Toiros e as touradas

E no Prós e Contras de ontem lá tivemos mais uma sessão de retórica falsa, defesa de valores tradicionais a preço de sofrimento de um animal que hipocritamente dizem defender e amar, para não falar já de uma postura marialva e mal educada, quase não permitindo que os interlocutores falassem, interrompendo e sobrepondo os seus argumentos sobre os demais, sempre que aquilo que diziam não lhes agradava.

Enfim, a Fátima Campos Ferreira mais uma vez não esteve à altura de um programa que se sabia polémico, permitindo a confusão e argumentação cruzada impedindo que se ouvissem ambos os lados com clareza.
Sintetizando… uma verdadeira tourada.

E lá ficámos sem saber o que pensam os aficionados da possibilidade de utilizar tecnologia apropriada para que não haja ferimento no animal e isso resolveria tanta coisa.
Conseguiu-se trazer um português residente no Canadá que veio dizer ter conseguido implementar as touradas naquele país, mas usando um velcro no lombo do animal onde as bandarilhas se fixam sem ferir o animal.
Ninguém relevou este assunto.
Ninguém teve a verdadeira oportunidade de desmascarar esta hipocrisia, relevando que o Canadá, um país decente, respeita as tradições até dos imigrantes, mas não tolera a barbárie que essas tradições, ainda com sabor a circo romano, se promovam na sua sociedade, tenham elas o cariz e os adeptos que tiverem.

De raspão alguém, cuja vetustez permite desculpar afirmações que atraiçoam o bom senso e a sanidade de quem as produz, ainda procurou defender que não há sofrimento do animal, invocando supostos e inenarráveis estudos científicos e certamente inquéritos a uma boa amostra de touros inquiridos que terão confirmado que na verdade o sofrimento é nulo e que aquela treta do sangue que lhes escorre das feridas até dá um certo jeito aos forcados e ao toureio apeado, porque ocorre uma certa perda de força que facilita a pega e a faena.
Afinal está tudo bem e siga a tradição.

Um médico veterinário, que procurou denunciar esta inenarrável e despudorada afirmação, foi conveniente e eficazmente abafado pelo ruído dos aficionados impedindo-o de falar, qual faena ao centro da praça, faltando apenas que lhe lançassem uma jaqueta e um par de sapatos que lhe haveriam de acertar na cabeça.
Um fanático dos touros, que se apresentou como professor – como anda esta classe deste o tempo em que éramos respeitados – apresentou um número de 3 milhões de aficionados em Portugal.
E assim se fabricam as albardas à vontade do dono.
Uma atividade com 3 milhões de aficionados só pode estar podre de rica e anda esta gente a esmolar um IVA de 6% contra os 23% que realmente é a imagem mínima que o Estado pode dar deste retrocesso civilizacional que se mantém e que a ministra da Cultura teve a inoportunidade de revelar, trazendo a público uma opinião pessoal que, deve dizer-se, deveria ter reservado para si.

Em 80% do tempo do programa mascarou-se o debate com as tradições populares e a necessidade de as preservar.
Mascarou-se e aldrabou-se o cerne da questão.
As tradições populares são duma riqueza incomensurável e representam a essência cultural de um país, sem a qual a sua identidade se dilui nos tempos e a dimensão de um povo se reduz a estereótipos sem significado nem dimensão social.

Mas a questão não é essa.
A questão era, e é, apenas a dimensão da brutalidade de alguns aspetos dessas tradições que ferem a sensibilidade de, “pelo menos…!”, 6 ou 7 milhões de portugueses, que não as querem projetadas nos ecrãs das suas televisões, nem divulgadas como tradições populares de um povo que se diz pacífico e de bons costumes, nem que os seus filhos a elas assistam.

Um sr. Presidente de Câmara (Alcochete, creio…) deu-se ao desplante de informar que o seu filho de oito anos o solicita para exercícios de toureio lá em casa, o que, no parecer do sr. Presidente, é o melhor exemplo de que aquela tradição vai criando raízes e se manterá pelos séculos que vierem.
Lamento dizer-lhe sr. Presidente que, noutro plano, o filho de um criminoso seguirá as pegadas do pai e exercitará lá em casa os desmandos do mesmo, porque é o crime que ele vê o pai frequentar todos os dias. Pelo que por aí tudo normal.
Não me admira nada sr. Presidente que um dia se for necessário matar uma galinha lá em casa o seu filho se ofereça para a tarefa, coisa que eu não sou capaz de fazer. Mas isso sou eu que sou pouco dado a alguns aspetos das nossas tradições populares, com especial relevo para as que se prestam ao gáudio pelo sofrimento animal.

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