A problemática dos Capitães Milicianos na Guerra Colonial

Intervenção no âmbito da problemática dos Capitães Milicianos na Guerra Colonial formados a partir dos COM em Mafra, durante a presentação do livro “Capitães do fim… do quarto império” de António Inácio Nogueira.

Forum Tivoli 31-5-2017

Durante muito tempo convivi muito mal com aquilo que me aconteceu por volta do dia 8 de junho de 1970. Sempre considerei que tinha sido vítima de uma enorme violência, se não mesmo de um crime, ficando a aguardar até hoje que a História fizesse justiça.

Com um simples apontar de dedo fui indigitado para o eventual desempenho da função de comandante de uma companhia de caçadores em teatro de guerra.

Digo escolhido e apontado a dedo porque assim o foi literalmente. Integrei o 1º Curso de Comandantes de Companhia a partir dos COM em Mafra.

Naquela bela tarde por volta das 14:00 horas sob um sol abrasador e sufocante, como sempre ocorria naquela parada da EPI, o aspirante do Q.P. que comandava o pelotão, chegou para a instrução da tarde.

Sem rodeios disparou seco mas titubeante:

“Parece que vai haver aí um curso de Comandantes de Companhia e eu vou ter que escolher 10 instruendos para irem prestar provas de aptidão”.

De realçar o “… parece que vai haver…”. A decisão era tão fresca e desaustinada que nem o aspirante acreditava muito na sua real concretização. Muito menos nós, os dez escolhidos a dedo, que de imediato fomos conduzidos a uma sala de aula onde nos sentámos temerosos como no dia do primeiro exame da 4ª classe.

A situação era inédita e retumbante aos sentidos de todos nós.

Havia quem achasse que aquilo não passava de uma manobra mascarada com fins distintos daqueles que eram anunciados alvitrando:

“ Cá pra mim o que eles querem é selecionar malta para os Comandos; deve ser uma nova forma…”

As provas teóricas foram-se sucedendo sem que o crédito no anúncio daquele inusitado propósito se cimentasse. Antes pelo contrário. Aquilo não era possível. Mesmo depois de se constatar que no 2º ciclo do COM os dois pelotões formados a partir das provas teóricas apresentavam características que os diferenciavam de todos os outros.

No comando estava um tenente do QP, um militar já com experiência da Guerra Colonial e a instrução era substancialmente diferente da ministrada aos restantes pelotões de futuros alferes. E éramos tratados com alguma deferência.

Mas quanto a certezas, absolutamente nada. Cada dia que passava se esperava o desmontar daquela farsa (farsa era o que o nosso espírito desejava ardentemente que estivesse a ocorrer), mas tudo continuou sem outros sinais mais clarividentes do desmando que se estaria a operar ali.

O Juramento de bandeira teve lugar e a pressa de arrumar a trouxa e partir para uma ou duas semanas de remanso civil, era tudo quanto pairava no nosso espírito, desvanecendo-se assim aquela ideia peregrina do curso de Comandantes de Companhia que parecia esvair-se com naturalidade pelo silêncio que vinha ocorrendo.

Mas não era assim. A ordem foi dada ainda a formatura para o juramento de bandeira não havia destroçado.

Disse o oficial:

“ Os dois pelotões do C.C.C. devem dirigir-se à Sala Nuno Álvares onde vos espera o nosso Comandante da EPI que vos vai fazer uma alocução.”

A sigla “C.C.C.”, ouvida pela primeira vez, soou como um alarme.

Pela primeira vez “aquilo” tinha um nome e o mau prenúncio começou a desenhar-se desde a frontaria do convento de Mafra até à sala Nuno Álvares, espaço que percorremos assaltados por dezenas de maus prenúncios e pensamentos.

Reunida aquela tropa, já com um certo travo a tropa especial, o Comandante foi o mais sintético que era possível ser. Assim ao estilo duma daquelas conferências de imprensa onde há uma declaração e o declarante se esgueira de imediato a fim de não ter que responder às impertinentes perguntas da Imprensa.

E disse:

“Caros Cadetes. Os últimos 16 na classificação deste curso seguem dentro de 15 dias para a Guiné e os restantes para Angola. Desejo-vos os melhores êxitos para esta etapa das vossas vidas. A Pátria vos contempla. Boa sorte.”

E saiu.

O silêncio que estava tornou-se sepulcral. Excetuando um leve rebuliço provocado por um companheiro que, não resistindo ao choque “de que aquilo era mesmo verdade”, foi acometido por uma breve quebra de tensão e teve que ser amparado.

E assim foi o embrião dos Capitães do Fim, que achei ajustado trazer-vos pelo ineditismo do contexto em que ocorreu, memória revigorada agora pelo excelente trabalho do Inácio Nogueira que em boa hora nos ressuscitou de um acumular de poeira com mais de 40 anos de sedimentação.

Fui aspirante 15 dias; alferes 4 meses; tenente 7 meses e capitão 26 meses e meio. Somei 1400 dias de serviço militar, vulgo tropa.

Voltei à EPI nos fins de fevereiro de 1971, regressando do estágio realizado em Angola (Dembos).

Recebido com pompa e circunstância fui tratado como um salvador de qualquer coisa de que não me apercebi na altura.

O comandante da EPI rejubilava com os “… ecos que nos chegam de além-mar e que nos dão certezas quanto ao futuro.” O comandante da EPI referia-se a alguns louvores que entretanto tinham sido atribuídos a alguns de nós nos estágios na Guiné e em Angola.

E logo aí se iniciaram múltiplos choques corporativos que por ali ocorreram nos tempos que se seguiram, quando aqueles novos tenentes, 4 meses antes cadetes do COM, mas agora com galões reluzentes e tez queimada por 4 meses de experiência de guerra, se cruzavam nos corredores com os oficiais do QP (aspirantes e alferes; instrutores ao tempo) e a iniciativa da saudação militar tinha que partir da graduação inferior a que alguns se recusavam terminantemente. E assim começou, acredito, a germinar um dos fermentos que haveria de desembocar no 25 de Abril.

A situação roçou um certo sabor a ridículo quando, na instrução, eram os instrutores que escutavam atentamente as experiências de guerra relatadas pelos instruendos. Nenhum deles tinha passado ainda pela guerra, mas eram instrutores da mesma.

Não era fácil numa estrutura enraizadamente hierarquizada a aceitação de uma inversão de posição tão abrupta quanto inqualificável à luz da raiz e normas militares. Houve contudo que apaziguar os ânimos porque no imediato era a guerra e a sua continuidade que ali mais contava.

Houve vozes silenciadas, despromoções de comando de instrução mas também uma bandeja onde fomos apresentados como a única solução para continuar a guerra, mesmo que isso pudesse constituir-se numa eventual derrota militar, como muitos recearam e não deixaram de o proclamar.

Respigo, porque sintomático, breves excertos do livro “Capitães do fim… do quarto império”, revertendo aqui palavras de Carlos Fabião proferidas em fevereiro de 99, numa entrevista a Fernando Rosas na Antena 2.

Dizia então Carlos Fabião:

“… não havia gente, não tinham oficiais… e até fui eu que criei o sistema, criei os oficiais-proveta, (e reforçou) os capitães-proveta… um grupo de rapazes que aparece. Capitão é o posto mais importante na guerra subversiva.”… adiantou ainda.

E numa explicação que bem define esta capacidade única que nos distingue quando tornamos simples as coisas difíceis (vulgo desenrascanço), Carlos Fabião explica:

“… o mais desembaraçado de todos era retirado e era feito capitão.”

Simples.

