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História de um verão quente…

O Adérito

O Adérito apaixonou-se.

O assunto não teria qualquer relevância se o Adérito não fosse já entradote na idade de se apaixonar, isto tendo em conta os tempos que vamos tendo.

Adérito vai fazer 18 anos e até esta data nenhuma miúda lhe passou pela asa, não obstante a disponibilidade e grande desejo.

Todas as manhãs o espelho se encarrega de evidenciar o grande responsável pela lacuna; o físico.

Dizer-se que é magro sem melhor esclarecer alguns contornos é admitir que no fundo se deveria dar por muito contente porque magreza é afinal sinal de saúde. Antes se ficasse a coisa por aí.

Se por pouca sorte Adérito sofresse um acidente com suspeitas de traumatismo em qualquer estrutura óssea, no hospital o médico, na eventualidade de ter que determinar um RX, abandonaria de imediato a ideia bastando percorrer com um breve olhar o corpo de Adérito despido da cintura para cima.

– Pois, cá está; tem aqui uma factura numa clavícula, outra no cúbito e uma ligeira fissura em duas costelas.

Adérito havia colocado o espelho da casa de banho um pouco mais acima do habitual, quando precocemente começou a fazer a barba, só para não se incomodar com a visão matinal da pele vincada pelos ossos do peito e dos ombros, mais parecendo que o criador lhe havia pendurado a pele num cabide por falta de matéria prima na altura da sua concepção.

Logo que se lhe despertou o interesse pelas miúdas rapidamente concluiu que não estava incluído em nenhum naipe do baralho de cartas de qualquer delas. Nem trunfos tinha para abrir o jogo, a não ser uma ou outra carta fraca revestida de bons sentimentos (jogo pouco interessante nos tempos de hoje), mas ninguém disponível até à data para com ele se encartar.

Dizer-se que Adérito não lutava é injusto. Mesmo depois dos amigos já pouco o convidarem para festas e bailaricos, nos quais invariavelmente se acabrunhava a um canto como mono num armazém de um pronto-a-vestir e por ali se ficava até tudo terminado.

Decidido a buscar soluções, um dia enfiou três camisolas e remirou-se ao espelho. A ilusão convenceu-o; quase acreditou estar perante um outro Adérito. E continuou corpo abaixo.

Com a ajuda da mãe (sempre pressurosas no embelezamento dos filhos) sobrepôs duas calças de ganga, embora tarefa muito esforçada tendo em conta os imperativos da moda da calça justa; a mãe puxava dum lado e Adérito do outro. A função terminaria após várias trocas de calças em busca do ajustamento perfeito, melhor dizendo, ajustamento possível.

Saiu para a rua em busca do efeito pretendido. As camisolas funcionavam na perfeição. As calças compunham um visual aceitável, embora com um pequeno senão; o andar mais sugeria uma suspeita de diarreia a caminho, ou um pistoleiro num Spaghetti Western mal amanhado.

Na esplanada sentou-se na pontinha da cadeira, recostou-se e manteve estendidas as pernas. A perfeita sugestão duma tábua em plano inclinado.

Bem lhe perguntavam os amigos se havia algum problema, ao que Adérito, afogueado em calor, desdramatizava assegurando que estava tudo bem; apenas se sentia bem naquela posição, bastante relaxante até.

As bjecas lá foram cumprindo a sua função de aliviar o corpo da subida de temperatura que a época estival prenunciava, a que se juntavam as três camisolas e dois pares de calças que Adérito envergava com farta esperança de resultados palpáveis; no caso massas musculares que lhe preenchessem talvez mais o espírito que o corpo.

Na presunção de que aquilo que nos entra por cima tarde ou cedo clamará por sair por baixo, a breve trecho as jolas sinalizaram a necessidade duma ida à casinha dos fundos. Com o corpo bem empranchado Adérito apoiou-se nos braços da cadeira, endireitou-se num salto e deu início a uma espécie de desfile em roupa justa, passos curtos e o bamboleio de ancas totalmente proscrito.

