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— Manuel Alegre e a insubmissão “democrática”.

8NOV2008


Tem um passado histórico revolucionário que não é questionável. Um lugar sólido no panorama literário português, que remonta ao tempo da clandestinidade na luta anti-salazarista. Revela ainda uma necessidade premente de, amiúde, se posicionar contra os seus, o que – não deixando de ser um exercício de pensamento livre, que o poeta tão exacerbadamente sempre defendeu – vem trazendo engulhos a praticamente todos os líderes socialistas que passaram pelo PS, os quais vai apelidando de companheiros ou camaradas, mas à esquina lhes há-de pregar uma rasteira, o que não deixa de ser uma estranha forma de ser e estar no seio de um partido e no conforto da convergência ideológica.

A cada tiro de caçadeira de canos cerrados que dispara de tempos a tempos, o poeta invoca sempre a já tão gasta e deturpada atitude democrática que, já de tão coçada e vilipendiada, lhe vamos perdendo o sentido, havendo definições e conceitos para todos os gostos e ocasiões.

M.A. acha-se uma espécie de guardião de um conceito democrático único, que usa e refunde à sua maneira, um jeito que confunde o partido e necessariamente os amigos. Não quer ser nada no partido; mas já concorreu, e perdeu, praticamente a tudo o que havia para concorrer. Como diria o poeta Manuel Alegre: um quero, não querendo…

Quando governo, os líderes partidários não o convidam para enquadrar os sucessivos governos, pelo menos convictamente, e ele não entendeu ainda bem porquê, embora, perante o panorama da ausência de convites, sempre vá dizendo, à posteriori, que não tem ambições políticas governamentais; mas já concorreu, ou colocou-se a jeito, a praticamente tudo.


Refugiando-se no direito à liberdade de pensamento e um legítimo dever de o exercer segundo as suas convicções, é longo o historial de M.A. contra o partido e contra os seus, embora vá sempre deitando uma água tépida na fervura, redizendo-se a seguir num nim que pretende desdizer aquilo que disse, ou quis dizer. Talvez uma espécie de arrependimento de algo a que, continuamente, não resiste.


Seria fastidioso enumerar todos esses momentos, mas será bom não esquecer:

– o discurso agressivo e despropositado no congresso que elegeu António Guterres;

– a carta aberta a António Costa (tinha que ser aberta; não podia ser fechada…);

– a candidatura à presidência da República contra o candidato do partido (seu amigo e fundador do PS, Mário Soares),;

– a ausência no hemiciclo quando da votação do Orçamento do Estado em 2006 (enrodilhando-se num inusitado “votaria a favor…”, uma coisa meio tíbia que não se entendeu);

– afrontamento do governo na questão da coincineração (ainda que aqui escudado na palavra dada aos seus eleitores de Coimbra, subterfúgio recorrente, quando o há);

– participação e intervenção numa manifestação ostensivamente promovida contra a governação e o 1º ministro, onde botou discurso contra o partido, contra o governo do seu partido e contra o 1º ministro, por sinal, igualmente da sua cor política e;

– mais recentemente, votou o Orçamento para 2009, mas tinha que fazer uma declaração de voto, votando contra o Código do Trabalho.

Todo este, um rol de circunstâncias que, aparentemente, se circunscrevem no conceito democrático de exercício da política partidária neste país, perfilhado por M.A..

Estranha forma esta de interpretação da democracia e liberdade.

Há uma determinada oposição que não lhe chega aos calcanhares.


Sempre entendi cerceador de liberdades de opinião o chamado carneirismo da postura em nome da unidade e de um espírito de corpo no seio de uma qualquer organização política, partidária, clubista, ou outra que seja.Sempre achei que no debate interno de cada uma destas estruturas o direito de expressão de opinião de cada membro deve ser total e inquestionável, mesmo que se constitua numa única voz que se afirme dissonante em relação à esmagadora maioria. É dever de todos os membros expor a sua opinião, lutar por ela, se convicto da sua razão, e, acima de tudo, esgrimir todos os argumentos disponíveis que permitam convencer os restantes membros da justeza da sua razão e da bonomia dos seus pontos de vista.

Esgrimidos todos os argumentos e razões, (democraticamente) vence a razão maioritária e é essa a que prevalecerá no consenso de todos no uso de um exercício de poder, jamais deixando de manter em aberto o debate interno que ratifique os fundamentos aprovados. Há que não confundir o direito de expressão de opinião com o respeito pela vontade e razão da maioria, ainda que esta venha mais tarde a constituir-se como errada e falha na sua aplicação.