O mais desembaraçado de todos era feito capitão, não importando a idade e um mínimo da maturidade exigível que colmatasse a conhecida ausência de substrato militar, e, após um breve estágio em palco de guerra, entregava-se-lhe a responsabilidade de 150 homens e… que Deus os ajude…

Introduzo aqui uma breve conversa entre dois oficiais do Q.P. escutada à socapa numa instrução noturna em Mafra, quando o curso estava já em marcha.

Dizia um dos oficiais:

“ Eu não acredito nisto. Estes gajos quando estiverem em teatro de guerra metem a cabeça na areia e os turras que se sirvam… Vai ser um descalabro.”

Ao que o outro oficial respondia:

“Não te preocupes. O instinto de sobrevivência fará com que se desenrasquem na hora do aperto…”

Esta foi uma ideia que sempre me perseguiu e jamais deixei de estar atento ao meu afinado instinto de sobrevivência.

A forma algo depreciativa com que Carlos Fabião se refere aos capitães-proveta ou de aviário como também se alcunharam, uma obra sua, contrasta de forma contundente com o que refere logo a seguir nessa mesma entrevista:

“… o capitão é o posto mais importante na guerra subversiva…!”

Isto não fazia nenhum sentido.

Carlos Fabião tinha a noção de que aquela proposta não era uma solução que fornecesse boas perspetivas para ganhar a guerra. Carlos Fabião calculava que a verdadeira solução haveria de aparecer lá mais à frente, na qual haveria de participar ativamente em Abril de 74, e não era uma solução militar para a guerra. Pelo que “… aquele grupo de rapazes que apareceram …” eram um verdadeiro desenrascanço para a iminência que se ia desenhando de uma irremediável rendição no palco da guerra.

Podemos pois chegar à conclusão de que a criação de capitães milicianos a partir dos COM em Mafra foi um absoluto desespero de guerra.

Já não havia gente para lugares tão determinantes e, nesta perspetiva, a solução a breve prazo era a rendição. Mas a palavra rendição não faz parte do léxico militar, salvo quando se refere ao inimigo.

E é aí que aparece aquele “… grupo de rapazes…” que o vai evitar no imediato.

Tenho hoje para mim que a génese do 25 de Abril terá começado aí. Por dois motivos:

  • A estrutura militar terá concluído que se a guerra não tinha sido possível vencer enquadrada por profissionais, muito menos o seria quando entregue a imberbes provetas (e era este o conceito dos militares para estes novos capitães) incapazes de ombrear com o conhecimento e natural mestria dos oficiais do Q.P.
  • Por outro lado não se vislumbrou melhor forma de dar tempo à preparação do 25 de Abril, se não manter a guerra por qualquer meio que permitisse a organização do golpe militar.

Estou em crer que a previsão de tempo para o desencadear do golpe militar que haveria de derrubar a ditadura era muito mais curta que Abril de 74. Quatro anos era quase uma eternidade.

Mas ocorreu o inesperado.

Carlos Fabião enganou-se redonda e rotundamente na dimensão do “instinto de sobrevivência” daquele “…grupo de rapazes que apareceu…”.

Nunca lhe terá passado pela cabeça que aquela rapaziada imberbe e mal formada, no sentido militar, haveria de ser capaz de suportar a guerra por mais três anos, não tendo sido possível perceber que toque de Midas sofreram para levarem por diante uma tal empresa, à partida inexequível, mesmo quando se aventuraram a colocar um jovem com 23 anos de idade e sem qualquer preparação militar no comando de uma companhia operacional em teatro de guerra.

A título de curiosidade dizer que todos os meus 5 alferes (4 operacionais e um médico) eram mais velhos que o capitão. Um civil mais novo a comandar 5 civis mais velhos, onde o único instrumento que os distinguia eram os galões que a instituição lhes havia colocado nos ombros, bem como a responsabilidade instituída. Creio que se tratará de uma circunstância inédita em qualquer história militar.

