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– Exploração de trabalho infantil…

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Nós, os adultos, anestesiados que andamos neste nosso calcorrear da vida, temos frequentemente uma visão deturpada das coisas do dia-a-dia, quando, por vezes, nem tempo temos de nelas pensar, quanto mais analisar conceitos e circunstâncias com que nos debatemos a todo o momento.

As crianças – as que ainda imunes a este rolo que nos comprime e esmaga de encontro ao tempo, que se nos escorre por entre os dedos como areia do deserto – agitam-nos por vezes os sentidos, sacudindo-nos do torpor em que nos fomos deixando cair, cómoda e conscientemente, porque é assim que funcionam todas as anestesias.

Percorremos o tempo das comodidades sufocantes.

Acariciam-nos os sentidos, em forma de ofertas confortáveis e aprazíveis, mesmo que nos vá faltando o ar e a beleza ímpar da natureza viva, agora disponibilizada em projecção tridimensional de parede, avivando-nos a memória de um paraíso que paulatinamente fomos esbulhando às próximas gerações.

Esta breve introdução confere apenas um curto desvio do objecto deste texto.

Nem sei o que se me deu para nos avivar esta nossa memória colectiva dos erros, muitos deles irreparáveis, que vimos cometendo, quando o tema confere algo bem distinto e ao mesmo tempo delicioso.

Mas deu-me para isto.

Talvez não ande longe de uma assunção latente de culpa pela cumplicidade de um desastre ecológico em que irracionalmente participo e deixo como legado aos netos que me derretem a alvura da neve salpicada nos cabelos e subvertem uma ou outra dor de dobradiça, rangendo a inevitável humidade dos anos.

Neste iniludível sentimento de responsabilidade por tudo aquilo que lhes deixamos, cabe apenas o lenitivo desmedido dos avós quando se transformam em colo macio de uma espécie de algodão doce que os mima e aquece, como resguardo de um tempo frio que os espera e sobre eles arremete.

O meu Diogo – cinco anos e meio de uma incontida vivacidade e atenção ao mundo que o rodeia – vai vivendo com alguma ansiedade o crescimento do Gonçalo (pouco mais que um aninho mal equilibrado em duas perninhas titubeantes, ainda mal conjugadas atrapalhando-se uma à outra) no desejo de usufruir de mais um companheiro de jogos e disputas, que lhe preencham o tempo que sobeja depois dos pesados afazeres a que é sujeito no colégio, como a seu tempo veremos.

A coisa é séria.

Contudo, as preocupações do Diogo – o Salgueiro lá para os amigos do Colégio – não se circunscrevem à morosidade de crescimento do primo Gonçalo, ainda há bem pouco tempo com uns envergonhados “zero anos…”, como ele garbosamente invocava, comparados com os seus confortáveis cinco bem medidos.

Preocupam-no também algumas vicissitudes da vida dos adultos, as quais lhe vão causando algum desconforto social, quando não político, essencialmente quando não entende algumas das realidades construídas por aqueles e que não lhe cabem muito bem no entendimento, frequentemente sagaz e outras vezes desconcertante.

O dinheiro, sempre esse malvado vil metal, e a sua movimentação e valores, era algo que por vezes o confundia.

Fazia-lhe óbvia confusão porque razão a mãe, com as queixas do costume de que o dinheiro não dá para tudo, sempre que ia às caixas multibanco não levantava todo o dinheiro de que precisava. Entra cartão, sai dinheiro… qual era a espiga?! Parvoíce era ter a fonte ali à mão e levar o cântaro menos de meio para casa.

Com o tempo a explicação foi paulatinamente sendo digerida, dando lugar a outras preocupações tais como a possibilidade de algum “saldo a descoberto” e as consequências nefastas que daí poderiam advir.

A expressão da preocupação não era bem tecnicamente assim; mas andava lá perto.

Com a aproximação do Natal – uma espécie de 14º mês para a pequenada; o 13º cai pelo aniversário – num destes dias no caminho da vinda do colégio com a mãe, o assunto veio à baila porque o tempo urge e o risco de esgotamento de stocks é uma preocupação para quem tem já a programação feita, quanto às prendas que tem em mente.

O Diogo está então na expectativa de uma tal de Wii.

Não me perguntem o que é porque não sei. Mas não andará longe de um instrumento electrónico, daqueles de tornar quase realidade aquilo que projecta no ecrã. O que sei é que me espera mais uma cabazada quando for confrontado com um inevitável jogo que ele dominará com um dedo e eu hei-de trocar os olhos entre o monitor e os comandos, com tonturas à mistura e a “vergonha” de mais uma copiosa derrota, que enfrentarei, no mínimo, com galhardia.

Ouçamos o diálogo:

– Então o que queres este ano pelo Natal, Diogo? Pergunta a mãe, orçamentando à distância aquele prazer de olhinhos a brilharem de júbilo, quando se rasgam os embrulhos das prendas mais desejadas.

– Bem, eu gostava de ter uma Wii… – confessa, enrodilhando os dedos de ambas as mãos como quem lança o isco a ver o que dá.

-Bom, vamos lá ver se eu consigo juntar dinheiro para te poder comprar a Wii, que é capaz de ser cara – vai retorquindo a mãe, enquanto contorna mais uma rotunda e lhe procura infundir alguma comiseração pelo esforço no orçamento familiar a fim de levar a bom termo o desejo.

O silêncio é breve mas fervilhante.

– Então o presidente (… da câmara, onde trabalha a mãe) não te paga o suficiente…? Indaga, franzindo um sobrolho enquanto os braços se cruzam em tom de manifestação de desconfiança antecipada.

– Pois, pagar paga-me; as nossas despesas é que são muitas e por isso o dinheiro não dá para tudo.

– Quais despesas? Quis o Diogo esclarecer enquanto os braços se mantinham cruzados na mesma linha de dúvida que já vinha da eventual insuficiência da abertura dos cordões à bolsa por parte do presidente.

– Ora! É preciso pagar a comida que se compra, a roupa, a água, a electricidade, os teus brinquedos, o teu colégio…

– O meu colégio…!!!! Ó mãe, tu pagas o meu colégio?

– Claro. Então como querias que fosse? Não vais para o colégio todos os dias?

Silêncio breve, agora já com os dois sobrolhos bem franzidos, braços de novo ostensivamente cruzados, nariz bem empinado e solta:

– Então eu chego lá de manhã bem cedo, farto-me de trabalhar até à tarde e tu ainda tens que pagar o colégio…?????

– … !?

De dedo bem espetado e um peito bem raso de razão, acrescenta:

– Olha. E deixa estar que amanhã assim que lá chegar vou falar sobre isso com a D. Paula (… a directora); e se ela não estiver vou falar mesmo com a minha professora…!!!! Vais ver…!!

Nota breve:

Não é por nada, mas com uma geração destas eu acho que as coisas desta vez vão mudar neste país…

P. Cabrita

3 comments on “– Exploração de trabalho infantil…

  1. Grande Diogo!!
    Mais uma para a colecção das suas graças que vou mantendo na memória!

  2. Começa já , de pequeno , a interiorizar que vai ter de se manter esperto , para não vir a ser enganado , no futuro !!!

  3. Lol lol lol
    Muito engraçada esta forma de ver a vida, quer nos dera continuar a vê-la desta forma, depois de adultos!
    Estou desejosa de também ter histórias da minha neta Margarida para contar…já não falta muito!

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