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Finalmente temos mártir: Mário Crespo

Mário Crespo (M.C.) tanto porfiou que lá parece ter conseguido um dos seus principais objectivos profissionais: temos finalmente um Cristo vivo.

Eu sei que não concordar hoje com M.C. confere uma espécie de estigma de conluio com o poder.

Poder que, seja ele qual for – tendo em conta os episódios da desgraça que vimos calcorreando vai para quase 36 anos de regime democrático (aquele em todos depositámos as maiores esperanças) – é o lado mau da barricada, o plano do cambalacho, o antro de todos os motivos da desventura.

Ser de oposição, quando as governações não conseguem resolver os problemas do país e das pessoas (leia-se: continuar o regabofe destes últimos 35 anos…) é fino, é popular e aplana o caminho para o endeusamento ou edificação do pedestal dos heróis.

O jornalista e o político são os potenciais candidatos a estes lugares; ambos sabem que só a derrota do poder lhes conferirá a coroa de louros e o galarim da fama.

Em termos de declaração prévia de interesses, declaro não ter especial apreço pela política e menor estima ainda pelos políticos.

Admiro a perspicácia dos gestores públicos ou privados que se refastelam com salários de vinte, trinta ou sessenta mil euros mensais, comodamente sentados nas poltronas dos seus gabinetes de luxo (rindo desbragadamente dos políticos, ou criticando as suas políticas, comendo à conta) e suspeito dos políticos que se sujeitam a “míseros” cinco a seis mil euros mensais, necessariamente por masoquismo, tendência narcisista ou obsessão pelo poder político, esse embuste com que nos anestesiam os sentidos e nos vergam ao rol das suas ambições.

Quanto aos jornalistas, foi tempo em que apreciava a estatura intelectual e profissional de alguns, deixando-me seduzir pelas suas opiniões, ou simples intervenções no desempenho da sua actividade profissional.

Com o incremento dos meios de comunicação e essencialmente a velocidade do seu processamento, a qualidade destes profissionais decresceu e a proliferação da mediocridade medrou na medida da menor exigência que a quantidade sempre implica.

M.C. é um jornalista com qualidades e um comunicador simpático com largos anos de experiência.

Passou pelos Estádios Unidos onde os Watergates fizeram escola e o jornalismo ganhou uma outra dimensão planetária no âmbito da investigação de casos de corrupção, essencialmente política.

Os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein do Washington Post inspiraram muitos outros por esse mundo fora, quando da sua demorada e profunda investigação no caso Watergate, envolvendo o presidente dos USA Richard Nixon, tornando-se referências de relevo no mundo do jornalismo.

Muitos lhes seguiram as pisadas investigando e trazendo à luz do dia casos e factos de transcendente importância para a opinião pública.

Mas M.C. não.

M.C. optou por outras vias bem mais tranquilas e pouco ou nada atinentes com a indispensável investigação jornalística, quando se quer proclamar, ou propalar uma ideia, um conceito, ou o que quer que seja.

M.C não investiga. Ouve, constrói e reconstrói, e depois debita a insinuação que melhor entende servir os seus intentos profissionais e pessoais.

M.C. afirma-se de direita. Honra lhe seja feita. Há quem o escamoteie com fins menos claros.

Cumprindo com rigor a sua opção política, as suas intervenções profissionais, as essencialmente escritas, exercitam essa tendência sem qualquer resquício de neutralidade e posicionamento distanciado de um qualquer pendor que lhe possa deturpar a visão dos factos e consequente perspectiva de conceito.

Não sei bem se, em termos de quadro deontológico, a afirmação de direita por parte de M.C. lhe confere razão suficiente para o exercício tendencioso da sua escrita.

Não sei bem se, enquanto cidadão crítico, me interessa muito ler M.C. distraído e convicto de que a sua opinião não se encontra inquinada por qualquer preconceito que deturpe os factos e o seu próprio posicionamento crítico, ainda que a escrita me agrade, porque escorreita e bem congeminada.

Não sei bem se isso é um verdadeiro jornalismo, deontologicamente isento e fervorosamente preocupado apenas com a razão e a verdade.

O que sei é que a minha opinião não tem obrigatoriamente que corresponder ao plano de tendência que perfilho, apenas porque me sinto obrigado a usar das armas de que disponho para combater politicamente o que se posiciona no lado oposto.

O jornalista M.C. é porventura o maior e mais verrinoso detractor de Sócrates, essencialmente na imprensa escrita, já que na TV o espaço é menos propício a esse exercício quase doentio pelo qual M.C. enveredou. Mesmo assim não perde uma oportunidade.

