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O fino aroma do café da manhã.


A pastelaria situava-se numa zona da cidade com moderado movimento matinal acolhendo gente apressada para tragar o galão e o bolo de arroz, “… e já agora embrulhe-me aí dois salgadinhos só para preencher a meio da manhã.”

A funcionária, jovem, de baixa estatura e anafadinha de ancas, movimentava-se com desenvoltura mais parecendo às vezes que deslizava no chão atrás do balcão usando patins, ou escorregando nas múltiplas camadas de gordura e açúcar que a vassoura se mostrava já incapaz de arrancar do chão.

O ruído do tilintar de copos e chávenas lançados no tabuleiro de recolha de loiça usada funcionava como arranjos musicais melodicamente enquadrados numa sinfonia de vozes, pouco mais que sussurros de gargantas ainda mal despertas do salto intempestivo da cama após o segundo aviso quase irritado do despertador.

No ar uma leve bruma quente de aroma a galão escuro a escaldar era por vezes sobreposta pela altivez sobranceira da cafeína, mastigada de tempos a tempos pela maquineta de reduzir a pó fino os grãos negros que se iam escoando como areia em ampulheta.

O jovem, dezoito anos pouco definidos pela barba ainda fina e mal semeada, entrou hirto e, quase sem rodar o pescoço, percorreu com um olhar a roçar os 180º as mesas que ocupavam todo o espaço do estabelecimento. Vem embrulhado num sobretudo escuro, temporã aí pelo mês e meio quanto ao que debita o calendário e gola levantada num óbvio desafio precoce a um frio que nem a caminho ainda se pôs.

Mãos nos bolsos do sobretudo de pouca virtude, o passo é curto e indeciso. Contudo, é na direcção da extremidade do balcão que se move, mais concretamente para a sua entrada onde assenta a caixa registadora num pequeno balcão mais baixo apenas destinado a este efeito.

A jovem funcionária, continuando a deslizar naquela espécie de pista de patinagem vem por duas vezes à caixa registadora, carrega em dois ou três botões, abre-se a caixa, deixa uma nota e leva as moedas de troco.

O jovem já lá está imóvel, apenas os olhos remexendo à direita e à esquerda arqueando ao de leve o sobrolho respectivo, mas a funcionária não dá por ele, empenhada quanto vai nas contas de cabeça que se depreende pelo esboçar dos números que se desenham nos lábios.

Ao terceiro troco, quase sem olhar para o vulto que se percebe estático e enquanto martela a máquina, desdobra-se na sua função:

– Deseja alguma coisa?

Podia o jovem ter feito o seu pedido que a funcionário o não teria ouvido, empenhada que estava em soletrar o troco a retirar da gaveta.

– Olhe…! – balbuciou o jovem, mas mais tempo não teve para terminar a frase, porque já a funcionária se resvalava para o balcão onde depositou o troco.

De volta e no mesmo afã, repetiu:

– Deseja alguma coisa?

– Olhe… ! Isto é um assalto!

– Um assalto…? Como um assalto…?

– Um assalto…! – repetiu enquanto num leve encolher de ombros pretendia especificar a clareza da situação e o significado do termo “assalto”.

A funcionária franziu um pouco a testa, colocou uma mão na anca, um pouco anafadinha, enquanto pousava a outra no balcão baixo.

– Olhe, desculpe lá; como vê temos o balcão a abarrotar de clientes e eu não tenho tempo para brincadeiras.

– Sim, mas isto é um assalto…! – insistiu soletrando melhor a palavra no sentido de lhe dar mais significado.

– Um assalto…! Mas você traz arma…?

– Sim, claro.

– Mas aonde…?

– Aqui debaixo do sobretudo.

– Debaixo do sobretudo…? Mas você tem as mãos nos bolsos, como é que segura a arma…?

– A arma está presa à cintura.

– E que arma é…?

– Uma caçadeira de canos cerrados…

– Posso vê-la…?

