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Greve Geral… ou uma greve ao bom senso!?

Imprensa de hoje, 25-11-2010

“…Além dos CTT, a maioria das grandes empresas nacionais também desvalorizou o impacto da greve nas suas operações. As gigantes EDP e PT, questionadas sobre taxas de adesão, limitaram-se a dizer que os serviços normais não foram afectados – o consumo total de energia no dia de ontem foi, aliás, igual a um dia útil normal. Já a Galp apontou que a adesão foi de 2% a 3% e sem impacto na operação. Quanto à CGD, 45% das agências estiveram encerradas ontem.

Mas voltando ao sector privado, as associações de calçado, metalurgia, cortiça, têxteis ou automóveis falaram em adesões à greve geral entre os 15% (cortiça) e os 1,2% dos trabalhadores metalúrgicos. Na Citroën de Mangualde registou-se 0,4% de protestantes em 1200 trabalhadores, perto do registado na Renova – com 656 trabalhadores -, ou na Delta e na Portucel. No sector da indústria, e segundo a CIP, as adesões não superaram os 4%, sendo que no comércio e serviços, segundo a própria confederação, não houve qualquer registo de adesão…”


E lá se cumpriu a função, praticamente, exclusiva dos sindicatos: marcar greves.

Sim, até porque se os outros já fizeram uma greve geral, nós não podíamos ficar para trás. Até podiam pensar que nós não existíamos. Era necessário fazer uma Greve Geral e fez-se para que nos possamos sentir mais europeus.

Coloque-se de parte o direito inalienável consignado pela Constituição e pela democracia de fazer greve.

Da mesma forma consignemos como legítimo o direito à indignação e ao protesto.

Tenhamos em conta que não haverá um único português (tirando, talvez , os governantes e alguns políticos) que não sinta vontade de protestar e de manifestar a sua indignação pela forma como tem vindo a ser governado este país e o estado em que vão deixando as contas públicas, todos os que nos governaram – e se governaram – até aqui.

Mas que direito, razão ou bom senso podem ter os sindicatos de proporem a perda de um dia de salário a trabalhadores com salários precários, na perspectiva de os verem reduzidos nos próximos tempos, ou mesmo terminados por perda do posto de trabalho, tendo em conta a crise que se vive, uma espécie de espada de Dâmocles suspensa sobre as suas cabeças, quando, ainda por cima, todos sabemos que as medidas de austeridade são fruto de um desespero político escorrido de má governação dos últimos 36 anos, que não têm quaisquer alternativas e conduzirão o país ao desespero e à banca rota se não forem tomadas?

Que mínimo de bom senso é este?

Que respeito e consideração é esta pela precariedade e sofrimento dos trabalhadores, vindo propor menos um dia de salário, sem uma perspectiva mínima de que esta luta resulte no que quer que seja que altere o estado de coisa neste país?

Os sindicalistas, não falando agora em percentagens mas em milhões de pessoas que terão aderido à greve – um número atirado ao vento da voracidade da imprensa que temos, quando o verdadeiro número de pessoas em greve nem daqui a três dias será, com exactidão, conhecido – não consignará esta forma abjecta de fazer sindicalismo, manobrando os números de forma a justificar por meios ínvios (para não lhes chamar fraudulentos) o esforço dos grevistas, procurando aliviar-lhes a dolorosa perda de um dia de salário, sem qualquer proveito, ou sentido prático?

Se era de um protesto nacional veemente e significativo que precisavam – para mostrar, a não sei a quem o não saiba, que estamos afundados – porque razão não promoveram uma gigantesca manifestação nacional a ter lugar em todas as capitais de distrito num sábado à tarde, reduzindo praticamente a zero os custos de cada manifestante, contornando assim este insensível acto de desprezo pela condição precária da maioria dos trabalhadores portugueses, ao promoverem uma greve geral onde cada um dos grevistas se viu despojado de mais uma parcela do seu já miserável salário?

Quantos portugueses desejaram fazer greve e não o fizeram por impossibilidade de dispor de um dia de salário?

Quantos portugueses não fizeram greve por recearem represálias quanto à manutenção do seu posto de trabalho?

Como é que os vamos censurar? Como é que os vamos agredir com os democráticos piquetes de greve?

Os sindicatos quiseram provar ou demonstrar o quê a quem?

Para quando uma varridela neste sindicalismo de pacotilha, cujas caras ainda podemos ver no tempo em que a TV era a preto e branco, que não foi capaz de evoluir porque se sente confortável em poleiros de pouca exigência?

Para quando uma única greve em que não nos fique sempre o travo amargo de uma greve política, quando o que todos esperamos, com o nosso empenhamento e esforço, é uma greve com motivações e fins de índole social que nos traga, verdadeiramente, a melhoria sensível de condições de vida e não nos sintamos palhaços de um joguete político que favorece as cúpulas partidárias, como sempre aconteceu desde o 25 de Abril até hoje?

Para quando o fim deste orgasmo político-sindicalista de profissionais da promoção de greves, cujas repercussões jamais tiveram resultados na sociedade ou na política social, tornando já fastidioso este ramerrão de promoção de actos de sacrifício cada vez mais penosos, sem uma única bandeira de vitória que possam agitar do fundo deste abismo onde ainda se agitam, de mistura com todos aqueles que, ludibriados, foram acreditando nesta falácia que se dá pelo nome força sindical?