Na verdade M.C. não pode ser obrigado a gostar daquilo que não gosta. Tem todo o direito e dever profissional de denunciar os factos e circunstâncias que se tornem perniciosos ao país, à política e à justiça, em suma, à sociedade.

Mas M.C. não pode, de forma cega e tendenciosa, denegrir quem quer que seja, insinuando ou transfigurando factos ou circunstâncias, acerca das quais não mexeu uma única palha em termos de investigação, limitando-se a acolitar o coro de oposição política oportunista, da qual, por mera coincidência, se afirma partidário.

Não pode, enquanto jornalista isento e impoluto que se afirma ser, usar de todos os espaços que profissionalmente tem à sua disposição para o exercício de manipulação política e ataque pessoal com que se vem manifestando contra o 1º ministro, sem que seja capaz de apresentar uma única prova daquilo que procura tendenciosamente induzir nos espectadores. Isso afigura-se-me intelectualmente desonesto e até perigoso como arma em mãos pouco seguras.

M.C. pode suspeitar da justiça que temos, juntando-se assim ao coro de mais de 90% dos portugueses que suspeitam do mesmo.

Mas assim sendo, é por aí que deve enveredar, denunciando a justiça que não temos e os podres que a minam destruindo a sociedade.

Quando, como Bob Woodward e Carl Bernstein, se der ao trabalho de investigar e substituir-se à justiça, o país agradece e estarei na primeira fila a aplaudir.

Sem esse acto de verdadeiro jornalismo de seriedade, todo o caminho que vem calcorreando veste mal a hombridade dos profissionais da comunicação social e presta um duvidoso serviço público à comunidade, como frequentemente proclamam todos os que se dedicam a esta nobre arte de informar.

E que não se resguarde no tradicional corporativismo inflamado que normalmente brota nestas alturas, não mais que instrumentos de auto-defesa que mais tarde serão usados em proveito próprio.

Há mais de dois anos que o jornalista enveredou por esta cruzada contra Sócrates, não estando aqui em causa a personalidade, ou valores éticos do 1º ministro, ou sequer se os tem.

Está em causa o acinte com que tem procurado molestar a imagem deste, não se coibindo de insinuações a roçar a dúvida ética, quer do 1º ministro quer do partido onde milita.

Entre dezenas de outros exemplos.

No auge do caso Freeport, M.C. foi capaz de, durante quinze dias seguidos, no decorrer do Jornal das Nove na SIC-Notícias onde milita, inquirir todos os seus convidados com a seguinte frase: “ Acha que o 1º ministro tem condições para continuar?

Em termos de resposta, da direita à esquerda, nem um único dos seus interlocutores correspondeu à resposta desejada pelo jornalista.

E M.C. não percebeu, nem ao fim de uma semana, nem provavelmente ao fim de quinze dias, porque razão ninguém lhe satisfez a sanha e a vontade doentia de ouvir a resposta mais ansiada, a que melhor servia os seus intentos políticos.

Durante uma entrevista com o ministro Pedro Silva Pereira colocou de forma torpe, relativamente ao Partido Socialista, uma questão que naturalmente exasperou o ministro, que lhe respondeu com contundência e à letra.

Foi mais uma vez exaltado pela oposição, independentemente de ter, mais uma vez, sugerido uma insinuação que punha em causa a honra dos dirigentes do partido. Gratuitamente.

O caso Manuela Moura Guedes terá sido mais vezes abordado no Jornal de M.C. do que na própria TVI. Houve quem afirmasse que jamais se defendeu ou exaltou o que de mais podre o jornalismo político produziu neste país. Marinho Pinto não se eximiu de o afirmar em plena estação de Queluz de Baixo perante a própria.

Finalmente M.C. atinge uma das suas metas profissionais, conquanto pareça encontrar-se distante do zénite almejado; transformou-se ele próprio numa espécie de mártir do jornalismo português, não obstante o seu “rabbit smile” e simpatia se coadunarem pouco com essa imagem.

Desta vez alguém ouviu o 1º ministro e apaniguados em lugar público a tecer comentários menos abonatórios sobre M.C.

No dizer do próprio M.C. ele foi o “epicentro” da maledicência colérica do grupo. Que honra… digo eu.

Eu não sei se o 1º ministro tem direito a tecer em privado uma opinião sobre M.C., ou qualquer outro cidadão, quando e onde quiser, seja ela qual for.

Confesso que não conheço o quadro de regalias que é conferido ao 1º ministro nesse campo. As coisas correm de tal maneira quanto aos valores éticos que já me confundo quanto ao quadro de direitos que a cada um cabe e como os exercer.