– Quanto é que tem aí na caixa…? – proferiu o jovem procurando trazer a conversa para o fio de meada inicial.

– Não sei, tinha que contar. Mas posso ver a arma ou não…?

O jovem, que tinha recuado um passo quando a funcionária perguntou se podia ver a arma, reaproximou-se, enquanto varria de novo com o olhar a área circunstante. Abrindo ligeiramente o sobretudo sempre com as mãos nos bolsos, fechou-o logo de seguida, mal algo aflorou por entre as duas abas.

– Não vi bem… – contestou a funcionária. Tem que abrir um pouco mais.

Aproximando-se um pouco reabriu o sobretudo fechando-o rapidamente.

– Mas isso pareceu-me um bocado de madeira – alvitrou a funcionária.

– É a coronha…! Você não sabe que as caçadeiras têm a coronha em madeira…?!

– Por acaso nunca vi nenhuma. Mas se quer que lhe diga isso pareceu-me mais um cabo de vassoura… E isto é para lhe ser franca.

– Um cabo de vassoura…? Então você julgava que eu vinha para um assalto com um cabo de uma vassoura…? Vamos lá…! Isto é um assalto…!

– Pois, mas olhe que eu preciso de ver a arma, quando não ainda arranjo para aqui uma carga de trabalhos com o patrão. Você está a ver levar-me o dinheiro da caixa, eu dizer ao patrão que fui assaltada, ele pergunta-me como, e eu digo… “… com uma vassoura…!”. Põe-me na rua, claro…!

O jovem vacilou uns segundos.

– Pois, mas ou me dá o dinheiro da caixa ou leva um tiro de caçadeira…. de canos cerrados.

– Canos cerrados…! Já agora, qual é a diferença…?

– Espalha mais o chumbo… Mas isso agora não interessa. Abra a caixa e dê-me o dinheiro; só as notas.

– Pois, mas voltamos ao problema. Ou me mostra a arma para o patrão acreditar em mim, ou nada feito… Se calhar nem lhe passa pela cabeça o que me custou arranjar este emprego.

– …!

– Posso apalpar ao menos…?

– …!

– Só uma parte..!

– Pode…! – condescendeu o jovem aproximando-se ligeiramente e colocando-se um pouco de lado, enquanto fazia um novo controlo visual da situação, sempre protegido pela gola levantada do sobretudo.

– Vai-me desculpar… Mas continua a parecer-me o cabo de uma vassoura.

– Você nunca viu uma caçadeira de canos cerrados como é que sabe se está a apalpar uma…?

– Pois… Mas uma vassoura sei muito bem que forma tem…

– …!

– … e digo-lhe já que isso nem uma vassoura inteira é. Você cerrou foi uma vassoura…

– TÂNIA…! Atende aqui este cliente…! – vociferou o patrão da outra extremidade do balcão.

– Tenho que ir…! – informou a funcionária.

– Mas isto é um assalto…! – reafirmava o jovem já exaltado a deixar cair a gola enquanto se entreabriam as abas do sobretudo, donde saía agora um belo cabo de vassoura enfiado no cinto.

– Pois, eu até acredito. Mas desculpe lá. Não está fácil arranjar emprego. E compreenda que quem o consegue não o pode perder sem uma justificação que convença o patrão. A vida não está fácil…

Reergue-se a gola do sobretudo, meia volta repentina em direcção à porta, um cabo de vassoura que rola pelo chão e chama à atenção da maior parte da clientela e fica no ar a mesma bruma de galão a fumegar e a cafeína a elevar-se como droga matinal que se entranha nos sentidos despertando-os para as horas que quase morrem no assalto ao quotidiano.

Da rua, onde o frio está para chegar, ouve-se ainda mal distinta a voz da funcionária enquanto desliza no chão frio de um gelo que lhe vai macerando os dias de emprego e afã:

– Olhe lá…! Quer um cafezinho…?!

P. C.

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