Já perto do local de alívio Adérito percebeu que estava a segundos dum pequeno acidente e tratou de dar início, ainda em andamento, ao desbloquear das aberturas.

O fecho da primeira calça respondeu ainda que com alguma resistência. Tacteando o segundo fecho a coisa complicou-se porque os dedos não achavam o pingalhete do éclaire. O pânico assomou-se no mesmo instante em que os primeiros pingos já quentes das super bock faziam um inusitado despejo na dupla calça logo reprimidos com ímpeto pelo Adérito.

O plano B assomou um breve alívio; desapertar o botão da calça de cima e passar ao fecho da calça de baixo. Recusa terminante deste; o aperto na cintura era tal (o botão havia sido enfiado na casa própria com a ajuda da mãe) que o desbloqueio se mostrou de imediato impossível.

Plano C…?! Rebentar com as linhas que cosiam o botão.

“Botão pregado por mim nunca mais na vida se desprega…!”, foi a única sentença que num instante aflorou ao Adérito, logo após o primeiro esforço para rebentar a linha. Era o lema da mãe. E cumpriu-se, mau grado o Adérito nunca ter acreditado convictamente naquela profecia.

O nosso organismo tem capacidades extraordinárias. Uma delas é transformar líquidos gelados em fluidos tão quentes quase dando a sensação de queimarem a pele e tudo em pouco mais de meia hora; reflexão que, inusitada, respigou ao espírito de Adérito, enquanto que, levantando uma perna no ar, procurava esvaziar um dos sapatos, já meio cheio, do que momentos antes havia cumprido a função de refrescar o corpo.

Saiu pelas traseiras mais tolhido ainda de movimentos que agora deixavam um rasto líquido a cada passada marcada por imprevistos e imprecisos chenhop-chenhop difíceis de dissimular.

As três camisolas ficaram. Porque o efeito ganhou corpo, mais ainda quando a camisola do meio usurpou o direito de actriz principal daquela representação, tendo em conta o volume que preenchia; lã grossa.

O esquema das calças esvaziou-se por completo desqualificando qualquer boa memória que a ideia impendia à partida. Soçobrou ainda, e logo à partida, uma peregrina ideia de vestir três ou quatro pares de cuecas que enchumaçassem um rabo condizente com a musculatura de três camisolas. Mas uma imagem passageira de pingalhetes de fecho éclaire sem paradeiro e linhas de botão transformadas em fios de aço imediatamente se associaram a uma ideia fenecida mal se insinuou ao espírito de um Adérito empreendedor mas de boa memória.

Mas dizia eu, o Adérito apaixonou-se e teve generosa retribuição.

A Cátia, moça robusta (em versão social e familiar, mas gorda nos restantes sentidos) deu um dia em achar que aquele tronco do Adérito lhe enrubescia os sentidos a ponto de acabar por, a pouco e pouco, lhe marejar o coração.

Mal sentiu que havia peixe na rede Adérito ainda lhe passou pela cabeça acrescentar uma quarta camisola que lhe garantisse um êxito que sentiu estar ali à mão de semear. Desistiu da ideia quando percebeu que a Cátia tinha mesmo mordido o anzol e estava, literalmente, pelo beicinho.

Foram dias de transbordante alegria para o Adérito. Contudo deu em ponderar melhor a situação e um impertinente receio deu em postar-se-lhe no espírito. E se a paixão (porque era de paixão mesmo que se tratava, na perspectiva e sensibilidade de Adérito) tivesse mais a ver com os peitorais em pura lã virgem que com o resto?! E o “resto” voltava a martirizar a recentemente derrubada falta de auto-estima, reavivando um tempo recente de tão má memória.

As coisas ainda andavam pela fase da conversa e os passeios breves e controlados, porque o pai da moça era muito cioso do património familiar e mais ferrenho ainda com os preceitos da honra.

