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– Falar Algarvio – Poemas

Mágoas da Bia Rosa

          (poema)

– Bia Rosa, o qu’é que tens,

Com essa cara tã fêa?

P’ronde vás e donde vens?

Qu’é nã te vi na Aldêa?

– Dêxa-me cá, qué rebente

Com tamanhe desafore…

É outr’a assim n’aguente

E longe vá o agoire

S’é ainda estou górdada

P’ra pior coisa que esta…!

– Mas que foi? É nã sê de nada…!

E tens um ranhão na testa!

Parece que vens da guerra…!

– É aquela delambida,

Se nã sair desta terra

Sô é que lhe tire a vida!

– Sossega e conta-me lá,

O qu’é que t’aconteceu.

P’ra vires assim tã má,

Que má cobra te mordeu?

– É hoje abali do monte

Inda a manhã nã rompia.

Fui lavar a roupa à fonte…

– E vens qu’ás ó fim do dia?

Pois atão, o raie da sorte

Quande entra a desandar,

Só acaba quande a morte

Vier cá pra nos levar!

Combini com o mê home

P’ra m’ir buscar ò mê-dia.

Pedia merrer à fome

Qu’ele nã m’aparcia …

Dé o mê-dia… uma hora,

Três horas sem apracer…

P´ra tã grande demora

Qu’avera d’acontecer…?

Teria o mache fugide

Per esses campes a fóra,

Derrubade o mé maride

E causade esta demora?

Teria os cantres partide

Dêtade abáxe as cangalhas …?

Tude me vê ó sentide,

Coisas grandes e megalhas…

Cansada já d’esperar

Decedi pôr-me a caminhe,

Na’sperança d’encontrar

O mé rique maredinho…

Atravessi a Rebêra

E passi às Êras Brancas

Despôs subi a ladêra

Dos quêmades, mas às tantas,

Tinh’ó pête já cansade.

Pus no chão a berrelêra

E senti-me no velade

P’ra me passar a cansêra…

Tive aí um pouquechine,

Despôs torni a andar,

Seguinde p’lo ôtre caminhe

Que passa ali p’lo lagar.

Quande é ia na ladêra

Junte às casas do êrade

Prese a uma farrebêra

Táv’o mé mache parade…!

Um baque no coração

Me dé lógu’assim qu’o vi.

E ia caind’ó chão,

Mas ainda m’aguenti.

Pus no chão a barrelêra

E vou de roda ‘spretar.

Á sombra duma parrêra

Né qu’tavem-se os dôs a bêjar…?

Fiqui pior qu’o demóine

E atiri-me logue à malvada…

Se na fosse o mê Antóine

Dêxava-a esfrangalhada.

Griti por quim acudisse

E vem logue a vezenhança.

Inda hove quim se risse?!

Fica-me iste na limbrança.

Tante trabalhe na vida,

Tanta cansêra e cuidade

P’rá’gora aquela atrevida

Vir pôr tude marafade.

– E o té Toine o qu’é que fez?

– Mal qu’ela se fecha in casa,

Pegou no mache outra vez

E foi pior qu’uma braza…!

– Bia Rosa, o qu’é precise

É que paciênça tenhas …

– É já perdi o juíze

E com essa nã me venhas!

Ó ist’acaba de vez

Ó é nã me chame Maria!

Vá p’rá magana qu’a fez

Sanão, rebento-a um dia!

Bia Rosa, isse não!

Nã estragues a tua sorte

Faz das tripas coração

E mostra ós ôtres qu’és forte!

Barreiro, 14 de Março de 1984

Francisco Rodrigues Neto

VAMES TODES  Ó BALHE!

Olha o marafade do Chique Jenela

Com um crave incarnade da lapela!

… E é cá de menjerique da orelha,

A ver s’alguma neta duma velha

Engraça lá no balhe hoje comigue…

E que tenha farrôba e munte figue,

Qué despôs le darê o pêxe qu’ela quer,

S’ela guestar de mim e for boa melher…!

E tu, Jacinte e esse aí, o Tóine,

Qu’é más malandre ainda qu’o Demóine,

Vames todes à fêra,

Toca o acordião do Zé Ferreira

No Almenzém de Bente!

E as moças más catitas

Daquelas freguesias,

Tã-se a pôr já benitas

Há já uns quantes dias,

Pr’arrejarem namore ó casamente

Com os moces do mar…

É esta noite qu’é vou-me encontrar

Uma moça jêtosa p’ra casar…

Foi lá no balhe do ane passade

Qu’o Manel Sardinha ficou embêçade

Per aquela qu’é hoje a sua melher…

Nã há más que saber:

P’rá arrenjar um casamente,

É ir ao almenzém do Bente

Na noite desta Fêra,

Qu’é a melhor manêra

De nã passar más um inverne só,

A tremer de frie qu’até mete dó!

Mas ó moces! Cuidade c’o ‘stravanca,

Com os montanhêres d’aquelas redondezas,

De fate préte e de camisa branca,

Sã dures de roer e nã sã de molezas,

Têm canelas d’ace e os corpes de ferre

E quande ouvirem algum dar um berre,

Com certa força e munta presunção,

É perque algum dos nosses, já tá co cu do chão!

Per isse, ó malta; segurem-se das canetas

Se nã, quim se vai rir da gente será elas!

É precise que quim caia premêre

Nã seja um da gente, mas um montanhêre!

Vames a mexer bem esses pezinhes

Quande forem a balhar os corridinhes!

E no balhe mandade,

O qu’é precise é ter munte cuidade,

Segurar bem a nossa mão na outra mão,

P’rá moça nã cair com o cu do chão…!

                   Francisco Rodrigues Neto

                     (Pseudónimo – Zé do Mar)

Nota:

O estravanca (Ou baile teso):

– Era uma competição de valentia em que dois homens tentam fazer-se cair um ao outro por intermédio de rasteiras ou varredelas.

(In Dicionário do Falar Algarvio – Eduardo Brazão Gonçalves)

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