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Como começar a anestesiar o sofrimento para 2012 no 1º dia do ano


Primeiro dia de 2012; ainda não eram 10 horas.

Madrugador, o ministro Mota Soares (da Solidariedade e Segurança Social… e da lambreta, entretanto vendida ou ancorada na garagem por aconselhamento de Miguel Relvas; aquilo não dava bom aspecto à governação) apressava-se, sorriso rasgado, a informar que o governo, em grande esforço e dolorosa solidariedade, tinha tomado a medida excepcional de promover um aumento das pensões dos mais carenciados.

Apressei-me a colocar as mãos em posição de bater palmas. Mas avisado, ou escaldado, mantive o gesto suspenso enquanto o ministro ia explicando melhor a dimensão do “esforço” do governo e ia adiando o valor do aumento.

Já me doíam os braços e o ministro nada: primeiro era necessário esclarecer que era um “enorme esforço do governo” (presumi, sem grande convicção, que se tivessem colectado todos os governantes para este efeito), depois que era um valor na linha da inflação esperada para 2012, 3,1% (como se um único governo tivesse algum dia acertado nas previsões da inflação), e ainda que, desta forma, o poder de compra dos pensionistas não iria cair.

Magnífico; se bem que aqui a alusão, aparentemente séria, ao “… poder de compra “ dos pensionistas mais carenciados me tenha provocado uma ligeira cãibra num dos braços que, valentes, se mantinham em posição de aplauso. Mas eu achava que a notícia, pela sua dimensão de solidariedade com gente desprezada desde que nasceu, iria valer o meu sacrifício e esforço físico.

Aguentei-me esperançoso.

Quanto…? – perguntava o repórter revelando também ele já alguma dor de braço na sustentação do microfone.

Mas, ajuntava ainda o ministro, estávamos a falar de um milhão de portugueses que viram o seu poder de compra reduzido em 2011 e também que a medida agora tomada “… não era uma medida simbólica”.

E o “… não era uma medida simbólica” aliviou-me a cãibra e retemperou-me o ânimo.

Quanto…? – insistia o repórter que, como eu, lhe doía o braço, mas podia ao menos mudar o microfone de mão, enquanto eu com as duas mãos em riste nada podia fazer senão esperar.

Era importante salientar ainda que com o congelamento das pensões e o aumento da inflação aquelas pessoas ficaram com o poder de compra ainda mais reduzido, alertava o ministro.

E o aumento é de …? – insistia o repórter mudando o tom da pergunta a fim de acelerar um pouco mais as coisas que interessavam naquela altura.

7€…! – balbuciou então o ministro, assim como se a lambreta de tivesse engasgado ao subir o degrau do portão do ministério.

7€…? – inquiria o repórter admitindo ter ouvido mal, provavelmente ainda pouco acordado àquela hora matutina.

Sim…! Mas é preciso não esquecer que estamos a falar de um milhão de portugueses que vive (“vive”… aqui uma óbvia e refinada ironia do ministro) com pouco mais de 200€ por mês.

Baixei lentamente os braços; já pouco os sentia e deixei de me sentir por inteiro.

Peguei no microfone.

Senhor ministro!

– O milhão de portugueses de que fala é aquele milhão de portugueses pobres legados por Salazar em termos de assistência social e que, quase 40 anos depois, continuam democraticamente os mesmos pobres de sempre, é isso?

A referência a um milhão de portugueses é um refúgio; o sr. ministro quer dizer um milhão dos mais pobres.

– …!

– Para que possamos ter consciência plena do que falamos, o despudorado aumento de 7€ por pensão traduz-se nos seguintes números: 246€ para 254€ (pensão mínima); 227€ para 234€ (pensão rural) e 189€ para 195,4€ (pensão social).

Tendo o medíocre salário mínimo de 485€ por referência, reparou o governo que, genericamente, estes portugueses ainda não conseguem chegar a metade deste?

– Mas a culpa não é minha…!

– Claro que não. A culpa foi sempre minha cada vez que entrei numa cabine de voto e me enganei na cruz. Uma cruz minha.

– …!

– A referência aos gordos e publicitários 70 milhões que vão ser aplicados nestes magros e despudorados aumentos “ … vêm duma poupança no Rendimento Social de Inserção (RSI)” – disse o sr. ministro.

Tendo em conta que o RSI – mau grado sustentadas suspeitas de que a sua aplicação pode nem sempre ter sido rigorosa e benefício dos mais necessitados – é, contudo, um balão de sobrevivência para mais de 400 mil beneficiários, pode admitir-se que o “enorme esforço do governo” para estes inomináveis 7€ de aumento se traduz, afinal, em retirar verbas destinadas a outros carenciados, que supostamente o governo vai achar que poderão ser indevidas?

– …!

– Os escandalosos salários dos gestores públicos, seu séquito e muitos outros acolitados nas irmandades políticas, as pensões douradas de tanta gente para quem redigiram leis próprias que os colocaram às custas do erário público, após uma boa dúzia de anos de boa, má ou péssima governação (e outros que nem isso), as fundações, os prémios Mexia e tanta usurpação da dignidade de tanta gente, não o arrepia quando no primeiro dia do ano vem sorriso nos lábios anunciar um aumento de 7€ para quem usufrui em média 220€ mensais?

– …!

– “O aumento acima do valor calculado da inflação…”, a brutalidade de 7€ mensais, deixa de fora esta gente dos desbragados aumentos da taxa de IVA para a electricidade e géneros alimentares de primeira necessidade, de que me lembro agora das latas de conserva – um novo eufemismo de Salazar quando afirmava que uma sardinha era a refeição suficiente para cada português?

O anúncio pomposo no dia 1 de Janeiro de 2012 deste escárnio para quem ganha 220€ por mês quis fazer-nos lembrar a todos a miséria em que nos têm vindo a deixar os paladinos da liberdade e democracia que nos quiseram vender no 25 de Abril e que só alguns herdeiros do passado se aproveitaram e locupletaram com os bens de todos?

– Ouvi alguns destes beneficiários comentarem estes 7€ com a envergonhada dor e resignação de sempre: “é uma miséria, mas sempre é alguma coisinha…”. Era assim no tempo de Salazar; era sempre tudo alguma coisinha. E não se queixavam, como não se queixam agora os mesmos de sempre. Mesmo quase 40 anos depois de todas as promessas de liberdade, democracia e acima de tudo dignidade para os mais desfavorecidos, os que nunca tiveram a decência no conforto que sempre lhes foi negado.

Sei que não há milagres e os ministros que estão nunca têm culpa. A culpa é uma coisa obscura neste país. Jamais casou ou fez parte do vocabulário político desta democracia.

Sempre lhe digo sr. ministro que o enxovalho de 7€ de aumento para quem sobrevive com pouco mais de 200€ não se proclama; promove-se num silêncio de vergonha que a dignidade de seres humanos nos deve obrigar a assumir.

7€ não compra a dignidade de ninguém, nem dignifica quem os atribui e muito menos quem os proclama.

Falando de vergonha lembrar-lhe apenas que a viatura que lhe está atribuída, paga por todos nós, dá para mais de 8.500 aumentos de 7€… E aparentemente o sr. ministro pareceu querer dizer-nos no dia da tomada de posse do governo que a lambreta lhe era suficiente.

Eu sei que a culpa não é sua.

O que me preocupa é que não consigo perspectivar como vou algum dia culpar um governante que seja por um único mal, um único erro, uma única vergonha.

O problema deste país é a impossibilidade de conjugar o verbo culpar no singular.

O problema dos sucessivos governos deste país é nunca terem sido capazes de entender que a dignidade das pessoas não tem preço, mas acima de tudo nunca estão a saldo de 7€…

Pedro C.

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