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Greve Geral. Contra Quê e Contra Quem?


Na sua essência, a luta dos trabalhadores contra o patronato – aquilo a que se convencionou chamar de greve –, tinha como objectivo primordial melhorar as suas condições salariais e, naturalmente, melhoria da sua qualidade de vida.

A fórmula era simples e directa: os trabalhadores não produziam, o patronato não vendia, logo, não realizava mais-valias; numa linguagem mais assertiva, não obtinha lucros.

O braço de ferro durava o tempo necessário até que uma das partes quebrava: os trabalhadores por se avolumarem as suas dificuldades pelas quais se decidiam pela luta, ou o patronato, normalmente, por amolecimento pontual da ganância.

A fórmula – paralisação do trabalho – manteve-se ao longo dos anos até aos nossos dias. Os objectivos e os efeitos, esses, têm vindo a sofrer alterações, a ponto de ser legítimo questionar se os tempos não obrigariam a um reformular de formas e meios de contenda que melhor servissem o trabalhador, sempre o lesado nesta ou noutra forma de luta.

Procurando passar ao lado de mobilizações de massas de trabalhadores em greve que ocorreram com fins e meios meramente políticos, que não virão agora ao caso, afigura-se questionável se os fins (atingir os objectivos salariais ou sociais reivindicados) justificam os meios (paralisação com custos salariais e outros, sem quaisquer perdas para o patronato). E esta é a questão: não há danos nem perdas para o patronato. Apenas para os grevistas.

Referimo-nos, mais concretamente, às greves envolvendo a função pública, que se constituirão na esmagadora maioria das greves ocorridas no nosso país, depois do 25 de Abril de 74.

Anuncia-se para breve mais uma greve geral, congregando praticamente todas as estruturas sindicais de cúpula. Os motivos são mais que conhecidos e a razão dos sindicatos e potenciais grevistas, incontestável.

O ponto a que chegámos obriga a questionar tudo e todos quantos nos trouxeram até aqui: revolucionários, ou posteriormente proprietários da revolução, e os paladinos da liberdade e da democracia, que outra coisa não fizeram, senão empenharem o país e o futuro a troco de um miserável voto, que esmolaram em cada processo eleitoral, prometendo um país próspero, por vezes o paraíso, para, sem excepção, se abotoarem com a coisa pública, que repartem pelos seus amigos e famílias (política e de sangue) sem pejo nem vergonha, fingindo ou ignorando a miséria que vai florescendo que nem bolor em caco velho desprezado.

É tempo de ir para a rua. É tempo de exigir mais, muito mais, que melhores salários e condições de vida. Essencialmente é tempo de obrigar ao cumprimento das promessas cíclicas com que nos amolecem a consciência, mas acima de tudo, é tempo de exigir competência na governação e não apenas nas empresas públicas ou privadas, onde florescem os milhões que posteriormente repartem pelas cúpulas da sociedade, deixando na miséria 20% da população e outros tantos mais a viver no limiar da pobreza.

Mas como?

O país, vão-nos dizendo agora, está pobre e em sérias dificuldades.

Mas será bom ter consciência que o país nunca esteve bem desde que se tornou num país livre e democrático. Desde que nos fizeram confundir liberdade com bem-estar social e riqueza. Quando nos explicaram mal que nos davam liberdade de expressão, mas tinham já em mente com quem dividir a riqueza que viesse a ser criada.

Deixemo-nos de vez de questiúnculas político-partidárias com que nos vêm entretendo há mais de 36 anos, desviando a atenção dos verdadeiros problemas e dos erros políticos e económicos cometidos, com o engodo analgésico da vitória partidária e a insensibilidade de consciência que daí resulta, como o fazem com a analgesia do futebol, desviando as atenções do que é essencial, ou seja, o bem-estar e o futuro de cada um de nós.

Armar o braço da revolta é preciso.

Sim!

Mas como?

Com uma greve geral?

Porquê uma greve geral nesta altura, sem agitar aqui bandeiras de patriotismo cuja cor e intento têm sempre leituras pouco claras ou difusas, consoante o escriba que as defende.

Uma greve geral apenas porque a França e a Espanha já o fizeram e nós, como de costume, “… não podemos ficar para trás…”? O que obtiveram esses países? O que resolveram das suas dificuldades económicas e consequentemente das dos trabalhadores? Demonstraram o quê? Que estão descontentes? Quem tem dúvidas disso? De quem são afinal os sacrifícios e quem são os sacrificados do costume?

Por outro lado, convirá também não esquecer que a convocação de uma greve geral, ou qualquer outra mais singular, se vai tornando, cada vez mais, apenas na oportunidade de protagonismo político televisivo dos líderes sindicais, quase sempre candidatos a voos mais altos neste palco de embriaguez em que se conforma a política?

Consumada a greve geral vamos a contas.

