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Vida difícil para o Pai Natal…!

Ali pelos primeiros dias de Dezembro começaram a impregnar a criançada com o tilintar dos sons do Natal que se aproximava, acompanhados dos sabores doces dos chocolates e das prendas que já se começavam a acomodar no saco do Pai Natal, essa figura lendária, símbolo meio religioso, meio pagão, que faz as delícias da pequenada.

Convém aqui fazer, desde já, uma breve correcção.

É que nem todos os progenitores entendem a deliciosa figura do Pai Natal como uma boa opção a acrescentar ao ideário das crianças, tendo em conta que, mais tarde ou mais cedo, a mentirinha terá que ser revelada, tornando-se por vezes complexo explicar a contradição com o “Não me mintas…!”, mesmo que a deliciosa ternura infantil quase o justifique.

Há, pois, quem opte por revelar a verdade desde logo, evitando assim embaraços e más suspeitas que os mais argutos nem sempre esquecem. Há também aqueles pirralhos que cedo suspeitam de que ali há história, ou por descuido calculado dos pais, ou por começarem a somar 2 mais 2 demasiado cedo.

O meu Diogo (o meu querido insurrecto; o outro é ainda, e tão só, querido…) desistiu da ideia do velhote das barbas muito cedo, fruto provável das duas circunstâncias atrás referidas, combinadas sem grande dificuldade; nem os pais entendem a virtualidade do bonacheirão como uma boa forma de ilusão doce, nem o “insurrecto” alimentou a ideia por muito tempo… como seria de esperar.

Este ano as coisas não correram bem lá no colégio.

Meio sanada que está a história da “exploração do trabalho infantil” que o Diogo descortinou lá na escola (como já se contou neste mesmo espaço) outra questão se levantou, desta vez com o Pai Natal.

Entre a miudagem soaram as primeiras projecções das prendas já solicitadas por carta (ou agora talvez já por Internet…) ao velhinho da barba branca e o Diogo nem esperou dois minutos para desmontar tudo aquilo.

– Qual Pai Natal, qual quê!? Não há Pai Natal nenhum! É tudo treta…! Quem compra as prendas é o teu pai e a tua mãe!

Primeiro o silêncio e alguma estupefacção dos circunstantes de palmo e meio; logo após, alguma contestação, embora tímida, de um ou outro mais convencido de que o sonho existe mesmo. A firmeza do Diogo havia caído com algum estrondo de enorme pedregulho rolando pela montanha abaixo.

Nada parco em palavras, fértil na retórica e politicamente absolutamente nada correcto, o Diogo desmoronou em segundos a boa dezena de sonhos que por ali ainda se mantinham de pé.

Foi complicada a tarefa da professora, quando na aula seguinte a destruição operada pelo Diogo veio a terreiro. Pedagogicamente meio responsável por algo que sabia ser mentira, a senhora terá passado um mau bocado, para não ter que se inclinar nem para a esquerda, nem para a direita, isto politicamente falando. O debate terá sido aceso, tendo ficado por um impasse, assim à moda dos adultos quando se sentem responsáveis e encurralados, mas querem levar a água ao seu moinho.

Mas as coisas pioraram no dia seguinte.

Choviam pais um tanto agastados com um terrível agitador que tinha operado uma autêntica revolução cultural subversiva na imaginação das suas criancinhas. Não sei se terão chegado a tanto, mas alguns mostravam um tal descontentamento a ponto de poder-se admitir que o insurrecto teria que ser isolado, admoestado ou, quem sabe, degredado para uma qualquer ilha perdida no oceano.

Os tempos correram agitados com alguns contestadores a trazerem firmes catilinárias lá de casa, demonstrando firmeza no existencialismo insofismável do Pai Natal e o Diogo desmontando peça por peça cada argumento explanado.

Nem sempre os revolucionários são bem sucedidos ou apoiados nas suas causas. Especialmente quando alguns tíbios com poder (no caso, os adultos) se afirmam como autênticos agentes secretos com métodos pouco ortodoxos, procurando vergar os mais ousados e crentes na sua causa revolucionária.

Perante a insistência de alguns pais mais doridos com aquela revelação desaustinada e devastadora da linha de formação em curso lá em casa, o Diogo foi compelido a dar o dito por não dito, a fim de sossegar alguns espíritos mais agitados, permitindo assim o retorno ao status anterior e ao serenar do PREC…

Reuniram-se algumas altas esferas, ao estilo de Copenhaga e, neste caso, foi tomada uma decisão tida por conveniente.

Foi decidido promover-se uma espécie de conferência em que o Diogo haveria de se desdizer, apenas pelo silêncio. Também não estou a ver como o levariam de outra forma.

Ou seja; a professora dizia que o Diogo não era bem aquilo que queria dizer, tralará, lará, lará… e ele ficaria calado, como que aquiescendo naquilo que dizia a professora.

As coisas iam correndo bem. O silêncio insurreccional lá ia sendo mantido, sabe-se lá a que custo.

A ponto de começar a ocorrer uma espécie de revanche de alguns pelos desaforos provocados pelo Diogo durante dias a fio.

Daqui e dali surgiam reparações na imagem denegrida do Pai Natal, fruto de um reforço bem inculcado lá em casa e que o silêncio do Diogo convidava a despejar.

Não sei calcular o que corria pelo espírito do meu insurrecto favorito. Nem sempre é fácil ser-se obrigado a suportar a afronta, ter que engolir em seco a mentira mais desbragada e ter ainda que ficar calado.

Uma miúda mais espevitada, a meio daquela terrível “conferência” (quase um tribunal da Inquisição), quis acrescentar algo que esclarecesse melhor os contornos do Pai Natal e disse, mãos na anca, meneando a cabeça em tom de profundo conhecimento de causa:

– Pois, e é o menino Jesus que dá as prendas ao Pai Natal para ele depois descer pela chaminé!

Diogo, quebrando um silêncio que já levava minutos, explodiu:

– És parva ou quê…? Sabes lá há quantos anos morreu o menino Jesus…?!?!?!

E um grande silêncio fez-se…

Nota breve:

O assunto voltou à estaca zero…

Pedro Cabrita

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2 comments on “Vida difícil para o Pai Natal…!

  1. Se calhar, o Pai Natal, morreu mesmo!

  2. Adorei !!!O Diogo tem que crescer .So ele nos poderia salvar com a sua honestidade.Nao se deixa levar.E assim mesmo

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