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A liderança no Partido Socialista

6JUNHO2014

O primado da virtude.

Chamemos as coisas pelos nomes.

Não se conhece político que se tenha dedicado à causa pública com a messiânica missão de bem-fazer aos seus concidadãos apenas pela dor ou constrangimento sorvido no sofrimento destes. Isso não existe. Nem aqui nem noutro lugar. A essência do homem é o que é e não aquilo que quase sempre nos quer fazer crer.

Assim sendo, deixemos logo de fora as inusitadas acusações de um dos candidatos quanto às ambições pessoais que terão motivado o seu oponente na decisão de disputar a liderança do partido. Na política “andamos todos ao mesmo”, dispensando-se discursos de altruísmo pacóvio que já não alienam nem iludem o eleitorado de tão cansado que anda e de tanto engano tragado.

O desafio de A. Costa à liderança do partido lançado a A. José Seguro tem apaixonado a opinião pública, dividindo perspetivas e conflituando pontos de vista, deixando a nu a eterna dúvida dos verdadeiros valores a ponderar nas escolhas que devem efetivamente ser feitas.

Mesmo que em simultâneo se debata o conflito do Governo com o Tribunal Constitucional, não há órgão de informação escrito, radiofónico ou televisivo que não traga ao debate público de hora a hora o momento atual da disputa de liderança no PS. “Salvam-se” as televisões generalistas que já têm o seu espaço devidamente devassado por uma espécie de genérico cultural de deglutição fácil a que chamam novelas.

As opiniões que se vão confrontando são tão diversas que se afigura complexo arrumá-las em menos de meia dúzia de patamares.

Conhecidos que são os dois planos em confronto – A. Costa a disputar a liderança e A. J. Seguro a defendê-la – os registos são interessantes.

Críticas a A. Costa:

– O momento não é o ideal; devia tê-lo feito antes;

– É um oportunismo político e pessoal;

– Ambição de poder;

– Traição; apoiou e agora quer destronar;

– Deixou que o outro fizesse a travessia do deserto e agora quer colher os frutos, etc, etc…

Apoiantes de A. Costa:

Um único argumento: o líder que está não serve, não chega:

– Não convence o eleitorado;

– Não intimida os adversários políticos;

– Sem passado político de vulto, não revela possuir estatura política nem governativa e muito menos experiência;

– Não tem discurso a não ser a verborreia política mais que enquistada;

-Em suma, nada faz prever que, na posse duma previsível vitória eleitoral (?), dê um mínimo de garantias de êxito ou substância governativa ao partido, às pessoas e ao país.

E aqui parece estar o cerne da questão.

O debate deixa a nu a tradicional tendência de discutir o redundante e as franjas – onde se inclui a cor dos olhos – em detrimento do essencial; ou seja, uma eventual melhoria e melhor bem-estar duma sociedade que clama por melhor país e melhores políticas.

A perspetiva de poder ter um líder com discurso, credibilidade consubstanciada numa indiscutível maioria absoluta obtida na cidade de Lisboa, farta experiência governativa e os famigerados, e nunca despicientes, cabelos brancos proclamados por tantos, pouco importará. Preponderante será a insídia, a calúnia, o supérfluo, o pormenor. É assim que sempre fomos; é assim que somos.

António Costa tinha um projeto político que era de transcendente importância para o partido; ganhar a Câmara de Lisboa, se possível de forma retumbante. Obteve-o sozinho, sem margem para dúvidas. Melhor dizendo, sem um único estalar de dedos de Seguro.

Esse, em meu entender, o principal motivo pelo qual não avançou para as eleições no partido. Contudo, fez questão de deixar um aviso ao candidato vencedor de que a oposição ao Governo deveria ter substância suficiente que conduzisse o partido a um retorno ao poder. É a natural ambição de qualquer partido. Seguro não pode apregoar ter sido surpreendido.

Parece por demais evidente que essa substância está bem longe de ter ocorrido, tornando-se desnecessária mais uma escalpelização dos recentes resultados eleitorais, com números que não oferecem dúvidas quanto à debilidade da liderança do Partido Socialista, enquanto partido com aspirações governativas.

A traição e ambição de A. Costa.

Propôs-se ganhar a Câmara de Lisboa, onde se senta sem sobressaltos da oposição. Propõe-se agora abandonar essa vitória retumbante e sossego político, nas suas palavras, por imperativos de consciência. Parece óbvio que o objetivo era, em primeira análise, servir o partido. Se assim não fosse deixar-se-ia ficar no remanso duma vitória folgada, quase sem oposição digna desse nome.

