Deixe um comentário

O Meco a nu

O Meco a nu

– Pescador…?
– Sim.
– Há quantos anos?
– Acho que nasci dentro de água… Tenho agora 71.
– E o que me diz desta estória dos jovens que morreram ali na praia do Meco?
– Uma mentira maior que a onda que os levou.
– Como assim?
– Tanto quanto fui sabendo, o sobrevivente contou que estavam todos sentados na areia e que veio uma onde gigante que os levou.
– Sim; foi o que contou.
– Mas isso só acontece nos filmes, ou nos bonecos animados…
– Mas o mar estava muito agitado; havia ondas grandes.
– Sim, o mar estava grande mas as ondas na praia não é assim que funcionam. O senhor certamente já foi à praia no Verão. E se calhar já lhe aconteceu estar sentado na areia seca em dia de mar agitado e marés vivas. Às tantas lá vem uma onda maior no fim da maré, que se estende pela praia afora e molha toda a gente que estava na areia seca julgando-se em segurança, levando as toalhas, os chanatos e as quinquilharias dos garotos, não é assim…?
– Já me aconteceu…
– Então e já viu alguém ser levado assim por uma onda dessas?
– Mas dizem que as ondas eram muito grandes.
– Eram; eu bem as vi. Mas por maior que uma onda seja quando rebenta e corre pela praia acima nunca tem nem água nem força suficiente para ir buscar quem esteja na praia na areia seca, ou num sítio onde nenhuma das ondas anteriores chegou. Nunca. Isso só nos filmes, como lhe disse. Uma onda dessas pode surpreender as pessoas que estão na areia seca e vão levar uma grande banhada; mas na volta a água não é suficiente para trazer uma pessoa enrolada, quanto mais seis.
– Então o que acha que aconteceu? Os seis foram numa onda. Disso não há muitas dúvidas.
– Que foram é o que temos por certo. Também deverá ser certo que a onda que os levou foi uma grande onda. Mas eles não estavam onde o sobrevivente diz que es-tavam; sentados na areia, descansados do mar em amena conversa entre eles.
– Então…?
– Já ouvi muita coisa dumas praxes, dumas organizações secretas e muita outra coisa. Disso não sei. Mas não devo andar muito longe da verdade quanto ao que penso que aconteceu. O mar estava realmente muito agitado e a ondulação era forte. Os seis foram andando em direção ao mar e começaram a levar com a água que corria pela praia acima, depois da rebentação de cada onda. E foram-se aguentando enquanto a água era rasteira depois de espraiada da onda. Tanto quanto fui ouvindo por aí nas notícias, andavam por ali a prestar umas provas de resistência ou coisa parecida. A ver quem se aguentava melhor. E foram avançando. Mesmo com temporal as ondas não são todas do mesmo tamanho e era de noite. Há períodos de alguma acalmia. Passaram por um desses períodos, foram ganhando coragem e avançaram mais um pouco. Ninguém queria desistir, depois de molhados e sem aparente ameaça que os pusesse em perigo de vida. A água já lhes devia andar muito perto da cintura quando veio a tal onda “gigante”, que a gente aqui do mar costuma chamar da 7ª, e os derrubou e arrastou na ressaca. Para irem os seis de uma só vez, só pode ter sido assim. Uma pessoa com água em corrente forte até aos joelhos ainda se pode aguentar. Pela cintura perde facilmente o apoio e o equilíbrio e aí sim, pode ser arrastada no retorno da água pró mar. Estando vestidos como parece que estavam as coisas complicam-se e o mar normalmente ganha. Esta é a minha ideia. A estória do sobrevivente não faz sentido. É impossível. Só pra quem não conhece o mar.
– Então até um dia!
– Que seja…!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: