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Já não sei se me apetece ligar a TV

Já não sei se me apetece ligar a TV.

Mas também não sei se me apetece ligar o país e ir deixando passar as imagens de todos os dias.

Filmes requentados com os mesmos personagens de sempre, ou outros renascidos duma mesma ninhada parida de mil anos de equívocos, divididos em duas parcelas de quinhentos. Uma récita em dois actos cuja expressão dramática se equilibrou em desventuras pérfidas e nos mantém, hoje ainda, pacóvios de olhos postos na boca de cena, numa esperança embandeirada de verde, sempre arrepelada por um inveterado rubro suicidário, que nos tem usurpado em permanência qualquer veleidade, que um ou outro peregrino lusitano tenha manifestado fé em empreender noutro sentido que não este triste fado.

Já não sei se me apetece reler a história, ou se tudo não passará afinal de uma estória.

Já não sei se a minha glória de quinhentos anos rasgando os mares que mais ninguém ousou trilhar, ou iluminando abismos que enegreciam almas tementes e encalhavam este rolar demolidor da humanidade, me deve encher de orgulho e alimentar este meu peito vazio de valores ou riquezas, mas ufano de feitos glorificados por quantos mandantes nos fizeram crer que, pobres de carne e espírito, sim, mas grandes, enormes, de feitos e actos valorosos que nos dignificavam, ainda que em forma de fome e um doloroso vazio de terra firme e sementeira fértil sempre usurpada. Quem sabe menos estória e mais, e verdadeira, história que me glorifique os sentidos e me faça por fim sentir gente de corpo inteiro sem a vergonha do olhar desdenhoso e complacente dos que me contemplam e toleram à distância.

Já não sei se me apetece ligar a TV.

Talvez sem surpresa me surja alguém que me diga, com ar sério e digno (uma seriedade vertida por salário de dez, vinte mil €/mês), que há uma nova novela para reformados – em trânsito lento dos seus últimos momentos de sobrevivência – uma droga que será ministrada sob a forma de um genérico paliatífico, que lhes há-de aliviar a sanha de uma glória com que os embriagaram desde os bancos da instrução primária e ao longo da sua existência, depois de percorrido em vão esse trilho dourado de lusitanos íntegros e valorosos, cujo brilho os ofusca ainda, agora em forma de feixes hertzianos aplicados ao longo do dia e ao deitar.

Talvez o senhor da TV traga outras notícias e convidados.

Talvez nos traga políticos e politiqueiros, jornalistas e jornaleiros e uma última casta desovada pela necessidade de mais um genérico com função de sedativo da mesma velha glória de gente valorosa que nos persegue como peçonha escorrida dos madeiros infectos de naus e caravelas acostadas ao cais da nossa eterna bonomia e esperança; os politólogos.

O politólogo é um senhor que, não sendo capaz de fazer algo de útil à sociedade, se dedica a falar de coisas vazias que ele próprio congemina no caloroso conforto de sua casa e vem debitar a troco de proventos que lhe darão novo alento à imaginação. Uma espécie de pintor abstracto que espalha tintas a granel e depois espera que alguém descubra um qualquer resquício de imagem soçobrada na tela.

Alguns politólogos têm ainda uma outra virtude – camaleónica no caso – adaptando-se às situações consoante as necessidades de sobrevivência. A sua matéria – prima são os políticos e as suas políticas. Logo, os politólogos falam de coisas vazias, sem nexo e sem honra. Logo, os politólogos são coisas vazias que avaliam actos, atitudes e pessoas, sem que alguma vez – por óbvia incapacidade – tenham tido, ou esperem vir a ter, oportunidade de fazerem melhor ou sequer igual.

Resta-lhes a liberdade para dizerem aquilo que lhes vier à cabeça. Ainda que essa verborreia jamais venha a contribuir para erigir um único tijolo na edificação deste pobre país, aparentemente postado em que se sirvam dele, sem que o sirvam na mais ínfima parcela social ou política.

Na TV, que já não sei se me apetece ligar, moram em permanência jornalistas e jornaleiros.

Para todos nós, os sedados deste país, torna-se muito difícil distinguir jornalistas de jornaleiros. Diz-se, contudo, que detêm o maior poder de todos, embora na sua essência profissional se configure como elemento fundamental apenas o elevado dever de informar, a que acrescentaria, com algum pudor e reserva, também o dever de formar.

Este poder foi-se determinando à medida que os tempos se foram mudando e os valores também. O primado da honra era o emblema em que se reviam todos os que abraçavam esta nobre profissão. Quase tão nobre quanto a de um professor que transporta nos seus ombros a responsabilidade de erigir os alicerces de uma sociedade inteira, arcando ainda com o ónus de ter que se responsabilizar por ela mais tarde.

Na minha TV já pouco descortino jornalistas.

Dizem-me que muitos foram encostados por problemas de coluna. Especificando melhor; muitos dos arrumados no recanto bafioso do esquecimento, foram-no por terem coluna demasiado direita e recusarem vergá-la ao peso da desonra, ou sugestão pérfida de tráfico da sua dignidade.

Este buraco tem vindo a ser colmatado com o aparecimento de jornaleiros.

Gente que frequentou as obrigações académicas desembocadas da vertigem democrática proporcionada pelo 25 de Abril e se foi acomodando a uma nova ordem deontológica, permitida por exercícios de semântica que uma certa “liberdade” veio canonizando nestes exactos 35 anos de mais uma oportunidade de “esperança renovada”, desfeita em mais uma esperança perdida pela mão e obra destes democratas que temos.

O jornaleiro determina já as nossas vidas.

Usa o soco repetido em forma de “água mole em pedra dura…”, até que nos cansa e nos entorpece pela exaustão.