Ao Adérito, por enquanto, a coisa até interessava, mas haveria de chegar a hora de tirar o ar ao balão e despir-se literalmente na praça pública.

Por outro lado o receio entrechocava-se com uma outra necessidade; quando estava com a Cátia o peito de Adérito estava sempre cheio e só o esvaziava para balbuciar as palavras necessárias ao diálogo, para logo de seguida o insuflar de novo, circunstância que não raras vezes lhe atrapalhou a fluência do discurso.

Ora isto era incómodo e um dia a moça até lhe perguntou se ele tinha falta de ar, ou algum outro problema respiratório. Ao que Adérito negou veementemente resguardando-se nos efeitos dos treinos desportivos que, garantiu, andava a frequentar.

Na verdade já o tinha tentado, especialmente os pesos por lhe terem dito que proporcionavam musculatura.

Bem se dedicou com arreganho aos exercícios mas algum resultado que lhe pareceu enxergar ao fim de muitas semanas de trabalho foi um leve alto num dos peitorais que, melhor observado, veio a clarificar-se como um ligeiro inchaço provocado por picada de mosquito a que Adérito era alérgico.

Mas um dia chegou a hora.

A moça entalada entre o desejo de apertar o Adérito e o controlo apertado do pai engendrou um plano, sendo que grande parte dele lhe sobreveio após ter lido o “Romeu e Julieta” dum tal Shakespeare, e que a apaixonou verdadeiramente.

A janela, no juízo da “Julieta”, não era assim tão alta que um “atleta” ao nível do Adérito não vencesse sem qualquer dificuldade.

A par do plano, Adérito congeminou, no conceito da sua disponibilidade atlética a altura da janela, e achou (naturalmente ofuscado pelo desejo) que aquilo estava ao seu alcance. E foi isso que afiançou à Cátia que enrubesceu.

Combinado o dia e hora, hora meio tardia que conferia com o sono do zelador pelos bons costumes lá da casa, Adérito iniciou os treinos nessa mesma noite. Percebeu, contudo, que as três camisolas complicavam com a acção. Mas desprover-se delas estava fora de questão. Haveria de chegar a hora mas tudo tinha o seu tempo. No fundo alvitrava para si que o amor haveria de derrubar tudo.

À noitinha passou vezes sem conta por baixo da janela e tirou medidas mentalmente. Sondou pontos de fincar os dedos das mãos e outros onde encaixar os pés. Comprou uns ténis novos exigindo material na sola com garantia de fixação extra. Todos os outros planos compreendiam o Adérito já sentado na janela a passar os pés para a varanda da Cátia, mas esses escusamos de os esmiuçar por reserva da intimidade e alguma timidez do protagonista.

“Déri”, diminutivo carinhoso com que Cátia tratava o namorado, ainda pensou fazer uma experiência no próprio local. Desistiu por recear ser visto e denunciado sem qualquer proveito. As contas estavam feitas, os treinos em boa marcha e o desejo seria doping mais que suficiente para vencer qualquer contratempo.

E chegou a noite.

Rigorosamente às 23:50 – hora a que, qual quartel, tocava a recolher lá em casa –, sendo garantido que 10 minutos depois o pai accionava os motores de um autêntico tractor dos pesados, Adérito acercou-se do ponto de assalto e acenou esperando o sinal de retorno de que tudo estava dentro do planeado.

Cátia, em camisa de dormir, roía as unhas enquanto acenava com alguma discrição e timidez para logo de seguida meter a cabeça mais para dentro do quarto a fim de controlar as rotações do tractor.

O translúcido da camisa de dormir de Cátia acelerou a circulação sanguínea do Adérito e predispôs um êxito que ele sentia estar ali à sua medida.

Olhou em redor e controlou a situação e segurança. Depois voltou ao translúcido das vestes da Cátia, circunstância que repetiu por várias vezes, enervando a rapariga mais voltada para a acção.

