Deixe um comentário

Diálogos à sombra. Ecos do Alentejo.

À SOMBRA DA AZINHEIRA.

( Deve ler-se com toda a beleza e veemência do sotaque alentejano)

2JUNHO2014

Passos Perdidos no Alentejo…

– Compadre Falências. Isto aqui debaixo da azinheira às vezes inté me parece a Assembleia da República.

– Na me diga que os deputados que aqui estão também têm a fama de trabalhar pouco e ganharem muito.

– Nada disso. É mais pela conversa. O compadre, ou anda a ver muito debate político, ou inscreveu-se p’raí nas Novas Oportunidades. É que muitas vezes nã chego a entender o que mecêa quer dezer.

– Atão diga lá onde é que se perdeu, compadre Jacinto. Tamém podemos montar aqui os Passos Perdidos…

– Pronto. Tá a ver? Que moenga é essa dos Passos Perdidos?

– Parece que têm por lá uma sala a que chamam dos Passos Perdidos. Histórias antigas. Também me parece que é por onde temos andado a maior parte do tempo; … perdidos.

– Nã anda muito longe da verdade, compadre. Mas a minha barafunda tem a ver com as últimas eleições e com as confusões que se vêm armando.

– Conte lá a ver se a gente desbarafunda isso.

– Atão; o Pi S ganhou. Os do governo levaram uma valente porrada; atão e agora vem o compadre Costa e quer mandar o Segurito da cadêra abaixo…? Atão quer dizer: se o homem perdia as eleições ela dava-lhe era um soco nas orelhas…

– É a plítica, compadre. O que o compadre Costa diz é que ganhou por poucos e que assim nã vamos lá.

– Nã vamos, quem? Os do Pi S, tá claro…?!

– Pois atão.

– Mas vamos lá a acertar isto melhor, compadre João Falências. O homem esperneia por todo o lado e diz que ganhou as eleições no partido, ganhou o Congresso dos socialistas e que, sendo assim, o polêro é dele.

– E foi. Até aqui, foi. E nã se pode queixar do Costa se lhe ter atravessado no caminho. O homem esteve quêto e quando foi altura até o apoiou. Mas dêxou-lhe o recado: “Ou te portas bem, ou eu (com sua licença agora, compadre, que o homem nã disse bem assim..) ou eu “CA**” na Câmara e venho por aí com os ditos em baixo e vai tudo à frente…!”

– Atão e tá-se mesmo a ver que agora picou-lhe mesmo a mosca na barriga…?!

– Se calhando… Mas o que o homem diz é que, com esta votação, mais coisa menos coisa, o Passos Coelho até se ri de folgado. E in chegando as eleições, com meia dúzia de tostanitos assim atirados como milho às galinhas,  inté é capaz de as ganhar outra vez e lá continua na governação.

– O que é uma porra, compadre. Tamém nã venho gostando do que vou vendo. Atão e mudando do Segurito pró Costa chega?

– Nã sei. Ninguém sabe. Mas olhe. Quem parece que nã tá gostando da conversa do Costa, além do Segurito, tá bem de ver, são os do governo. A gente ouve as notícias e o que agente ouve é eles dezerem que o Segurito é que é bom e que é uma vergonha o Costa querer deitar o homem abaixo.

– Essa tem graça, compadre Falências. Atão se se estão borrando, alguma coisa lhes chêra mal no Costa, salvo seja.

– Pois aí é que está a graça. Quando os do outro lado dizem que o que está é que é bom, nã sendo parvos, é de desconfiar.

– E já agora, que o compadre parece uma pessoa informada, o que acha do Costa? O homem tem jêto, ou na dança só mudam os sapatos…?

– Compadre Jacinto; tenho aqui um melanito pra si que trôxe lá do meu quintal.

– Mas atão pergunte-lhe pelo Costa e mecêa dá-me um melão…? E é bom o melão?

– Pois, cá está. Abra lá esse “Costa” pra ver se tá bom…

– Agora vou abrir o Costa… Entrou na mangação comigo o compadre…?

– Nada disso; faça de contas que esse melão é o Costa. Abra lá a ver se tá bom…

– ÃÃhh… Tou vendo, compadre João Falências. Temos que abri-lo pra ver se tá bom… É o que eu digo. Mecêa anda perdido aqui debaxo da aznhêra. Mecêa dava era cá um 1º mnistro…

– Mas olhe. Voltando ao melão sempre lhe digo: se os da governação nem podem ouvir falar no melão, quanto mais abri-lo para provar, ou muito me engano, ou é capaz de estar mesmo maduro.

– Assim sendo, tudo indica que vamos ter um ano bom pró melão.

– Agora sou eu que nã estou a apanhar o compadre Jacinto.

