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Mar Vivo


Ontem fui dar um passeio à Costa da Caparica.

Onde, segundo a lenda, ou a história, sabe-se lá, em tempos se passeava, vestindo um casacão de tecido grosso, que raramente despia, uma figura peculiar que trazia cosidos nos forros grandes medalhões de ouro; toda a sua fortuna, da qual nunca se separava.

Do seu destino não sabemos. Apenas que da sua capa rica terá nascido a Caparica.

Mas não foi bem no propósito de avistar o homem de rica capa vestido que fui à Costa.

Gosto do mar. Melhor; tenho uma paixão enorme pelo mar.

Seguindo pelo passeio do paredão, ia apreciando a ondulação forte que rugia espumando na rebentação, espraiando-se de seguida pela areia lisa para, submissa e apaziguada, regressar ao revolto das ondas, naquele eterno vaivém que nos embala e enleva como ninar de criança.

Lá fora, onde as ondas se levantam e preparam o assalto à praia, minúsculas figurinhas de preto tingidas cavalgam objectos flutuantes, aguardando pacientemente a onda certa que os trará erguidos qual equilibristas de arame no circo até ao rebentamento, onde culminará o êxtase diminuto mas saboroso do surfista.

Depois fiquei por ali sentado nas pedras do molhe que nem lagarto esparramado ao sol recarregando baterias, observando aquele montar breve das ondas e o paciente retorno ao sopé da próxima vaga para nova cavalgada.

O jovem, alto e esguio, chegou à praia quase em correria. Nervoso e agitado como se estivesse à beira de perder o comboio que já se aprestava para partir.

Debaixo do braço trazia uma prancha imaculadamente branca ainda com resquícios de restos de plástico de embalagem, donde pendia uma pequena tira de papel presa por um fio, presumindo trazer ainda afixado o preço de uma compra recente.

Vinha em correria mas os olhos fixavam-se já no mar sem dele se despregarem.

Pousou apressadamente a prancha na areia, iniciando a libertação da camisa, depois as calças e os sapatos que chutou um a seguir ao outro, sempre sem tirar os olhos do mar, onde os seus companheiros se deleitavam no vaguear das ondas que uma a uma se iam formando.

Desprezou a acomodação das vestes, que por ali ficaram espalhadas cada uma para seu lado, pegou na prancha e arremeteu-se de encontro à rebentação que o esperava um tanto agreste para mareante pouco experimentado. Nada que inquietasse um surfista de mediana categoria.

A maré estava baixa. Correu centena e meia de metros, prancha debaixo do braço e nem parou para sondar a temperatura da água. Mal esta lhe tapou os joelhos ei-lo que aponta a prancha às ondas e se atira sobre ela remando freneticamente com ambos os braços de encontro à primeira vaga já esfrangalhada que se aproximava.

A onda vinha, na verdade, um tanto alterosa e já marulhada de espuma. A prancha empinou a proa e não atendeu à ansiedade do passageiro que transportava no dorso. Este desencontrou-se do plano em que vinha apoiado, respiga a prancha no ar já aliviada da carga, enquanto o nosso homem embrulhado na onda se esforçava por reencontrar a postura necessária para continuar a respirar.

A prancha chegou à praia primeiro que o nosso marujo.

Escorreito, ergueu-se mal sentiu pé e equilíbrio, e, sem se atrapalhar, correu para a praia em busca da prancha, que ostentava ainda a etiqueta do preço, embora já pouco esclarecida naquilo que algum tempo antes se ufanava de proclamar na montra donde foi retirada.

Submissa, deixou-se agarrar sem censura.

De volta ao mar, corre mais uma vez prancha debaixo do braço.

Logo mais à frente aproa-a em frente, salta-lhe em cima, mas desta vez já um pouco tardiamente coincidindo com a chegada de uma onda já marulhante de espuma que embateu em cheio na prancha atirando-o borda fora qual marinheiro descuidado adormecido em proa de barco em plena tempestade.

A prancha surfou ligeira e sem companhia até à areia, deixando mais uma vez o seu patrão a contas com um tremendo empurrão que o trazia enrolado em água espuma e areia, esbracejando em busca de algo a que se agarrar.

Logo que encontrou chão firme e pouca altura de água, ergueu-se e olhou em redor. Vinha naturalmente desorientado. Vislumbrada a prancha, que em areia firme o olhava de lado, encaminhou-se para ela enquanto procurava retirar alguma areia da cara após aquela inesperada enrodilhada.

De novo a caminho das ondas.

Notava-se que havia agora alguma moderação na determinação. Caminhou mais lento como se observasse o inimigo e o seu posicionamento. Esperou que passasse uma onda que já vinha meio despedaçada e avançou depois dela. Braços em remo alçados, retorna o vigor e a determinação.

