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A Greve. Outros caminhos…

Ontem encontrei o meu amigo Manel.

O Manel é funcionário público na província vai para mais de vinte anos. Pelo ar que trazia apercebi-me de imediato que vinha enredado numa enorme conflito consigo próprio, assim como quem faz contas de cabeça na ausência da calculadora, um instrumento que nos veio retirar a oportunidade de algum exercício mental trivial noutros tempos.

Acontecera o seguinte: o Manel tinha feito dois dias de greve com um pequeno intervalo entre si. Tinha por lá aparecido o homem do sindicato com um discurso que o tinha convencido quanto à necessidade de demonstrar aos governantes que aquilo que queriam oferecer de aumentos salariais, tendo em conta os números da inflação, não convinha aos trabalhadores. Era andar p’ra trás quando toda a gente dizia que isto agora vai é p’rá frente.Segundo o representante sindical, a greve era a única arma à disposição dos funcionários já que esperar por um rebate de consciência dos governantes quanto aos míseros tostões que se dispunham conceder de aumento, era assim como que esperar um milagre.

Só que o Manel, homem de contas, achou bom o discurso mas só se deitou a ver dos ganhos e perdas quando lhe vieram os descontos dos dias de greve.

E o que concluiu o meu amigo Manel?

Segundo ele, mesmo que o governo se dispusesse a conceder alguma coisita que se visse, os ganhos já não cobriam os prejuízos ou mesmo que os cobrissem andava ela por ela.Então afinal para que é que servia a greve? Para que servia o sacrifício? Lutar só por lutar?

“… ainda se fosse p’ra andar à porrada… A gente sempre fazia o gosto ao dedo e ficávamos mais aliviados…”

O Manel torcia o nariz e concluía mais o seguinte: ao estado incomodava muito pouco a greve. Ou melhor: pensando bem, ao estado até era capaz de interessar a greve.

O vencimento desse dia, o estado metia-o ao bolso por inteiro, com subsídio de refeição e tudo; o trabalho que não era realizado no dia da greve, no dia seguinte lá estava certinho e por inteiro na secretária do Manel. Se alguém se tinha tramado naquele dia tinha sido o Manel e uma dúzia de compatriotas que não tinham conseguido tratar dos seus assuntos fiscais e outros.

Em tempos idos, aos governantes, soava sempre mal a greve. Dava a impressão que a maioria das pessoas estava do contra, que não havia apoio popular, que o governo podia cair. E, cair, ninguém queria…

Agora já não. As coisas agora são diferentes. Agora o sindicato diz que a adesão à greve foi de 80% e o ministro diz que não passou de 15%.

Diz-me o Manel que já nem suspeita que aqui alguém mente. Chegou mesmo à conclusão que mentem ambos: o governo e o sindicato.

“ Não é uma vergonha…?”, dizia.

E lamentava-se mais:“ Ainda se a gente parando de trabalhar deixasse de produzir, como acontecia nos princípios da greve nas fábricas, onde não havendo trabalho, não havia produção, vá que não vá. Mas assim?”

O professor faz greve, tramam-se os alunos que não têm aulas e o estado arrecada os vencimentos do dia mais o subsídio de alimentação.

Param os maquinistas e os condutores dos outros transportes públicos, tramam-se os próprios e as pessoas que ficam sem transporte (depois de já terem pago o passe no princípio do mês) e as empresas que nada têm a ver com a greve, porque ficam sem os trabalhadores que não chegam ao trabalho e o estado arrecada os vencimentos do dia, mais os combustíveis e a energia eléctrica que não consome.

Qualquer outro sector da função pública que faça greve acontece geralmente o mesmo, com o estado a tirar só benefícios da greve, já que o único hipotético prejuízo, o político, deixou de ser problema com o tal malabarismo despudorado dos números da adesão.

O Manel não pára de cogitar em voz alta. As coisas saem-lhe umas atrás das outras, enquanto lhe cresce a agitação.

Por fim, o Manel fica pensativo.De seguida olha-me de esguelha com um olho fechado e o outro aberto enquanto uma mão se enterra nas traseiras das calças e a outra me aponta o dedo indicador pronto a disparar uma chispa de um fogo vivo, que se lhe sente crescer, e remata:

“… Mé amigue! Ou o sindicato arranja p’raí uma outra forma de chatear o patrão a sério, ou eu muito me engano ou o governo não quer outra coisa senão greves… !”

Pedro Cabrita

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