– Atão o compadre Segurito tamém nã vai ficar com um melão de todo o tamanho…?

– Ah grande malha, compadre Jacinto… Tá convidado pra meu adjunto…

– Primêro vamos lá atão ao melão… Depois ainda vou pensar nisso…

– Já se tá a pôr difícil e ainda nem o convidei. Isto é que vai um sequêro aqui no Alentejo…

17MAIO2014

 Justiça cega.

– Atão o que temos hoje, compadre? Vossemecê parece que vem por aí todo acabrunhado. Moengas com a sua Etelvina?

– Cal quê compadre João Falência. Lá com a minha Etelvina há o governo da casa que põe as coisas na ordem. Agora neste país fica-me assim a ideia que nem há ordem, nem mão de governe que endireite isto.

– Atão o qu’é qu’o apoquenta desta vez? Ainda anda às voltas com as rifas das faturas que dão automóveis? Na me diga que desatou a beber copos de vinho lá na venda do Manel só pra ter a tal faturinha prá rifa…!?

– Antes fosse, compadre. Lá o meu copinho eu continuo a beber; agora faturas nã peço. Se o governo quer polícias das finanças de borla que vá bater a outra porta que a gente aqui no Alentejo ficámos fartos de trabalhar de borla nos tempos do Botas.

– Assim é que é falar compadre Jacinto. Continuamos parvos ma nã é todos os dias. E vai daí qual é a moenga? Tá preocupado com as eleições que vêm por aí…?!

– O compadre hoje está com pouca pontaria. Parece o Manel Coxo que comprou uma caçadeira para apanhar coelhos e perdizes, já lá vão uma porrada de anos e inté hoje a única coisa que caçou foi o cão na Marizinha do monte, quando este lhe saltou pela frente e o homem o confundiu com um coelho.

– Mas deu-lhe bem. Despedaçou o bicho todo que nem uma chumbada se perdeu. Tirando a zoadeira da política o Manel andava tã encrençado nos coelhos que tudo o que lhe saltava ó caminho era coelho.

– A Marizinha é que nã achou piada e queixou-se à Guarda.

– Mas vamos lá às suas apoquentações de hoje ó compadre. Temos a política, tá bem de ver.

– Olhe compadre; lá se é política nã sei. Mas que me apoquenta, apoquenta. E isto até parece que é de propósito. Nã passa um dia que nã apareça mais uma estória. O compadre ouviu aquela do banquêro que foi multado num milhão de euros e qu’a justiça nã cobrou porque os anos foram passando e quando deram por ela já nã havia nada a fazer?! Tinham passado os prazos e o homem estava desculpado. Mas que porra é esta compadre? Mas atão a justiça tem prazos? Atão uma pessoa comete um crime, a justiça nã atua a tempo e o criminoso safa-se?! Atão e o juiz sacode as manitas e vai à sua vidinha…?

– É uma porra compadre. Tem razão. Mas olhe que isso nã acontece sempre. Tem dias. Mecêa ouviu aquela do padeiro que o patrão diz que lhe roubou 70 cêntimos.

– Ouvi sim senhor. Mas olhe que julguei que era uma brincadeira do 1 de Abril.

– Nâ senhora. Nã foi no 1 de Abril; foi mesmo num outro dia qualquer. A nossa justiça é que parece que é mentira todos os dias.

– E é caso para isso.

– Atão 70 cêntimo é razão para a justiça perder tempo? Tá o compadre a ver como é que eles nã têm tempo para tratar do caso do homem do milhão de euros…!! Atão, só nos supermercados, malta a abafar escovas de dentes, cremes de beleza e giletes prá barba é um vê se te avias todos os dias. E andamos a pagar juízes para desencalharem porras destas…?

– Pois assim nã dá tempo, tá bem de ver. Mas vamos lá ver; será que os homens têm dificuldade em contar o dinheiro…? Quer dizer; 70 cêntimos foi limpinho, homem pró tribunal e condenado mal se sentou no banco dos réus. Agora 1 milhanito de euros… lá vão contando devagarinho e olha a porra, já passaram 7 anos e ainda nã chegarem ao fim.

– Compadre, vamos à janta que se faz tarde. E olhe! Costuma-se dizer que a Justiça é cega. E eu tou cada vez acreditando mais nisso. Há por aí juiz que se nã é cego tá carregado de drioputrias, ou lá como se chama aquela doença, e nã há meio de consultar um doutor dos olhos.

– Eh compadre. Eu cada vez estou achando mais que o compadre dava cá um 1º ministro…

– Quem sabe…?! Tenho-os visto bem mai burros que eu e as pessoas votem neles.

– A gente um dia ainda monta aí um partido, compadre.

– Havera de ser lindo. No dia seguinte tínhamos uma fila de compadres caldeireiros…

– Caldeireiros…?

– Sim; atão mecêa nã se lembra nos outros tempos quem que consertava os tachos e as panelas quando elas se furavam…?

– Mecêa dava cá um 1º ministro, compadre. Com visão, palavreado e tudo…

 

PC

21MAR2014

A liberdade está cara…

– Compadre Jacinto, ando aqui numa descompreensão que nã sei se o compadre me pode ajudar a sair disto.
– Atão o que é qu’ aconteceu, compadre Falências? Nã me diga que lhe veio alguma marafação por causa das eleições.
– Nada disso compadre. As eleições já faz tempo que me desiludi delas. Cheguei à conclusão que me fartei de enganar em todas elas.
– Nã me diga. Quer dizer que o seu partido nunca ganhou as eleições?

– Ganhou. Atão nã ganhou. Mas vai-se a ver eu é que nunca ganhei nada com isso. Eu votei nos grandes, nos piqueninos e nos assim-assim; veja lá que até na abstenção eu votei. E ao fim de contas, tudo na mesma, a mesma conversa, a mesma pasmaceira; saem uns do polêro, entram outros e volta e meia trocam outra vez. Diga-me lá se nã tem sido assim, ó compadre?!
– Pois tem. Até parece que eles já estão combinados e tudo. Despois põem-se à garreia pra dar a ideia que tão zangados uns com os outros e lá vai a gente naquela ilusão de que… agora é que é, e vai-se a ver nunca mais é.

– Pois olhe que se o compadre não está com a razão, nã deve andar muito longe. E outra coisa engraçada é que os partidos nã gostem lá muito das abstenções e só há dias é que percebi porquê; é que por cada voto os partidos recebem dinheiro do estado.
– Nã me venha com essa, compadre.
– É como lhe digo; diz que são os custos da democracia; essa magana qu’agente julgava que ia ser uma coisa assim porrêra para todos, mas que afinal perece que é mesmo porrêra, mas é só pra uns quantos.

– Entre eles essa malta da plítica, qu’agente só os ouve cantar de galos mas nenhum se quêxa da vida que levam, nã é assim compadre Falências?
– Tal e qual. Mas há por aí uns senhores daqueles de palavreado fino que dizem que a democracia trouxe a liberdade e isso é bom.
– Atão nã é…? Eh cá acho que assim é bem melhor que andarmos sempre aí com um olho na pidaria com medo de abrir a boca.
– Nem mais compadre. Mas se quer que lhe diga fica-me a ideia que esta coisa da liberdade nã tá sendo igual pra todos; o que me parece é que uns usam a liberdade pra dizer aquilo que lhes dá na real gana, outros aproveitam a liberdade pra encher a barriga.
– Ah compadre Falências; mecêa dava um belo 1º ministro. Tá bem dito, sim senhor.
– Já a minha Arminda dezia a mesma coisa, coitadita. Mas como ela às vezes não dezia coisa com coisa…
– Era uma boa pessoa a sua Arminda.
– Mas a moenga que me traz assarapantado nã é bem essa.
– Mas essa já dá pr’agente se azucrinar, ó compadre. Atão vamos lá
– Depois do 25 de Abril nã há dúvidas que muita coisa melhorou. Com maior ou menor dificuldade agente lá se ia encarrilhando com a vida. Agora chegaram estes senhores que estão no governo e dizem que aquilo foi tudo mentira; que a gente nã tínhamos direito àquilo tudo (como se na verdade fosse uma grande coisa), que o país nã era tã rico como se pensava, mas inssencialmente, que andámos a viver acima das nossas possibilidades, que é uma coisa que me dá muita graça.

– Atão não… !? Eu nestes anos todos comi tanto que até engordei aí umas 300 gramas, ó compadre Falências.
– Eu até acho que numa certa manêra os homens até podem ter alguma razão. O país nunca foi rico, logo a fartura nã havia de ser muita, tá bem de ver. Mas se esta lavoura foi mal feita, se andámos a comer farinha a mais e se o dinhêrinho andava por aí a voar que nem folharasca varrida pelo vento, de quem é a culpa? É sua compadre Jacinto?
– Calhando é…! Ninguém mais se acusa…

– Mecêa hoje tá com graça, compadre. Até parece o nosso 1º ministro quando diz que tamos cada vez melhor, ou atão o Segurito de olho no polêro cada vez que bota palavra.  Mas quer dizer: os bancos emprestavam dinhêro a granel pra tudo o que fosse festa (mas também nã sei onde o iam buscar); os sendicatos ameaçavam com greves antes das eleições e os que governavam abriam os cordões à bolsa e lá aumentavam os ordenados e as pensões; caía um governo porque o povo queria ainda mais e melhor (tá claro… só de fossem parvos é que nã queriam…), os que pra lá iam voltavam a dar aumentos pra ganhar as eleições a seguir. E pergunto eu: e que culpa tenho eu disso? Quem é que governou, fui eu…? E agora apanho com esta desausteridade porque toda a gente governou mal?
– Eh compadre. Isso é que é falar, heim…!
– Daqui a pouco o compadre Jacinto começa a dezer que eu já pareço o Governo.
– Melhor… munte melhor…!
– Ó compadre. Mas que raio de justiça é esta? Os que governarem mal estão de barriga cheia e todos bem na vida. Os que forem mal governados agora paguem com língua de palmo e vão gemer aí por uns bons pares de anos, segundo o nosso presidente da República, que me faz lembrar um pinheiro bravo a andar.
– Será que vamos voltar ó intigamente, compadre Falências…?
– Nã lhe sê dezer, mas há coisas que até lhe posso dar de certo: o compadre, eu e outros como a gente vamos continuara minguar,  a votar em liberdade e em democracia grazinando pra tudo o qu’é canto, mas ninguém nos vai ouvir; os que nã governam, mas antes se governam, vão continuar a comer que nem labregos e a dezer que isto cada vez está melhor.
– Atão nã havera de estar, pudera… Isto é que vai uma porra duma democracia e liberdade, ó compadre…! E o qu’é qu’a gente pode fazer?

– Sente-se e vá comendo o que lhe sobra da liberdade e da democracia. Mas não inxagere nem se queixe, nã vá ela acabar-se d’hoje pr’ámanhã…
– Tá com medo, compadre Falências…?
– Não. Só que tenho a barriga cheia de tanta liberdade e democracia mas continuo com fome… ou estarei a inxagerar…?!
– Pois, se calhando está. Os homens dizem que isto cada vez está melhor…
– Compadre Jacinto. Vamos andando. Da forma como a conversa vai andando daqui a pouco isto aqui debaixo da azinheira parece a Assembleia da República…
– Atão vamos lá sr. deputado…
– Olhe agora quando mecêa disse deputado veio-me assim à cabeça um outro nome que nã era bem deputado… Está-me a dar prá asnêra, compadre…

– Ainda há liberdade… Aprovête…!
PC
27FEV2014

A chuva e as rifas…

– Nã sei porquê, mas toda esta chuva tem-me feito pensar, compadre Falências.
– Atão porquê? Vem-lhe estragando as semeaduras?
– Nada disso que eu não semeio nada. A terra até parece que anda virada com a gente; nã dá nada. Apodrecem as sementes e os bichos comem o que resta.
– Sã os tempos compadre. Tanto da terra se tirou que ela acaba morrendo com’as pessoas. Mas volte lá à sua cisma das chuvas que têm por aqui caído, qu’até parece que se desaba o céu em cima da gente.
– Tenho lembrança do padre dezer que Deus mandava chuva para limpar as asneiras dos homens. Lavar-lhes a alma, que era como ele dezia.
– E vai daí o compadre tá a querer dezer que este porradão de água qu’a gente tem levado tem destino certo.
– O compadre viu o Congresso do Pi SD?
– Que remédio; dei mais de cinquenta voltas à televisão e até me parecia que estava avariada. Estava tudo a dar o mesmo. Até à antena fui.
– Atão e gostou?
– Das partes em que estive acordado tirei umas por outras. Nas outras em que dormi, nã apanhei nada.
– Pudera; atão se tava a dormir… Mas em calhando essa foi a melhor parte, ó compadre.
– Pode crer. Aquele resfolgar ali no sofá quando dá a morna da soneira, nã é coisa que se possa desprezar. Mas o compadre Jacinto ia a falar do Congresso.
– Apareceu lá um fulano dos do Pi S.D. que dezia assim: “ … as pessoas estão pior; mas o país está melhor.” E a minha Etelvina, que nunca dorme, disse: “Olha! Toma-te!”. E fez um gesto que eu agora nã lhe vou explicar. E disse mais: “Tens que ir mais à rua ó Jacinto. Andas-me sempre a grazinar que isto tá mali, tá mali… e vai-se a ver o país está melhor e tu nã dás por isso. Por onde raio é que tu andas Jacinto? De casa prá venda e da venda pra casa sempre enleado no vinho…?”
– Eh lá, compadre. Picou-lhe a mosca, tá visto. Mas espere lá ó compadre. Nã era a sua Etelvina que andava assim a modes que embêçada nas falas do Passos Coelho por via daquela voz melosa, qu’até lhe dava arrepios…?
– Nã voltamos à moenga da conversa, compadre…
– Pronto; já cá nã tá quem falou. Mas o homem estaria bom da cabeça, ou terá sido uma graça?
– Graça nã me pareceu porque lá veio depois o nosso 1º ministro que disse a mesma coisa, mas com palavreado diferente. A minha Etelvina é que apanhou tudo.
– Pois atão… quando fala o dos “… arrepios na espinha” ela apanha tudo…
– Compadre! Vamos ter marafação ou quêim…?!
– …!
– … ela até diz que é com falinhas mansas que se vai apanhando os pardais.
– Atão quer dezer que já lhe passou… Mas ó compadre; e atão o qu’é que me diz às rifas das facturas que estão por aí agora? Parece que vão dar um carrão todas as semanas.
– Olhe. Nã sei. Mas pergunte ao Manel da Venda o qu’é que ele acha. A Ti Felismina no outro dia entrou na mercearia dele e pediu um quilo de batatas e pediu factura; chegou à porta, voltou pra trás e disse que afinal queria também arroz, e pediu outra factura; mal tinha o papel na mão, vai de acrescentar: “Já agora levo 50 cêntimos de rebuçados prós moços…!”… e vai mais uma factura. Até que o Manel se desencabrestou e mandou dois porradões no balcão.
– Quer dizer que o pessoal anda aí todo feito a um Porches ou a um BMdrabliu…
– Atão e nã tinha graça ver a Ti Felismina aparecer aqui de Porches… Só que tinha que arranjar uma placa nova porque com aquela falta de dentes à frente o Porches havia de desluzir…
– O compadre começou a conversa falando da chuva que tem caído por aí. Tá o compadre com ideia de que Deus anda com vontade de limpar esta politiqueirada toda?
– Nem mais, compadre. E ainda lhe digo. Quando voltar a chover ainda vou abrir todas as torneiras de água lá de casa. Sempre é uma ajudinha… Nã acha…?
– Grande ideia compadre Jacinto… Vocemecêa hovera ter ido era ó Congresso do Pi SD. Mecêa falava e nim o Marcel se astrevia a levantar o cu da cadeira…
– Se calhando… até se acagaçava todo…
– Mas olhe; essa das torneiras todas abertas nã sei se será boa ideia. Primeiro pergunte lá pra cima quem é que paga depois a conta da água… Fale com o padre primeiro…

