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Pátria e patriotas (Ecos da Guerra Colonial)

 

Ao longo dos séculos a simbologia da Pátria manteve sempre uno e indivisível o seu significado.

De forma sintética e sem rebuscados poéticos ou heróicos, a Pátria é apenas a terra onde nascemos e que aprendemos a amar e defender contra usurpadores que a pretendam ocupar, servindo-se depois dela e dos seus filhos.

A História de Portugal foi por muitos séculos um exemplo desse amor pátrio com que nos rebelámos contra as ocupações castelhanas e napoleónicas, ressoando ainda de tempos longínquos a insubmissão à cúria romana de um povo a que chamavam lusitano, donde viríamos a descender.

A imagem da Pátria, o simbolismo da bandeira e mais tarde do hino, fortaleceram a unidade, o desejo de autonomia e o arreganho pela defesa do chão que nos viu nascer.

Combateu-se com desprezo pela própria vida, sacrificaram-se patriotas, imortalizaram-se um sem número de heróis que entregaram a vida sem qualquer pejo, porque a Pátria o merecia e exigia.

Em cada esquina ou praça erguem-se hoje e imortalizam-se para sempre os que por ela deram a vida sem esperar recompensa, a não ser a gratidão própria de quem ama a sua terra e por ela se entrega sem condição nem dúvida.

Com estes exemplos aprendemos a respeitá-la, a amá-la e a amortalhar a alma de um inequívoco verde-rubro, sempre que a iminência de perigo da sua integridade se vislumbrou no horizonte e se tornou imperioso alcandorar o peito ao inimigo, que haveria de provar o patriotismo luso e o fervor insanável do seu povo na defesa do seu chão, da sua terra.

Contudo, a Pátria nunca se aproveitou desta devoção.

Contemplou-nos com admiração, exaltou os feitos e bravura dos seus heróis, mas nunca mais do que isso.

A Pátria nunca exige que dela façam um objecto de culto e nesse sentido por ela se sacrifiquem em nome dos homens, das ideias e ideais, ou mesquinhez de uma dúzia de oportunistas que, exaltando a nobreza da sua história, a utilizam em proveito próprio bramindo como estandarte as epopeias dos seus filhos.

Essa Pátria é uma farsa. Essa Pátria não existe.

Volvidos mais de 42 anos após o eclodir da guerra é ainda e sempre de um despudor que vimos falar. De um despudor dos homens; jamais um despudor da Pátria.

Será um dia a História a julgar a sensatez e os valores da guerra desenhada e suportada em África. Mas teremos que ser nós, os que por lá passaram, a denunciar hoje e sempre a tragédia que daí soçobrou e que a nossa geração não pode, nem deve calar.

Não caberá nem aqui nem agora escalpelizar com maior ou menor patriotismo o verdadeiro contorno das fronteiras de Portugal depois de 1500. Nem tão pouco reflectir porque nos empurraram para o mar os castelhanos e porque transformámos os pontos de aguadas e reforço de víveres de naus e caravelas a caminho das riquezas da Índia, em reserva de escravos com que usurpámos as riquezas desse paralelo que abraçou dois continentes abaixo do distante Equador.

A guerra declarou-se e fez-se.

Como sempre com vencedores e vencidos. Como quase sempre com inocentes de ambos os lados que tombaram, muitos deles sem perceberem porquê, nem para quê.

Dos mortos, dos nossos mortos, sabemos quantos são porque lhes petrificámos os nomes numa longa pedra fria no Restelo, ironicamente embandeirando por fim a voz dos velhos que, séculos atrás, ali mesmo predisseram maldizentes que assim seria.

Quem são, pouco sabemos; porque importante foi que pelejassem um inimigo que nunca conheceram, de que nunca ouviram falar. Apenas lhes disseram que era o inimigo.

Um povo mal instruído, mal alimentado e habituado ao sofrimento imposto pela tacanhez política dos que detinham o mando, suportou a guerra com destemido empenho apenas porque lhes impingiram que era a Pátria que lho exigia.

A mesma Pátria que refundia a sua História nos feitos de Aljubarrota e desusadas refregas de expurgar sarracenos que nos tomaram como presas fáceis e alimentavam a esperança de nos subjugar.

Dos mortos sabemos quantos são; dos semi-vivos que pairam ainda sonâmbulos nos nossos dias e vagueiam à toa perdidos na savana do ignominio e esquecimento, temos poucas certezas.

Os números não são precisos porque para muitos as emboscadas da guerra continuam a acontecer quase todos os dias e sempre quando menos se espera.

O chamado stress pós traumático não tem tempo nem data; acoita-se na lassidão dos dias, mas pode explodir quando a decrepitude do corpo permitir o baixar da guarda e lhe reaviva memórias que se julgavam perdidas e desfeitas.