Eriça-se a primeira onda.

A prancha vai agora agarrada num abraço vigoroso e ambos resistem heroicamente ao embate, com a proa a elevar-se e a bater na água, qual cargueiro em alto-mar.

Mas ninguém poderia contar com uma segunda vaga tão próxima quando as consequências da primeira ainda não estavam bem digeridas, nem tinha ocorrido tempo bastante para delinear um segundo plano suficientemente ágil para enfrentar aquela sincronia de inimizade contra si.

Desta vez um só corpo veio parar à praia depois de arrastado e enrodilhado em águas revoltas que o amarfanhou durante largos segundos na espuma branca meio raivosa de tanta pancada. Um único corpo: prancha e surfista bem colados um ao outro, qual lapa em esquina de rocha.

Ergue-se no fim da refrega e olhou o mar.

Mas qual era o problema? Porque é que só ele não podia entrar no mar e surfar como os outros?

Ânimo ao alto e perseverança de marinheiro lusitano no auge..

A táctica. Era a táctica.

Desta vez entrou mar adentro de prancha atravessada. Deitou-se em cruz sobre a mesma e, naquele estilo a que nos acostumámos a chamar “à cão”, foi galgando mar até à primeira investida da primeira onda que parecia já esperá-lo.

Qual táctica…!

A vaga encontrou uma parede bem mais ampla e investiu com todo o vigor. A pancada vociferou um “splash” que se pôde ouvir na praia. Ouve momentos em que nem prancha nem surfista; só onda e marulhar enfurecida esclarecendo quem dita ali as suas leis.

A prancha, diluída no branco da espuma, lá se desenvencilhou daquele enrolar e deslizou na língua de água que se aplanou no areal, varando-se queda e muda na areia enquanto a água recuava.

Enxovalhado e trôpego o nosso candidato a mareante de todos os mares e marés levou um pouco mais de tempo a erguer-se e já o calção parecia querer abandonar aquela ignomínia, descendo até ao desnudar de ambas as nádegas, logo agarrado com ambas as mãos e reposto no seu lugar.

Caminhou para a praia devagar olhando de soslaio os ainda presumíveis companheiros que lá longe se continuavam a deliciar na crista das ondas.

Parou na praia junt0 à prancha, meteu a mão na ilharga e ficou a olhar o mar numa óbvia vã tentativa de acordar daquele pesadelo.

Empreendeu mais duas tentativas e ambas com o mesmo bilhete de ida e volta e consequente varridela do fundo do mar.

Esqueceu a prancha mais uma vez assente na areia – com óbvio ar de prancha envergonhada – e deixou-se ficar sentado na areia onde havia pousado pela última vez; pernas flectidas e braços cruzados sobre os joelhos, ficou a olhar aqueles pontinhos negros lá longe baloiçando nas vagas como se montando cavalos-marinhos gigantes mas dóceis e prontos para cavalgadas sem fim.

Olhou a prancha fixamente. Levantou-se, pegou nela, e entrou no mar. Parou à distância da primeira onda que chegou meio desfeita. Avançou mais alguns passos e voltou a parar.

Vindo numa onda, um surfista, que observava o jovem fazia tempo, aproximou-se e com a mão e braço fez o gesto de mergulhar e passar por baixo. Repetiu o gesto várias vezes enquanto acompanhava o gesto com palavras, que àquela distância se tornavam imperceptíveis.

Como que revigorado o jovem montou a prancha enfrentou a primeira vaga mergulhando por baixo dela, sacudiu a cabeça encharcada de água, venceu a segunda num mergulho bem mais vigoroso, depois a terceira e já remava solto em mar plano quando o perdi de vista misturado numa pequena floresta de pigmeus vestidos de negro, montando cavalos de água sem etiqueta de preço pendente, nem restos de plástico ainda colados ao casco.

Regressei a casa rindo ainda das arremetidas do jovem aprendiz de surfista e das perplexidades que se arremeteram contra si naquela sua óbvia primeira experiência.

E cogitei cá para comigo:

– Menos uma despesa; já não compro a prancha… ! Vou mesmo ficar pela cana de pesca…

PC

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3 comments on “Mar Vivo

  1. Gostei do texto, amigo!! Senti-me quase na pele do protagonista descrito. Parabéns . Abraço

  2. Tenho andado “a passear” pelos seus livros e pelo seu blogue.A sua escrita agarra-me como se estivesse a vivenciar tudo o que descreve. Tem um raro dom de nos prender da primeira à última palavra. Emoção é a palavra certa para classificar o que se sente.
    Parabéns de uma algarvia sua vizinha.

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