Importará aqui recordar dois pontos:

  • A partir de determinada altura de 72, praticamente todos os capitães no terreno eram milicianos. E a guerra manteve o seu rumo e o equilíbrio que trazia.
  • Como sabemos, em determinada altura a Guiné encontrou-se à beira de um colapso. Mas nem aí algum capitão miliciano foi responsabilizado por tal realidade. A iminência da derrocada da Guiné foi o toque de clarim que apressou o 25 de Abril de 74. O resto da história já todos a sabemos.

Capitães do Fim… do quarto império.

Não perseguimos a pretensão de nos arvorarmos nos heróis da Guerra Colonial. Mas muito menos aceitamos que subjaza um qualquer estigma que nos ligue à necessidade de deposição das armas pela via política, um caminho tardio que demorou demasiado tempo a ser trilhado.

Não sei se nos tocou alguma audácia da infantaria de Aljubarrota quando partimos daquele salão Nuno Álvares na Escola Prática de Infantaria em Mafra.

Não sei se transportamos ainda algum resquício do ADN da marinhagem que se atreveu pelos mares tenebrosos do desconhecido de 1500, sempre no perpétuo temor de mergulhar no abismo que se antevia no fim do mar definido pelo horizonte longínquo.

Mas sei que não fomos nós, os Capitães do Fim, que dobrámos o Bojador na torna e última viagem de regresso às praias do Restelo onde já não se sentavam os velhos de maus prenúncios, vencidos e quase tão pobres quanto o éramos à partida, trazendo por companhia os cerca de 500.000 compatriotas com o que restava das suas vidas, encaixotados numa duvidosa esperança de futuro.

Pela minha parte não cumpri nenhum desígnio da Pátria e duvido que ela me tenha contemplado em algum dos meus 1400 dias de serviço militar.

O meu propósito, avivado em cada dia que me levantava, era o de trazer vivos e inteiros todos os 150 militares que me entregaram no cais de Alcântara.

Falhou-me este propósito por duas vezes, qual delas a mais estúpida, porque nenhuma delas no campo de batalha.

A História se encarregará de encontrar culpados onde expiar as culpas se as houver.

O trabalho do Inácio Nogueira, e nele vou englobar os dois livros, trata-se de um marco importante de raiz literária relativo à problemática da Guerra Colonial.

Aborda um plano sensível para todos nós, os capitães milicianos, que participámos na sua última fase. Uma abordagem e análise profunda e minuciosa do processo que ficou perdido no esquecimento por via do atropelo perpetrado pelo autêntico cilindro em que se constituiu o processo revolucionário do 25 de Abril.

Quase tudo se esqueceu da Guerra Colonial. Ninguém gosta de revisitar um desaire. Comemoram-se apenas as vitórias e os êxitos.

Só um historiador arguto e obstinado seria capaz de desenterrar todas as peças deste processo e torná-lo claro e inequívoco para todos, mas essencialmente para a História da Guerra Colonial.

Trata-se de um trabalho exaustivo de investigação, recolha e tratamento de dados que dobra a orla da opinião, deixando clara uma realidade há mais de 40 anos esbatida na penumbra do esquecimento, mas nunca apagada da memória de quantos foram atores desta breve página da nossa História de aquém e além-mar.

O autor ouviu minuciosamente os protagonistas sem o açaimo da conveniência e confrontou depois os subordinados também livres do empecilho da conformidade conveniente.

Sem exuberâncias classistas lavou-nos a cara de algum pó de picada que ainda restasse no esquecimento de uma breve página da História que ainda estava por escrever.

Este teu excelente trabalho, meu caro Inácio Nogueira, não é uma radiografia estatística.

Isto é uma autêntica TAC se não mesmo uma tremenda ressonância magnética que ressoará pelos tempos vindouros, aqueles em que os teus e os meus netos sentirão o orgulho de descender de um Capitão do Fim e dele darão notícia pelo vínculo da conhecida memória futura.

Obrigado por me teres convidado a participar neste evento.

 

Pedro Cabrita

%d bloggers like this: