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Neocolonialismo…

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… ou uma outra via colonial…

Ontem, um pouco antes da hora do almoço, peguei na mão do meu neto, ou melhor, o meu neto pegou na minha mão, e fomos ao parque aqui mesmo ao lado de casa.

Entre baloiços, escorregas e outros apetrechos de esfolar calçado e romper os fundilhos das calças, há por lá uma casinha com lugares para sentar e uma espécie de balcãozinho que divide o espaço.

Bem agachadinho consigo sentar-me meio de lado na ponta de um dos bancos.

A nossa actividade, a minha e a do Diogo, consiste na “exploração” de uma espécie de mercearia à moda antiga, onde alternamos o papel do merceeiro e do freguês.

Os produtos a “comercializar” não variam muito da trivialidade daquilo que a vivência dos três anitos e meio lhe proporcionam. Também porque os tempos não vão para grandes comércios.

Cenouras, couves, laranjas, peras, chocolates, sumos e outros na mesma linha, compõem uma banca, também ela imaginária, mas impecavelmente arrumada. Tudo material excelente para a saúde (que é o que lhe vendem lá em casa…) de fazer crescer em altura, dar força, olhos bonitos, mas, essencialmente, também “…fazer crescer pelos nas pernas e no peito”, um sinal de maioridade e algo mais que ainda não descortinei.

Mal damos por aberto o “negócio”, é costume a miudagem do tamanho dele ir-se aproximando, engrossando a freguesia que, aos poucos, me vai colocando de lado, embora me vá ficando por perto, no sentido de ir alimentando aquele mercado de sociabilização fundamental para a vida.

Umas vezes são os preços que oferecem alguma discussão (até ali a inflação não perdoa…), outras é a qualidade dos produtos que deixa a desejar, com a freguesia a reivindicar a devolução do dinheiro.

Tudo enredos que vou atiçando de modo a gerar alguma troca de opiniões e até o fermentar de autênticas vocações para o negócio, ou futuros governantes, quem sabe, porque aqui e ali lá vai surgindo um ou outro resquício de aldrabice, logo sanado aqui pelo “Presidente do FMI…”.

O mercado lá ia funcionando com as mercearias a não variarem muito: maçãs, bananas, chocolates e gelados eram os produtos que tinham maior procura. Um “merceeiro” ainda apareceu a querer convencer a clientela a comprar sopa em frasco, mas cedo desistiu, ante a reprovação quase geral.

A alternância entre vendedores e compradores ia ocorrendo, com os actores, ora a manifestarem o desejo ardente de aumentarem a conta bancária, ora a procurarem o deleite da sensação de poderem comprar sem as restrições habituais dos adultos, esses sovinas.

Um negrito, assim já um pouco mais crescidote, começou a cirandar a zona próxima do “mercado”, com jeito de querer integrar o continente africano naquele mercado global.

Lancei-lhe uma bisca que deu em trunfo.

Aproximou-se e deu a entender que, para já, preferia ficar só a ver.

Passado algum tempo, achei que era finalmente tempo daquele mercado enveredar mesmo pela globalização real.

Aproveitando um momento menos agitado dos mercadores, atirei-lhe:

– Então não queres comprar nada…?

Era vendedor na altura o meu Diogo.

O nosso amigo ficou um pouco envergonhado remexendo as mãos nos bolsos, enquanto se contorcia todo.

Insisti. Aos poucos foi dominando o acanhamento, manifestando alguns sinais de desejo em participar.

O Diogo mantinha-se na expectativa. Mãos na anca, ficou a aguardar a escolha de compra do novo freguês.

Por fim a decisão:

– Um litro de vinho…!

O Diogo olhou-o sem tirar as mãos das ancas. Fez-se um enorme silêncio, apenas entrecortado pelos múltiplos entrecruzar de olhares da “freguesia”, tradução de uma certa perplexidade que os tomou a todos.

Ainda mal refeito o “merceeiro” espalmou com rapidez e veemência as duas mãos em ambas as faces e com ar desolado por não poder satisfazer o novo cliente, informou desapontado:

– Não temos…!

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Pedro Cabrita

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