O jornaleiro, frequentemente enfermo de coluna – no caso por flacidez – tem vindo a alterar um estatuto altaneiro que outrora distinguia o jornalista, tornando-se num assalariado onde se permite traficar a determinação própria e a nobreza da sua profissão.

A este novo espécime é-lhe permitido usar armas e disparar sobre determinados alvos, para os quais a pouca honra lhe garante tiros certeiros, sob a aquiescência hipocritamente distante do proprietário da “espingarda”, refugiado na insalubridade de um anonimato velhaco, que lhe serve os interesses mais diversos e obscuros.

Mas nem sempre o jornaleiro se trafica ao som e ritmo da “voz do dono”. Também o faz por imposição de consciência política e incapacidade de se assumir no plano da isenção, como lhe determina o código deontológico que, naturalmente, a sua débil estatura profissional e de pouca dignidade, facilitam usurpar.

O jornaleiro tem ainda outras virtudes.

Entre elas um novo conceito de liberdade. Liberdade esta conferida recentemente e, talvez por esse mesmo motivo, um conceito refundido por ausência de conhecimento e experiência do verdadeiro significado da ausência de liberdade.

A liberdade para um jornaleiro é a permissão, e até incentivo, à insinuação mais torpe e o insulto mais despudorado, de preferência tendo por alvo altas figuras da vida pública, acoitando-se a coberto do “armeiro” que disponibiliza a defesa judicial competente e o necessário envolvimento corporativo, que há-de respaldar a insídia e torná-la “verdade” de tanta repetição e insistência.

O jornaleiro não tem que obedecer a nada, senão ao seu salário ganho por obediência.

A justiça é a do jornaleiro.

As autoridades judiciais que investiguem e se corrompam sem ponta de vergonha pelos seus códigos de honra, passando informação em segredo de justiça ao jornaleiro que a recebe babando o vislumbre de um furo jornalístico, que o alcandorará aos píncaros da carreira e ao deboche indecoroso da palmadinha nas costas, qual elemento da juventude hitleriana acabado de denunciar a família.

A justiça fá-la o jornaleiro.

O jornaleiro não investiga, porque não tem capacidade nem habilidade para o fazer. O jornaleiro é apenas um oportunista disfarçado de pessoa bem-falante. Alguns insinuam-se em desventuras de “jornalismo de investigação”. Não mais que “jornalismo de polichinelo” e mesmo esse tímido e sem sentido na expressão de jornalismo.

O jornaleiro suborna a “justiça” em nome da liberdade de “informar” e determina sumariamente a pena a aplicar, sem dó, nem piedade e muito menos sem vergonha, porque, primeiro o jornaleiro e as suas ambições pessoais, a que junta os desejos do patrão, ou os apaniguados políticos onde se acolhe.

O jornaleiro não é uma pessoa de bem. Usa a justiça e as suas ineficiências em proveito próprio, sabendo que pela mesma ordem de razão ficará impune ou tem quem lhe expie a pena, normalmente pecuniária, por excessos no exercício da sua profissão.

O jornaleiro tem ainda uma outra habilidade e consciência.

A habilidade de manipular a informação em proveito dos seus desígnios, escudado na independência e liberdade concedida pela democracia que o jornaleiro interpreta segundo o seu código de interesses.

Mas também a consciência do baixo nível de formação cívica e social do povo português, a que se junta o percurso ainda titubeante nesta novidade em que se vem constituindo a liberdade despejada de um dia para o outro sobre a cabeça de gente, que a única coisa que conheceu foi a opressão e a pobreza. Coisa que uma boa maioria dos jornaleiros não sabe o que é; leu apenas, julgando que é a mesmo coisa que o sentir na pele.

Decorrerão ainda décadas para que este povo se habitue a viver em liberdade e a saiba usar com critério e discernimento.

Levará tempo até que se determine em escorraçar jornaleiros que lhes usurpam a razão e os utilizam como mentecaptos sociais, contribuindo para o negrume deste malfadado país, que adoptou o fado como uma espécie de hino de que não consegue despegar-se.

A justiça que temos é a justiça dos jornaleiros que nos permitimos ter.

Já não sei se me apetece ligar a TV.

Mas apetece-me fervorosamente desligar este país…

Pedro Cabrita

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4 comments on “Já não sei se me apetece ligar a TV

  1. Notável como o são todos os artigos que este meu Amigo do Peito dá à estampa.
    Declarando desde já o compromisso inalterável da minha admiração e amizade, em minha opinião, ficam aqui ideias que deveriam ser meditadas e discutidas nestes tempos de lodaçal e embuste.
    A si, leitor, peço-lhe que medite.
    A si, meu Amigo, rogo-lhe que continue.
    Um abraço
    JSena

  2. Meu Amigo
    “Excelente” foi a palavra que encontrei para qualificar este artigo que nos ofereces. Julgo que encaixa perfeitamente nesta efeméride de Abril.
    A propósito vou desligar a TV…

    Entretanto, não pares!!!

    Um abraço
    Valdemiro Correia

  3. Na verdade, hoje que já estamos em 2015, continua e cada vez se assentua mais este sentimento de desligar a TV… Mas não desligamos à espera de algo de novo que nunca vem. Muito bom.
    Abraço.
    João Azevedo

  4. Excelente análise crítica com o humor corrosivo que resulta de aguardar dia após dia pelas tais boas notícias que nunca vêm.
    Já passam dias sem que ligue o televisor…. Mais difícil é desligar o país. Também não sei se quereria. É o meu país! Quereria, sim, que emigrasse e se desligasse dele quem o destrói, dia após dia.
    Então, aos poucos, talvez as boas notícias começassem a surgir …
    Continue a escrever o que pensamos e sentimos!!!!
    Maria Herculana

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