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Henrique Neto igual a Henrique Neto

Henrique Neto igual a Henrique Neto.

Um Lusitano dos antigos.

Não haverá um único português que não proclame a sua disponibilidade para mudar o rumo do país, pôr termo à corrupção e, essencialmente, colocar todos os políticos na ordem; naturalmente na sua ordem.

Sim, porque a experiência diz-nos que aquele ideal de isenção, apartidarismo e distanciamento dos políticos que nos vêm sugando (legal e também literalmente) percorre cada português como vermelho é o sangue que lhe corre nas veias.

A iniciativa de Henrique Neto insere-se pois nesta espécie de divisa que nos anima a todos, mas confere algumas particularidades que importa invocar se quisermos entender melhor o que leva um cidadão nos seus 78 anos de vida empresarial intensa, mesclados de arrufos políticos mal digeridos e ao mesmo tempo mal explicados, a empreender uma candidatura à Presidência da República.

Numa altura em que as pantufas nos começam a seduzir para um remanso sossegadinho acalentado pela lareira, ou uma boa sombra no quintal nos empurra para um suco bem gelado que nos espevite da sedução duma sesta logo ali pelas 11 da manhã, eis que Henrique Neto, vigoroso e saudável, arregaça as mangas e surpreende todos os outros candidatos, dando-lhes ali no arranque da maratona uns bons 500 metros de avanço.

Para mim, e à primeira vista, trata-se de uma atitude de um verdadeiro lusitano – gente que há muito definhou – sendo apenas lembrada pela má memória dos romanos que ao tempo levaram para contar, quando quiseram amarfanhar uma malta meio maltrapilha que teimava (e teima…) em achar que aqui em casa eram eles que mandavam.

Tirando a desdita do Sebastião, em matéria de ressurreições somos pródigos e, de tempos a tempos, lá se alevanta uma figura de mérito, barão ou não assinalado ou dele travestido, que nos anima os sentidos e aquece a alma.

Também temos por condão o fervor dos nossos mais desmesurados desejos e a esperança desmedida de que, mais século, menos século, eles hão-de emergir das entranhas da terra. Diz-se, num dos muitos aforismos que também nos costumam animar, que a vingança se serve fria; pois eu também estou convencido de que por cá a esperança, a nossa eterna esperança, também.

Mas volvamos ao nosso lusitano Henrique Neto.

Empresário de sucesso – aquele olho para o negócio dos moldes foi um golpe de asa de mestre – não quis contudo deixar-se por ali e achou por bem, e bom para o negócio, meter uma perninha na política. Os políticos são oportunistas, mas alguns empresários também.

Empresário, mas sentimentalmente de esquerda – não é defeito, é virtude -, apostou no Partido Socialista e por lá andou muitos anos lutando pelas suas ideias e, naturalmente, a virtude delas.

Foram intervenções políticas, moções a congressos, livros, entrevistas, artigos em jornais e até deputado, e nada; lusitano Henrique foi passando despercebido (ressalvando algumas tiradas a atirar para a prova de vida), acreditando nós, convictamente, que por pura distração ou má vontade dos seus camaradas socialistas. Os grandes homens por vezes vivem sozinhos e ninguém dá por eles; muitas vezes é já tarde quando tal acontece, o que pode pressupor o caso.

Não vingando as suas ideias – de empresário socialista enfrentando políticos socialistas; confesso que aprecio mais os primeiros -, optou por uma outra faceta que também nos é muito peculiar; a má-língua. Melhor dizendo, a maledicência derramada sobre os seus camaradas de partido e, supõe-se, de ideologia. O que no fundo não deixa de ser muito lusitano.

Os políticos, já todos sabemos, são uma casta deplorável que só agora vamos descobrindo melhor a sua essência, depois de sentirmos na pele todas as agruras que uma esperança abrilista cerce se nos desvaneceu e nos traz nesta angústia, que o homem da Marinha Grande se apresta para apear.

Julgávamos, contudo, que havia uma repartição desta má casta por todos os partidos, incluindo os que nunca governaram, mas, diz-se, bem se governaram à sombra do erário público, sem nunca terem enveredado pela indústria dos moldes…

Mas não. O lusitano Henrique separou as águas e apenas vislumbrou gente escabrosa e de penosa virtude nos socialistas seus camaradas.

É provável que tenha razão. No fundo por lá andou todo o tempo e é aceitável que seja os que melhor conheça, mesmo quando os outros governavam. Mas mesmo nessa altura o homem dos moldes continuava bem mais preocupado em apupar aqueles que, em casa própria, nunca lhe aceitaram as ideias, nem os projetos, do que com os que ao tempo governavam provindos de outras famílias políticas.

