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– Abstenho-me…!!

Eleições de 5 de Junho de 2011

Declaração de voto

– Abstenho-me…!

Abstenho-me com a consciência tranquila de nunca ter faltado a uma eleição, cumprindo assim todos os meus deveres de cidadão e crédito no regime.

Abstenho-me no exercício pleno da minha cidadania, desafiando todos os políticos, presentes e passados, do meu país, a demonstrarem-me que procederam com idêntica devoção e empenhamento, no que concerne aos meus direitos a usufruir de um país onde a justiça é justa e eficaz para todos, a pobreza é uma má memória do fascismo e o bem-estar social e económico uma vitória da democracia e liberdade.

Abstenho-me porque me reservo o direito de exigir que os que governam não permitam que uma boa dúzia se governe despudoradamente à sombra do estado, varrendo para debaixo do tapete da ignomínia a dor e o sofrimento dos que esgaravatam a fome de todos os dias.

Abstenho-me porque a liberdade tornou livre, deu voz e direitos à oposição; mas a “oposição” tomou à letra o estatuto e opõe-se muito poucas vezes por convicções ou idealismos, mas quase sempre por pura insídia política.

Abstenho-me porque nunca entendi a guerra dos PEC’s. O PEC1 foi cauteloso no sofrimento das pessoas, na esperança de que fosse suficiente e menos penoso, mas tenazmente criticado pelas oposições por ser penalizador; porque o PEC2 foi de novo comedido no mesmo sentido, mas mais uma vez combatido pelos protectores oficiais dos mais desfavorecidos, que entenderam as medidas como um crime de lesa pobreza e disso voltaram a fazer uma bandeira de agitação política; o PEC3 seguiu pelo mesmo caminho, sempre com os mesmos arautos doridos e sofredores com as dores dos mais desprotegidos; chegado o PEC4 tornou-se insustentável o sofrimento de mais de metade da população, entendendo esta pressurosa “oposição” que era hora de mudar de governo, tendo em conta os sucessivos PEC’s e a penalização sucessiva dos mais desprotegidos (uma dor e preocupação que não pode negar-se a ninguém), mas, sem rebuço algum, abraçaram, piedosamente, a alternativa ao PEC4 – traduzida na intervenção da chamada troika, que acrescenta maior penalização e sofrimento para todos do que o contida no PEC4 (já acordado e sustentado pela U.E. e pelo B.C.E.) -esquecendo por completo o que foram as críticas doridamente pungentes por parte dos mais amigos-do-povo a todos os PEC’s anteriores. A isto se chama puro oportunismo político, insensatez e total ausência de sentido de estado e das dificuldades de um país eternamente adiado de que nenhum político – ninguém – se pode eximir da sua quota-parte de responsabilidade.

Abstenho-me, pois, pela desconcertante incoerência dos políticos do meu país, que se desfazem em preocupações e dores lancinantes pelo sofrimento dos mais desprotegidos, para, na pior das oportunidades, afundarem mais ainda essa qualidade de vida, colocando o país, e as próximas governações, na conjuntura humilhante de ter que aceitar a imposição de regras vindas do exterior como condição para um empréstimo solvente da soberania do meu país.

Abstenho-me pela incomensurável desfaçatez da representação política da auto propalada casa da democracia, que repudiou uma a uma todas as medidas penalizantes para as pessoas, em cada vez que eram tomadas – uma dor quase lacrimejante vertida noites a fio nas TV’s, bem à boa maneira das novelas mexicanas –  para ao fim, no PEC4, despudoradamente, afirmarem que as medidas tomadas anteriormente não foram suficientes e que deveriam ter sido mais pesadas e consistentes para que não se chegasse a este ponto. Um euromilhões à segunda ou quarta-feira – uma especialidade nossa, com especial relevo para os analistas políticos (politólogos- uma profissão altamente produtiva…) que jamais terão que provar aquilo que, com prosápia, nos vendem a pataco – de que o ridículo da política que temos nem se dá conta de tanta cegueira, desonestidade intelectual e incompetência.

Abstenho-me porque me sinto consecutivamente enganado pela qualidade da democracia e liberdade que me prometeram na revolução empreendida pelos militares. Porque me tiraram a mordaça que me trazia agrilhoado de pensamento, mas agora é a pobreza que grita em sufoco, ou esconde a magreza macerada dos ossos, e ninguém nos ouve, ou sequer se digna olhar o chão que pisa e esmaga a míngua e a dignidade dos que sofrem.

Abstenho-me pelo indecoro dos salários dos gestores públicos. Uma nova fidalguia aboletada à mesa do rei cravando os dentes no naco saboroso da carne, escorrendo gordura pelos cantos da boca, deitando para debaixo da mesa – num gesto solidário de misericórdia – os ossos que os cães hão-de roer.

Abstenho-me porque tenho medo de precisar da justiça. Porque já nem me sinto seguro em casa. Porque os filmes de violência e assaltos à mão armada já não passam no cinema ou na TV, mas correm agora na rua e são gratuitos.

Abstenho-me porque me cansei de esperar e acreditar. Abstenho-me porque não me cansei do país, mas estou farto dos políticos e da sua circunstância mesquinha da política.

Abstenho-me porque não desisto. Sim, porque não desisto do meu país.

Abstenho-me porque não tenho escolha. Porque não quero mais disto. Porque o meu voto não é apenas um dever; é uma arma soberana de escolha, uma exigência e uma opção consciente de mudança e alternativa.

Abstenho-me, por fim, numa abstenção construtiva de esperança; de confiança em gente de valor que o meu país já mostrou possuir; gente que por dignidade e elevação não se imiscuiu na política e estará disponível para se sacrificar por esta Lusitânia eternamente sofrida. Mas certamente que o farão apenas se se mantiverem à distância os politiqueiros que nos trouxeram até aqui.

Abstenho-me também porque, no pântano há muito anunciado, não consigo distinguir um único não-culpado, nem mesmo aqueles que nunca governaram por não terem sequer merecido a confiança do povo, mas que nos momentos difíceis se demitem da responsabilidade social e política de contribuírem para as soluções e reconstrução do país, parecendo mais rejubilar com o caos criado e uma necessidade imperiosa e única de renegar tudo em nome de nada, ou de uma razão vazia, porque inerte e sem rumo.

Está nas mãos do Presidente da República a determinação de um governo de sua iniciativa, que inclua gente competente descomprometida com interesses partidários e se determine exclusivamente nos interesses do país.

O arco partidário que temos precisa de uma reforma na forma e conteúdo das suas linhas programáticas e postura, bem como um refundir profundo da forma de fazer política num país pós-ditadura, onde ainda gatinhamos a liberdade e a democracia.

A vigência de um governo supra partidário proporcionará aos partidos o tempo suficiente para uma depuração e um assoreamento de crédito suficientes que nos faça voltar a acreditar nos partidos e políticos que temos. Não se trata de parar a democracia por uns tempos. Trata-se de parar esta onda de incúria para salvar o país e refundir o pensamento e a acção política.

Abstenho-me de continuar a alimentar e a contribuir para aquilo que tenho vindo a ajudar a criar.

Obviamente, abstenho-me…!

PC

3 comments on “– Abstenho-me…!!

  1. Caro Cabrita

    Já somos dois!
    Abraço
    Gabriel

  2. Não ir votar é o mesmo que votar no partido vencedor.

    Abraço

  3. Esse, meu Caro, é um problema demasiado pequenino, tendo em conta a a grandeza de um país que falta construir.
    Não terá entendido que o que está em causa não é quem ganha, mas quem perde…
    … todos nós…!!

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