– Atão…!? Não te despachas…?

– Olha, é melhor apagares a luz do quarto porque me está a encandear.

Na verdade era mais uma fixação nos contornos que a luz em fundo proporcionava que fascinavam o Adérito.

A moça apagou a luz. A noite era de luar, como convém sempre nestas circunstâncias, e não era por aí que a empresa se mostraria impraticável.

A janela, a pouco mais de dois metros do solo, tinha uma ligeira sacada com um debrum em toda a volta, precisamente onde Adérito contava fincar os dedos – e as unhas se fosse caso disso – e a partir daí usar os abdominais, nos quais a confiança de Cátia era inabalável, de acordo com uma fiança que o “Déri” lhe havia prestado aquando da elaboração dos planos.

O chão era relvado o que descansava o espírito do “Romeu” no caso de qualquer falha, que ao princípio ele não equacionava sequer, mas que agora, confrontado com o quadro mais cru da situação, era de facto uma mais-valia, como soe dizer-se, no caso de qualquer contratempo.

Não eram bem das suas capacidades que duvidava, as quais ele tinha até garantido à Cátia. O que o não descansava lá muito o espírito era mesmo a qualidade dos sapatos de ténis, cujo emborrachado da sola o não convenciam de todo, tendo levado uma manhã inteira a discutir o assunto com o vendedor. Vendedor que arrumou os ténis por mais de duas vezes ameaçando não lhos vender caso não se decidisse.

Adérito aproximou-se e esboçou um primeiro salto; digamos que um teste. Ficou longe do debrum. Mas era um teste. Um segundo salto tocou apenas e propositadamente na parede da sacada dando-lhe uma ligeira palmada.

– Atão “Dérinho”… não consegues…?

Nada como um diminutivo já de si carinhoso enfeitado com um “inho” que nos derrete a todos por dentro mas, acima de tudo, galvaniza qualquer guerreiro no campo de batalha.

– Consigo. Estou só a experimentar para saber que impulsão devo dar.

Chegando-se um pouco para trás como que dando algum balanço Adérito lançou-se e enganchou os dedos da mão direita no debrum. Ficou pendurado não mais que cinco segundos.

Recuou de novo e iniciou movimentos circulares com o braço direito, depois com o esquerdo e de seguida rodou os dois ao mesmo tempo, qual borracho de águia exercitando os primeiros movimentos de esvoaçar. O autor opta aqui pela águia como elemento metafórico no intuito claro de não promover um contraste menos adequado à performance do protagonista.

– O que é que estás a fazer Adérito…?

“Adérito”, como se depreende, um óbvio esboço de despromoção que repentinamente aflorou ao espírito de Cátia.

– Exercícios. Preciso de aquecer os músculos.

E continuou enquanto no lusco-fusco da noite olhava de soslaio por entre as “asas” em permanente movimento acelerado aquele debrum que naquela altura havia já subido para uns bons quatro metros de altura, no parecer duma auto-estima em perfeita degradação.

Voltou à sacada.

Deu três saltos seguidos, claramente um novo teste (talvez sequência ainda do aquecimento…), sem qualquer intenção de se pendurar.

Voltou aos exercícios; mãos em terra e saem cinco flexões de braços trémulos e abaixamentos mal definidos. Na última assentou mesmo vigorosamente os peitorais na relva como quem cai desamparado soltando um breve e abafado gemido.

Levantou-se, sacudiu os braços no sentido de relaxar e esvaziar os músculos do ácido láctico que já por ali fervilhava e dobrou-se à frente qual atleta de 800 metros em pose de partida.

Correu, saltou, fincou as duas mãos no debrum ao mesmo tempo que encavalitava um pé, depois o outro na parede do prédio. Ficou por momentos fixo e trémulo naquela posição.

– Dá-me a mão… – balbuciou Adérito enquanto lhe tremia todo o corpo e os ténis raspavam a parede em busca duma elevação que não surtia.

