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Encontros na Milharada (Parte 2)

Encontros na Milharada

8 de Março13

João Falências – Então bons dias senhor 1º ministro…!

1º Ministro – Bom dia sr. João, como está?!

– Não estou bem, muito obrigado.

– Algum problema de saúde…?

– Por enquanto ainda não é coisa de grande razão. Mas como as coisas vão andando os nervos já me vão pondo doente, sabe.

– Então tem que tomar um chazinho, ou ir ao médico para se acalmar.

– Olhe; no outro dia tive assim umas dores aqui na nhas cruzes e resolvi ir ali ao Amadora-Sintra. O sr. 1º já lá foi…?

– Não, felizmente não tive necessidade…

– Teve sorte então. Eu nem lhe vou dizer como é que aquilo anda por lá. Um dia, se lhe der jeito, passe por lá ou mande passar alguém. É bem melhor do que eu lhe estar aqui a contar. Até porque, se calhar, levava-mos aqui a manhã inteira; e eu nã vi tudo.

– Mas então foi mesmo assim tão mau…?

– Bem; o melhor é ver mesmo. Pela minha parte só lhe posso dizer que levei lá quase um dia inteiro e ao fim de uma data de horas de espera lá fui atendido. Por isso é que tive tempo de ir vendo como as coisas por lá andam.

– Bem… e então…?

– Sr. 1º…! Com sua licença; a porra é os políticos nunca saberem como vão as coisas na verdade. Tinha um primo meu que sempre me dizia: “Um 1º ministro, antes de o ser devia passar oito dias numa barraca, sem água nem luz; depois já podia ser 1º ministro…”. Ele achava que assim o homem que fosse pró governo haveria de ter outro sentimento. Nada como senti-las no lombo para poder contá-las e desculpe-me esta minha franqueza.

– Esteja à vontade sr. João. Mas afinal sempre conseguiu lá a sua consulta.

– Sim. Seis horas depois de ter lá chegado. Mas o problema foi o resto. Deram-me a receita e fui à farmácia. Resolvi pedir um orçamento porque vi lá muita coisa escrita e desconfiei.

– E então…?

– E então conferi o orçamento com a minha carteira e desisti dos medicamentos.

– …

– É uma porra nã é sr. 1º…? Desculpe-me a franqueza.

– É verdade…

– O homem da farmácia, vendo a minha situação, ainda me perguntou se eu tinha aforro suficiente para comprar um dos medicamentos pelo menos; aquele que era para as dores. E lá trouxe o remédio.

– E sente-se melhor…?

– Enquanto o tomei as dores abrandaram. Mas quando acabou, voltaram as velhacas.

– Então sr. João diga lá quanto lhe falta para adquirir os medicamentos que lhe faltam?

– Escusa de puxar pela carteira porque eu nã vou aceitar nada. A minha vida sempre foi a repartir; a fome e a fartura, sendo que esta sempre foi pouca ou nenhuma. Assim sendo, eu prefiro ficar com os meus; os que nã têm dinheiro para pagar os remédios. Salvar um nã tira nenhum dos outros da pobreza em que vivem. E nã me leve a mal sr. 1º. Mas a gente habituou-se a esta união e assim temos vindo a carregar o nosso fardo.

– Bem, era apenas uma ajuda ao sr. João, embora compreenda que era apenas uma pequena parte das suas necessidades.

– Pois é mesmo assim sr. 1º. Tal como o senhor e todos os outros sempre prometeram que as coisas iam mudar, já era tempo de mudarem mesmo. Nem lhe vou ficar aqui a dizer que foi tudo mentira o que prometeram nas campanhas eleitorais. Mas desculpe-me lá outra vez a minha linguagem; a porra é que se nã foram mentiras foram incompetências. E havendo incompetências o sr. 1º nã acha que deviam dar o lugar a outros…?

– Talvez, sr. João. Mas as coisas não são assim tão fáceis de ajuizar.

– Mas olhe que para nós fica tudo muito fácil de ver e de sentir no corpinho. Sr. 1º; vamos mudar um bocadinho de assunto…?

– Mas olhe sr. João; tenho muito pouco tempo, como deve calcular.

– São coisas rápidas, sr. 1º.

– Vamos lá sr. João…

– O meu vizinho tem TV por cabo. Aquilo é um luxo. E a gente passa muito tempo a ouvir os políticos. Papamos quase tudo, mas no fim a embaralhação ainda é maior.

– Faz bem estar informado, sr. João.

