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Formação de turmas de nível.


Tomou recentemente o Ministro da Educação a decisão de promover nas escolas a constituição de turmas, tendo como orientação as competências ou capacidades dos alunos.

Ou seja; os mais capacitados serão agrupados em determinadas turmas e aqueles alunos que, por motivos vários, revelam dificuldades, quer de aprendizagens, quer de domínios cognitivos, noutras.

As televisões vieram para a rua no sentido de colherem opiniões sobre esta intenção do ministro.

Ouviram pais, sindicatos e até o senhor Albino que tutela, e aparentemente representa, os encarregados de educação, eu diria, quase de forma vitalícia. Estou convencido de que, pelo menos, será pai de alunos ainda em fase escolar…

Achei estranho; nem um único professor foi ouvido. Terão já emigrado todos seguindo o conselho de alguns membros do governo?

A expressão que de imediato colheu consenso foi a de que se estavam a promover “turmas de elite”. Só faltou dizer que, se calhar, as turmas fora do grupo “elite” teriam que usar as antigas “orelhas de burro”. Mas pouco faltou.

O senhor que representa os pais e encarregados de educação abespinhou-se com a ideia das elites.

Porque o ensino deve ser igual para todos; não deve haver discriminações, estigmas e outros dislates que foi acrescentando à guisa do ambiente social e político que se vai vivendo. Na vigência do anterior governo via-o muito menos abespinhado. Vá lá saber-se porquê.

O sindicalista, porque é essa a sua função (vitalícia também, parece-me…) mordeu na medida e na tutela, acenou bandeiras políticas e cumpriu a sua missão. Uma explicação técnica ou de ordem pedagógica, como seria de esperar num professor, ainda que há muito arredado das suas lides naturais, nada; nem um assomo.

Os pais ergueram o punho e sem vociferar, implodiram: “ O quê; o meu filho eventualmente numa turma menor, onde a honra da família se escorreria pelas ladeiras da vergonha…? Jamé…! Jamé…!”

Não tendo a esperança ou pretensão de que esta breve intervenção chegue a algumas das entidades que sobre esta medida emitiram tão contundentes catilinárias, deixo o que se me escorre de cerca de 36 anos de experiência nesta nobre função de ensinar e construir edifícios de gente, onde os professores contribuem com o seu melhor na consolidação dos alicerces que hão-de garantir a solidez do cidadão do amanhã.

Especificando por pontos a fim de tornar menos longa e mais sistematizada a intervenção:

1-     Uma turma com dois ou três níveis de alunos quanto às suas capacidades de aprendizagem, níveis de conhecimento, ou instrumentos de progressão (o que ocorre praticamente sempre), traduz-se numa sobrecarga para o professor, obrigando-o a dois ou três níveis de ensino distintos numa mesma turma, diferenciando-se ainda de turma para turma. Um inequívoco esforço inglório.

2-     Independentemente do redobrado esforço do professor, esta circunstância confere prejuízos para todos os níveis diferenciados de alunos; os mais apetrechados não progridem de acordo com as suas potencialidades, tendo em conta a necessidade do professor em consumir o tempo indispensável com níveis de ensino de menor grau de dificuldade; os menos preparados terão, por outro lado, momentos de menor atenção e desequilíbrio temporal de aprendizagem, enquanto o professor procede ao acompanhamento dos alunos melhor preparados e em condições de uma progressão de acordo com o programado. Em inúmeros Conselhos de Turma cansei de ouvir professores referirem que determinados bons alunos não foram mais longe por se encontrarem integrados em turmas com elevado número de alunos deficitários em termos de conhecimentos e aprendizagens.

3-     Nada prova – salvo em raríssimas situações e conteúdos muito pontuais e naturalmente despicientes – que os alunos de menor capacidade beneficiem com um ensino ministrado em conjunto com outros mais adiantados ou melhor apetrechados. O conhecimento não se adquire de ouvido ou por contágio, mas por integração consciente e atempada dos seus elementos de formação e evolução.

4-     A organização de grupos (turma) de alunos por níveis de capacidade (cognitiva ou de desempenho) só favorece as aprendizagens, qualquer que seja o nível do grupo em causa. A possibilidade do professor se empenhar apenas na transformação/evolução de um grupo homogéneo permite um ganho incomensurável em tempo e aproveitamento que alguma prática vem demonstrando e o bom senso evidenciando.

5-     Neste contexto, afigura-se até que serão os grupos que vierem a ser formados por alunos de nível mais deficitário, aqueles que maior proveito poderão retirar desta medida, por se tornar natural que o professor, num contexto de turmas heterogéneas, se sinta persuadido, ou mesmo coagido, a ministrar um ensino de feição média/alta, recorrendo em permanência a situações de remediação relativamente aos alunos de menor capacidade de acompanhamento dos conteúdos curriculares.

6-     Esta medida poderá ainda permitir determinar a atribuição de turmas de nível a professores mais vocacionados para determinado tipo de ensino e desta forma rentabilizar as características do corpo docente, colocando-o ao serviço dos alunos e duma melhor rentabilidade do ensino. Será ainda oportuno ressaltar que, se a ideia vier a ser implementada, o ministério não deverá descurar a importância das turmas com alunos de menor índice de conhecimento deverem ser constituídas por um número de alunos inferior às restantes, sob pena de uma boa solução cair por obstrução de elementos acessórios.

Importa aqui desdramatizar realidades que se procuram escamotear em nome de um biombo de ostentação social muito própria da nossa sociedade.