Cátia debruçou-se no parapeito da sacada, braço estendido mas tarde demais. Adérito estendeu-se ao comprido salvo pela relva que lhe amparou a queda.

-“Dérinho”…! Ficaste mal…?

– Quem, eu…? Nahh…! Eu estou bem. Apenas me escorregou uma mão… – ajustava o “Romeu” enquanto sacudia as calças e um cotovelo macerado que aproveitou para massajar.

– Tens a certeza de que o teu pai está a dormir…? – Atirou em jeito de mudar um pouco de conversa e aliviar a tensão que caía no local, quiçá um desejo de probabilidade que lhe daria algum jeito naquela altura. Se o velho acordava havia que protelar a acção e ganhar mais algum tempo para os treinos…

– Sim. Não acorda tão cedo.

Adérito havia já voltado a alguns exercícios de braços, agora também com agachamentos de pernas, que a breve trecho interrompeu logo que pressentiu uma inesperada dificuldade em concluir o último.

Respirou fundo e estremeceu todo o corpo numa óbvia tentativa de retemperar quanto músculo ainda estivesse disponível para a acção.

– Olha Cátia; desta vez tens que ser mais rápida a agarrar-me o braço. Eu vou lançar-me e tu esticas-te toda o mais que puderes.

– Está bem – garantia Cátia enquanto se pendurava já de braço esticado.

Adérito respirou fundo duas, três vezes, talvez cinco, e antes de iniciar a corrida mais uma.

Qual gato de ossadas mal conjuntadas saltou, ferrou as unhas no debrum, patinou os ténis na parede três ou quatro vezes e quase gritou:

– Agora Cátia… agarra-me a mão.

Cátia, num esforço de aflição, debruçou-se quanto pôde e conseguiu agarrar-lhe um pulso enquanto o Adérito se esganava por se fincar na parede com os ténis de borracha especial que raspavam ásperos no cimento sem conseguir a firmeza desejada e garantida pelo homem da sapataria.

– Segura-me! – suplicava o Adérito enquanto continuava a raspar a parede qual Chaplin ao tempo em que a imagem falava e dizia tudo. Ali o que dizia é que nem a borracha tinha a qualidade proclamada nem a situação se iria manter por muito mais tempo.

– “Dérinho”! Atão, vai, sobe…!

O incentivo vinha caloroso sacada abaixo; mas o impulso não se insinuava prometedor sacada acima.

Soltou-se-lhe primeiro o último pé que, calçando um sapato de ténis de má qualidade, buscou a parede mas esta já desistira de prestar um último apoio e já não se encontrava à mercê de um “Romeu” à beira duma inusitada aflição, não contida nos planos meticulosamente programados nos últimos dias.

Cátia ferrava-se ainda no pulso de “Dérinho” – qual “Travassos” (o cão da casa) quando enfurecido filava um osso – e prometia não o largar mais na presunção, bem esclarecida pelo quadro que se lhe deparava, de que aquela seria a derradeira tentativa duma escalada que tanto prometia.

– Deslarga-me…! Deslarga-me que eu já não tenho onde me agarrar! – suplicava Adérito pendurado e esperneante enquanto mirava o chão onde em breve presumia estatelar-se desamparado.

– Deslargo nada…! Segura-te Adérito…! Amarinha a parede…! Dá-me a outra mão!

– Não consigo… Estou todo partido… Deslarga-me…!

– Pá, Adérito…! Agora que chegaste até aqui é que queres desistir…?

– Não dá Cátia, é melhor deslargares-me… A gente amanhã tenta outra vez.

Cátia deu em ponderar a situação enquanto o Adérito continuava pendurado já sem força para se mexer.

A mão de Cátia, rapariga robusta, que contava até com um esforço bem maior para suster “Dérinho”, começou a fraquejar.