– Pois. Essa é a ideia. Mas o que acontece é que depois de ouvirmos algumas coisas ficamos na mesma, ou mais desinformados ainda… Veja-me lá se me dá aqui uma ajuda. Nesta confusão do Tribunal Constitucional o sr. 1º fez um discurso onde pedia aos senhores que fossem responsáveis por aquilo que iam fazer. A minha dúvida é esta: atão aquilo ali no tribunal nã é gente de confiança…?

– É sr. João. Claro que é. O 1º ministro apenas apelou para que deliberassem tendo em conta as dificuldades do país. Nada mais que isso.

– Portanto, deixe-me ver se entendo: o que o sr. 1º queria era que lá os senhores fizessem as coisas como davam jeito ao sr. 1º e não como ditavam as leis.

– O jeito, se lhe quer chamar assim, era ao país, não ao 1º ministro.

– Tá a ver?! Lá começa a minha embaralhação. Atão quem pediu para verificar se as leis lá do orçamento estavam porrêras nã foi o sr. Presidente da República…?

– Foi sim senhor…

– Quer dizer que o homem desconfiou… Se desconfiou mandou ver se estava tudo na linha certa. E nã estava. Atão explique-me lá sr. 1º, a ver se eu entendo: o Presidente desconfia, os homens das leis dizem que a desconfiança tem razão de ser e assim sendo confirmam que o Presidente tem razão na desconfiança. E o sr. 1º está abespinhado com os homens lá do tribunal a modes de quem…?

– É muito complexo, sr. João…

– Desculpe lá sr. 1º, mas nã me parece tã complicado assim. Atão se era preciso passar por cima das leis a bem do país, porque é que o Presidente nã ficou quietinho e nã aprovou as leis assim mesmo tortas, tanto quanto parece…? Acagaçou-se…?  com sua licença…

– Bem, isso já não lhe sei responder. O sr. Presidente apenas cumpriu com as suas obrigações.

– Atão e os do tribunal; nã cumpriram com as deles…?

– Assim parece sr. João.

– Agora já parece que tou entendendo. Nada como a gente falar direito. Já agora vai mais uma coisinha…?

– Sr. João. Bem que eu gostava, mas o tempo para mim é um bem precioso. Precisava que os dias fossem maiores.

– Tem graça. A mim dava-me jeito que fossem mais pequenos. Era menos tempo aqui à rasca com as minhas dores nas cruzes e era menos uma refeição que tinha que comer… Mas é uma questão pequenina. Pode ser.

– Espero que sim, sr. João. Vamos lá.

– O governo anda enleado com umas contas que temos que pagar que a mim até me faz confusão como é que alguém gastou tanto dinheiro mal gasto e agora temos que pagar com língua de palmo. Fala-se em mais de 4.000 milhões. Nã sei bem; mas dizem por aí as más-línguas que a governação do sr. 1º também tem muita coisa a ver com este dinheirinho. Mas nisso eu nã me meto. É plítica. A minha questão é esta: nesta afinação lá com o tribunal parece que os dinheirinhos a mais andam à volta de mais 1.000 e tal milhões, que alguns dizem que, descontadas as contribuições que há depois a pagar, no fundo nã passam de pouco mais de 800 milhões. O sr. 1º afinou com isto. Mas diga-me lá assim direitinho para eu perceber qual é a grande diferença entre 4.000 e tal milhões (com que já estávamos à rasca) mais os 800 e pouco que descambaram desta guerra com os homens do tribunal…? O sr. 1º vai-me desculpar a franqueza; mas está-me a cheirar que o problema do sr. 1º são os 4.000 e tal milhões que já tinha da sua governação: estes 800 ou 900 é assim uma fumaça de pasto seco para embaralhar os pardais da eira… ou não sr. 1º…?

– Bem sr. João. Levaria muito tempo a explicar e como sabe não há tempo que chegue.

– Eu percebo sr. 1º… Atão nã percebo.

– Ainda bem sr. João. Assim sendo até um dia destes.

– Quer dizer que posso voltar para mais uma conversinha…?

– Na medida das minhas disponibilidades, esteja à vontade.

– Eu volto sim senhor. Olhe, já agora dê cumprimentos meus ao sr. Relvas. Ele foi estudar, ou vai ficar em poisio…?

– Não faço ideia sr. João. Uma boa semana para si. E as melhoras das suas queixas.

– Também lhe desejo uma boa semana. E olhe…! Se lhe der alguma coisinha de saúde nã vá ao Amadora-Sintra. É que nã sei se sairá de lá melhor…

…/…

Encontros na Milharada (1ª parte)

https://pedrocabrita.wordpress.com/artigos-publicados/sociedade-e-politica/tiros-de-fisga-2/encontros-na-milharada/

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