PC

19FEV2014

A D. Etelvina e a plítica…

– O compadre Jacinto hoje vem assim a modes que azucrinado com a vida. Da forma como deu além dois pontapés nos torrões eh cá vi logo que vinha ensarilhado. A burra deu-lhe algum par de coices…?
– Antes fosse a burra, compadre Falências. Mas as porras foram mesmo com a minha Etelvina.
– Ó homem; atão vocês agora com uma idade dessas é que se põem às amarras…? Mas conte lá, pode ser até que seja coisa de razão.
– Apareceu o P. Coelho na televisão a falar com aquele jêtinho dele sobre uma moenga qualquer, que eu nem percebi patavina; o compadre sabe como é que é. Eles falam falam e a gente às vezes fica a pensar que eles falem assim daquele jêto só prá gente nã os perceber.
– Já tinha pensado nisso. Eh que se eles falassem de manêra que a gente os entendesse já andava aí tudo à porrada. Assim ficamos a pensar que não temos entendimento para conversa tã complicada e olhe… vamos prás novelas, nã é compadre?! Mas conte lá.
– O homem tava a falar a falar, assim como quem sabe o que tá a dezer com aquela voz a fazer lembrar o padre lá na prédica de igreja, e sai-se-me a minha Etelvina com esta: ” O moço até que é jêtoso… e tem uma voz que dêxa a gente assim… com vontade de ouvir; às vezes até se me arrepia a pele…”
– Eh lá…! E o compadre ficou-se…?
– Eu olhê pra ela, baxei a cabeça, arregalei-lhe os olhos, franzi a testa e disse-lhe assim mesme: ai arrepia-te a pele…?! Atão vê lá se queres levar ali com o pano da cozinha encharcado nas ventas a ver se te passa o arrepio…!
– Eh compadre… Mas isso nã foi assim forte demais…?
– Acha…? Atão tá ela ali comigo e põe-se-me a fazer olhos da cabra pró P. Coelho…?! Mesme na minha frente. Acha bem o compadre Falências…?
– Pois não. Podia fazer mas lá pra dentro dela, nã é…?
– Vamos ter porras ou quêim…?! Afinal quem é o homem lá da casa? O P. Coelho ou eu…?
– Nã se abespinhe compadre. Mas vou-lhe contar a melhor. Dizem que o nosso 1º ministro estudou a voz, que andou pr’aí nos estudos do canto precisamente para enlear a malta com palavreado doce. O que dizem é que o mulherio (e outra rapaziada que agora nem vem ao caso… cala-te boca…) até se encanta cada vez que o homem fala. E olhe que a ver pela sua Etelvina… a coisa… nã é…?! Tá-me a perceber…?
– Bem; o melhor é a gente mudar de assunto. Hoje já nã me vai correr bem o dia. Arrepia-lhe a pele… Sim senhor…! Arrepia-lhe a pele…- Deixe lá compadre; isso é cisma que lhe passa. Mas olhe, o que me chamou à atenção nã foi bem as sensações da sua Etelvina… oh porra lá ia eu agora desencarrilhando outra vez, desculpe lá ó compadre…

– Ai a porra… Quer ver que a gente hoje se desencabresta, compadre…?!