O país fica mais pobre; as pessoas (as que lutam contra a pobreza e miséria em que vivem) ficarão nesse dia mais pobres ainda; haverá muita gente que gostaria de se manifestar descontente aderindo à greve, mas não o fará porque o salário, já de si magro, não comporta um cêntimo de redução; o estado (ou outro patronato) enche a barriga com os salários que não serão pagos nesse dia, havendo a forte suspeita de que o estado acaba por fomentar as greves em proveito próprio; haverá pessoas com os direitos conferidos pela democracia, prejudicadas com os transportes paralisados impossibilitando-as de se deslocarem; haverá consultas marcadas há meses, senão anos, que não se efectuarão; haverá serviços essenciais que não funcionarão, prejudicando todos; todo o trabalho que o funcionário não faz no dia de greve, irá fazê-lo gratuitamente nos dias seguintes; o patrão-estado esfrega as mãos de contente com os salários que não paga; os trabalhadores continuarão a contemplar a míngua do salário e a esfregar a dor da fome, enquanto assistem ao refastelamento indecoroso dos governantes e de todos os outros que aguardam a sua oportunidade para assaltarem o poder e continuarem a reescrever, agora, o 16º cardápio de promessas que jamais irão cumprir; ou porque não sabem, ou porque não querem.

À noite os sindicalistas virão ufanar-se com a utopia da vitória confinada nos 90% de adesão à greve.

Minutos após, e à espreita da melhor oportunidade que a estação televisiva estatal lhe ira proporcionar, um governante virá, despudoradamente, comunicar que a greve não terá ultrapassado os 15%. Este cenário, com estes números, já aconteceu; não é uma mera figura de estilo.

Mas o mais abominável de tudo isto é que todos sabemos que ambos mentem; sindicalistas e governantes. Incluindo os próprios.

Ambos sabem que a política é isto: uma mentira insalubre com a qual nos governam enquanto povo inculto, papalvo e inconsciente dos seus verdadeiros interesses e direitos; enquanto cidadão contribuinte para o bem-estar de todos e o transformam num servidor obediente de uma minoria que, detendo o poder, o explora sem pudor.

O direito ao protesto e à luta contra a opressão e a exploração são inalienáveis.

Mas os inimigos não são os partidos.

Os partidos não passam de máscaras que apenas dissimulam a avidez do poder com o qual se hão-de locupletar todos os que o detêm, seja qual for a feição daquilo a que chamam opção social e política. Porque a primeira, e quase sempre a única opção, é que primeiro, e durante longo tempo, se servirão os donos do poder até à saciedade e depois se verá o que sobra para calar a plebe.

Por tudo isto, e por mais um bom par de razões, greve geral, não!

Se é para demonstrar o desagrado e quantos estão desagradados, porque não dar oportunidade a todos de se manifestarem sem custos nem maior agravo das suas já precárias condições de vida? Porquê sacrifícios que poucos entenderão e muitos os não farão apenas porque a miséria já está para lá do suportável? Porquê sacrificar aqueles que precisam dos serviços que vão ser a afectados para chegar a tempo e horas ao emprego, sob pena de ameaça, ou mesmo despedimento?

Os sindicalistas tornarão sempre com o chavão: as greves têm sempre custos e sacrifícios.

Verdade. Mas para quem?

A questão é:

Porque não organizam a CGTP e a UGT numa gigantesca manifestação a ter lugar num sábado nas cidades do Porto, Coimbra, Lisboa e Faro, podendo também ter lugar na Guarda e Évora? Quantos milhares ou milhões de pessoas seria possível contabilizar no seu conjunto a partir das imagens televisivas, sem ter que andar a forjar números de aderentes à greve a partir de dados que apenas funcionam de acordo com os interesses de cada uma das partes e nos deixam sempre a sensação amarga de não corresponderem à verdade?

Isto não teria o mesmo impacto político, dirão os sindicalistas.

Entende-se. Mas não se concorda.

Se o impacto político é lançar o caos no país sacrificando apenas o lado que protesta porque o poder lutará (com custos ainda para o mesmo lado) por minimizar as consequências e deturpará a dimensão do impacto político pretendido, discordamos.

Não há outro nome a dar a isto senão uma espécie de masoquismo social e político de que não há grande memória de alguma vez ter obtido resultados palpáveis que não apenas o inequívoco sacrifício dos que protestam, pagando uma pesada factura sem qualquer retorno.

A greve é uma arma poderosa.

Mas para ter poder carece de eficácia, que não é fácil encontrar na voracidade da mudança dos dias de hoje.

Esta greve geral vem num momento inapropriado, tendo em conta a própria situação do país.

Não está em causa a denúncia da eventual má governação de agora ou de sempre.

A denúncia, praticamente já quase desnecessária nesta altura, cabe em qualquer momento.

Para saber e demonstrar quantos estão descontentes, se é que ainda pode haver dúvidas nesta altura da dimensão do descontentamento, nada como trazer as pessoas para a rua, não em festa porque o momento não se compagina com folguedos, mas em manifestação de desagrado pela forma como os políticos que temos nos trouxeram até aqui.

Todas as grandes revoluções foram na rua que se fizeram.

Se é de uma qualquer nova revolução que precisamos – e entendo que, inequivocamente, sim! – não será com uma greve geral que o faremos.

Em democracia as “revoluções” são parlamentares e exprimem-se em eleições.

Contudo, esta experiência “revolucionária” vem-nos ensinando que precisamos de novas formas de revolução. Novos meios e novas atitudes.

Aproximam-se eleições: comecemos revolucionariamente por não votar.

PC

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