No contexto político democrático, entende-se a liberdade de contestação e a livre expressão de opinião que contrarie a feição governativa saída de eleições democráticas, como um dever e uma obrigação, sendo esse um direito das forças da oposição vencidas nas urnas, embora no nosso país esse direito se tenha transformado, praticamente desde o 25 de Abril, num botabaixismo primário que em muito tem denegrido a política no nosso país e afastado os cidadãos do exercício dos seus direitos e deveres de livre participação na vida política.

Essa é a função da chamada oposição, ainda que no nosso caso, a oposição que temos se tenha esquecido que a sua obrigação crítica implica um impreterível dever construtivo, clara e obviamente ausente, ou escamoteado, da acção dos partideiros que nos calharam, ou que ainda não fomos capazes de escorraçar do nosso contexto político.


M.A. confunde, aparentemente, duas coisas: o direito democrático de se exprimir em liberdade e emitir opiniões contrárias às adoptadas pelos seus correlegionários, com o dever – igualmente democrático – de aceitar a opinião maioritária dos seus pares, fazendo de sua a vontade da maioria. Isto, obviamente, sem distorções de opinião, ou amarfanhar de princípios e identidade. A aceitação da vontade da maioria é um dever democrático, embora não retire o dever de continuidade de crítica interna, à medida que essa crítica se for mostrando construtiva e veiculada no sentido da resolução de problemas e dificuldades e não da constituição de outros, como vem sendo apanágio de M. A. ao longo da sua já longa carreira política.


M.A., consciente ou inconscientemente, vem-se transformando no melhor aliado da oposição ao governo do seu partido, deixando em aberto a suspeita de uma de duas coisas: ou enganou-se na filiação partidária que escolheu (e já era tempo de corrigir esse erro), ou não acompanhou a evolução do partido, deixando-se ficar arreigado à ideologia rosa-forte vestida no pós 25 de Abril. Ou talvez ainda não tenha sido capaz de despir de vez as vestes já bem gastas e polidas do espírito de oposição sistemática ao regime de antigamente.


Não estão em causa duas coisas:

– o partido terá evoluído mal;

– a governação está errada e M.A. é que tem razão.

Essa é uma discussão que não cabe no intento desta intervenção.

A atitude que incomoda é esta necessidade de afrontamento dos seus que o poeta vem deixando a nu. É uma atitude que pode confundir-se com desejos mal contidos.

M. A. já experimentou o indicador percentual dos seus apoiantes no seio do partido (à volta dos 15%) e do país (em torno de uma candidatura para um órgão supra partidário P. R., cerca de 20%). Parece hesitar numa ruptura com o conforto do partido, onde, com bonomia, o vão deixando compor alguns “poemas” de maledicência política dos seus – por respeito ao seu passado (entenda isso) – assumindo o desejo permanentemente ameaçador de se ir embora e criar um espaço onde o ouçam e, “democraticamente”, lhe sigam o pensamento, sem ondas nem contestações democráticas que lhe enredem o pensamento e o desejo de cumprir, por fim, os seus desígnios políticos e sociais tão exacerbadamente proclamados na praça pública.


Ao M. A. – cujo troar de voz nos remonta sempre à indelével memória dos sons roufenhos da clandestinidade, espremidos no escuro da noite dos transístores de má qualidade do passado – convirá que se sente e recoste no conforto do seu espaço de meditação poética e pondere algumas rimas cuja dissonância democrática vêm beliscando o seu passado e titubeando o presente.

Presente que, mais do que nunca, mais carece de trova e empenhamento, do que tiros no pé, cuja génese da poesia se guindará sempre ao tom dorido das palavras, e a sua essência, de tão próxima, tanto nos diz do sofrimento deste povo de alma imensa, mas cansado de tanta guerra e distância do conforto e bem-estar prometidos.


Parta decidido para a ruptura com os seus, se for essa a vontade e o desejo.

Bata-se pelas ideias e melhores caminhos.

Veleje, como outrora o fizeram os nossos melhores almirantes, que tanta glória e terra imensa nos deixaram.

Afronte os demónios e convença este povo, cansado de tantas promessas vãs, que conhece o atalho certo, tendo em conta que o não consegue fazer no seio do seu partido.


Mas faça-o no melhor púlpito.

Nem um “Cão como nós…”, nem um “cão” de dente afiado que devora as suas crias, apenas porque tem fome…

PC

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