– Desabespinhe-se lá compadre Jacinto; nã vale a pena a gente agora enlear-se com esse assunto. Ia eu dizendo que o nosso 1º ministro agora anda pr’aí todo inchado… com a tal voz… que agora é que estamos vivendo bem; ou seja: que agora é que estamos a viver dentro das nossas possibilidades. Portanto: no intigamente éramos pobres, veio o 25 de Abril e a gente acreditou que íamos deixar de ser. E as coisas pareciam bem encaminhadas. Atão e agora voltamos pra trás…? O qu’é co compadre acha disto?
– …!
– Continua encabrestado já vi. Atão dêxe-me ir falando enquanto o compadre se alivia desse peso que traz na cabeça.
– Qual peso, compadre Falências…?
– Pronto já andei fora do rego outra vez. Queria dizer dessa apoquentação lá com a sua Etelvina. Mas adiante. O homem parece que anda todo inchado com o trabalho que anda fazendo. Diz que a economia anda nos eixos e que as coisas estão no bom caminho. O compadre acha?
– Eu hoje, se quer que lhe diga, nã tou achando nada…
– Está pesado hoje, já vi. Mas eu tou vendo as coisas doutra manêra. Lá se a economia anda ou nã anda eh cá nã sei. O que nã percebo é do qu’é qu’o homem se ufana. Atão vamos cá ver: desencabrestou os impostos por tudo quanto mexia; baixou os salários dos funcionários públicos; surripiou as pensões aos raformados, coitaditos que até aqueles que ganhem pouco nã escaparam, arrebentou com uma data de empresas dos restaurantes e outras varrendo uma data de gente pró desemprego, cortou nos subsídios de desemprego, os moces novos é só imigrarem como intigamente… E atão é neste preceito que ele diz que tá fazendo um grande trabalho…? Atão o compadre Jacinto se fosse 1º ministro nã era capaz de fazer o mesmo trabalho…? Atão assim onde é que está a dificuldade…? Qu’é que acha compadre?
– Eu hoje nã tou achando mesme nada. E vou-me andando…
– Cumprimentos à comadre Etelvina… E ela que se meta mais nas novelas…
– Eu dou-lhe os arrepios de pele…
PC

15FEV2014

O homem sabe da poda…

– O compadre tem visto o Marcelo?
– O Caetano…? Atão esse pêrro nã morreu já faz tempo…?
– Não. Tou falando do Sousa; aquele da TVI que fala quase sozinho e nem precisava da senhora que lá está com ele.
– Nã sei quem é. E isso dá a que horas?
– É ós domingos depois do noticiário. O homem sabe tudo. Até de bola…
– Nã vejo não. A minha Etelvina mete o comando na algibeira do avental e nã tenho ordem para lhe tocar. É por causa das novelas. Ela leva aquilo tudo muito bem contado. Nã lhe escapa uma.
– Pois, assim dessa maneira o compadre nã vê o Rabelo de Sousa; anda agarrado às novelas.

– Olhe que não, como dizia o compadre Cunhal, olhe que não. Eu desde que vi um magano que numa novela era filho, na outra logo a seguir era o pai e mais tarde era filho também, mas um grande filho da puta, olhe, deu-se-me uma embaralhação tão grande na cabeça que nã vi mais nenhuma.
– E faz bem compadre. Mas também lhe digo; se mecêa visse o Marcelo na TVI era capaz de ficar tão embaralhado como ficou nessa tranquelharada das novelas.

