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Exames do 4º Ano. Um instrumento mal compreendido.

Estalou a polémica: submeter as crianças de 10 anos a um exame nacional nas disciplinas basilares de Português e Matemática.

Infelizmente tudo neste país é polémico ou político, ou ambas as coisas.

Prestou-se hoje mesmo de manhã, dia do 1º exame, o presidente, suponho, da CONFAP num programa radiofónico a tecer um aluvião de críticas ao ministro por tão inusitada decisão.

Não ouvi o programa todo, mas ainda ouvi um ou outro participante onde a preocupação era de facto a espécie de tornado que caiu hoje sobre as criancinhas, coitadas, com dez anos submetidas a um exame dos seus conhecimentos básicos.

Um pai acrescentou ainda que o seu filho era um aluno brilhante e responsável mas que na noite anterior ao exame a criança não tinha dormido bem. Pois é; perdeu-se o hábito e agora é capaz de assustar a novidade. Nada que o tempo não cure, sendo que para um aluno brilhante o receio seja capaz de ser mais do pai. A imagem da família é um bem precioso a preservar.

E pensar que no meu tempo as coisas eram naturalmente assim, mesmo que não pelas mesmas razões, e não me lembro de ter ocorrido algum acidente menos virtuoso com alguma das vítimas daqueles tempos. Outras gentes, eu sei. Gentes que edificaram este país para que agora não vá ficando pedra sobre pedra.

O senhor da CONFAP insurgia-se basicamente nos transtornos. Quanto à dimensão da medida e o seu possível alcance, nada.

Desconheço a sua formação, se tem experiência de ensino, enfim; se tem fundamentos que lhe permitam contestar uma decisão do órgão de tutela, que não terá empreendido esta medida apenas no intuito de molestar as crianças. Pode discutir-se tudo, menos objectivos tão superficiais que por vezes se desdobram na franja do ridículo.

Entre outros, o problema era basicamente aqueles alunos que não tinham aulas nesse dia, devido à ocupação das salas de aula pelos exames do 4º ano; onde iriam arrecadar os pais as crianças neste dia, sem que se entenda como o fazem sempre que a escola não tem actividades. Sempre o meu conforto em primeiro lugar.

Também a circunstância das crianças se submeterem a um exame com um professor diferente e em ambiente também estranho; não se lembrando o senhor da CONFAP que dentro de pouco mais de três meses as crianças vão mudar de escola e vão ter pela frente não um professor diferente mas sete ou oito. Chegou a admitir, como mais indicado e razoável, que os exames se efectuassem nas próprias escolas e vigiados pelos próprios professores dos alunos, percebendo-se aqui que o senhor não faz a mínima ideia das regras, finalidades e contornos dum exame nacional.

O mais importante era as crianças não saírem do seu ambiente natural, por assim dizer, não fossem estranhar o próprio ar que respiram.

Perguntou-se ainda se não era suficiente a avaliação que os professores faziam dos alunos ao longo de cada ano lectivo.

A resposta é obviamente não; porque, nessa perspectiva, aquilo que o professor avalia será aquilo que ensinou, sem que haja a garantia de que tenha sido correcto, eficaz, ou suficiente, por múltiplos motivos e circunstâncias, sem querer aqui equacionar sequer a idoneidade, eficácia, ou competência do professor. Mas quem leccionou quintos e sextos anos sabe perfeitamente do que estou a falar.

Em dado momento o senhor da CONFAP debitou a mais eloquente pérola desta sua intervenção radiofónica e com ela tudo ficou mais claro:

– “Um porco não engorda só porque o pesamos várias vezes…!”.

Nem mais. Equiparação e imagem mais que expressivas.

Tive curiosidade em ver o Telejornal das 13 horas e o das 20:00 também.

Lá foram entrevistar as crianças que alegres e confiantes faziam daquele dia um dia de festa. Nenhuma crise foi relatada pelas televisões, que, garantidamente, a não perderiam por nada deste mundo.

Consideremos então a importância e vantagens destes exames.

Vamos com 40 anos de ensino democrático e o que temos é o que se sabe. O ensino de outrora era elitista e servia os interesses políticos do sistema. A democracia alargou o ensino, democratizou-o e libertou-o. Mas ao longo dos anos estagnou, faltando estratégias de longo prazo com o compromisso de todos.

Cada ministro uma ideia; para cada ideia, boa ou má, faltou sempre tempo. As legislaturas são sempre demasiado curtas para programas de longo prazo, como devem sempre ser os que ao ensino dizem respeito. E ninguém se arrisca. Nenhum ministro ousou iniciar uma reforma por onde devia; pelo ensino básico. Todos lhe pegaram pelo meio ou pelo fim, consoante os seus interesses políticos e partidários; coisas de visibilidade imediata. Pegar na casa pelo telhado é sempre uma opção que não conduz à construção dum edifício com alicerces que a suportem.

No caso vertente concordo com a ideia. Defendo-a há mais de uma década. E convirá, antes do mais, e tendo em conta a politização deste tema, salientar que não tenho qualquer apreço ideológico, partidário ou político por este ministro ou por este governo.

O exame é um instrumento bem mais complexo e abrangente que a simples avaliação do aluno.

Fico com a ideia que o foco do debate está apenas a centrar-se na avaliação dos alunos, esquecendo o mais importante. Julgo que o ministro apenas lhe atribuiu 25% da classificação precisamente porque o que menos importa à medida será a avaliação dos alunos. Afigura-se-me bem mais importante a configuração da avaliação do sistema, da escola e dos professores.

