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– Jorge Jesus. Do céu ao inferno.

 

Não haverá grande memória de tanta oportunidade de glória à distância de um passo, perdida em segundos quando o peito já se projectava para a linha de meta e os braços se erguiam antevendo a vitória.

Não será fácil recordar histórias de toda uma época perdida por um único remate tão certeiro quanto as câmaras da TV permitiram medir os milímetros que mediaram a distância da bola ao poste, ou o percurso do esférico a atravessar a relva revolta da peleja sem encontrar um único tufo desconjuntado que lhe perturbasse a trajectória e mudasse a história do jogo, da Liga, de tudo.

Jamais a perfeição de um daqueles momentos cruciais que mudam todo um curso da história foi tão eloquente como o 92º minuto do jogo Porto-Benfica.

A perspectiva do bestial hoje, besta amanhã – ou mais tarde ou mais cedo – conjuga-se quase todos os dias no nosso meio, mas com inusitada frequência no nosso futebol.

Falta-nos paciência e dignidade para digerir a derrota e assalta-nos sempre no imediato uma intempestiva necessidade de castigar os vencidos que nos arrastaram para a ignomínia da derrota.

Para muitos Jorge Jesus (JJ) veio construindo uma época de sonho. E mesmo admitindo que a perfeição é algo dificilmente atingível, seria expectável que alguma glória haveria de ser servida fria que fosse.

De adulado e admirado por fantásticas loas na travessia de um oceano de mar alteroso, veio a ser vilipendiado pelos mesmos quando duas ou três ondinhas das que morrem na praia o desequilibraram e o arremessaram contra as rochas.

Sorte oposta teve o seu opositor directo que, suspeitado pelos seus quanto às suas qualidades de almirante, teve o seu momento de glória numa única remada que retirou a barca da borrasca salvando todos.

É assim a vida dos que têm que correr riscos, assumir responsabilidades e tomar decisões difíceis. Na memória dos que se sentam confortáveis nos lugares do êxito e do aplauso, fica apenas a única nota falsa de final de concerto. Esvai-se como fumo levado pela ventania todo o enlevo que os inebriou durante todo o tempo em que a volúpia lhes foi tomando o ser.

Mas não pode apagar-se num minuto, num jogo, ou num mau momento, todo um trabalho longo e espinhoso vencido com arte e mérito, apenas porque uma desatenção, um infortúnio, ou um descrédito por tanta contrariedade, toma conta do destino e despedaça o sonho que todos cavalgavam confiados e determinados; por muito que o desânimo nos devaste e a frustração galgue todas as fronteiras do bom senso e da própria gratidão que antes demonstrávamos como penhor de apreço e confiança.

Mas, perguntar-se-á; não houve erros…?

Claro que sim. Provavelmente de todos: dos jogadores, da direcção, dos técnicos, dos árbitros, dos roupeiros, dos sócios, da relva, da chuva, do sol… e até dos adversários, senão também da própria bola, que continua redonda e sempre caprichosa.

Contudo é normalmente no técnico que se concentram sempre as atenções e as responsabilidades; no que fez e não devia ter feito, ou no que não fez e devia. Isto essencialmente depois de decorridos os factos…

JJ é um técnico sobre o qual recaem algumas atenções, umas por bons motivos, outros por razões que o próprio dispensaria de bom grado.

A sua carreira tem vindo num trajecto ascendente, praticamente escudado num empirismo exacerbado que ostenta com algum orgulho, exagerando com alguma frequência este seu monolitismo de formação como base mais que suficiente para o desempenho da sua função.

O tempo se encarregará de ensinar a JJ aquilo que Descartes levou algum tempo a aprender; ou seja que (… a experiência nem sempre é a madre de todas as coisas…!”. Mesmo que o prof. Manuel Sérgio se esforce, atribuindo a JJ uma dissertação pública sobre o tema – “Descartes: o racionalismo, o nascimento da Educação Física e do Desporto Moderno” –, que este oportunamente se recusou a aceitar. Depois do descalabro da época um susto destes era escusado, ainda que se entendam as boas intenções do prof. e filósofo M. Sérgio.

Mas, descendo a planos mais práticos de JJ, em busca de uma ou outra explicação para uma boa parte do epílogo desastroso da época benfiquista, muitos se concentram, não no jogo do Dragão, mas no que o antecedeu na Luz contra o Estoril.

Referem que a equipa já aí começou a esboçar algum cansaço, o qual viria a revelar-se bem mais patente no Porto.

Tomando por aceitável a teoria do cansaço da equipa, acrescento uma outra base de reflexão com que suporto a eventual incapacidade maior de JJ; pouca coragem em assumir riscos nos momentos cruciais e porventura noutros também.