Não há alunos iguais como não há cidadãos iguais em termos de capacidades e desempenho profissional ou social.

Importa reter esta realidade e despi-la de preconceitos destituídos de senso que só conduzem à obstrução de soluções válidas para a resolução de problemas reais.

A famigerada pseudo “elitização” que se evidenciaria na constituição de turmas de nível é hoje, e sempre, perfeitamente pública na publicação das pautas de aproveitamento no termo de cada período e no final de ano.

Os alunos que se evidenciam dotados de meios e capacidades mais elevadas têm todo o direito a um ensino que lhes potencie o percurso escolar, tanto quanto os menos apetrechados devem exigir um ensino adequado às suas dificuldades que lhes possibilite atingir os mesmos objectivos que todos os outros.

A escola carece de ideias que concorram para a melhor solução dos problemas do ensino. Esta ideia faz sentido e só deverá encontrar algum grau de dificuldade na organização escolar, porque nem sempre a prossecução de uma boa ideia encontra viabilidade na complexa orgânica de um estabelecimento de ensino.

Deixar ainda que participei em tempos num projecto semelhante, onde foram agrupados em duas turmas alunos com débito cognitivo e de desempenho, tendo o programa transcorrido em dois anos.

Os resultados, em termos de aproveitamento, foram considerados um enorme sucesso.

O projecto não teve sequência, não obstante os resultados positivos terem sido reconhecidos pelo próprio ministério.

A razão foi simples: o projecto revelou-se algo oneroso para o Estado apenas porque o número de alunos que constituiu cada turma continha menos cinco ou seis alunos que uma turma dita “Especial”…

Pedro C.

2 comments on “Formação de turmas de nível.

  1. […] Cristiano Ronaldo.- O Inefável Dr. Soares…– QUOTIDIANOS -– Formação de turmas de nível.- Fátima muda-se de novo para Alvalade XXI- Como começar a anestesiar o sofrimento para 2012 […]

  2. Ora vamos lá ver…
    O senhor ministro, que é professor e deve ter sentido a dificuldade que todos os professores sentem em dar atenção a uma turma heterogénea, utilizou a sua autoridade e competências para tentar pôr cobro a esta situação.
    TENTAR!

    Neste artigo, muito bem explanado, Pedro C. põe o dedo na ferida:

    “só deverá encontrar algum grau de dificuldade na organização escolar, porque nem sempre a prossecução de uma boa ideia encontra viabilidade na complexa orgânica de um estabelecimento de ensino”.

    Na organização escolar e não só!

    Passa também por introduzir alterações aos concursos. Se esse trabalho (tanto o de leccionar turmas que progridem facilmente, com as que têm maiores dificuldades) for feito com responsabilidade não se compadece com mudança de professores – tem de ter continuidade até que o aluno mude de ciclo.
    E isto é mais importante nos primeiros 4 anos de escolaridade, porquanto não só a mono-docência como a idade das crianças cria uma ligação aluno/professor que é básica para a prossecução do projecto e obtenção de bons resultados.

    Depois de legislado começam as minudências, as regulamentações, as interpretações, as resistências da parte dos encarregados de educação (uma grande percentagem nem aceita que problemas óbvios de seus filhos sejam atestados para poderem ter apoio especial), a humilhação de frequentar uma turma que necessita de atenção especial – vendo pela negativa, pela estigmatização e não pelo que de proveitoso possam tirar dessa situação.

    Ainda há relativamente pouco tempo se advogava no 1º ciclo a existência de turmas com os 4 anos; os alunos transitavam automaticamente do 1º para o 2º e do 3º para o 4º e a turma mantinha-se intacta durante 4 anos, para as crianças não se sentirem traumatizados por saírem dela.
    Como se não fosse traumatizante chegar ao final dos 4 anos a mal saber ler e escrever, enquanto os colegas dominavam todo o programa.

    Se a transição do 2º para o 3º constituía uma barreira, era fictícia, porque : os alunos continuavam na turma; os pais tinham de opinar acerca disso; o professor tinha de apresentar um relatório pormenorizadíssimo para cada aluno, justificando por que não haviam tido aproveitamento e que medidas haviam sido adoptadas para tentar que tivessem; e ainda a fazer um plano educativo diário individual para os alunos que não haviam tido o aproveitamento mínimo.

    Pergunto: medidos os prós e os contras, justificava-se tudo isto? Como evitar?
    O aluno transitava com o aproveitamento mínimo, o ministério agradecia porque estatisticamente as coisas estavam a correr bem, os pais exultavam e os professores evitavam tanta confusão para que tudo, afinal, ficasse na mesma.

    Houve tímidas tentativas para que o problema das turmas demasiadamente heterogéneas fosse resolvido. Mas foram tímidas tentativas – apenas isso.
    Esperemos que o assunto seja devidamente analisado e que a sua concretização se faça sem titubeio.

    Não esquecer – as turmas de alunos com dificuldades cognitivas terão de ter um numero muito inferior ao das outras. O ensino tem de ser quase individualizado.

    E que não aconteça o que Pedro C. menciona:

    “O projecto não teve sequência, não obstante os resultados positivos terem sido reconhecidos pelo próprio ministério.

    A razão foi simples: o projecto revelou-se algo oneroso para o Estado apenas porque o número de alunos que constituiu cada turma continha menos cinco ou seis alunos que uma turma dita “Especial”…

    Com miserabilismos, nada se conseguirá concretizar.

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