira – debruada por rendilhados de retórica barata paga a pataco – já nem a proclamação de que “o rei vai nu” colhe as bênçãos da democracia que nos derramaram abruptamente pela cabeça abaixo, sem qualquer preparação catequista que nos acautelasse para as areias movediças e pântanos que nela se encapotam.

Nunca me incomodaram vias de pensamento, ou conceitos, divergentes dos meus.

O homem é em si um ser plural. E foi nessa diversidade que, bem ou mal, edificou a humanidade.

Agastam-me, isso sim, os meios e as formas menos íntegras com que aqueles que, tendo a regalia de ter à sua disposição púlpitos privilegiados, deturpam o jogo e enviesam os caminhos do debate são e plural, que nos devia permitir determinar uma verdade; a nossa verdade, por cada um de nós construída, e não uma outra que nos querem impingir na gratuitidade do doce enlevo da falácia medíocre, mas eficaz.

Depois do espectáculo ridículo protagonizado por M.C. na Comissão de Ética no parlamento, execrando ódios mal disfarçados que acabaram por produzir uma onda de gargalhada generalizada por todos os deputados, esperava-se do jornalista um conciso refundar de atitude, mantendo naturalmente a sua linha de pensamento e até a fixação de linha crítica contundente que vem protagonizando nos últimos anos.

Mas não parece ser o caso, embora se note um certo aperfeiçoamento dos métodos e a dissimulação esteja a ganhar asas. Experiência não faltará a M.C..

Há dias na SIC-Notícias anunciava-se o programa “Plano Inclinado”, onde M.C. é o pivot.

O tema era o estado da justiça em Portugal. Uma temática bem actual e a precisar de todas as abordagens possíveis, onde o assunto seja escalpelizado de uma ponta à outra, pois parece que nada se lhe aproveita, quer na forma quer nos conteúdos, passando pelos seus mais directos actores e executores.

Procurando os convidados mais adequados ao tema – e aos seus propósitos – M.C. escolheu três.

Dr. Pires de Lima (P.L.); ex-bastonário da Ordem dos Advogados e, naturalmente, um homem de leis com larga experiência no assunto.

O Dr. P. L. tem ainda uma subtil característica; é um contundente crítico do actual governo e do 1º ministro (direito este que nem sequer se lhe questiona), a ponto de numa entrevista recente com M.C. (mais uma… vá lá perceber-se porquê tantas em tão pouco tempo…) se ter referido ao 1º ministro como um “charlatão de feira…”, o que incomodou até o próprio M.C., a avaliar pela apoquentação manifestada pelo próprio, quando balbuciou… “… talvez nem tanto, talvez um excesso de linguagem…”, que P.L., mesmo caindo em si, manteve com algum despudor.

A segunda figura, quem senão o inefável Dr. Medina Carreira (M.C.), “ conhecidíssimo e profundo homem de leis e da justiça deste país…, embora desde longa data dedicado quase em exclusividade ás questões económicas e fiscalistas, tendo mesmo exercido o cargo de Ministro das Finanças do I Governo Constitucional…Mas que importa isso…?”, mas que, por mero acaso, tem a coincidente característica de disputar a P.L. a quantidade e qualidade de verborreia anti-governo, bem como o número de vezes que é requisitado por M.C. para entrevistas onde a governação é avaliada. Suponho que andarão muito empatados neste aspecto e ambos têm dado muito jeito a M.C., pelo menos a avaliar pelas vezes em que são seus convidados de debate.

Insisto que tudo isto não passa de um conjunto de direitos consignados pela tal democracia que nos emborcaram pelo cocuruto abaixo, naquela manhã de todas as esperanças, a saber:

– ser convidado de M.C., que convida quem entende, bem assim como as inúmeras vezes que são solicitados a dar opinião;

– ser um especialista noutra área, que não aquela onde se centra o debate;

– ter a opinião mais desditosa e contundente da acção do governo, muito provavelmente a bem de uma inequívoca razão, que não devo nem me cabe discutir.

A terceira figura escolhida recaiu no Prof. Nuno Crato (N.C.), um homem que se tem distinguido nas áreas do ensino e educação. Um homem que exerce uma crítica construtiva sempre que intervém, mantendo um posicionamento político equilibrado e distanciado de querelas partidárias, orientando-se pela avaliação da essência das coisas e não pelas “coisas da essência…”.

Ora formado, o terceto faltava ouvir.

As expectativas não seriam muitas.

A forma e modo como a justiça é exercida no nosso país não oferecem quaisquer dúvidas a nenhum português de médio entendimento destas coisas.

Tal como a economia, a justiça é tão complexa e densa que, qualquer pessoa que a critique, tem sempre razão. O que nos falta sempre saber nestes debates é o como resolver as coisas e que caminhos devem ser trilhados.

Naquele programa a justiça que temos saiu vilipendiada, quer pelo homem da justiça, quer pelo exímio economista-fiscalista. Naturalmente sem apelo nem agravo e ambos cheiinhos de razão. Faltaram as medidas e propostas para resolver os problemas; mas isso acaba sempre por ser pouco importante e acessório, para não dizer, desnecessário.

Por duas ou três vezes o Prof. Nuno Crato procurou levar o debate para campos mais analíticos e construtivos. Outras tantas vezes foi interrompido pelos seus pares de debate que lhe retiraram, despudoradamente, a palavra abortando a sua intervenção e intervindo em contradição, sem qualquer intervenção de M.C., aparentemente mais interessado em ouvir algo mais conveniente a um determinado propósito que não consegue disfarçar.

Pela sua conduta neste debate, M.C. deve um pedido de desculpas formal ao Prof. Nuno Crato, pela forma inqualificável como este foi tratado no programa. Na ausência dessa reparação por parte de M.C., a SIC deveria fazê-lo.

Por fim – e esse o objecto essencial desta intervenção – deixo-vos o número de intervenções e os tempos consumidos no debate por cada um dos três elementos convidados de M.C., cujo critério não me merece sequer qualquer outro comentário.

Este, um pluralismo singular que me deixa sempre embevecido nos trabalhos de M.C., independentemente das suas inclinações pessoais, partidárias ou políticas, factores, cujo peso no exercício da profissão, me parecem sempre sem cabimento no quadro deontológico que deve nortear um bom jornalista.

Dr. Pires de Lima:

Nº de intervenções no debate – 15

Tempo utilizado – cerca de 23 minutos

Dr. Medina Carreira:

Nº de intervenções – 17

Tempo utilizado – cerca de 21 minutos

Prof. Nuno Crato:

Nº de intervenções – 3

Tempo utilizado – cerca de 5 minutos

M.C.; um mestre da isenção e um paladino da liberdade de imprensa.

Notas:

Terei perdido brevíssimos minutos do início do programa.

A contabilidade dos tempos não é rigorosa ao segundo, mas com o mesmo critério para os três.

De reter a função de disfarce em que se constituiu o convite ao Prof. N.C. para este debate, onde era insubstituível a presença dos dois outros convidados que, a sós, poderiam suscitar dúvidas de isenção…tendo em conta a criteriosa e assídua escolha que M.C. faz dos dois.

Que viva então o pluralismo e lisura profissional de M.C..

P. C.

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