Retomando o jogo com o Estoril, após esse jogo a equipa tinha pela frente três finais que decidiam tudo: Porto, Amesterdão e Jamor.

Ora, afigura-se de mediana prudência e razoável calculismo, que seria de todo aconselhável preservar nesse jogo o cerne (motor) da equipa resguardando-o para os importantes embates que se desenhavam no futuro.

JJ não o fez.

Receando ser assacado de responsabilidades por um mau resultado que adviesse da opção por uma equipa menos apetrechada em termos dos seus valores habituais – mas seguramente mais fresca – fez alinhar a equipa principal sacrificando todos aqueles que basicamente iriam estar presentes nas três finais. À falta de frescor físico revelado nesse jogo ter-se-á juntado já o espectro do peso competitivo dos embates que se anteviam. Mais uma razão para uma melhor gestão do plantel nesse dia.

Seguindo-se o jogo do Dragão, essa hipotética falta de coragem nos momentos decisivos voltou a ficar patente quando JJ, na perspectiva de que o empate servia à risca e pela base mínima os interesses do Benfica, em todas as substituições que operou transmitiu aos jogadores essa terrível perspectiva (e meio caminho para a derrota) de que a hora era de defender o empate e de algum modo abdicar do ataque.

Sendo do senso comum que a “sorte protege os audazes” e naturalmente tende a desproteger os menos destemidos, o preço a pagar foi caro demais, mesmo que numa hora em que todo o comércio já deveria estar fechado…

Dir-me-ão que o jogo de Amesterdão deita por terra esta teoria. O Benfica fez um grande jogo.

E fez de facto.

Tacticamente fez aquilo que realizou durante praticamente toda a época. Mas em termos físicos excedeu-se relativamente ao Estoril, ao Porto e ao V. de Guimarães.

Um contra-senso, diria.

E nesse sentido há que buscar a explicação noutros factores menos visíveis ou palpáveis que só a cabeça e outros órgãos dos atletas poderão explicar.

– O Chelsea não era o propalado papão britânico dos tempos de um Mourinho;

– o palco e cenário tinham uma dimensão planetária que nenhum jogador de futebol desdenha aproveitar para se mostrar e esperar proventos de uma vida;

– deixemos de fora por múltiplas razões outros incrementos de ordem orgânica baptizados de funções beatíficas de ocasião que nos pairam sempre no espírito nestas finais e que permanecem como nuvem sobre a cabeça e consciência de todos nós.

O 92º minuto voltou a cair como uma maldição.

Tal como no Dragão ficou patente o breve momento de desatenção.

Culpa do técnico? Claro que não. Ninguém deu ordens para afrouxar o que quer que fosse. O que faltou então? Uma ponta de sorte e a clarividência que só uma reserva mental bem construída permite cimentar.

Jogo do Jamor.

Há frases que só não matam por falta de pólvora.

Afirmar antes do jogo que “… mesmo em caso de vitória nada salva a época…!” é praticamente o mesmo que afirmar não valer a pena qualquer esforço porque isto são trocos…

E assim foi.

Mas a cena após o encontro que envolveu o jogador Cardozo e JJ merece uma análise mais atenta.

Superficialmente o jogador resolveu a quente despejar sobre alguém o peso da sua enorme frustração. Não uma decepção pelas derrotas do Benfica; estes profissionais de futebol estão de passagem. Não vestem a alma de vermelho como um Eusébio, um Rui Costa ou Humberto Coelho. Foi tempo. É bom que os sócios e simpatizantes integrem isto de uma vez por todas.

No fundo a enorme desilusão de Cardozo teve a ver com a degradação da sua imagem internacional e a evidente desvalorização do seu preço. Cardozo tem projectos que vão muito para além do Benfica, circunstância que afinal ocorre hoje com qualquer puto de 15 ou 16 anos que sonha todas as noites com um futuro como o de um Cristiano Ronaldo ou um Figo.

A cena pode, contudo, contemplar outros valores.

Ao longo destes anos muito se tem divagado sobre a forma de relação de JJ com os jogadores. Muita rudeza, muita insolência, por vezes insultuosa. Como à antiga; “O mister é que sabe… e acima do mister (no caso Jesus…) só Deus…! ”

Daquilo que é visível ainda que pouco audível vem do banco. E confere.

Por isso, aquele dedo em riste parecia levar mais que frustração. Pareceu também alimentar um ajuste de contas com centenas de dias mal digeridos. E JJ pareceu afinal um Deus ou déspota de pés de barro que se encolheu e aceitou a invectiva.

Salta à vista de todos que JJ não alinha a sua linguagem pela verve poética camoniana nem se desdobra num rito queirosiano na pregação da sua ordem táctica. Também porque a linguagem do futebol não carece de tanto virtuosismo para se fazer entender.