Para quando…?

pc

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2 comments on “Greve Geral… ou uma greve ao bom senso!?

  1. Temas que vão sempre a tempo, independentemente da distância que tempo passe.
    É assim… em pleno Século XXI, milhões de inteligências, bem conhecidas, se pavoneiam e alimentam os arranjos das conveniências instaladas, nesta Sociedade. O que e quem serve, o descredibilizar os efeitos de uma Greve Geral, senhores comentaristas? No momento, em que os interesses Económicos e Social das famílias, Portuguesas, estão a ser postos em causa, por todas as forças, quer do Poder Politico quer do grande Capital, Empresariais e Financeiras, etc.No momento em que, a força da produção e criação de riqueza deste País, vêem reduzidos à maior insignificância a sua dignidade de pessoa, cidadão e trabalhador…
    No momento em que, os direitos adquiridos, pela força de sacrifícios à época, pelos Trabalhadores da Administração Pública, venham sendo retirados, como que nada tivessem custado aos próprios, lembro, As alterações dos Sistemas Retributívos/ Regimes de Carreiras Profissionais que reproduziram perdas e não ganhos conforme era prometido nas campanhas eleitorais+as Diuturnidades, que em vez de darem também no sector privado, como prémio de antiguidade preferiram apagar do Mapa esse direito, na Função Pública + Os aumentos de vencimento anuais que iriam fazer face aos sucessivos aumentos da inflação, que também esse direito deixou de ser respeitado pelos sucessivos Governos+ Etc, Etc, Etc…
    Agora, neste malfadado ano, de 2012, arranjarem como culpados pela má Gestão dos dinheiros Públicos e pela crise, os inocentes, é demais! Que culpa tem os trabalhadores se os dinheiros e Património do País é vendido ao desbarato ou tem desvios? Que culpas tem os trabalhadores pelo mau paradeiro ou se há maus investimentos feitos pelo ( Governo) Patrão para ele se arrogar no direito de ir ao seu bolso rebuscar o que lhe pertence? Responsabilizar os trabalhadores por aquilo que fazem os Governantes e Patrões é injusto! Serem apontados como culpados ( únicos) pela dívida, que não contraíram pertence é no mínimo um atentado aos seus mais elementares direitos, que a “Constituição da República Portuguesa” consagra ao mundo do trabalho na Administração Pública, como carne para canhão e no mínimo era merecido um pedido de desculpas por parte de quem atenta contra tais princípios!

    Como não bastasse, está na eminência o roubo ao direito dos Subsídios de Férias e Natal? Se para os próprios é mau para a Economia é pior, visto não haver capacidade de poder de compra, dos cidadãos.
    Como podem as Empresas sobreviver e o País desenvolver se o povo não poder trabalhar e comprar o que é necessário à sobrevivência das famílias e das Empresas, nomeadamente, Micro, pequenas e Médias?

    Se houve perdão para a dívida da Grécia, será que nos entretantos… à humildade Europeia, não ficaria bem perdoar a DIVIDA Portuguesa, enquanto os tribunais averiguassem e punissem os verdadeiros causadores da crise económica? Era uma prudente posição dos Senhores do Império e para este parceiro(Portugal) agradecia e o povo também essa atitude, de estima. Agora pergunto, eu.
    Não tem os Funcionários Públicos, não só o direito como o dever de defender a sua dignidade, Profissional, moral e económica no que respeita a aderir às Greves ( ou não) conforme queira, que para o efeito sejam convocadas? As Greves servem para quê? O que importa são os motivos que a determinam e porque são levadas a cabo! Não se trata de terem de parecer bem, aos meios de comunicação e comentadores Políticos que tendem sempre para o outro lado ( só por acaso). As greves são equacionadas para repor justiça no que é injusto. E aqueles que se põem ao lado dos empregadores, contra os interesses dos que representam, não estão a cumprir com seus deveres e desempenhar o seu papel, para que foram eleitos, pelo contrário é um papel alheio, que demonstra só servir interesses, que ao Patronato, convém e não aos trabalhadores.
    As percentagens de aderência, não pode revelar que quem não a fez, seja contra a GREVE, porque os trabalhadores Portugueses, independentemente da área onde desempenhe funções, tem razões, mais que suficientes para esta acção. Eles sabem que perdem o dia de salário, mas se poucos forem os furas, a correlação de forças, pesará para o lado da razão e da justiça. Se houver uma grande adesão passarão os causadores da greve a ter mais respeito pela sua determinação e dignidade. A escolha está nas mãos da consciência política e de Classe de cada qual. A luta na tomada de posição pela “Greve” está patente na falta de respeito, pelo factor “Comunicação Social”, que teima com eficácia na desinformação, das matérias Sindicais, pela forma e jeito como estas coisas são tratadas, pois se se dedicassem a dar cobertura atempada e conveniente às razões que assistem, não só era prestado um bom serviço ao País, à comunidade e ao Mundo, face os resultados. É possível e urgente, uma política diferente! E a via do diálogo é a melhor, forma. Quando isso não é possível a indignação tem que dar a sua resposta. E se isso passar, pela ” GREVE GERAL” para dar corpo a essa indignação, para além de uma forma correta é legal e justa! A bem dos interesses do País!

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