Contudo, estou convicto que, no parecer de M.C. – e no conluio corporativo da SIC-Notícias (como já ouvi hoje) – qualquer jornalista está investido do direito de insinuar as acusações mais torpes que se possam imaginar, de forma pública via mass media, acerca de um determinado político; mas o 1º ministro, mesmo esquecendo a sua qualidade de ofendido, está interdito de proferir uma opinião sobre M.C., especialmente se pouco abonatória e emitida no seu espaço privado, se é que nos tempos que correm isso ainda existe.

Não sei se entendem toda a diferença.

No dizer de M.C., um bufo fortuito e ouvido apurado (o bufo e fortuito são insinuações minhas) terá ouvido, claramente ouvido (também insinuação minha), o que aqueles maquiavélicos clientes do restaurante terão comentado entre si sobre o que pensam de M.C. Isso é grave.

O que M.C. insinua e enlameia acerca do 1º ministro em órgãos de informação sem exibição de qualquer prova é fruto da liberdade de expressão. Portanto, é normal.

M.C. quis transformar algo, que não se sabe bem o que foi, numa espécie de transcrição de escuta, procurando convencer o director do jornal de que o seu escrito era um artigo de opinião. Quando nos libertaremos desta herança pidesca de nos andarmos a escutar uns aos outros?!

A fonte é “alguém”… Uma quase retoma a Frei Luís de Sousa pela mão de M.C..

Mas este “alguém” tem um registo “fidedigno” que M.C. confirmou.

Já dá para suspeitar que se trata de uma cabala orquestrada com algum zelo. Sem querer, “alguém” amigo de M.C., foi-se postar em lugar próximo do 1º ministro, portador de dispositivo pidesco para escutar de forma fidedigna o que dizia Sócrates e reportar com fidelidade. A clareza com que M.C. nos esclarece a ocorrência só nos pode levar a esta conclusão. Tudo saiu perfeito.

Sócrates, um exímio ludibriador dos meandros da justiça, conseguindo escapulir-se por entre todo o rol de acusações de que é alvo há anos, cai numa esparrela de tecer comentários menos abonatórios sobre quem quer que seja em lugar público? É no mínimo um achado digno de imaginação. Os valores de que é acusado na arte de manipular e iludir de um momento para o outro desvanecem-se.

Perguntemo-nos:

A que propósito vem M.C. à baila numa conversa de almoço do 1º ministro?

O que leva três ou quatro pessoas com larga experiência no jogo político a ter o desvario de emitir comentários menos abonatórios sobre terceiros de forma audível para qualquer circunstante em lugar público?

Que raio de coincidências são estas de, com tantos assuntos para abordar e no auge da discussão do orçamento, ser a figura de M.C. o tema seleccionado e logo com o bufo certo por perto e de ouvido bem apurado?

Do sopé da minha insignificância lanço mão daqueles que, com mérito, são portadores do crédito suficiente para serem escutados.

Como refere com frequência a jornalista Clara Ferreira Alves, quando provarem uma única das acusações relativamente a Sócrates, serei o primeiro a levantar o dedo da acusação e enviá-lo para os infernos, que em vão vêm ardendo vai para quatro ou cinco anos a fio.

Entretanto, Mário Crespo, por favor, não me lixe…!

P.C.

One comment on “Finalmente temos mártir: Mário Crespo

  1. Normalmente não sou muito dado a comentários sobre questões políticas. Contudo, talvez por deformação profissional, reajo a certos tiques e atitudes de alguns jornalistas … mesmo aos bons. Têm a mania que o direito a informar (que eles consideram sagrado – eu não) está acima de tudo. E aqui o tudo, é tudo mesmo, incluindo o bom-nome das pessoas ou a presunção da inocência a que qualquer alma vivente tem direito.
    Nunca vi nenhum deles fazer mea culpa, mesmo quando reconhecem que estavam errados. Para eles tanto faz que as nódoas que por vezes deixam cair no pano branco, nunca mais de lá saiam, mesmo que o pano não tenha nada a ver com o assunto.
    No que respeita ao Mário Crespo, é daqueles que todos incluem (e eu também) no lote dos bons profissionais da informação.
    É pena que manche essa qualidade. Como muito bem diz, mesmo que Sócrates seja tudo aquilo, chegou ao exagero, perdeu a razão e transformou todos os insultos que ao longo dos últimos tempos tem trazido a público, numa espécie de vendeta pessoal que, a meu ver, belisca a credibilidade do que escreveu.
    Concordo integralmente com a sua reflexão e digo mesmo…
    Mário Crespo, por favor, não me lixe…!
    Lamento.

    Um abraço
    Egídio Cardoso

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