Mas resultaria mais; podia perpetuar-se na Câmara por mais dez anos e, à semelhança de outros, provavelmente com menos pujança até, apresentar-se a eleições para a presidência da República e vencê-las sem grande dificuldade. Prescinde aparentemente desse desiderato ainda, mas também, por imperativos de consciência. Afigura-se-me por demais esclarecida a traição e a ambição do candidato.

António Costa terá defeitos. Também virtudes.

Recordo um episódio ocorrido há muito. Era então ministro da Administração Interna e vivia-se mais um verão quente de incêndios com fogos semeados pelo país. No terreno, em mangas de camisa e assoberbado, foi abordado por uma jornalista ávida de apertar o político:

“Senhor ministro. O que nos tem a dizer sobre esta onda terrível de incêndios?”

A resposta, inusitada e lacónica: “Olhe! A única coisa que lhe posso dizer é que o País está a arder…!É tão simples quanto isso…!”. Tão lacónica e inusitada que a jornalista, esperando uma qualquer desculpa ou dourar de pílula,  embatucou e não teve outra questão mais a colocar.

Os discursos.

A principal e proclamada arma de A. J. Seguro para se alcandorar ao lugar de 1º Ministro é a “… garantia de que baixará os impostos, reporá as perdas dos pensionistas e reformados e nele encontraremos uma espécie de Super-homem que enfrentará tudo e todos, incluindo o que restar da Troika, no sentido de reestruturar a dívida e assim resolver todos os nossos problemas.” Falta apenas saber como o fará e o que acontecerá se os troikanos disserem apenas… “Não!!”, circunstância colocada de forma quase verrinosa pela jornalista Ana Lourenço em entrevista na SIC Notícias, quando lhe perguntou: “Mas vai negociar com quem…?”

Garante ainda que, mesmo ganhando com maioria absoluta, fará acordos com todos; direita, esquerda e o que mais houver. Tudo em nome do consenso.

Fica-me uma leve e estranha sensação de já ter escutado este discurso e receita de intenções por mais de uma vez nos últimos 30 anos. Aparentemente A. J. Seguro não aprendeu nada com o passado e mantém a linha do que foi apreendido nas carteiras da “J”.

António Costa, que ainda não apresentou o seu programa, afirmou apenas dois aspetos básicos:

– “É importante trazer à governação (sem que isso implique ao governo) partidos de esquerda com uma fatia importante no eleitorado que representam pessoas que votaram nesses partidos. Há que respeitar esse eleitorado. Algo que nunca foi feito, enquanto a direita não encontra quaisquer impedimentos para o fazer sempre que necessário para governar.”

– “O projeto a apresentar ao povo português será sempre um projeto a 10 anos e nunca um projeto para ganhar eleições na legislatura seguinte.”

Esta uma ideia que muito deambula no discurso político, mas sempre na boca de quem está por fora da governação e não faz intenções de por lá passar no seu horizonte mais próximo, de que é exemplar eloquente a figura expressiva dos conhecidos bonecos dos “Marretas”, o nosso inefável Dr. Medina Carreira.

Circunstâncias e apoios.

É curioso observar dois pormenores neste plano.

Apoios claros e significativos a A. J. Seguro:

Simpatizantes do Governo atual – que, ao mesmo tempo, não deixam de enaltecer e empurrar A. Costa para as presidenciais (vá lá saber-se porquê) – e os membros da estrutura partidária que elegeram Seguro e naturalmente ambicionam a partilha do poder na perspetiva duma vitória eleitoral em 2015.

Apoiam significativamente Costa a parte sobrante, com especial relevo para os mais antigos e experientes, sendo de elementar justiça que também aqui se encontrem candidatos com apetências governativas, sendo essa a essência do homem; governar e desfrutar do poder.

Resta enquadrar a marcação de primárias, por ordem e desejo do líder atual, para as calendas gregas, ou mesmo para lá do Oriente. Mesmo que se trate duma experiência inusitada no nosso quadro eleitoral e o país viva numa incandescência política de repercussões imprevisíveis.

Seguro quer ganhar tempo a qualquer preço. O verão será escaldante em caminhadas por todas as concelhias do partido onde as promessas de um deslumbrante Jardim do Éden florirão com um único Adão em campo e uma Eva amordaçada, não vá atrapalhar este veemente e intrépido desejo de A. J. Seguro de algum dia vir a tornar-se 1º Ministro de Portugal.

Confronto-me com a terrível realidade que nos vem martirizando há décadas e décadas a fio: receio bem que o genuíno mas ingénuo desejo de Seguro de chegar à governação do país se venha a conformar com a máxima lusitana de que vamos sempre tendo aquilo que merecemos…

P. C.

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