Ele avalia o professor (obviamente responsabilizando-o pela qualidade do ensino que ministra), avalia o aluno, avalia a escola, mas avalia também o sistema de ensino.

O que tínhamos até aqui era o seguinte quadro: a única avaliação a nível nacional digna desse nome ocorria no 9º ano de escolaridade, sem que nestes nove anos ocorresse qualquer avaliação integrada da qualidade do ensino ministrado no país. De permeio lá apareciam as provas de aferição que, aparentemente, não aferiam nada, uma vez que os alunos, sabendo que não contavam para a sua avaliação, encaravam as provas sem qualquer rigor ou verdadeiro empenhamento. Não há registo de quaisquer resultados práticos dessas provas de aferição. Aparentemente um tempo e esforço perdidos.

Obviamente que um exame nacional a ocorrer no 9º ano da escolaridade ocorria tarde demais para avaliar, corrigir ou melhorar eventuais erros do sistema que tivessem acontecido a montante.

É notório e tradicional que neste país o rigor e avaliação do trabalho nunca foram motivo de grande preocupação. Sempre em frente e fé em Deus. E depois safe-se quem puder.

O exame agora proposto no 4º ano parece-nos fundamental por se tratar duma aferição importante da aquisição de instrumentos básicos cujo domínio correcto pode condicionar toda uma aprendizagem subsequente; aquilo a que se costuma qualificar de ferramentas básicas de função: domínio seguro da leitura e da escrita e segurança operativa das operações aritméticas.

Mas o simples facto da avaliação ser transversal a todos os sectores intervenientes (professor, alunos, escola e sistema), e dessa forma poder publicitar os resultados encontrados, induz a uma responsabilidade diferente da que ocorria até aqui, onde o comprometimento de todas as partes se diluía num anonimato tendente a uma menos-valia da qualidade do ensino ministrado, com os resultados que se conhecem.

No debate político, ou politizado, acerca deste tema, invoca-se que poucos países na Europa utilizam o exame como instrumento de avaliação, qualquer que seja o sentido a dar-lhe.

Poderá ser verdade.

Mas as vertentes poderão ser duas. Portugal também não tinha exames intermédios e tem o ensino deficitário que todos reconhecemos. Logo, à semelhança do nosso país, outros poderão encontrar-se em idênticas circunstâncias.

Por outro lado, muitos países que não recorrem ao instrumento exame adquiriram um grau de excelência tal que dispensam qualquer fiscalização da qualidade do ensino no fim de cada ciclo, implementando controlos de exigência bem diversificados, como o sejam requisitos de formação dos professores bem mais exigentes e conferência rigorosa do curso das actividades lectivas através de inspecções periódicas na sala de aula, esta uma prática liminarmente rejeitada no nosso país.

Um exame, qualquer exame, que vise uma avaliação concreta de resultados com fins de melhoria da qualidade do ensino e dos seus agentes será sempre um instrumento imprescindível que não deve ser negligenciado.

Um exame nunca poderá ser um transtorno.

Trata-se de uma medida que naturalmente trará resultados a médio e longo prazo.

Haja vontade e comprometimento político para o levar a bom termo.

 

P. Cabrita

4 comments on “Exames do 4º Ano. Um instrumento mal compreendido.

  1. […] – Exames do 4º Ano. Um instrumento mal compreendido. […]

    • Caro Cabrita:
      O tempo que nós perdemos a tentar interpretar estes cientistas da educação!!!
      Estas anormalidades mentais -que pensam que um miúdo de 10 anos vai ficar com um trauma eterno por ter de fazer um exame de Português- debitam para as câmaras da televisão o que lhes vem á cabeça, na busca de uma importância que nunca tiveram. Pior do que isso, são os ignorantes que estão à frente dos departamentos noticiosos das televisões, que, na busca de notícias, seleccionam tais energúmenos-debitantes dando-lhes tempo de antena. Anda tudo trocado! Até nós, os velhotes, sentimos que é necessário uma tremenda mudança que abale esta estabilidade pôdre em que vivemos, mesmo que tal mudança nos prejudique para o resto da nossa vida. Somos um povo pacífico e bacoco. Um dia destes, um angolano da nossa idade dizia-me: ” Sempre admirei os portugueses pela capacidade de luta, resistência e trabalho. Onde estão, Sr. Gabriel, que deixaram que uns miúdos mal formados lhes estragassem a vida?”. Calei-me!

  2. Concordo com tudo o que disse, mas temo que sejamos confundidos com as velhotas do Continente: “No meu tempo não havia disto!”
    A verdade é que, no nosso tempo, nenhum “puto” ficava traumatizado por fazer exame. Parece que a maioria, preocupada com o bem-estar das criancinhas, acha que o ensino é apenas tarefa de quem ensina sem a mínima participação de quem aprende.
    Como já foi dito, os únicos traumatizados que apareceram nas notícias foram os adultos. As crianças, essas, pareceram-me perfeitamente descontraídas. Mas isto, pensam alguns, é porque já somos velhos.
    Eu fiz exame da terceira classe e da quarta classe. E ainda me lembro de me ter sentido importante: de ambas as vezes, a minha mãe vestiu-me a melhor fatiota. Se pensam que era para não fazer má figura, estão enganados: a farpela domingueira tinha de condizer com a importância do evento

  3. Sem querer vim a este site e fico arrepiada com o que leio. É por haver caquéticos mentais como vocês que temos esta sociedade a perder-se. Alguma vez viveram de facto a paetrnidade / maternidade? Que sabem sobre os vossos filhos? Provavelmente t~em vergonha de voces! Eu teria.

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