Contudo não lhe ficaria mal nem perderia quaisquer dotes dos que se ufana possuir se melhor cuidasse da sua forma de expressão retirando ao anedotário nacional tanta matéria e tanta oportunidade de sarcasmo.

Quando por vezes JJ se procura abalançar no mesmo plano dos seus colegas de profissão é-lhe impossível perspectivar quão caricato seria um Ferguson, um Mourinho ou um Guardiola exprimindo-se de forma tão canhestra quanto ele. Talvez o episódio de Cardozo lhe possa ter servido de lição quanto à necessidade de mudar posturas mas acima de tudo linguagem. Não sendo uma exigência formal do futebol é-o sem dúvida quando temos a pretensão de voar mais alto e ombrear com os maiores e necessariamente melhores.

Mais tarde ou mais cedo JJ encontrará aí um entrave de que poderá vir a arrepender-se, embora nessa altura tarde demais.

Há pouco tempo, num tempo em que a aura de campeão se firmava com elevado grau de prossecução e JJ lhe vestia a pele confiante, num encontro com futuros professores da área de desporto na FMH ele afirmava pleno de razão: “ Podes ter muitos estudos e muita ciência; mas se não tiveres olho (que apontava com o seu indicador; era o direito…), não vais a lado nenhum!”.

É bem capaz de ser verdade.

Mas ao JJ convinha fazer ver que a contrária será tão verdadeira quanto esta sua asserção.

O olho dá de facto muito jeito; mas apenas o conhecimento, a sua permanente aquisição e aperfeiçoamento, qualquer que seja o plano por onde o perspectivar, conduzem ao sucesso e ao galarim mais alto. Que o diga o nosso conhecido “Sargentão” quando se arrastou penosamente por essa Europa fora, donde acabou arredado sem honra nem glória. Dará no Brasil e em Portugal; não na Europa.

Não sei se não será já tarde. Mas sei que nunca é tarde para nos tornarmos melhores amanhã do que já somos hoje.

P C.

4 comments on “– Jorge Jesus. Do céu ao inferno.

  1. Caro Cabrita

    Por essas e por outras, é que me mantenho fiel ao manto negro da Académica. Desgostos, tenho. Alegrias, poucas, mas vão surgindo empurradas pela fuga à descida. Uma Taça de Portugal de 60 em 60 anos, já é um gozo. Grandes clubes, grandes tormentas! Não há clubes maus: há maus adeptos, maus jogadores, maus treinadores, maus dirigentes e etc e tal. Para o ano há mais e o JJ vai ter outra vez desgostos e alegrias e vai ser besta e bestial. Mas faz o que gosta. Só não sei se sabe o que faz. Abraço.

  2. Se Jorge Jesus foi do céu ao inferno não sei. O que sei (é a minha opinião) é que este texto está muito bem escrito e espelha toda a realidade.

  3. … boa análise e muito bem escrito.. no entanto deixo só aqui uma pequena reflexão sob o que foi escrito, passo a citar:

    “…À falta de FRESCOR FÍSICO revelado nesse jogo…” Tacticamente fez aquilo que realizou durante praticamente toda a época.

    “… mas em TERMOS FÍSICOS excedeu-se relativamente ao Estoril, ao Porto e ao V. de Guimarães”.

    o que eu acho é que se o futebol de Jorge Jesus depende-se das cargas e adaptções FÍSICAS ele era campeão quando ele quisesse!!! porque o FÍSICO foi o que levou e ainda o vai levar a estar onde está, o que o prof. Manuel Sérgio tem vindo a alertar e com conversas constantes com ele , é tentar mostrar-lhe que o Futebol não é Fisico + técnico + táctico + Psicológico… o Futebol como qualquer outra actividade Humana de alto desempenho é como uma verdade, e a verdade é UM TODO!!! por isso na minha opinião não foi a falta de “capacidade física” que o levou do céu ao inferno, mas sim a falta de capacidade de interpretação humana e estratégica para o que estava a acontecer mesmo debaixo do nariz dele… na minha opinião ele perdeu tudo imediatamente após o apito final do jogo com o Marítimo… e todos nós sabemos o que aconteceu…

    O Jorge Jesus como líder que o é, e como um homem inteligente que o é, falhou numa linha de pensamento que o levou a criar falsas expectativas para com todos… por isso a reacção de Cardozo!

    e o pensamento que ele teria que ter criado logo após o jogo do Marítimo era:

    “O QUE É NÃO PODE SER MEUS AMIGOS” !!!!

    um abraço e continuação destes excelentes artigos muitos bem pensados!!

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