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Casamento de professora, no anterior regime…

Casamento professores

 

 

COMO O REGIME CUIDAVA DO INTERESSE DOS NUBENTES,

ESPECIALMENTE SE A NOIVA FOSSE PROFESSORA.

CASO REAL

(Com o meu agradecimento pela disponibilidade da “noiva” em relatar o seu caso)

 

Casar, nem sempre foi tão simples como agora, principalmente se a noiva era professora e o noivo oficial do exército, como acontecia connosco.

Os oficiais do exército só podiam casar com uma rapariga que, tal como a família, tivesse bom comportamento moral e cívico.

E isso provava-se por um atestado, passado pelo padre da terra, que se juntava à documentação para o casamento. Arranjar o tal atestado foi fácil. Bastou subir a rua do Sol, onde brincava em miúda, bater à porta do padre que me conhecia desde que nascera e pedir-lho. Foi pacífico, logicamente.

Pelo menos deste ponto de vista, o casamento estava aprovado.

Mas este era apenas o aspecto do comportamento social da noiva. Havia outra restrição, de carácter prático, a ter em conta.

Poucas mulheres trabalhavam como funcionárias públicas e as professoras eram consideradas um bom partido, porque tinham uma posição socialmente prestigiante. Fizeram-se casamentos em que o marido pouco fazia, vivendo praticamente à custa do ordenado da mulher. Dizia-se, ironicamente, que tinha a profissão de “marido de professora”.

Para evitar esta situação, apesar de apenas ao casal dizer respeito, foi legislado que o noivo de uma professora teria de fazer prova de ganhar tanto ou mais do que ela.

Havia, portanto, que comprovar os rendimentos do noivo.

Parecia fácil. Ele estava na tropa e o vencimento era superior ao meu.

Mas as coisas complicaram-se. Acontece que era oficial miliciano, não fazia parte dos quadros do exército, estava apenas a cumprir o serviço militar obrigatório e sairia logo que completasse o tempo estipulado. Sendo assim, deixaria de ganhar e nada estava assegurado, quanto aos futuros rendimentos.

Tinha de apresentar o comprovativo do ordenado que teria na vida civil. Como poderia fazê-lo, se não tivera emprego antes de ir para a tropa? Fora explicador, ganhara bem, mas não tinha comprovativo e, mesmo que o tivesse, de nada serviria, porque também era eventual, não poderia ser apresentado como garante de provento futuro.

Como resolver tal situação?

Mentindo!

Um compadre dos pais, que tinha uma mercearia, acedeu a declarar que auferia a quantia que tinha de ser declarada como seu empregado de escritório e que para lá voltaria quando saísse da tropa.

Mas não bastava. Para ter credibilidade e ser aceite sem margem para dúvidas, deveria ser acompanhada de uma declaração do sindicato do pessoal de escritório, atestando que lá estava inscrito há, pelo menos, dois anos.

Como ultrapassar mais este problema?

-Mentindo, novamente!

Lá se arranjou alguém, que conhecia alguém, que conhecia o presidente do sindicato.

Foi paga a jóia de inscrição e a quotização de dois anos e, finalmente, obteve-se a confirmação de que trabalhava há dois anos, como escriturário, naquele estabelecimento.

Finalmente, podíamos casar!

Os Ministérios de que dependíamos e para os quais éramos, apenas, um número mecanográfico, não tinham descurado a defesa dos nossos interesses e tinham-nos protegido bem um do outro!

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Estranhando a demora da entrada dos papéis para ao casamento na igreja, o padre resolveu perguntar à minha mamã quando resolvíamos casar, uma vez que lhe tinha ido pedir o atestado com tanta urgência.

– Eles casaram em Lisboa – respondeu a minha mamã, sabendo que vinha aí “borrasca”

– E em que igreja?

– Não casaram pela igreja.

O padre, furioso, no meio de tudo o que disse, saiu-se com esta:

– Se eu soubesse que não casavam pela igreja, não lhe tinha passado o atestado!

– Como assim? – perguntei  irritada, quando a mamã me disse – Não atestava o nosso bom comportamento baseado em quê? Vou perguntar-lhe!

Valeu-me o bom senso da mamã que me impediu de ir tirar satisfações com o padre.

Ela sabia o que eu ainda não aprendera: era um poder que não convinha desafiar…

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E não menciono que andaram dois homens com as características gabardines e óculos escuros a fazer perguntas, às vizinhas, acerca do noivo e respectiva família.

E ainda que tudo isto era a contra-relógio perto da partida para o ultramar, cuja data certa ninguém sabia.

Que o noivo não conseguia os documentos necessários porque, como saltou de quartel em quartel, ninguém os passava.

Imagina o que era andar entre Vendas Novas, Leiria, Figueira da Foz, Beja, de transporte público a tentar resolver isto, mas tampouco lhe davam autorização para se ausentar por um dia que fosse pois já estava em Lx a preparar o pelotão que o ia acompanhar.

 

Enfim… só quem sabe o que era viver no anterior regime imagina tudo isto

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O que transcrevo acima faz parte de um livro com as minhas recordações de vida para filhos e netos ficarem com um testemunho de como se vivia nesse tempo.

 

M.H.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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