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O regresso do Insurrecto. O meu indefectível DS-9…

Chegado o Verão, e com o mar ali tão perto, os miúdos são transportados em autocarro até à praia e por ali dão largas à liberdade de espaços sem o confinar de paredes altas, obstáculo intransponível na eventual organização de uma fuga aos adultos, que os vigiam quais guardas prisionais.

Ali o espaço de liberdade também não é total nem livre. Mas o olhar voa pelas areias e perde-se mar fora, permitindo a liberdade necessária para engendrar planos e maquiavélicas maquinações com que hão-de ser tramados os adultos, esses seres grandes, que, por serem grandes, acham que sabem tudo, faltando, na maior parte das vezes, o essencial: “… perceberem-nos tal como somos e não como eles gostariam que fossemos”.

A meio de um jogo da apanhada, seguido de uma peladinha, o Diogo (o Salgueiro… agora já mais para as miúdas e não apenas para os colegas…) deu com uma pedra roliça com algum volume, que lhe fez acender de imediato a luzinha do laboratório das grandes ideias.

Sorrateiramente acondicionou-a na mochila e guardou para si a ideia, que foi maturando até ao momento certo.

Já regressavam daquele tempo de evasão consumindo as energias que haviam restado, quando no autocarro se ouviu um ruído estranho semelhante a um trovão, ou algo a partir-se por baixo do autocarro.

Era o laboratório do insurrecto a produzir o último invento: ora, quando a tal pedra rolante descoberta na praia fosse lançada pelo corredor do autocarro, o barulho haveria de assustar os colegas (especialmente as miúdas, que são as mais mariquinhas…) e uma ou outra vigilante, com alguma dívida antiga de excesso de autoridade por saldar com a malta.

A ideia tinha quase tudo para dar certo. Só que o campo experimental havia sido deixado de fora por falta de tempo e urgência na execução do plano.

A pedra rolou e cumpriu com os princípios da sua configuração arredondada e peso. A potência a imprimir ao lançamento, calculado e executado com alguma precisão, não fosse o artista já um verdadeiro ás na manobra mental dos números, com algum apoio digital sorrateiramente manejado por baixo da mesa.

Mas quem se haveria de assustar verdadeiramente?

O condutor…!

Este, de facto, um pormenor descurado por inequívoca puerilidade do B.I., ainda recentemente alvo da comemoração do 6º ano de vigência.

Atento a todas as circunstâncias da condução, mais a mais tendo em conta o transporte de crianças, bem como a ruídos estranhos que pudessem sugerir perigo de mau funcionamento dos mecanismos da viatura, o condutor meteu freios a fundo, lançando alguma confusão no interior da viatura.

O que foi, quem foi e como foi não terá levado muito tempo a descortinar, perante um suspeito de imediato alcandorado a nº 1 da lista possível, refastelado num dos últimos lugares do autocarro com ar de “… esta não me saiu lá muito bem…! Onde é que eu falhei…?”

Chegados ao colégio, de imediato: “Salgueiro à Srª. Directora…!”

E assim se iniciou o processo de inquirição sumário.

Após os preâmbulos do costume neste tipo de julgamento – a ter lugar minutos após a prevaricação, coisa rara na justiça dos grandes, mas que para os putos funciona com celeridade e justiça mesmo – veio a inquirição propriamente dita:

– Então faz-se uma coisa destas…? Podia até ter havido um acidente com alguma gravidade. Já agora diz-me lá o que te levou a trazeres uma pedra da praia daquele tamanho dentro da tua mochila?

Breve diálogo entre a Srª Directora e o “réu”.

“Réu” que fez acompanhar as suas declarações de expressivos gestos manuais, a fim de melhor compor a sua argumentação e defesa.

– Eu vi a pedra…

– Sim…!

– … e reparei que ela se estava a rir para mim. Vai daí achei-a simpática e resolvi trazê-la comigo… Foi isso…!

– Ah, estava a rir para ti!? Muito bem. Então vais andar toda a tarde com ela no bolso para veres como ela é tão simpática.

E assim foi.

Dura lex, sed lex…

Calhau no bolso a fazer pender as calças da cintura para baixo com risco de algum colapso de pudor na “parada”, mas queixo levantado e pundonor bem lá em cima no cumprimento da pena, pesada e desconfortável.

Um tanto preocupada com os eventuais reflexos de uma tal sanção, a Srª. Directora, algum tempo depois, resolveu dar uma volta pelo recreio e ver como ia o cumprimento do que fora determinado. Até porque o dia estava quente e subsistia o receio do calor poder exacerbar o peso do castigo.

Deu com o Diogo enérgico e valente cumprindo com rigor a punição imposta.

Procurando avaliar melhor os sentimentos do “condenado”, não fosse a coisa galgar a linha do simples preceito pedagógico, tacteou:

– Então! Como vai a tua amiga simpática aí no teu bolso?

Não esperou mais que o tempo e peso de um olhar malandro e um sorriso fino de quem não perde tempo para devolver o troco da compra efectuada.

– Hum…! A pedra está tão fresquinha…!

P. C.

(Avô… claro…!)

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