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— O Homem e o Processo Inform(ático) em curso…

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“Ático”, entre vários outros sinónimos, como p.e. uma outra forma de apelidar os naturais de Atenas (os atenienses), também confere o de “falso” – uma espécie de pedestal colocado debaixo das bases das colunas.

Ora “falso” pode ter sido um sinal de aviso que nos passou despercebido quando nos estenderam a passadeira vermelha dos famosos, convidando-nos a embarcar nesta viagem que nos vem, tanto embevecendo, como enlouquecendo.

Nada como agitar os meandros da cultura para iniciar uma prosa que se quer sempre profunda e mobilizadora do estaticismo com que nos vêm adormecendo os sentidos, ao colocarem à nossa disposição essa descoberta impressionante que se dá pelo nome de informática e sem a qual muitos dos comuns dos mortais já não conseguiria sobreviver. São eles próprios que o dizem. Alguns dos mortais….

O computador chegou e, sem precisar de ver, já nos venceu, sabendo à partida que tudo o que nos facilita a vida é bem-vindo.

Venceu as nossas dificuldades, acomodou os nossos vícios e sarapintou os nossos sonhos com as cores mais garridas que se possam imaginar.

Os vícios terão sido os primeiros a aplaudir a sua chegada e a entrar numa via de reprodução de outros viciozinhos, capazes de ombrear com a capacidade dos chineses em se reproduzirem, como quem bebe copos de água.

Genericamente o aplauso foi tal que me fica a ideia que a informática transporta em si, para lá da sua inequívoca funcionalidade e capacidade de produzir bem-estar, também um poder anestesiante que nos impede de pensar e medir um ou outro contra, que nos há-de amarfanhar e escravizar a breve prazo, se é que isso não começou já a acontecer.

A comunicação e o ócio foram talvez as duas maiores preocupações de sempre do homem ao longo da sua já longa história.

Preocupações de como comunicar à distância, para não ter que lá ir a pé dizer o que pretendia (forma primária de não mexer uma palha) e encontrar forma de ficar quieto e ledo com todas as necessidades à mão do comprimento do braço, pautaram-no como um dos mais espertalhões de entre os seres vivos, semeados pelo Criador neste planeta. Espertalhão e um pouco estúpido…será bom acrescentar…

Primeiro encontra a fórmula para não se mexer; depois vê-se na contingência de criar o ginásio para se ir mexendo e não definhar…

Tudo em nome da economia, criação de riqueza (de que só uma dúzia dos tais espertalhões irá usufruir) e circulação de capitais (que embevece e baba a malta, só de os ver passar…).

O computador chegou para mudar radicalmente as nossas vidas. Devagarinho foi crescendo e empertigando, facilitando, acelerando, condicionando tudo e todos a ponto de nos acorrentar de tal forma que já não sei, à boa maneira dos escravos, se seremos já (ou queremos ser) capazes de nos movimentarmos sem as correntes a que alegremente nos amarrámos.

Aqui há um bom par de anos – gatinhava ainda a ideia do computador pessoal poder vir a ser o ar que se respira em cada lar – lia-se, numa revista de grande circulação, uma entrevista a um empresário japonês que, de saco de tacos de golfe às costas, em fundo verde de relva, se insinuava com a seguinte teoria: “… o computador será o maior amigo do homem no futuro. Eu acabei de deixar a fábrica, depois de ter carregado no botão que determinou o accionamento dos computadores, e aqui estou para uma longa partida de golfe. Quando regressar, o trabalho está feito. O futuro será isto: o computador trabalha e o homem descansa e diverte-se”.

Achei aquilo uma delícia. Rejubilei. Era o jardim de Éden finalmente reconstruído e, pelas minhas contas (avaliado o meu ciclo biológico), eu ainda vinha a tempo de usufruir daquele paraíso, finalmente redescoberto.

Dei por mim nas maiores cogitações. Afinal o Homem, esse animal que só tem feito asneiras, consegue finalmente empreender algo de interessante para a comunidade racional.

Levou tempo.

As coisas têm ido lentas desde então. Mas ultimamente aceleraram.

Não houve instituição pública, privada ou clandestina que não tivesse entrado na onda da informatização dos serviços, quer os burocráticos quer os operacionais. Tudo se move rápido, eficaz e sem queixas através do fiozinho que está ligado ao botão. As máquinas tomaram o lugar do homem, fazendo mais, muito mais, e melhor. O Japonês começava a ter razão.

Meti-me nos meus tamancos (já inteiramente fabricados por computador) e fui aos campos de golfe.

Achei, à distância, que andavam por ali poucos “trabalhadores”. Aproximando-me mais, descortinei o japonês com dois ou três amigos empresários, que, placidamente, procuravam enfiar a bolinha minúscula num buraco também ele minúsculo, mas que, paciente e pachorrentamente, lá iam tentando sem pressas.

E caí em mim…

Afinal, o sacana do homem lixou tudo outra vez.

O Criador terá cometido um erro, ou concebeu o sistema com uma falha (um bug), ao ter instituído a forma de nos alimentarmos (enquanto animais) pela via de nos comermos uns aos outros.

Por outro lado, terá falhado igualmente na concessão da capacidade racional ao erectus, ao retirar, ou deformando, aquele neuroniozinho que impede os animais de se saciarem na própria espécie. Macaco não come macaco, leão não come leão… mas homem vem-se transformando num antropófago, apenas metaforizando o conceito de alimento.

Este é o panorama que a era sócio-informática nos vai deixando antever.

Noutros tempos os homens escolhidos para trabalharem eram os que se apresentavam fortes fisicamente, jovens e dóceis.

Hoje é privilegiada a engrenagem que oferece 24 horas de trabalho sem salário, ou qualquer outra espécie de remuneração, não protesta, não reivindica, não adoece, não tem filhos doentes, não precisa de férias, nem parentes que vão a enterrar.

O homem, forte fisicamente, jovem e dócil, não tem lugar neste concurso de emprego.

Uns quantos homens – gente superior e casta apurada – comanda a força de trabalho, gera riqueza (a sua riqueza que produz com um simples clicar de botão e reparte em migalhas com o estado social de benemerência) e descansa, realmente, caminhando solto e descontraído pelos campos de Golfe (como previu o japonês), desferindo pancadas de raiva por cada milhão que se lhe escapou, por entre todos os outros que arrecadou, enquanto a turba de indigentes-sociais, incapazes para o trabalho, se arrasta na subsídio-dependência, ou militariza uma qualquer guerra onde o rubro do sangue vertido ainda se torna imprescindível para dar cor à glória e “humaniza” a barbárie.

O japonês tramou-nos com aquela teoria.

O sacana esqueceu-se de dizer que se estava a referir apenas a ele quando disse:” …o computador trabalha e o homem descansa e diverte-se…”.

A escravidão voltou.

Mas o mais doloroso é que fomos nós próprios a criar o novo “senhor dos escravos”.

Fomos nós próprios a criar o fosso onde enterrar a própria humanidade, calcada pela máquina fria que se erguia como o futuro e o arado de todo o progresso.

A espécie definhará e outra ordem será imposta no pó planetário que ficar.

Uma inteligência diferente e, essencialmente, mais inteligente que não contenha o bug “racional” com que o criador nos dotou.

Que despreze as emoções e elimine esse desejo insano de vencer o semelhante a qualquer preço, na mira de uma vã glória de poder, tão efémera quanto o tempo passageiro de uma vida humana… Uma espécie de brisa a que nem damos atenção e já se esvai quando a queremos sentir de novo.

Tomemos consciência que a informática substituirá irremediavelmente o homem.

Tenhamos a consciência que a ganância do ser humano jamais se compadecerá com o sofrimento do seu semelhante.

O homem desumanizou a máquina; a máquina vem desumanizando mais ainda homem.

A máquina vencerá porque não há retorno. O homem já depende da máquina e é já ela quem determina a vida.

Não haverá sobrevivência se não reaprendermos com os escravos o modo e a forma de pôr termo a esta servidão.

P.C.

PS

Infelizmente não tenho outra forma mais expedita de vos alertar deste perigo, senão enviando-vos isto … por email…!

Espero que compreendam as minhas fraquezas nesta luta, que se me afigura urgente ser empreendida…

No fundo, não deixo de ser humano…

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