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Ensaio sobre a pobreza e exclusão social

Exclusão. Uma inevitabilidade, ou perversidade social…?

10FEV2012 

Conheço pobres. Mas não sei o que é ser pobre.

Consigo apontar e qualificar excluídos sociais. Mas não sei medir o que é ser excluído social.

No fundo, posso imaginar. Mas não sou capaz de sentir nem uma coisa nem outra.

Há uma parede invisível mas sensível que me separa da insalubridade da pobreza e do desirmanar do meu semelhante: a minha pele.

Uma pele que me dói por contágio; uma fronteira que me aguilhoa por impotência e raiva.

Uma pele de consciência de uma dor que me consome; um muro de vidro espesso que apenas consigo galgar a espaços, quando o sofrimento alheio me trespassa e invade o ser e a alma, fazendo-me arremeter de encontro ao mundo infecto que, inconsciente, ajudo a construir.

Falar de pobres e excluídos é sempre um exercício de comiseração e um desafio à benemerência. Uma quase instituição que conjuga a pobreza com a sua não-solução.

A maior parte de nós sente-se bem quando pratica a caridade, agasalhando os desprotegidos da sociedade – e não da sorte, como soe dizer-se – como se isso fosse uma obrigação institucional, uma rotina sistematizada, um desígnio ou necessidade. Uma espécie de prática religiosa que nos deixa bem com Deus e a nossa consciência.

Ter um pobre a quem ajudar é, para a maioria de nós, um motivo de satisfação e de realização que nos conforta. Um portal por onde escoamos as sobras ou franjas do nosso bem-estar, um lenitivo de consciência para muitos de nós.

O pobre e o excluído são, na prática, instituições que a sociedade deixou florescer como uma decorrência normalizada da organização social que se foi instituindo ao longo dos séculos, percorridos pelo género humano numa permanente luta pela sua sobrevivência, numa espécie de pasto seco onde arde fácil a sofreguidão pelo poder, pela apropriação de bens de propriedade, pela gula do dinheiro, ou simplesmente domínio e poder sobre o seu semelhante em proveito próprio.

Não se é pobre por direito, desejo, ou opção.

Não se é pobre por vontade própria, nem por um qualquer processo masoquista de sofrimento consentido.

É-se pobre e excluído por um variado leque de circunstâncias. Algumas intrínsecas; mas a maior parte delas escorridas de uma consistente perversidade conferida ao ser humano – ao longo dessa quase eternidade que é a sua existência – consubstanciada na justa medida desse poder exclusivo que o Criador teve por bem dotar o homem: a inteligência.

Ou, traduzido por outras palavras, o talento maquiavélico que alguns humanos revelam para subordinar o seu semelhante à sua vontade e aos seus desígnios.

Genericamente, e em termos do seu desempenho social, o homem pode preencher uma escala de 0 a 20 quanto ao seu grau de inteligência, ambição, destemor, ganância, desprezo pelo próximo e capacidade de trabalho.

No topo desta escala estão os poderosos e os ricos, em suma, os que determinam o modo de funcionamento das sociedades. Todos eles albergam os itens acima referidos em proporções variadas.

Será raro o poderoso, ou poderosamente rico, que num processo analítico da sua personalidade não venha a revelar enquadrar-se no quadro acima descrito.

Contudo, neste quadro parece desenquadrar-se o item “desprezo pelo próximo”, quando temos conhecimento de obras e instituições criadas por detentores de enormes fortunas em prol da sociedade na forma do apoio e divulgação das artes, na investigação científica e, aqui e ali, obras de caridade em tons de lenitivo do sofrimento dos mais desprotegidos.

Por vezes acontece.

Mas fazem-no sempre depois de poderosamente ricos.

Fazem-no depois de um longo exercício dos “atributos” acima referidos e quase sempre numa desesperada tentativa de perpetuação da sua imagem e nome, para lá do seu desaparecimento físico. Fazem-no muitas vezes numa vã tentativa de refundir um longo processo de exploração, ganância e opressão, opróbrios sempre tolerados e aceites sob o manto diáfano do poder do dinheiro, que tudo comanda e determina. Uma tentativa fútil de remedeio de um dano empreendido durante longos anos. Uma dádiva ou gesto encapotado perpetrados a destempo e tarde demais. Às vezes um gesto cínico de complacência ou redenção.

Melhor tarde do que nunca, dirá sempre o pobre…

O ser humano é, na sua essência, desigual entre si.

Ainda que, genericamente, todos nasçamos fruto de um acto de amor, a conflitualidade dos genes gerados encarregar-se-á de moldar cada peça num eterno paradigma da incógnita que sempre subjaz na formação de cada ser humano.

Logo, é aceitável uma inevitável desigualdade, que grande parte da sociedade tende a subverter, ou escamotear, em slogans de igualdade de oportunidades e fraternidade, os quais jamais colherão consenso, verdade ou justiça na essência das sociedades e no sofrimento do ser humano.

