Quanto custa um amigo do peito.

 

António José Seguro saiu do Partido Socialista, mas deixou uma mina armadilhada no Largo do Rato. Chama-se Álvaro Beleza, um amigo do peito que, como sempre acontece com os amigos de verdade, nunca abandona quem o traz ao peito.

Uma mina armadilhada, se não for com relógio, detonará por contato, ou ao menor rumor. E foi o que aconteceu; só que neste caso foi por relógio, contato e rumor. Tudo no mesmo momento.

Álvaro Beleza foi ontem talvez a única voz de insurgência contra a não-vitória de António Costa nas eleições legislativas. Uma mina colocada com um determinado fim tem esse mesmo objetivo; detonar quando é preciso. Se tivesse sido necessário, ou ocorresse oportunidade de discursar, tenho a certeza de que Álvaro Beleza retiraria um discurso da algibeira com múltiplas páginas prontinho a ser debitado em defesa de uma certa honra de um amigo do peito perdida algures num campo de batalha.

Não é que lhe fique mal. Neste contexto soa até a uma elevação de nobreza de espírito e sentimentos que melhor se enquadra ainda numa noite em que as alegrias foram poucas e a sedução das facas longas se aguça e compraz.

Caro A. Beleza.

Tanta devoção seria talvez escusada, ainda que se compreenda que há momentos em que é preciso enviar ao amigo um qualquer sinal de “não esquecimento”, para mais quando as oportunidades não abundam para o fazer. A ameaça de um Congresso Extraordinário que “faça justiça” soa a politicamente correto, ou um lugar-comum em voga na política. Mas já devia saber que com A. Costa esses mecanismos frouxos são insípidos e deslocados. Será ele a determinar esse ato sem ser coagido a fazê-lo, se não forem mesmo os estatutos a determiná-lo, escusando-se o A. B. a agitar as lanças com que pretende ameaçar o usurpador. Essa é uma marca de A. Costa.

Sejamos claros por uma vez. É tempo.

Soa a estranho que seja agora a direita que fale de boca cheia (e barriga minguada) duma traição de A. Costa a A. Seguro quando em tempo se determinou disputar a liderança do partido. Estranho por ser agora e por ser a direita, secundando as hostes Seguristas nessa parlenda. O argumento é que Seguro havia ganho duas eleições (Autárquicas e Europeias), pelo que o despropósito ganhou foros de perfídia. Ganhou de forma insipiente, mas segundo as alas de Seguro, ganhou. Logo, tinha que ficar.

Mas faltaram as outras faces do cubo, que não da mesma moeda. Faltou dizer que naquela altura se vivia a mais atroz punição da governação sobre a generalidade dos portugueses (o colossal aumento de impostos), com especial relevo para pensionistas, velhos desprotegidos e funcionários públicos, mas essencialmente que, em quadros semelhantes e até menos gravosos, estas eleições funcionam como momentos de protesto anti governo, uma vez que não determinam alterações substantivas do poder que governa. Sempre foi assim que o povo se comportou e continuará a fazê-lo no futuro. Sempre tivemos um gosto especial para bater em quem está por baixo, mas quando chega a hora da verdade esvai-se a coragem e lá ficamos pelo “nim” medroso, quando não quase sempre merdoso. A bravura parece ter-se esvaído da alma deste povo desde que encostámos as últimas caravelas dando por terminadas as descobertas dos novos mundos.

Mas ainda, e não menos substantivo, que na Assembleia da República A. J. Seguro era um bombo de festa de Passos Coelho, um autêntico saco de pancada que o 1º ministro no seu trejeito trocista fazia alarde em cada sessão parlamentar. Cheguei a ter pena de Seguro enquanto este esbracejava enérgico, é certo, mas substancialmente frouxo e incapaz de encostar P. Coelho à parede, enquanto essa tarefa era empreendida por um “grãozinho de bico” acutilante e saído no nada, mas capaz de tirar P. Coelho do sério, quase perdendo a cabeça quando as questões eram de uma contundência inaudita para o 1º ministro, habituado que vinha à inconsistência da bancada Socialista.

Por outro lado não me parece que A. Costa não tenha dado corda à prestação de Seguro. Foram duas as vezes que a sanguinária comunicação social o instigou a tomar o poder e foram outras tantas que se conteve. Assumiu esse desígnio quando entendeu que o caminho se estreitava e que Seguro mantinha o mesmo discurso vazio, mantendo o descrédito do partido na oposição ao governo.