De deserto em deserto e respetiva travessia, e apeado das cadeiras mais proeminentes do partido, Henrique Neto foi edificando púlpitos onde continuar a verter sobre a sua família política, porque há dores e despeitos que não se esquecem.

O MDR (Movimento pela Democracia do Regime) assentou arraias e até à minha caixa de correio veio parar um convite de adesão.

Abespinhado com o cenário político que vamos vivendo, manifestei algum interesse pelo movimento. Contudo, bastou-me um dia para me deparar com uma catilinária do M.M. Carrilho a desancar o partido numa das páginas do Movimento, para entender o móbil do M.D.R. e agradecer o convite, mas não, muito obrigado. Se é para dizer mal, eu prefiro dizer lá em casa.

Mas perseverança é coisa que não falta a um bom lusitano.

Saído de um sonho em tom rosa, ergueu-se-lhe do mesmo um palácio na mesma cor que se ajustou que nem uma luva à decrepitude de uma amostra de carreira política medíocre, reformada que está a carreira empresarial.

Sejamos justos e levemente ingénuos.

Quem aos 78 anos, sem nada que fazer, desdenha de uma possibilidade única de se instalar em Belém – com tudo pago, mais as mordomias – e daí fogachar tudo quanto mexa em nome das propostas e projetos políticos que em anos a fio ninguém deu pataco por elas?

Quem é o responsável por tanta veia política e ressurreição do regime deixando passar o homem ao lado de uma carreira política única num país por salvar?

Ainda socialista, o lusitano Henrique nunca entregou o cartão, mesmo depois de desilusão sobre desilusão. Mesmo agora, quando se apresenta a candidato à casa ao lado dos pastéis de Belém, prefere manter o cartão no bolso o que, em termos empresariais, lhe dará muito jeito, que mais não seja para dividir a família que ainda lhe dá guarida na condição de sócio. Um bom empresário é assim mesmo: ou tem olho para o negócio, ou está destinado ao fracasso.

Henrique Neto teve condições e púlpito para se candidatar à liderança do partido, ganhar eleições com discursos visando a democratização do regime – levaria o país quase todo atrás de si – e formar um governo de gente impoluta e válida – empresários não salafrários e outros despolíticos com obra feita nos negócios -, mas não tentou sequer.

Arcar com o peso da governação de um país onde o dinheiro (de empresários e outros salafrários) fala mais alto e os que calejam as mãos no trabalho quase nem voz têm é uma empresa que tira o sono até a um empresário de sucesso nos moldes.

Admiro, e por vezes até invejo, um homem de sucesso nos negócios capaz de criar riqueza para si e para o país. Não está ao alcance de todos. É preciso dimensão empresarial e visão, mas neste país, e acima de tudo, é imprescindível uma outra qualidade que nos é muito querida; esperteza.

O negócio de Belém não é fácil; mas é único.

Ao putativo candidato lusitano Henrique Neto faltam qualidades que se arrumam na terrível prateleira da honestidade intelectual e que se enumeram em poucas linhas:

– Ter tido a dignidade de aceitar as derrotas políticas que sofreu dentro do partido sem azedume aceitando-as com espírito democrático.

– Jamais enlamear fora do partido os seus camaradas, apenas porque não aceitaram as suas ideias, projetos e ambições, só agora corporizados nesta derradeira oportunidade de um galarim dourado.

– Ter o pudor de entregar o cartão de membro do partido quando pressentiu que estava perante um acervo de gente indigna formada por politiqueiros que “… mais nada fizeram na vida que viver da política…”, leia-se erário público, como vem proclamando.

– Escusar o despudor de nem se dignar comunicar ao Secretário-geral do Partido a intenção de se candidatar a uma eleição contra “ o seu partido”.

– Não se desvincular do partido, numa jogada digna da reles política que abomina, num verdadeiro golpe tático empresarial de ir sacar votos aos militantes mais distraídos do PS, nesta altura empenhados numa eleição importante para os desígnios políticos do partido.

– Não ter consciência de que divide a “sua família política (?)” a troco de um poleiro que a sua proveta idade já deveria ter proscrito há muito.

Louve-se e recorde-se – e por aí me curvo – um certo passado anti fascista de Henrique Neto.

Pela amostra os desígnios nem sempre se pautam pelos caminhos de uma certa dignidade que não pode ter altos e baixos; antes ser um suporte de vida, mesmo que mudem os terreiros de luta.

Bem sabemos como os propósitos do homem se adaptam às circunstâncias.

Já a nobreza dos atos se deve pautar sempre pelo imutável desempenho do caráter.

Já se faz tarde para refletir e voltar atrás.

Mas volvendo o passado deste emérito lusitano, bem sabemos que está moldado para altos desígnios e, nesse sentido, é bem verdade que já se faz tarde.

P. C.

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