Todos sabemos como falhou o conceito de imposição sócio-política da igualdade entre todos. Nem de um século inteiro precisámos para entender que não é possível procurar/obrigar tornar igual, aquilo que é desigual à nascença e na sua natureza, tentando igualizar aquilo que se move à rédea solta e alimenta o ser humano e os seus desígnios:

a ambição e o desejo insanável de saborear a vã glória de conquista sobre o seu semelhante. A deslumbrante necessidade de competir e vencer.

Essa é a essência do homem. Essa é, provavelmente, a sua razão de ser e existir.

Estaremos então perante uma imposição da natureza que nos tende, inexoravelmente, a dividir em pobres e ricos?

Teremos que, implacavelmente, nos repartir por compartimentos sociais que vão da extrema pobreza e exclusão, à luxúria da riqueza desmedida e desperdício?

Duas respostas possíveis.

Um sim pela negativa:

– Sim! Não há outra saída. É a História que no-lo revela cruelmente, acentuando cada vez mais as desigualdades, sendo que o único êxito conseguido pelo homem neste contexto foi a abolição formal da escravatura – que não a sua abolição real – apenas uma espécie de perversão de uma certa realidade que perturbava alguma sensibilidade que fomos adquirindo.

Não tenhamos fé. É tarde. À beira de nos destruirmos em termos de planeta, vamos assim perder uma última oportunidade de colocar esse embuste a que chamamos inteligência ao serviço da humanidade, no que toca ao direito à felicidade a repartir por todos. Esta uma aparente utopia. Mas quem sabe se não será nessa nossa auto-destruição, que nos vamos finalmente descobrir.

Um não pela positiva:

– Não! Há outros caminhos. Os caminhos da verdadeira humanidade, traduzida na repartição igualitária da riqueza, do amor e do carinho, onde a promessa celestial do paraíso desça à terra e nos faça felizes, ainda que uns mais que outros, conferindo assim esta nossa desigualdade intrínseca. Mas, todavia, felizes.

Ainda, e sempre, a mesma utopia, por muito que o desgraçado escriba destas linhas se consuma, desmesuradamente, em busca de soluções que ainda ninguém logrou descortinar. De utopia em utopia nos vamos iludindo e consumindo…

Em ambas as perspectivas se agiganta uma terrível dúvida.

“Há outros caminhos!”

Sim. Mas que caminhos? Com que sociedade? Com que homens?

Os que nos convertem em mentecaptos desprovidos de pensamento próprio e nos usam há séculos para fazer guerras em nome de Deus, de deuses ou mesquinhos desígnios pessoais?

Os que nos vêm convencendo da felicidade do pouco pão que se lhes escapa por entre os dedos descuidados e ausência de alternativas válidas quanto ao modo de funcionamento das sociedades actuais, que pouco ou nada se alteraram ao longo dos séculos em termos de estratificação desigual das camadas sociais, onde são sempre desprezadas e abandonadas as que se debatem amarfanhadas no fundo da cadeia social, esmolando as migalhas que escorrem da mesa da abastança?

Não. Não há caminhos. Não há fé. Não há valores. Não há esperança de uma melhor sociedade, ou de uma melhor salubridade social.

Há apenas uma outra fé, sim. Uma fé antiga. Uma fé de esperança, na benemerência e boa vontade de quantos lutam com as armas que restam, procurando minimizar a dor e o sofrimento dos que ficam de fora do limiar da felicidade e inclusão social. Dos que por vezes dão mais do que têm aos que precisam, sem esperar retorno, ou dádiva dos céus. Daqueles que o único poder que detêm é um coração que abraça e aquece o frio cortante da fome, escorando muros de vidas em derrocada, prestes a mergulharem nessa vala comum do desespero aberta a céu aberto na escuridão da nossa complacência: a exclusão.

Mas não mais que benemerência, caridade e amor ao próximo.

Não mais que remendos sociais aplacando a ira da carne viva, que voltarão a rasgar-se no dia seguinte, deixando de novo abertas as feridas apenas apaziguadas por curas precárias de ocasião.

Porque uma boa e verdadeira solução parece alheia à própria sociedade que gera a pobreza e com ela parece conviver sem remorsos, mas também impotência; a mesma impotência que nos vem trazendo submissos, inertes e abúlicos.

Haja, todavia, fé.

Fé nalguns homens de tolerância e boa vontade.

Fé nos donos do mundo que nos trazem assalariada a consciência, mas não secas as raízes do pensamento e a inesgotável capacidade de amar o próximo, que alguns conseguem ainda afirmar perante o negrume que invade – cada vez mais tenebroso – as perspectivas de um futuro melhor para a humanidade.

Fé nos que determinam os caminhos e a vida de todos nós.

Fé nos que podem mover a montanha, ou subir ao cimo dela e hastear a bandeira de uma glória que está por conquistar.

A glória e bandeira da verdadeira fraternidade de repartição do que de mais belo o homem foi capaz de inventar: o amor.

Pedro C.

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