A Pátria nunca esquece. Os homens sim, quando a sua memória se volatiliza em consonância com um certo desprezo pelos valores descartáveis do desprezível e do inútil.

Um vilipêndio dos que, como sempre, usaram o soldado como instrumento bélico que lhes servisse interesses políticos, económicos e financeiros, para depois o descartarem como peça obsoleta de um xadrez maquiavélico que só a mente humana se permite arquitectar.

Não se trata aqui de um quadro que retrata uma realidade exclusiva do nosso país. Trata-se de um opróbrio que percorre grande parte da humanidade, com algumas breves ressalvas de respeito e veneração pela condição de combatente, que um ou outro povo ainda se impõe a si próprio, numa sublimação sem paralelo da honra e consideração por aqueles que tombam no campo de batalha.

Porque a Pátria que conhecemos e exaltamos nunca despreza os que por ela tombam ou sofrem, esta não é a Pátria que em circunstância alguma permitiria a inqualificável ignomínia do quadro que se segue:

Até 1967 a trasladação dos corpos dos que caíam na guerra em África era custeada pela família, se para isso tivesse posses suficientes que permitissem um último abraço, uma última homenagem e o direito de amortalhar um último gesto de saudade.

A valores de hoje, o custo seria de 2.750 € pela trasladação, mais as custas do funeral, tudo somado, valor a rondar os 5.000€.

Mesmo tendo em conta o panorama socioeconómico dos dias de hoje, afigura-se fácil adivinhar quantos teriam posses para trazer os seus mortos.

Houve gente que se empenhou para trazer de volta os seus num resgate indecoroso do combatente tombado em nome e ao serviço de uma certa Pátria.

Se a circunstância anterior nos pode perturbar ainda a consciência, atentemos, numa outra ordem de valores, no quadro seguinte:

Números de militares que ficaram ignobilmente enterrados em África por impossibilidade económica dos seus familiares em trazê-los de volta:

Guiné: 175 militares; 10 dos quais enterrados em local desconhecido;

Angola: 586; dos quais 55 em local desconhecido;

Moçambique: 288, dos quais 135 em local desconhecido.

Porque importa esculpir na nossa história e memória colectiva os números com que aviltaram a dignidade dos soldados que todos fomos, repete-se numa resenha que melhor configura a indignidade a que se permitiram:

– deixámos no campo de batalha 1049 combatentes, dos quais 200 nem sabemos onde os deixámos. Fica-nos a esperança de que, pelo menos, todos tenham merecido o direito a uma sepultura, o que para todos nós é uma inabalável convicção, ou mesmo uma certeza de que assim aconteceu. A nobreza do nosso soldado jamais permitiria que assim não fosse.

42 anos depois há ainda quem se empertigue de encontro a uma surdez mesquinha desprovida de sentimentos e ausência de uma inqualificável penhora do sofrimento que ainda hoje dezenas de milhar de ex-combatentes vêm padecendo, alguns deles arrastando-se na indigência do esquecimento e entregues a si próprios, aguardando apenas que uma última emboscada lhes ponha termo aos traumas vividos numa clausura de silêncio a que muitos não resistiram, tendo vindo a sucumbir pelo caminho.

Alguns sobrevivem ancorados numa espécie de esmola de misericórdia, trazendo pendente uma etiqueta que prenuncia um certo período de validade, em que muitos, resistentemente, vão adiando o compromisso de um certo prazo em que foram etiquetados.

Como no campo de batalha hão-de resistir muito para lá daquilo que pressupõe o inimigo, seja ele qual for.

Prescinde-se aqui de elaborados adornos literários porque não confeririam com a crueza dos factos e teriam o condão de suavizar a aspereza da mensagem, subtraindo-lhe alguma plasticidade de contundência que esta ordem de intervenção sempre deve transportar.

O sofrimento do pós guerra dos que combateram em África é uma ferida aberta que nunca irá sarar. Mas também um espinho antigo que dilacera a consciência dos justos, mesmo que a História venha um dia a recuperar a memória e o sofrimento dos que padeceram encerrados em si mesmos muito para lá dos estrondos e gritos do campo de batalha.

Mesmo que a memória de alguns patriotas o queira apagar – por má consciência ou necessidade mórbida de repetir os mesmos desmandos – novos ecos de denúncia hão-de sair do pó da estante livreira, garantindo que não será num novo silêncio do que de pior teve a nossa História, que alguns voltarão a usar em proveito próprio a grandeza e o nome da verdadeira Pátria.

Pedro Cabrita

2 comments on “Pátria e patriotas (Ecos da Guerra Colonial)

  1. Obrigado Sr. Pedro Cabrita. Obrigado por não permitir que a memória curta dos homens, em especial a dos políticos, esqueça, quão dolorosos foram, são e serão, alguns momentos por que passámos e nos atormentam para o resto das nossas vidas. Obrigado

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