A manga da camisola subiu um pouco e já a mão de Adérito se sumia manga adentro. Um novo fraquejo duma “Julieta” já meio conformada com uma desilusão que se expressava dependurada sacada abaixo, subiu mais a manga e desceu uma boa parte do Adérito. Numa última recusa em perder uma oportunidade tão desejada e à beirinha de se concretizar, Cátia agarrou a manga com mais arreganho.

– “Dérinho…!” Estás-me a escorregar…!

Adérito foi-se despindo das vestes qual Cristo a despregar-se da cruz. Cada vez mais cravada no que sobrava duma esperança a desvanecer-se, Cátia deu por ela com uma manga bem segura numa mão e um Adérito literalmente a descolar-se da pele qual cobra em muda sazonal e a estatelar-se na relva soando a um autêntico saco de batatas atirado fora.

A primeira reacção de Cátia foi de preocupação.

– Estás bem “Dérinho”…?

Adérito, nu da cintura para cima, não respondeu, antes se refugiou numa zona mais escura cruzando os braços à frente no intuito de melhor se proteger das vistas.

– “Derinho”, atão…?

– Tenho uns arranhões mas estou bem.

Cátia, ainda com os despojos de uma inusitada batalha na mão, deu em querer dobrar com desvelo amoroso a camisola de Adérito. Contudo, puxando mais para a luz o objecto de afeição, uma após outra foi tirando uma camisola de dentro da outra, acabando com três pares de camisolas na mão, sendo que uma delas era de lã grossa.

– “Déri”…! Mas o que é isto? Trazias três camisolas…?

– As noites vão frias. Tenho sempre muito frio.

– Estamos em Agosto, “Déri”…!

– Mas o que é que queres. Eu sou assim.

– Com uma camisola de lã destas por baixo…?

– …!

– Adérito…!

– … sim…!

A repentina volatilização de um “Dérinho” que, passando de raspão pelo “Déri”, se embravecia agora num inequívoco e perfurante “Adérito”, não passou despercebido a um “Romeu” acabado de ser destituído de um elenco que prometia um desfecho muito próximo do tal Shakespear.

– Quer isto dizer que os peitorais e o ginásio é tudo uma grande mentira, Adérito?

– …!

– Adérito…! Põe-te à luz para eu te ver bem.

– Eu ia-te contar tudo…

– Ias-me contar tudo o quê, Adérito…? Que te tinha dado uma fraqueza repentina…?

– …!

– Peitorais, abdominais, bíceps de ferro que nunca me deixaste apalpar porque te dava cócegas…

– Amanhã falamos, Cátia…

– Amanhã…? Alguém vai falar contigo e é agora mesmo!

– …!

– Travassos…! TRAVASSOS…!… BUSCA, BUSCA…!!!

… e terá sido o único momento em que o Adérito se congratulou convictamente por ter desistido atempadamente dos dois pares de jeans, mal lhe apareceu na sacada um autêntico Stadivarius da época moderna em versão canina, pronto a voar janela abaixo e alterar mais ainda o desfecho da peça do tal Shakespeare…

Pedro C.

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5 comments on “História de um verão quente…

  1. Podemos chamá-los de “os deserdados da sorte”. Nasceram infelizes e nada lhes corre bem.
    O zero de autoestima é comum: conheci alguns.
    Não consegui conter o riso quando descreve a má qualidade dos ténis.
    Descontrai, diverte e faz-nos esquecer por momentos a actual tristeza nacional.
    Bem escrito.
    Um abraço: EC

  2. Tá bom. O Adérito já não cai noutra…
    Abraço
    Emídio

  3. Apenas agora consegui ler.
    Gozar assim com os “Adéritos”…Humor negro… mas humor!
    O final era óbvio, mas nunca o imaginaria numa de Romeu e Julieta! Foi a parte que me divertiu mais – as peripécias e diálogos escritos com o realismo a que já nos habituou.
    Obrigada por me proporcionar este momento de boa disposição!

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