Consta em alguns patamares da dissertação da desonra que A. Costa deixou que Seguro fizesse a travessia do deserto para depois, qual fim da jornada em oásis, pegar na sombra fresca e dessedentar-se até às próximas eleições.

Ora esta doutrina não faz qualquer sentido. Deixar que o partido mergulhasse cada vez mais no descrédito para lhe pegar retalhado não era um golpe de mestre, era um desvario masoquista.

José Seguro viria a revelar outra característica peculiar do seu temperamento quando desafiado por A. Costa impôs o campo e as armas, sem qualquer oposição ou condições da parte do seu opositor. As Primárias. Mas o mais curioso é que em tempos idos Seguro tinha verberado o sistema por perceber que este permitia a intrusão de não-socialistas que poderiam desvirtuar a verdade do ato eleitoral. Ou seja, Seguro sabendo dessa possibilidade terá sido segredado que esse busílis poderia contar a seu favor e não hesitou.

Sabemos como foram os resultados e da contundência dos mesmos. E meu caro A. Beleza; quando se perde assim nem no árbitro podemos colocar as culpas.

E eis que somos chegados aqui.

A coligação foi quem recebeu mais votos, ficando PS em segundo lugar.

Eximo-me de esgrimir números; quantos votos perdeu a coligação, quantos votos aumentou o PS, quem esperaria uma tamanha subida do BE com votos subtraídos ao PS, o aumento da abstenção (creio bem que em grande percentagem seriam votos de protesto contra a coligação), etc.

Aceito erros de campanha de Costa e do PS, azares ou infelicidades inauditas, enfim, vários elementos que possam ter contribuído para a menor votação no Partido Socialista, onde se poderá alcandorar a brilhante campanha do BE (mérito próprio).

Mas não é possível escamotear a campanha vergonhosa alimentada por praticamente toda a comunicação social num conluio indecoroso de elevação e proteção à coligação ostensivamente contra A. Costa como nunca se viu. Seria fastidioso enumerar os ataques quase diários, quer na comunicação social escrita, quer televisiva, para não falar já do autêntico assalto efetuado aos canais de sinal aberto onde instalaram comentadores dos partidos da coligação sem qualquer contraditório, nem se coibindo de os usar até às vésperas do ato eleitoral, sem qualquer manifestação da CNE.

Se a democracia que nos venderam no 25 de Abril é isto quase me apetece voltar para trás e recomeçar tudo de novo. O despudor de alguns jornalistas, mais assalariados do patrão que verdadeiros opinadores ou interventores na nobre arte de formar e informar, foi de tal ordem que A. Costa, por mais de uma vez, se insurgiu, procurando denunciar e verberar o acinte de algumas questões e abordagens de índole maliciosa. A forma como algumas sondagens foram sendo divulgadas e a técnica que as suportou foram uma outra faceta do descaramento de algumas estações de televisão e órgãos de comunicação social escrita.

Não poderá ficar sem referência o processo Sócrates. Não faltará muito para se perceber a dimensão e alvo deste processo. É bem provável que se venha a entender muito do que falta saber. Mas será tarde. O objetivo está cumprido.

O colossal conluio objetivamente contra o PS e A. Costa não pode de modo algum constituir-se num subterfúgio ou desculpa para a derrota. São factos públicos que nem se deram ao trabalho de esconder. A falta de vergonha também lhes facilita a tarefa. Sabiam ao que vinham e como vinham.

E aqui chegados teremos um A. Costa não ainda a governar, onde terá um teste decisivo pelo qual os socialistas anseiam, mas num patamar onde poderá exercer uma magistratura política bem mais ativa que não o simples desempenho do cargo de Secretário-geral do partido instalado no Largo do Rato.

Os tempos são complexos. O desafio é enorme.

O PS do que mais precisa nesta altura é de unidade e reflexão.

Revanchismos destemperados e agasalhos de amigos que ficaram pelo caminho pode parecer bem e servir de aconchego de alma. Mas não resolvem questão alguma, mesmo que A. Beleza se disponibilize para uma imolação que provavelmente nem o seu amigo do peito apreciará.

Se a ideia de nesta altura em que se aprestam as eleições presidenciais é baralhar o partido e criar dificuldades, então, em frente…

PC

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