– Mas porquê compadre, João Falências? Ele também uns dias é filho e noutros filho lá da mãe dele…?
– Isso agora já nã lhe sei dizer. Mas há quem diga que o homem sabe falar e na verdade a gente fica ali de boca aberta porque o homem tem um palavreado que aquilo mesmo que nã teja certo, parece.
– É a plítica,  nã é compadre João?!
– É! Essa magana que veio com a democracia mas a gente ainda nã lhe apanhou o jêto. Só os dotôres é que lhe vêem algum sentido.
– Mas o compadre ia a falar do Marcelo da TVI.
– Como o compadre sabe anda tudo aí numa marafação com o governo por causa do dinhêrinho que tem ido prás finanças e o povo aí a gemer quase como o tempo de intigamente, o compadre lembra-se?
– E eu ia-me esquecer disso, não?! Muita fominha passei.
– Pois dá a ideia que volta a haver gente que anda com a pele da barriga a dar pró franzido de tã leve que vai a tripa.
– Isto é que vai uma porra, compadre João Falências. Atão o 25 de Abril nã era para acabar com essa canalha que nos punha aí a pão duro e jornas de miséria?
– Era. E as coisas pareciam ir bem encaminhadas. Mas agora parece que voltam a desencarrilhar outra vez.
– Mas voltamos lá ao Marcelo que o compadre ainda não se desembrulhou para lá chegar.
– O compadre sabe que isto da plítica tem a ver com os partidos; cada um com o seu poleirinho, o meu é melhor co teu e de tempos a tempos, ou é o Pi S ou o Pi SD que se empoleiram no governo. Por lá ficam uns tempos e começam os outros que tão de fora a matraquear roidinhos que nã voltem pra lá. Os que tão defendem-se, os outros vá de ratinhar para sassentarem na cadêra.
– É o que temos tido, compadre. Atão e onde entra o Marcelo…?
– Ontem o Marcelo veio com uma conversa, que mais ó menos é assim: o Pi SD tá desejando que o Pi S ganhe as eleições que vai haver agora lá pra Europa. E ainda por cima ajuntou que nã será bom que ganhe por poucos; tem que ser assim com uma razoira daquelas de intigamente; daquelas que faziam uma curva e o alqueire ficava com um cagule que mais parecia além o monte do sobrêro grande.
– Espere lá ó compadre; mas atão nã é o Pi SD que tá no governe?
– Éi…!
– Atão e querem que ganhe os do Pi S…?
– Sim…!
– Olhe que essa embaralhação ainda é pior que a das novelas, compadre Falências. Afinal qual é a moenga…?
– A moenga compadre é que parece que os do Pi SD estão gostando do trabalho do compadre Segurito lá do Pi S. Ou seja: eles nã estão muito interessados que o Segurito desande. Devem achar o moço engraçado. Pelo menos lá na Assembleia o P. Coelho farta-se de rir cada vez que o Segurito se entramelga no discurso.
– Essa é boa compadre. Então daí que o P. Coelho passe os dias a dizer  (com sua licença) que tá cag++++… prás eleições…
– Ora bem; o compadre está lá chegando. Mas e agora pergunto-lhe eu: assim sendo, como é que o compadre vai votar? No Segurito ou no P. Coelho?
– Imbaralhou-me outra vez, compadre. Quer dizer que se o P. Coelho tá gostando do trabalho do Segurito é porque já o tem no papo quando chegar à altura das eleições pró polêro…!
– O Marcelo nã disse assim, mas foi como se tivesse dito.
– Vamos lá ver; e atão lá no Pi S nã encontram mais ninguém que tire aquele riso sacana ó Coelho…?
– Dizem que sim. Mas nã sabem lá muito bem como empurrar o compadre Segurito da cadêra abaixo. Parece que o andem a empurrar devagarinho, mas o magano faz-se desintindido…
– Olhe e aí é que tá uma porra, compadre. Uma dessas é que ainda nã me tinha alembrado.
– E assim sendo em quem é que o compadre vai votar prá Europa?
– Vou ter que pensar. Anda anda ainda vou prás novelas… Pelo menos ali a gente sabe quem é o verdadeiro filho d…p…

PC

10FEV2014

Anda tudo desquecido…

– Compadre, é como lhe digo: ou o pessoal cansou-se ou já anda tudo com a cabeça fermentada com’a gente quando o patrão nos punha na aceifa no pino do sol d’agosto.
– E porqu’é que tá dezendo isso, compadre João Falências?
– Andava tudo aí na revolta contra o governo por causa da robalhêra do denhêro ó fim do mês; ele era os funcionário públicos, os raformados, os desempregados, os moços que na gramavem a troika, os outros que saíem das universidades e nã tinhem trabalho e lá tomavam o caminho da imigração e mais uns quantos. Lembra-se disso…?
– Atão não; eles apareciam todos os dias na televisão com os punhos fechados a prometerem ir às ventas ó 1º ministro e ó outro que lhe deu a marafação e disse que se ia embora de manhã, mas voltou logo à tardinha já com outro polêro qu’até parecia a águia Vitória do Benfica…
– Pois foi compadre. E o qu’é que aconteceu para de repente tudo se calar…?
– E eu sei cá compadre…!? A verdadinha é que de repente tudo se calou; nim jornais, nim televisão…
– E o compadre na tá vendo porquê…?
– Tou vendo tanto como tou vendo a minha reforma a crescer…
– Veja bem; andava aí um reviralho na rua que nem o Passos nem o Cavaco se astreviam a meter o nariz fora de portas que nã levassem com a Grândola nas orelhas. Ficavem na toca que nem ratos. De repente, um moço bem parecido lá na Assembleia resolveu eriçar-se com um papel na mão duma trequelareca da coadopção (qu’eu nem sei lá bem o qu’é isso) e mais seis moços que resolverem tomar banho na praia às onze horas da noite e lá ficarem estrafogados nas ondas, porque o chefe deles (um rapaz que agora lhe deu em desquecimentos…) achou que sim e mai nada… e foi-se o reviralho pró… (agora ia-me dando prá asneira…), pró cacete, pronto, assim sem mai nem menos. E o qu’é que o compadre me diz a isto?
– Olhe, nã sei. O governe continua a cag… (olhe lá me ia saindo uma bojarda também…), tá-se marimbando prá gente, pronto, e o pessoal emarfanhou-se nas notícias e até parece que já tá tudo resolvido. Como é que a gente vai explicar uma coisa destas. Vão assim os tempos…?!
– Pois a mim nã me chêra que seja assim, compadre. Quando a barriga dá horas e nã há ração a gente só ouve o rastolhar das tripas a clamarem de vazias.
– Pois; e eu nã sei como é…!? E atão o que acha o compadre João?
– É como diz o compadre. É dos tempos. Veja bem a algazarra que fizeram os jornais e as televisões com as manifestações, os comentadores (tude gente bem vestida e luzidia), os sindicatos, as misérias da fome, os doentes nos hospitais, falta de dinhêro prós medicamentos dos aposentados, as cantinas para matar a fome aos mais desgraçados… e de repente, um rapazito da Assembleia bem penteado (que fome nã há-de ter) e seis desentendidos com a força do mar e embaralhados com as brincadeiras do que mandava… acabarem com a crise, acabarem com tudo.
– Isto é que é uma porra, compadre João Falências…!
– Os tempos mudarem mesmo, compadre. E a ideia que me dá é que há cada vez mais doenças. Muitas tratam-se com medicamentos; mas outras já nã sei se há tratamento.
– Mas que raio de doenças são essas, compadre…?
– Surdez e estupidez…
– Essa segunda é pra mim…?
– Nã senhora, compadre. É mesmo pra mim, que devia ter estudado pra doutor, pra presidente, pra deputado ou pra proprietário e mecêa ia ver se eu nesta altura nã estava também a discutir essa porra da coadopção e os moços da praia do Meco a deixarem-se morrer que nem anjinhos.
– …!!
– E lá me vem à cabeça o que me dizia o latifundiário que me trazia à jorna.
– …!!!
– Manda quem pode… obedece quem deve…!
– …!!!!
– Compadre…?!
– …!!!
– … também já adormeceu…! São os tempos…
– …!!!
– … vou-me andando…!

PC

1FEV2014

O porcos do Sarafim.

João Falências, alentejano de outros tempos e outras dores, sentava-se um dia à sombra da velha azinheira, catando os dias e o pouco sol da vida que nunca viu a pino.

Chegou-se-lhe o compadre de toda uma vida que, descendo pelo cajado abaixo, foi encavalitando as dores umas nas outras e lá se sentou numa pedra dura e enrugada que por ali fazia as vezes duma cadeira. Ficaram num silêncio de estio das palavras como restolho em fim de safra. Por fim…

– Atão João, com’é que vás vendo a plítica e esta cisma contra os raformados…?
– …!
– Nã tens entendimento…?
– …!
– … ó iste está a ficar come intigamente…?
– Nã sei compadre. Mas vende as coisas come tão só me vem à ideia o Sarafim e os porcos dele.
– Com’é que foi…?
– O Sarafim tinha 5 porcos. Trabalhar na era com ele. Às tantas deu em perceber que nã tinha comida para dar ós 5 porcos.
– … e atão? Resolveu trabalhar…!
– Não! … E atão pensou: deixo morrer dois à fome e os outros 3 safem-se.
– … olha a porra da ideia…!
– E assim fez. E lá na taberna bebia copos de contente grasnando a toda a gente que tinha 3 porcos luzidios…
– Atão e o prejuízo dos 2 que morreram…?
– Nã lhe deu marafação nenhuma; morreram e pronto, dizia ele, enquanto emborcava mais um de tinto.
– Mas atão, ó João; e o que é qu’ isso tem ver com a plítica qu’a gente vai tende…?
– Nã sei… Mas fez-me lembrar, o qu’é que mecêa quer…?!

– Mas ó porra…! Mas eu é que nã me sinto porco …!

– Mecêa não; mas eles acham…!

PC

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: